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Capitulo 5 - O Primeiro Encontro

Autor: Gaby Guedes
last update Fecha de publicación: 2026-09-24 05:07:55

O sinal tocou.

Em poucos segundos, a sala começou a esvaziar. Cadeiras arrastaram-se pelo chão, mochilas foram colocadas às pressas nos ombros e dezenas de vozes preencheram o corredor.

Ele permaneceu alguns instantes organizando os materiais sobre a mesa.

Quando finalmente saiu da sala, caminhou pelo corredor com a mesma expressão concentrada de sempre.

Não demorou para reconhecer uma voz familiar.

— Você ainda tem essa mania de sair da sala como se estivesse fugindo de um incêndio?

Ele virou o rosto.

Renato.

Mais velho que ele e professor de Engenharia Mecânica, Renato havia se mudado de Santa Catarina para São Paulo oito anos antes. Desde então, os dois haviam desenvolvido uma amizade baseada principalmente na convivência acadêmica, nas discussões sobre engenharia e, ocasionalmente, em uma boa dose de provocações.

— E você ainda tem essa mania de chegar atrasado às próprias reuniões — respondeu ele.

Renato soltou uma risada.

— Tecnicamente, eu cheguei no horário.

— Tecnicamente, você chegou dois minutos depois.

— Dois minutos não são atraso.

— Para você, talvez.

Os dois continuaram caminhando pelo corredor.

A conversa rapidamente voltou para assuntos acadêmicos. Discutiam uma mudança na grade curricular, a dificuldade de encontrar bons profissionais para determinadas disciplinas e algumas ideias para projetos interdisciplinares.

Era uma conversa comum.

Até que alguém parou diante deles.

Uma jovem permanecia a poucos passos de distância.

Não interrompeu.

Não chamou Renato imediatamente.

Apenas esperou.

Thomas percebeu primeiro o comportamento. A maneira cuidadosa como ela aguardava uma pausa na conversa, aparentemente preocupada em não interromper os dois professores.

Então olhou para ela.

E, por uma fração de segundo, perdeu o fio do próprio pensamento.

Não foi algo extraordinário. Apenas uma reação involuntária diante de alguém que chamava atenção. Ele já havia sentido aquilo antes. A beleza de uma pessoa podia causar uma impressão imediata, afinal. Não significava nada.

Era apenas uma primeira impressão.

E primeiras impressões passavam.

A jovem tinha cabelos castanho-arruivados e um olhar tão profundo que, por um instante, foi difícil não se perder nele — como se tivesse, por uma fração de segundo, perdido o próprio eixo. Havia algo particularmente sereno em sua postura, embora seus olhos demonstrassem atenção constante ao ambiente ao redor.

Renato finalmente percebeu sua presença.

— Gabriela?

Ela fez um pequeno gesto afirmativo.

— Desculpe interromper vocês.

— Não interrompeu nada — respondeu Renato. — Pode falar.

Gabriela olhou rapidamente para o professor que estava ao lado dele e depois voltou a atenção para Renato.

— Eu só queria deixar um recado.

Ele permaneceu em silêncio.

— Sua esposa pediu que eu analisasse a carteira de investimentos dela.

Renato arqueou as sobrancelhas.

— Já terminou?

— Sim.

A resposta foi simples.

— Analisei os ativos, a distribuição da carteira e alguns dos riscos envolvidos. Encontrei alguns pontos que poderiam ser melhorados.

Renato ficou surpreso.

— Você conseguiu fazer isso quando?

Gabriela deu um pequeno sorriso.

— Ontem à noite.

O professor ao lado permaneceu quieto. Não era comum ouvir uma estudante falar sobre uma carteira de investimentos com aquela naturalidade.

Renato cruzou os braços.

— E o que você descobriu?

— Prefiro explicar diretamente para ela. É mais fácil mostrar os pontos enquanto conversamos.

— Justo.

Gabriela assentiu.

— Então diga a ela que pode me ligar mais tarde. Eu explico tudo com calma.

— Vou avisar.

Ela fez um pequeno gesto com a cabeça.

— Obrigada. E desculpem novamente pela interrupção.

— Não foi problema algum — disse Renato.

Gabriela se afastou pelo corredor.

Ele acompanhou sua saída apenas por alguns segundos antes de voltar a atenção para Renato.

— Sua aluna?

Renato sorriu.

— Sim. Nossa, também está inscrita nas suas aulas de álgebra e geometria analítica — você não notou?

— Engenharia Econômica?

— Exatamente.

Ele franziu discretamente a testa.

— Ela trabalha com investimentos?

— Pelo que sei, sim. É uma das alunas mais inteligentes que já passaram por aqui.

Renato voltou a caminhar e contou, despretensiosamente:

— Chegou há alguns dias, recém-transferida de Santa Catarina. Segundo ano... A mãe dela e minha esposa estudaram juntas contabilidade e se tornaram muito amigas; ela nos pediu para acompanhá-la quando possível.

Ele permaneceu em silêncio.

Santa Catarina.

Segundo ano.

Engenharia Econômica.

As informações ficaram registradas em sua memória quase automaticamente.

Não havia motivo para aquilo.

Ele simplesmente tinha facilidade para guardar informações.

Era uma característica profissional.

Nada além disso.

Continuou andando ao lado de Renato.

— Enfim — disse ele, retomando o assunto anterior —, sobre a grade do próximo semestre...

E a conversa prosseguiu.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se aquele encontro tivesse sido apenas mais um entre tantos em um dia comum.

Ele ainda não sabia que aquele breve momento no corredor seria lembrado muito depois. E, principalmente, ainda não sabia que Gabriela seria uma das poucas pessoas capazes de desafiar sua convicção de que toda situação poderia ser mantida sob controle.

Gabriela desapareceu no fim do corredor.

Por alguns segundos, Renato permaneceu olhando na direção em que ela havia ido.

Então sua expressão mudou.

O sorriso desapareceu.

Ele olhou para os dois lados do corredor, como se quisesse se certificar de que ninguém estava prestando atenção na conversa que pretendia iniciar.

O professor percebeu a mudança imediatamente.

— O que foi?

Renato demorou alguns segundos para responder.

— Se eu te falar uma coisa... — começou, em um tom mais baixo — você promete que não vai ficar com raiva de mim?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Depende da coisa.

— Não. Estou falando sério.

O outro professor suspirou.

— Está bem. Fala.

Renato ainda hesitou.

— Promete que, se não gostar do que eu disser, vai simplesmente fingir que essa conversa nunca aconteceu?

Ele o encarou por alguns instantes.

— Prometo.

Renato respirou fundo.

— É sobre sua vida pessoal.

A expressão dele ficou imediatamente mais fechada.

— Minha vida pessoal?

— Sim.

— Renato...

— Escuta primeiro.

Ele cruzou os braços.

Renato então soltou, de uma vez, aquilo que aparentemente vinha pensando havia algum tempo:

— Eu te conheço há bastante tempo, Thomas. E, sinceramente, ver você sem nenhuma perspectiva de ter um bom relacionamento me deixa triste.

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Então era isso?

— Ainda não terminei.

— Claro que não.

Renato ignorou a ironia.

— Você sabe que eu conheço muita gente. E conheço a família daquela moça.

Thomas imediatamente entendeu de quem ele estava falando.

— Gabriela?

— Exatamente.

Ele balançou a cabeça.

— Não.

— Você nem me deixou terminar.

— Não preciso.

Renato deu uma risada.

— Você continua impossível.

— E você continua se metendo onde não foi chamado.

— Talvez. Mas escuta.

Renato colocou as mãos nos bolsos e assumiu um tom mais ponderado.

— Ela é filha de uma amiga da minha esposa, lá de Santa Catarina. Conheço a família há alguns anos. É uma moça brilhante, educada e muito responsável.

Ele ficou em silêncio.

— E, para ser sincero — continuou Renato —, em outra situação... ou talvez daqui a alguns anos... eu acho que ela poderia ser exatamente o tipo de pessoa que combinaria com você.

O silêncio entre os dois durou alguns segundos.

— Você está falando de uma das minhas alunas.

— Estou falando de uma pessoa que, fora dessa situação, talvez fosse perfeita para você.

— Mas existe essa situação.

Renato assentiu.

— Eu sei.

— Então não existe assunto.

— Talvez.

Ele voltou a caminhar, claramente decidido a encerrar aquela conversa.

— E outra coisa — acrescentou Renato.

Ele parou.

— O quê?

Renato sorriu de lado.

— Só quem sabe.

Ele lançou um olhar desconfiado ao amigo.

— Não comece.

— Eu não comecei nada.

— Você acabou de começar.

Renato riu.

Ele apenas balançou a cabeça e retomou o caminho.

Para ele, aquela conversa deveria terminar ali.

Era simples.

Gabriela era sua aluna. Ele era seu professor. Existia uma linha que não seria ultrapassada.

Havia passado três anos reconstruindo a própria vida justamente para não permitir que outras pessoas decidissem seu futuro. Não deixaria que Renato, sua família ou qualquer outra pessoa interferisse nisso. Muito menos por causa de uma sugestão feita no corredor.

Ele tinha regras, e aquela era a mais importante de todas como professor: nunca se envolver com uma aluna.

O que ele não sabia era que, às vezes, uma regra começa a ser testada muito antes de alguém sequer pensar em quebrá-la.

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