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Capítulo XIII - Hebreus 1.14

Author: Érika Gomes
last update publish date: 2021-07-05 10:04:17

— Eu não sei! – Ela gritou pela decima vez desde o momento em que acordou.

Seu quarto estava lotado e Naiara já estava em pé se trocando, sem se preocupar com quem a estava vendo, ela jamais se acostumou com o jeito que todos ali trocavam de roupa, sem precisar tirar as peças, havia muita coisa humana ainda dentro dela. Yekun a ajudava, colocando em suas mãos peças que ela não conseguia encontrar, quando toda a situação acalmasse, ela iria colocar ordem em seu coração, não dava mais como negar a forma que sentia-se em relação a ele, até mesmo a forma como ele a olhava, lhe trazia calma. Sorrio em agradecimento e Yekun retribuiu o sorriso, entendendo mesmo sem nada ser dito o que existia entre eles.

— Temperamental essa sua menina não meu amigo?

— Ainda não viu o pior lado dela meu caro, é para encher qualquer pai de orgulho.

Amarantha olhou feio para Heylel e Azazyel que conversavam como dois velhos amigos e se aproximou da filha a segurando pelos ombros, olhando seriamente em seus olhos.

— Lala me escute. Sei o quanto está angustiada, está reluzindo em vermelho desde o momento que entramos em seu quarto, mas precisa acalmar-se e sentar. – Não teve margem a conversa, Amarantha a empurrou até a cama, sentando Naiara – Agora, sem gritos, conte-me exatamente o que houve.

— Mãe – Ela começou, respirando devagar para se conter – Tomei banho e me deitei, acordei lá onde Agares está sendo mantido contra a sua vontade, andei por umas ruas e cheguei até seu quarto, entrei e ele estava bem, sem marcas, machucados, somente dormindo... – Parou, olhando ao redor, vendo pares de olhos a fitando – Conversamos um pouco e acordei aqui.

Naiara estava vencida, não conseguiu mais formular uma frase coerente, sentia-se quebrada de muitas formas. Élida saltitou até a cama e sentou-se ao lado de Naiara a tomando em um abraço apertado. Para quem visse aquela cena, Naiara que deveria estar acalentando a pequena e não ao contrário, a pequena bruxinha deslizava a mão sobre os longos cabelos de Naiara, enquanto balbuciava palavras em seu ouvido.

— Eu sei menina, sei o quanto sente-se cansada, mas acredite, isso tudo irá passar.

— Mas quando? Quando poderemos ser somente o que fomos criados para sermos e nada mais?

— Breve, muito em breve.

Agora Mohini juntava-se a elas e pela primeira vez, as quatro bruxas mais poderosas já conhecida, estavam unidas por um mesmo proposito. Naiara se ajeitou, colocando a pequena Élida em seu colo e sorrio para a mãe e Mohini, entendendo o elo gerado.

— É meu caro amigo, acredito que teremos problemas em casa.

— Jamais poderemos contrariar essas quatro Azazyel.

— Eu não sei quanto a vocês... – Dizia Yekun se aproximando, parando entre Heylel e Azazyel – Mas jamais vi cores tão brilhantes.

Elas realmente brilhavam, as cores vermelho, verde, azul e rosa, perdiam-se em uma junção, unindo-se nos pontos em que os corpos delas se tocavam, formando novas cores.

— Então, vamos buscar aquele menino.

Mohini disse, olhando diretamente para Naiara.

— Ah que cena linda, o demônio se posicionando para defender um anjo traidor.

— Meu irmão, pense na forma que vem agindo, acredita mesmo que nosso Pai iria aprovar essa sua conduta?

— Nosso Pai está preocupado demais, brincando com sua criação e perdendo o Seu tempo, ajudando aqueles bastardos, não sabe mais o que acontece sob o seu próprio nariz.

— Miguel! – Disse alterando o tom e volume de sua voz, não estava acreditando no que ouvia.

— Ah pare com essa choradeira Diego, só você mesmo que não consegue entender. Prendam os três!

Gritou dando a ordem. Os anjos adentraram o quarto, apressando as passadas, Agares já não tinha mais os olhos azuis brilhantes, mas o preto tomava toda o globo ocular. Gabriela e Diego abriram as asas, deixando assim o espaço ainda menor.

— Irmão, não me obrigue a lutar contra os meus.

— Não há mais espaço para você entre nós Diego. Leve todos.

           — Como? – Nayara perguntou se colando de pé.

— Seremos uma.

Foi com a simplicidade daquela frase que todos se aproximaram, formando um círculo. Seis grandes poderes juntos, buscando salvar um do seus. Mohini começou a proferir palavras ditas em uma língua antiga, sendo seguida por Amarantha e Élida, Naiara sentia o poder das palavras fluindo por seu corpo e sem ao menos se dar conta, sua boca proferia palavras na mesma língua. As cores explodiam delas como se fosse impossível conte-las, iluminavam o quarto e machucavam a vista, uma bolha de cor indefinida, envolveu a todos e em um piscar de olhos, não estavam mais no quarto.

— Mas o que está acontecendo aqui?

Foi o grito histérico de Miguel que rompeu a bolha colorida, Naiara se virou de frente para ele, sabendo que em suas costas estava Agares e mais dois anjos. Um sorriso de escarnio tomou os lábios da menina.

— Somos o resgate.

— Acabem com todos eles!

Como se o grito de Miguel tivesse liberado uma ordem a todos os anjos, o minúsculo cômodo encheu-se de asas e peitos nus, mas foi em vão, pois a bolha de cores confusas, estava novamente em seu lugar, cercando Agares, Gabriela e Diego. Asas se chocavam contra a proteção, como se o mais afiado metal batesse em uma grossa parede de vidro, o barulho era ensurdecedor.

— Bem típico da sua espécie mesmo – Disse Gabriel se aproximando – Não conseguem nem ao menos manter uma luta justa. Bruxas.

— Você quer falar de justiça Gabriel? – Naiara deu um passo à frente ficando próxima demais da bolha que os separavam, automaticamente a mão de Yekun foi ao encontro da mão dela e seus dedos se entrelaçaram, tirando assim todo o ar dos pulmões de Agares – Eu trai, para lhe proteger e você, traiu por que? Será que nossa amizade significava tão pouco assim? Que a trocou somente para poder sentir suas mãos imundas em meu corpo? Você me enoja Gabriel.

— Miguel. – Gritou Heylel – Isso ainda não acabou.

Azazyel piscou para Miguel que estava paralisado, processando a potência de poderes que desaparecia a sua frente.

            — Onde estamos?

Gabriela perguntou olhando ao redor, colocando-se em posição de ataque, suas asas totalmente abertas tomavam grande parte da sala da morada de Heylel.

— Tire essas penas da minha frente, antes que arranque todas e peça para Charlotte fazer uma canja com você.

Naiara passou por ela, batendo nas asas abertas, fazendo Gabriela retrair, fechando-as. Ela foi direto para seu quarto, deixando todos para trás.

— Acalme-se anjo. – Amarantha ecoava suave entre todos – Não precisa temer, estão seguros aqui, ninguém irá machuca-los e são bem vindos.

— Bem vindos? – Quis saber Diego, aproximando-se mais de Gabriela.

— Claro que são bem vindos irmão – Heylel se aproximou – Pedirei que Charlotte cuide das acomodações para vocês e um bom lanche, tivemos uma manhã conturbada e acredito que todos precisamos descansar.

Agares ainda não havia se mexido, estava parado no mesmo lugar, olhando para um corredor vazio, sabendo que ela não iria aparecer, Heylel tocou em seu ombro no exato momento em que Charlotte anunciava que tudo já estava arrumado.

— Todos.

O silêncio dominava o Sheol, não se ouvia um único ruído. Mesmo após o pequeno caos que se formou, quando Diego se recusou a deixar Gabriela em um quarto sozinha, sentindo medo de que tudo não passasse de uma armadilha para machuca-los, as mudanças necessárias para que Agares, Diego e Gabriela, ficassem em quartos lado a lado com portas interligando todos eles. Ainda assim a madrugada estava silenciosa. Como o pressagio de que algo ruim aconteceria.

O telhado ainda era o seu melhor refúgio, ela sabia que poderia ir a qualquer lugar de qualquer mundo, mas estar lá em cima era tranquilizador, lhe trazia calmaria em meio a suas tempestades pessoais. Perdida em pensamentos, lutando contra seus conflitos, ter Agares, Gabriela e Yekun sob o mesmo teto, era demais, entendia quem era e o que todos esperavam da Herdeira, mas quando se deparava com aquela situação, Naiara sentia-se simplesmente uma adolescente de dezoito anos e o pior, com um grande problema amoroso.

— Deveria parar de pensar tanto. – Disse Amarantha em meio ao sorriso.

— Não tem ideia de como seus pensamentos gritam em nossos ouvidos. – A voz melodiosa de Élida soava azeda e contrariada.

— O bom dessa ligação, minha pequena irmã, é que nunca mais estará sozinha. – Mohini dizia enquanto as três se aproximava, sentando-se ao lado de Naiara que as olhava confusa.

Juntas, sentadas lado a lado sobre o telhado da morada de Heylel, as bruxas mais poderosas já conhecidas, conseguiram ver o dia cinzento amanhecer no Sheol.

— Às vezes eu só queria ser normal... – Disse baixo.

— O que é ser normal para você menina? – Quis saber Élida.

— Sei lá Élida, quero me apaixonar por um menino do time de basquete, quero chorar por um amor não correspondido, quero só ter problemas de espinha e tpm.

— Mas acaso aqui não tem tudo isso? – Era vez de Mohini tentar entender.

— Tenho?

— Claro que tem minha filha, está somente confusa com os sentimos que eles despertam em você.

— Sem contar que deve estar morrendo de ciúmes né? – Élida a olhava com um pequeno V na testa – Ela é linda e que inferno, quem precisa ter um corpo daquele?

— Não está ajudando. – Naiara esbravejou.

As quatro acabaram rindo da situação, mas foi Amarantha e toda a sua sabedoria materna que acalmou o coração de Naiara.

— Filha, lembre-se de uma coisa, o amor quando é real, ele aquece, envolve, protege, mas o amor jamais prende, sufoca, domina. – Ela se virou para a filha e com carinho levantou o rosto da menina encontrando o seu olhar – O amor é leve.

Naiara deitou a cabeça no ombro da mãe, elas permaneceram em silencio contemplando o nascer de mais um dia acinzentado. Os pensamentos dela a levou para longe, para os momentos vividos com Agares e a forma que se sentia nos braços dele, a noite na cabana e o quanto sentia-se mulher quando ele lhe tomava os lábios. Estar com Agares era intenso, sentia-se em um caldeirão em ebulição, a forma como ele marcava o território, o modo como deixava claro que eles se pertenciam, mas agora havia Gabriela, de um jeito muito confuso e perturbador, Naiara via como eles se olhavam, como sorriam com facilidade e o pior, como se encaixavam tão bem.

Com Yekun simplesmente era.

Não conseguia encontrar definição ou explicação, quando ele a envolvia tudo ao redor não mais existia, o silencio os dominavam e parecia certo estar ali, era leve. Naiara se sobressaltou, pulando e assustando as outras três bruxas que se colocaram em pé, fazendo explodir um show de cores.

— Acalma-se! – Gritou Naiara – Não é nada, podem por favor parar de brilhar?

Aos poucos as luzes verde, azul e rosa, foram regredindo e elas baixando a guarda.

— Em tempos de guerra, como é que você faz isso menina?

— Desculpa Élida, só acho que encontrei minha resposta. – Ela se virou para a mãe que a olhava confusa – Ele é leve mãe, simplesmente leve.

— Está esperando o que então minha filha? Vá dizer a ele e buscar a sua paz.

Naiara sorrio para a mãe e para os outras duas que havia decidido considerar como tias, jamais chamaria nenhuma delas de irmã, isso já era demais. Estavam prontas para descerem dali quando ouviram um estrondo no portão principal, em meio a uma grande explosão, bestas deformadas atravessavam o grande buraco feito, corriam em direção a entrada da morada.

— Mas o que é isso?

As quatro bruxas surgiram ao lado de todos que já corriam para fora e tudo anunciava uma grande batalha. A linha de frente que saia de dentro da morada, paralisou os invasores que olhavam atordoados a cena, lado a lado, corriam Heylel, Agares, Diego, Gabriela, Yekun e Azazyel, um pouco a frente deles, surgiam as quatro bruxas e suas cores que resplandecia de cada uma delas.

— Ora... Ora... Ora.... Mas que cena comovente. – A voz bestial de Belial ecoou entre os invasores enquanto ele abria caminho e surgia com Samyaza ao seu lado – Mas quem diria, o grande e poderoso caído, brigando lado a lado com os anjos daquele que o expulsou.

— O que quer aqui Belial? – Todos pararam a poucos metros e Heylel se colocou ao lado de Amarantha e a filha.

— É assim que recebe um amigo de longa data Heylel?

— Não reconheço em você nenhum sinal de amizade. O que quer aqui?

— Vim ver com os meus olhos o que os ventos me disseram.

Samyaza riu um pouco mais alto e com uma sensualidade irritante, acenou para Agares que tentava não olhar para o corpo esculpido coberto somente por algumas faixas vermelhas, não deixando muito a imaginação. Um som lembrando um rosnado feroz ecoou e os olhos de todos encontraram Gabriela com as asas abertas e os olhos em fúria focando Samyaza que não se continha em risada.

— E não é que meu demônio delicia andou ciscando no céu, sabia que nem mesmo os anjos iriam resistir a você. Já provou? – Ela perguntou diretamente para Gabriela que ainda a olhava enlouquecida – Ele faz loucuras.

Gabriela saltou sobre todos em direção de Samyaza, mas teve seu ataque interrompido por Naiara. Ela envolveu o anjo em uma bolha vermelha e a trouxe para baixo, deixando-a ao seu lado e a olhava em repreensão.

— Controle seu temperamento Gabriela, guarde suas cenas de ciúmes para quando estiverem dentro do quarto de vocês.

— Não há quarto de vocês Nai, você sabe disso. – Agares tentava se defender, mas sem sucesso.

— Não estou falando com você. – Naiara respondeu rispidamente.

— Veja no que se transformou Heylel, enquanto temos uma guerra anunciada entre os celestes e os nossos, aquela que se intitula Herdeira, tem brigas de ciúmes por causa do namoradinho, como uma adolescente mortal.

— Belial, irei lhe perguntar só mais uma vez. O que faz aqui?

Mas não houve tempo para resposta, a cena de ciúmes escancarada de Gabriela e a provocação de Belial, despertou o pior lado de Naiara, que explodiu em uma lufada de ar vermelha, jogando Samyaza para trás, antes mesmo que conseguisse se levantar do chão, com um mover das mãos Naiara fez o corpo do demônio se levantar no ar e ser arremessado contra os muros que cercavam a morada. Samyaza gritava de ódio e dor a cada nova investida de Naiara, que agora andava em direção ao corpo que ainda se debatia contra a parede.

Amarantha, Mohini e Élida, moviam os seres que atacavam, cores se misturavam e corpos destorcidos voavam uns contra os outros, Agares não se conteve no lugar e correu se misturando aos demônios que lutavam por sua existência, desferindo golpes de espada, cortando-os ao meio. Yekun acompanhava com o olhar cada movimento feito por Naiara, sem se dar conta do que acontecia ao seu redor, toda a sua atenção estava nela. Heylel, Azazyel e Diego, estavam petrificados, com os braços cruzados ao peito, olhando seriamente em direção a Belial, que de uma forma bestial, refletia a posição deles. Gabriela tentou se manter ao lado de Diego, mas foi causa perdida, correu juntando-se a Agares e com as pontas de suas asas que se transformaram no mais fino corte, destroçava os demônios que tentavam se aproximar.

Em meio a gritos que poderiam assombrar os sonhos dos humanos, corpos caindo, se desfazendo, transformando-se em nada, Naiara agachou bem próximo ao corpo de Samyaza caído ao chão.

— Acredito que algumas coisas mudaram desde o nosso último encontro não é mesmo? – Ela sorria com ironia para o demônio caído a sua frente – Não me parece mais assim tão sensual e segura de si Samyaza.

— Vá em frente seu projeto de demônio. – Ela cuspiu nos pés de Naiara e uma grande mancha negra se formou.

— Acha que irei te matar? Acredita mesmo que sujaria minhas mãos com você? – Naiara se abaixou ainda mais e seu rosto ficou a centímetros de sua inimiga, sua voz saiu baixa, como um sussurro reconfortante – Você vivera Samyaza, carregando a certeza do quanto é insignificante e que uma menina de dezoito anos tomou tudo o que era seu.

Ela se levantou, virando-se e afastando-se de Samyaza, sem nem ao menos olhar para trás. Enquanto Naiara caminhava de volta aos seus, escutou um grito tomado de ódio em sua direção, as quatro bruxas estavam conectadas de uma forma que jamais seria possível explicar, pois viraram-se ao mesmo tempo em direções opostas e de uma só vez, todos os inimigos que ali estavam desapareceram deixando somente o cheiro podre no ar. Yekun correu em direção de Naiara que estava caída no chão, ainda com as mãos levantadas, apontadas na direção em que Samyaza a atacara.

— Passou Vida, acabou. – Ele dizia envolvendo ela em seus braços, acariciando seus cabelos, enquanto ela se permitia envolver em seus braços e apoiava a cabeça em seu peito.

— Vida? – Foi a voz inconformada de Agares que quebrou o silencio ao redor. – Que merda é essa Naiara?

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