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Capítulo 6 — A Equação

Autor: Gaby Guedes
last update Data de publicação: 2026-09-24 05:09:17

Aquela conversa com Renato deveria ter terminado no instante em que ele a encerrou.

Deveria.

Mas, estranhamente, a maldita conversa resolveu alugar um triplex na minha cabeça.

Gabriela.

O nome surgia de vez em quando, completamente sem autorização.

Durante o almoço.

No caminho para o escritório.

Entre uma reunião e outra.

E, principalmente, nos momentos em que eu estava sozinho.

Sempre que isso acontecia, eu fazia a mesma coisa: cortava o pensamento pela raiz.

Não havia motivo para pensar nela.

Ela era minha aluna.

Fim da questão.

Eu tinha metas. Rotinas. Responsabilidades.

E, acima de tudo, disciplina.

Não havia espaço para distrações.

Enterrei o assunto tão fundo quanto consegui e voltei à minha rotina.

A tarde foi consumida pelo trabalho. Plantas sobre a mesa. Reuniões intermináveis.

Telefonemas.

Relatórios.

Visitas a canteiros de obras.

Problemas que precisavam ser resolvidos antes que se transformassem em problemas maiores.

Era o tipo de dia que exigia concentração absoluta.

Perfeito.

Quanto mais ocupado eu estivesse, menos espaço sobraria para pensamentos inúteis.

Quando finalmente cheguei em casa, já estava exausto.

E no dia seguinte, às cinco da manhã, o despertador tocou.

Como sempre.

Academia.

Treino.

Banho.

Café.

Às sete e trinta, eu já estava na universidade.

Pontualmente.

Às oito em ponto, entrei na sala.

Os alunos começaram a chegar.

Alguns ainda carregavam aquela expressão de quem tinha acabado de descobrir que acordar cedo era uma péssima ideia.

Pedro entrou pouco depois.

Meu melhor aluno.

E, provavelmente, a criatura mais convencida daquela universidade.

Ele tinha inteligência de sobra e humildade de menos.

Logo atrás dele vieram Angélica e Carol, duas das alunas mais animadas da turma. Tinham o hábito de conversar durante as aulas, trocar comentários e, aparentemente, considerar qualquer atividade acadêmica uma oportunidade para socialização.

Eu já havia aprendido a ignorar.

Até que percebi uma presença diferente.

Uma aluna que eu não conhecia, que eu nem sabia que existia até então.

Ela entrou discretamente.

Não chamou atenção.

Não fez questão de ser percebida.

Apenas acenou brevemente com a cabeça quando encontrou meu olhar e caminhou até a terceira fileira.

Sentou-se ao lado de Angélica e Carol. Meu Deus, as mais "descabeçadinhas" tinham sequestrado ela... não seria uma boa influência pra alguém com um futuro acadêmico promissor.

Gabriela.

Por um instante, minha mente fez exatamente aquilo que eu havia determinado que não faria.

Reconheceu-a.

A lembrança da conversa com Renato voltou.

Eu a descartei imediatamente.

— Bom dia.

A sala respondeu de maneira desorganizada.

— Bom dia, professor.

— Espero que tenham revisado a matéria da última aula.

Alguns rostos demonstraram arrependimento imediato.

Perfeito.

Comecei a aula de Geometria Analítica.

Durante quase uma hora, expliquei conceitos, apresentei exemplos e corrigi alguns erros recorrentes.

Então peguei uma folha e coloquei o exercício no quadro.

— Este problema utiliza exatamente os conceitos que trabalhamos na aula anterior.

Alguns alunos começaram a copiar.

— Vocês terão trinta minutos.

Pedro sorriu.

Eu conhecia aquele sorriso.

Era o sorriso de alguém que já estava se imaginando terminando antes de todo mundo.

— E antes que alguém pergunte — continuei —, sim, vale nota.

O sorriso dele desapareceu.

— Ah, professor... Trinta minutos!

— Mas...

— Vinte e nove agora.

Ele começou a escrever.

A sala mergulhou em silêncio.

Canetas começaram a correr sobre o papel.

Alguns alunos encaravam o exercício como se eu tivesse colocado uma equação escrita em uma língua morta no quadro.

Caminhei entre as carteiras.

Observei alguns cálculos.

Corrigi discretamente a posição de uma folha.

Depois voltei para minha mesa.

Não demorou muito.

— Professor.

Olhei para cima.

Pedro estava de pé.

Com a folha na mão.

— Terminei.

Olhei para o relógio.

Ainda faltavam alguns minutos.

— Tem certeza?

Ele colocou a folha sobre minha mesa com um sorriso satisfeito.

— Absoluta.

Peguei a resolução.

Estava correta.

Claro que estava.

Pedro tinha sido meu melhor aluno desde o início do semestre.

— Parabéns — falei.

Ele abriu um sorriso ainda maior.

— Eu sabia.

— Não exagere.

Ele riu e voltou para o lugar.

Irritante. Mas bom. Muito bom.

Voltei os olhos para a sala.

Foi então que percebi outra pessoa se levantando.

Gabriela.

Ela caminhou até minha mesa segurando a própria folha.

Parou diante de mim.

— Professor.

Estendeu o exercício.

— Terminei.

Olhei para ela.

Depois para a folha.

Depois novamente para ela.

Peguei o papel. Comecei a analisar a resolução.

Não havia erros.

Nem um.

Ela havia encontrado a solução de maneira limpa, organizada e, para minha surpresa, utilizando uma abordagem ligeiramente diferente daquela que eu havia apresentado.

Levantei os olhos.

— Você terminou antes do tempo?

Ela assentiu.

— Sim.

— E revisou?

— Duas vezes.

Aquilo me fez erguer discretamente uma sobrancelha.

— Duas?

— Na verdade, três.

Por algum motivo, quase sorri.

— Muito bem.

Ela apenas assentiu.

Sem comemorar. Sem tentar impressionar. Sem aquele ar de superioridade que Pedro fazia questão de exibir.

Apenas respondeu:

— Obrigada.

E retornou ao seu lugar.

Fiquei observando-a por um segundo a mais do que deveria. Então voltei minha atenção para a turma.

Duas pessoas haviam terminado primeiro.

Pedro e Gabriela.

Pedro, como sempre.

Gabriela...

Gabriela era uma novidade.

E novidades, eu sabia por experiência própria, quase sempre significavam problemas.

Olhei para o relógio. Ainda faltavam vinte minutos para o fim do exercício.

Respirei fundo.

Aquilo era apenas uma aula. Apenas uma aluna nova.

Apenas um exercício de Geometria Analítica.

Nada além disso.

Era o que eu repetia mentalmente.

E, pela primeira vez, comecei a desconfiar que talvez estivesse repetindo aquilo para convencer a mim mesmo.

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