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Capítulo 7— O Livro

Autor: Gaby Guedes
last update Data de publicação: 2026-09-24 05:10:32

No dia seguinte, novamente na minha rotina, tão bem traçada, sem intercorrências e distrações — era disso que eu gostava. Controle. Até me sentir tentado a varrer os olhos pela sala pra achar uma figura que há dias aparecia como um fantasma na minha cabeça, pra assombrar meus pensamentos... e lá estava ela, tão bela e concentrada, fazendo "só Deus sabe o quê" naquele iPad.

Confesso que, às vezes, me irritava por parecer invisível pra ela. Eu era o professor. Quando eu estava em sala de aula, a atenção era pra mim. Saco, por que eu ligo pra isso?

— Hoje a aula é de Álgebra Linear. Estamos há dias transcorrendo sobre o método de eliminação de Gauss; passarei alguns exercícios pra prepará-los para as semanas de provas que se iniciam na próxima semana.

Tensão no ar.

Na lousa, as questões... eram um burburinho de desgosto, que quase me arrependi de ter escolhido essa profissão. Era frustrante dar aulas para alunos tão preguiçosos.

Mas, depois de um bom tempo, pra surpresa de ninguém, Pedro veio cheio de si, com sua arrogância e, com certeza, as questões todas resolvidas perfeitamente. Pra meu gosto pessoal, ele errou duas. Quase salivei veneno de satisfação, mas fingi decepção.

— Meu melhor aluno, que tristeza... errou essa e essa. Vai lá, você consegue fazer melhor, minha reputação de professor depende de você!

Agora, sim, a surpresa veio de fato: "meu fantasma" também surgiu com suas questões resolvidas. Pedro torceu o nariz:

— Pedro, você arrumou uma concorrente, será?

Peguei a folha de Gabriela bruscamente.

Comecei a conferir cada etapa da resolução, procurando algum erro que tivesse passado despercebido.

Nada.

A solução estava correta. Mais do que correta, estava organizada de uma maneira que demonstrava que ela realmente havia entendido o problema.

Foi quando percebi que ela estava olhando para outra coisa.

Sobre minha mesa havia um livro que eu tinha começado a ler naquela semana.

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov.

Um romance complexo, estranho, e definitivamente não era o tipo de livro que eu esperaria encontrar nas mãos de uma estudante daquela idade.

Gabriela continuava olhando para ele. Não para mim.

Para o livro.

— Perdeu alguma coisa na minha mesa?

Minha pergunta saiu com aquele tom cáustico que eu usava quando queria provocar alguém.

Ela simplesmente ignorou.

Nem sequer levantou os olhos.

Aquilo me surpreendeu.

Em vez de responder à provocação, continuou olhando para a capa do livro e perguntou:

— Por que você acha que Margarida escolheu salvar Frieda quando poderia ter pedido a Woland para salvar o Mestre?

Fiquei parado.

Não foi exatamente a pergunta que me surpreendeu. Foi o fato de ela saber do que estava falando.

Olhei para ela.

— Você já leu?

Dessa vez, Gabriela pareceu perceber que estava conversando comigo.

Levantou os olhos.

E sorriu.

Não era um sorriso exagerado. Era quase involuntário, como se a simples possibilidade de falar sobre aquele livro tivesse despertado alguma coisa nela.

— Claro.

Fez uma pequena pausa.

— Mas li em norueguês.

Eu pisquei.

— Norueguês?

— Tenho um exemplar muito antigo em casa. Veio junto das quinquilharias que meus avós trouxeram quando imigraram para o Brasil, na década de setenta.

Aquilo definitivamente não estava entre as coisas que eu esperava ouvir naquela manhã.

— Você fala norueguês?

— Minha família fala, e sim, claro, eu também!

Ela voltou a olhar para o livro.

— E eu tenho esse exemplar, mas é difícil alguém se interessar por esse tipo de literatura. Na minha casa, todos são de exatas e pouco flexíveis a romances literários.

Havia uma tranquilidade desconcertante na maneira como ela dizia aquelas coisas. Como se ler Bulgákov em norueguês fosse uma atividade completamente normal para uma estudante universitária. Eu mesmo ganhei o livro e estava lendo por desencargo de consciência.

— Eu nunca tive ninguém para conversar sobre livros — continuou.

Então finalmente olhou diretamente para mim.

— Já que você está lendo... poderia me dizer qual é a sua interpretação?

Silêncio.

Ótimo.

Eu tinha sido pego.

A verdade era que eu havia ganhado o livro alguns dias antes e mal tinha começado a leitura. Não tinha chegado sequer perto da parte sobre a qual ela estava perguntando.

Mas admitir aquilo naquele momento parecia uma derrota desnecessária.

Então optei pela resposta mais segura.

— Ainda estou lendo.

Ela assentiu.

— Ah.

— Mas vou terminar.

Ela esperou.

— Depois, talvez conversemos sobre isso.

Gabriela sorriu novamente.

— Tudo bem. Promete?

Assenti com a cabeça.

E ela simplesmente foi embora.

Sem prolongar a conversa.

Sem tentar chamar minha atenção.

Sem sequer olhar para trás.

Voltou para o lugar ao lado de Angélica e Carol e retomou a conversa como se nada tivesse acontecido.

Eu fiquei olhando para a folha sobre minha mesa.

Depois para o livro. Depois para ela.

Que garota estranha. Tão jovem e discutindo Bulgákov como se estivéssemos sentados em uma biblioteca há décadas.

Olhei novamente para o livro.

Talvez ela tivesse apenas puxado assunto.

Talvez fosse uma tentativa de aproximação.

Por um instante, a ideia de que aquilo pudesse ter sido uma espécie de flerte passou pela minha cabeça.

Mas descartei quase imediatamente.

Não havia nenhum sinal disso. Ela não tinha tentado prolongar a conversa.

Não havia ficado me olhando.

Não havia procurado uma desculpa para permanecer ali.

Na verdade, depois de fazer a pergunta, simplesmente voltou para o lugar.

Definitivamente não parecia uma abordagem estratégica.

Era outra coisa.

Curiosidade.

Pura e simples.

Uma mente inquieta procurando alguém com quem pudesse compartilhar uma pergunta que provavelmente estava guardada havia muito tempo.

Voltei a olhar para o livro.

Agora havia um problema.

Eu teria que terminar aquela leitura.

Não porque Gabriela havia perguntado.

Claro que não.

Eu simplesmente já pretendia terminar.

Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo enquanto virava a primeira página novamente.

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