تسجيل الدخول— Gabriela, você não pode continuar recusando tudo!
Eu nem precisei levantar os olhos do notebook para saber quem estava falando.
Angélica.
— Festa sexta-feira — completou Carol. — E dessa vez você vai.
Continuei digitando.
— Não vou.
— Você nem perguntou onde é.
— Não preciso.
Angélica se jogou no sofá ao meu lado.
— Shopping amanhã.
— Também não.
— Cinema?
— Não.
— Um café?
Parei de digitar.
— Talvez.
As duas se entreolharam.
— Sabíamos! — Carol comemorou.
— Eu disse talvez.
— Para nós, isso já é praticamente um sim.
Revirei os olhos.
Era impossível não gostar delas.
Angélica e Carol eram exatamente o tipo de pessoa que meu pai provavelmente consideraria uma influência perigosa.
E talvez ele tivesse razão.
As duas eram impulsivas, barulhentas, adoravam festas, compras, novidades e tinham uma habilidade impressionante para transformar uma ida rápida ao shopping em um evento de seis horas.
Eu gostava das maluquices delas.
Só não queria viver daquele jeito.
Eu tinha vindo para São Paulo por um motivo.
Não queria desperdiçar aquela oportunidade.
Muito menos depois de tudo que havia sido necessário para convencer meu pai.
Ele havia aceitado minha mudança, mas não sem deixar suas condições muito claras.
Estudar.
Trabalhar.
Manter minhas responsabilidades.
E, acima de tudo, nada de distrações.
Principalmente namoros.
Aquilo quase me fazia rir.
Não porque eu pretendesse desobedecê-lo.
Mas porque nunca sequer tinha namorado.
Não sabia como funcionava.
Nunca havia tido interesse suficiente para descobrir.
Enquanto algumas amigas da escola colecionavam histórias sobre primeiros encontros, paixões e términos, eu estava ocupada demais com livros, provas, planilhas e problemas que ninguém mais parecia achar interessantes.
Talvez fosse estranho nunca ter namorado. Mas sabia que a razão para tanta resistência a eventos e intimidades era porque tinha recebido o diagnóstico de autismo, nível de suporte 1, quando tinha dezoito anos. Receber toques alheios era algo desconfortável, ainda mais de pessoas desconhecidas.
Mas eu estava confortável assim. Com meu suporte emocional equilibrado dentro do que sabia ser seguro para mim.
Ou pelo menos achava que estava.
Havia também outro motivo para meu pai ser tão protetor.
Um motivo sobre o qual quase nunca falávamos.
Meu irmão.
Meu irmão do meio tinha apenas doze anos quando uma meningite o levou de nós.
Eu ainda conseguia lembrar de pequenas coisas.
O jeito como ele ria.
As brincadeiras.
As coisas que dizia.
E, principalmente, o quanto gostava de cachorros.
Depois dele, alguma coisa mudou dentro da nossa família.
Meu pai, que já era exigente, tornou-se ainda mais protetor.
Minha irmã mais velha, Valéria, e eu passamos a ser tratadas como se o mundo inteiro fosse uma ameaça.
Crescemos nas propriedades da família, em São Joaquim, cercadas pelas montanhas da Serra Gaúcha e por uma educação extremamente rigorosa.
Não nos faltava nada.
Pelo contrário.
Tínhamos acesso aos melhores professores, cursos, idiomas e tudo aquilo que nossos pais consideravam necessário para construir um futuro sólido.
Mas havia uma regra silenciosa: não desperdiçar oportunidades.
Estudo vinha primeiro.
Sempre.
Valéria seguiu esse caminho.
Formou-se em Engenharia Química, como nosso pai, e parecia destinada a continuar a tradição da família. Casou e teve um filho, Mateo.
Até que decidiu fazer exatamente o contrário.
Abandonou a carreira que todos esperavam dela e resolveu se aventurar pela Europa.
Gastronomia.
Chef de alta gastronomia.
Ainda lembro da expressão de nosso pai quando ela contou.
Foi uma mistura de incredulidade, preocupação e, depois de algum tempo, orgulho.
Porque Valéria era realmente boa.
Muito boa.
Agora, porém, todas as expectativas tinham sobrado para mim.
Eu era a filha que permanecera no caminho esperado.
A que deveria concluir a faculdade.
A que deveria construir uma carreira.
A que deveria provar que toda aquela educação, todo aquele investimento e toda aquela proteção haviam valido a pena.
Eu não podia falhar.
Não com eles.
E talvez, principalmente, não comigo mesma.
Por isso São Paulo.
Eu precisava descobrir se conseguia viver sozinha.
Sem meu pai resolvendo tudo.
Sem minha mãe verificando cada detalhe.
Sem alguém perguntando se eu tinha chegado bem a cada meia hora.
Minha casa ficava em um condomínio de padrão confortável, mas propositalmente longe dos lugares mais luxuosos da cidade.
Não era falta de dinheiro.
Era escolha.
Eu sabia quanto custava cada coisa.
Sabia quanto ganhava.
Sabia quanto gastava.
E queria começar a pagar minhas próprias despesas.
Meu pai achava aquilo uma espécie de rebeldia.
Eu chamava de independência.
— Você está pensando de novo — disse Carol.
Voltei à realidade.
— Desculpa.
— Em quê?
— Nada importante.
Ela me observou por alguns segundos, mas não insistiu.
Eu agradeci mentalmente.
Foi quando ouvi um barulho vindo da cozinha.
— Caio!
Meu Golden apareceu imediatamente, atravessando a sala com aquela energia desajeitada que fazia parecer que ele tinha esquecido o próprio tamanho.
— Vem cá, garoto.
Ele colocou as patas sobre minhas pernas.
Sorri.
— Você é muito mais educado que elas.
— Ei! — Angélica protestou.
Ri.
Caio era uma das poucas coisas que eu havia trazido de casa que realmente me fazia sentir acompanhada.
Seu nome não era por acaso.
Era uma homenagem ao meu irmão.
Ele sempre quis ter um Golden Retriever.
Durante anos, meu pai recusou.
Dizia que aquele tipo de cachorro era "bobalhão demais" para viver em uma fazenda.
Depois que meu irmão morreu, alguma coisa mudou.
Meu pai comprou um.
Depois outro.
E outro.
Talvez fosse uma maneira silenciosa de manter alguma coisa dele viva.
Caio acabou vindo comigo para São Paulo.
Agora dormia perto da minha cama, me seguia pela casa e parecia considerar qualquer objeto deixado no chão uma propriedade pessoal.
Passei a mão em sua cabeça.
— Pelo menos você não quer me arrastar para uma festa.
Caio abanou o rabo.
— Viu? Ele concorda comigo — falei.
Carol riu.
— Gabriela, você precisa sair um pouco.
— Eu saio.
— Ir para a universidade não conta.
— Por quê?
— Porque você vai para estudar.
— Exatamente.
As duas riram.
Eu também.
Talvez elas não entendessem.
Talvez nem eu entendesse completamente.
Eu não tinha vindo para São Paulo apenas para concluir Engenharia Econômica.
Tinha vindo para provar que conseguia ser independente.
Queria construir uma vida que fosse minha, desafiar minhas resistências — e estava conseguindo, até aquela altura do campeonato.
Uma vida em que minhas escolhas não fossem determinadas pelo medo dos meus pais.
E, enquanto acariciava Caio, pensei que talvez essa fosse a parte mais difícil de todas: aprender a viver sem transformar cada escolha em uma tentativa de provar alguma coisa para alguém.
Eu ainda não sabia como fazer isso.
Mas tinha tempo.
Ou pelo menos era o que imaginava.
ThomasMeu tio soltou aquele comentário que, em qualquer outra situação, seria perfeitamente inofensivo. Mas não naquele dia. Não naquela mesa.O alvo do meu pai já estava apontado para o meu peito fazia algum tempo; portanto, qualquer movimento meu que saísse um milímetro fora do roteiro habitual virava motivo imediato para suspeitas.— Sim, uma aluna! Qual é o problema? — respondi, mantendo a voz firme e modulada na minha melhor postura de professor. — Devemos pontuar e corrigir quando um estudante está abaixo de suas responsabilidades, mas também é nosso dever motivar quando se trata de alguém de alto padrão precisando de uma orientação pontual.Meu pai inclinou-se ligeiramente para a frente, repousando os antebraços sobre a mesa. Os olhos dele eram dois bisturis frios.— E desde quando você se dispõe pessoalmente a vir até o seu tio interceder por uma “aluna”? Isso é algo que poderia ser resolvido em dois minutos na secretaria da universidade.— Porque foi um caso inusitado — sust
Gabriela Thomas deixou as coisas na bancada e me encarou. A conversa não foi fácil. Cobrei a vigilância dele, o ciúme cego e aquele teatro ridículo com as mulheres no bar. Thomas não se esquivou. Encostou-se na bancada, me olhou nos olhos e admitiu a verdade sem rodeios: ele tinha enlouquecido de ciúmes ao me ver com o Pedro. Ele tinha errados ao tentar bancar o maduro, mas fez o que fez para despistar qualquer suspeita e me proteger.— Você é a única pessoa que conseguiu bagunçar minha vida inteira... e me fazer gostar dessa bagunça — sussurrou ele, segurando meu queixo com firmeza e carinho.A raiva dissolveu-se na intensidade daquele toque. O beijo que se seguiu foi calmo, profundo, repleto de uma saudade que nenhum dos dois conseguia mais esconder. Mas durou pouco.O celular dele acendeu na bancada. PaiO corpo de Thomas enrijeceu no mesmo instante. Ele atendeu, confirmou a presença no almoço de família com poucas palavras e desligou. A paz entre nós tinha durado minutos.— Tenho
GabrielaO som do despertador na manhã de domingo parecia uma punição desnecessária.Eu mal havia dormido. Passei metade da madrugada encarando o teto, repassando os acontecimentos do show como quem tenta encontrar um erro de cálculo em uma equação que recusa o resultado final.A lógica dizia que Thomas tinha usado a presença daquelas mulheres como um escudo. Dizia que ele tinha sido frio com Pedro para não entregar o jogo. Mas o peito... o peito não funciona por algoritmos. A imagem dele sorrindo para aquela mulher enquanto eu estava do outro lado do salão ainda queimava de um jeito bobo, infantil e doloroso.Levantei devagar, ainda de camisola e fui até a cozinha. Caio me seguiu em silêncio, encostando o focinho na minha perna, como se soubesse que a dona não estava nos seus melhores dias.Quando a campainha tocou às nove da manhã, eu não precisei olhar pelo olho mágico.Sabia que era ele.Abri a porta sem pressa, mantendo o braço apoiado no batente.Thomas estava ali. Não usava o t
GabrielaVi o semblante de Pedro escurecer.Foi rápido. O sorriso que ele vinha sustentando a noite inteira desabou, e no lugar ficou algo amargo, que ele nem tentou esconder. Antes que eu pudesse segurá-lo, disparou na direção de Thomas, abrindo caminho entre as pessoas com os ombros.Fui atrás, mas o salão estava cheio, e eu ainda não tinha desistido de ser discreta.Cheguei a tempo de ouvir:— O que você faz aqui? Pelo jeito, está mesmo disposto a não deixar que eu me aproxime dela. Está mais claro do que nunca quais são as suas verdadeiras intenções!Thomas respondeu com uma calma que só quem o conhecia saberia ser esforço.— Pedro, você está bem? Não me diga que só você pode gostar dessa banda. Imagina o que essas outras centenas de pessoas pensariam de você se soubessem disso.Ele fez um gesto discreto para as mulheres ao lado, que ainda esperavam a conversa recomeçar.— Estou aqui com meu amigo e, se não percebeu, estou muito bem acompanhado.Parei de andar.Eu sabia o que era a
Um Convite PerigosoGabrielaNo fim, decidi ir.Eu confiava na minha capacidade de me esquivar das investidas de Pedro e, principalmente, não queria que uma simples recusa servisse como confirmação para as suspeitas que ele já carregava.Se eu tratasse aquilo como apenas um show entre amigos, talvez ele finalmente percebesse que estava enxergando coisas onde não existiam.Pelo menos era o que eu tentava acreditar.No sábado, Pedro apareceu para me buscar.Aquilo me pegou de surpresa.Eu tinha imaginado que nos encontraríamos no local, não que ele apareceria na porta do meu condomínio. Entrei no carro tentando não demonstrar o quanto aquilo me incomodava.Durante o caminho, ele parecia confortável demais. Conversava como se aquela noite tivesse algum significado especial, enquanto eu fazia questão de manter a distância.Quando chegamos ao show, respirei aliviada.O lugar estava cheio, barulhento e iluminado. Era fácil desaparecer no meio da multidão.O problema era que Pedro parecia de
GabrielaO problema de Pedro não era exatamente o convite.Era o motivo pelo qual ele tinha feito o convite.Desde que saí da biblioteca, a frase dele não saía da minha cabeça. Ele não queria simplesmente me levar a um show. Queria descobrir alguma coisa. Testar até onde eu iria para esconder o que existia entre Thomas e mim.E, pela primeira vez, eu começava a entender que talvez ele estivesse mais perto da verdade do que eu gostaria.Passei boa parte da tarde tentando me concentrar no trabalho, mas o celular continuava sobre a mesa, com a mensagem de Pedro esperando uma resposta.Então, sábado?Eu ainda não tinha respondido.Quando Thomas chegou naquela noite, percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.— Aconteceu alguma coisa?Hesitei antes de entregar o celular para ele.Thomas leu a mensagem e ficou alguns segundos em silêncio.Não precisou perguntar quem era.— Pedro de novo!Assenti.Ele devolveu o celular sem dizer nada, mas a mudança em sua expressão foi suficiente







