INICIAR SESIÓNEla estava deitada e aquecida, mas o sono não vinha. Muitas coisas estavam passando como um filme em sua mente.
Ela tinha a resposta para o pedido de Clear e isso era bastante óbvio; no entanto, não é como se fosse a coisa mais simples saber que alguém tão especial estava partindo para outro plano... Ela já conhecia essa estrada, e talvez por saber disso, Clear tenha lhe pedido algo tão profundo. Clear Byron não era apenas sua patroa; era uma amiga e até protetora. Houve um tempo em que Clear foi a única pessoa com quem Hadassa pode contar quando sentia o desespero da saudade por seu pai e irmã apertarem. E se não fosse por ela, com certeza a família Albuquerque não poderia estar reunida novamente, tampouco seu pai poderia ter o tratamento adequado para a idade. Devia muito a patroa e amiga, mas sentia-se incapaz de cumprir com aquele pedido de Clear simplesmente porque não queria que ela morresse. Mas Hadassa sabia que nem tudo poderia ser como o coração deseja. Clear estava no estágio final de um câncer no colo que quase levou a vida do pequeno Oliver, um bebê de três meses a quem Hadassa havia se apegado tanto por ser filho de Clear, bem como Agatha, quanto por cuidar dele desde o nascimento. Não bastasse isso, ainda tinha o fato de Clear ter de lidar com a depressão durante todo o período gestacional. Infelizmente, o capitão Thomas Robinson, seu marido havia falecido em uma missão na Síria, durante um combate e bombardeio. Hadassa não pôde estar presente no velório e nem no sepultamento porque não fazia parte da família e não poderia quebrar o protocolo fúnebre tradicional dos Byron; mas lembra com emoção do quanto os dois se amavam e eram felizes. Clear e Thomas se amavam demais... Não bastasse tamanha dor para Clear, dois meses depois veio a dura descoberta. Tudo parecia ter sido tão rápido e tão cruel. Clear confirmou a gravidez após sete anos desde Agatha, mas não era apenas uma gestação; ela também deparou-se com um tumor que não podia ser removido. Foi complicado, mas com os cuidados e uma boa equipe médica, tudo parecia correr bem. Agatha não falava em outro assunto que não fosse o tão esperado irmãozinho e até o sexto mês, Clear tentou se manter firme pela filha e o bebê a caminho, mas seu corpo começou a sucumbir e muito provavelmente era porque o coração já não suportava mais. Para todos Clear tentava manter um sorriso no mínimo aceitável e honrar a memória de Thomas, mas a verdade era que a depressão estava destruindo-a e o tratamento não avançava. Uma cirurgia poderia pôr em risco a vida do bebê e por isso, Clear teve que se internar em no distrito médico de Harley Street, onde permanece no King Eduard VII’s Hospital desde então. Hadassa ainda não conseguia entender porque uma família tão boa, linda e feliz estava passando por aquele abismo. Seu coração apertava só de pensar em Agatha e Oliver. Haviam tantas camadas de dor sobre aquilo que ela deixou as lágrimas caírem. Camadas profundas que lhe faziam recordar de sua própria mãe, cujo câncer também levou. Ela era um pouco mais velha que Agatha quando sua mãe Helena, morreu, acometida de um tumor maligno na mama. Como professora particular de Agatha, ela estava tentando seu melhor para tornar os dias da gorotinha um pouco mais leves, e mesmo com a presença constante de Victória Byron, avó das crianças e mãe de Clear, Hadassa não se intimidava; todos os dias estava em uma das mansões Byron em Hampstead ao norte de Londres, a qual era destinada a Clear. Vitória não antipatizava ou desgostava de Hadassa, mas não lhe tratava menos e nem mais do que ela era: a professora de português de Agatha, e como tal, não tinha acesso a todos da família. Para Victória, ela não passava de mais um funcionário dos Byron. A brasileira costumava ver algumas coisas nos tabloides ou quando Clear lhe mostrava álbuns antigos, fotografias nas redes sociais, ou até se irritava com alguns repórteres ou paparazzis. No mais, os únicos Byron com quem a brasileira tinha algum contato eram Agatha, Oliver, e mais recentemente Brian Byron. Este último no entanto tinha notado que Hadassa era alguém especial para Clear e para todos os outros funcionários da casa. Brian por sua vez, conheceu a professora em uma visita que ela ousou fazer a sua irmã, visto que ninguém poderia visitar Clear no hospital sem autorização de um outro Byron, então ele conseguiu que a deixassem passar, e notando a beleza da jovem, o laço que ela tinha com Clear e o fato de ela ser tão alheia aos outros Byron deu-lhe uma ideia... E ele estava disposto a usar tal informação para conseguir o que sempre quis, mas para isso teria que convencer Hadassa a participar de um plano que mudaria para sempre a vida da bela, jovem e inocente professora brasileira. ~ Ao amanhecer, a família Albuquerque já estava a todo vapor na mesa do café da manhã. — Paula, não vai se atrasar para a aula, hem. — Hadassa avisou terminando seu café. — Papai, qualquer coisa me liga, tá? — ela passou pelo pai beijando os cabelos grisalhos do senhor Pedro Albuquerque que aos 67 anos era aposentado e sentia um imenso orgulho das filhas; contudo, não queria ser um fardo para ambas. — Sim, sim, meu bem. — ele abençoou as filhas e as viu partir para o dia. Era 07:30 e no ponto de ônibus, Paula pegou a primeira condução rumo ao distrito universitário onde passaria todo o período da manhã estudando. A tarde ela iria trabalhar no ateliê de costura artesanal em Brent. Conseguiu a vaga com uma costureira que fez sucesso no bairro justamente por ter vários brasileiros, e por isso Paula se sentia em casa. Já Hadassa teria de ir até o metrô e depois pegaria um ônibus para a zona norte de Londres, para dar as primeiras aulas do dia em uma escola particular, e em seguida iria para Agatha e Oliver, onde passaria toda aquela tarde. Claro que as crianças tinham uma babá, mas Hadassa fez uma promessa a Clear e também a Thomas, mesmo que ele não estivesse mais em vida. Ela devia muito aos patrões e tinha lealdade para com eles. Estava contando as horas e dias para que o final de semana chegasse e ela então pudesse ir visitar Clear. Não era como se pudesse simplesmente chegar na recepção e informar quem era e que gostaria de vê-la, mas Brian havia lhe dado o contato e garantiu que ela só precisava ligar para ele quando quisesse ver Clear.Victória desligou a chamada é respirou aliviada. Obviamente nada estava bem, mas apenas a certeza de que Levy estaria em casa muito em breve já representava alguma esperança. Levy era o chefe da família e tinha muito da personalidade organizada, forte e dominante de Anthony, bem como a beleza estonteante da memorável mãe Leona. De alguma forma, Victória sentia que apenas a presença dele poderia mudar todo aquele cenário de caos. Quase adormecida pelo cansaço e o analgésico que bateu forte, ela não percebeu que Brian estava a espreita, acompanhando o diálogo e decidindo qual seriam os próximos passos. Deixou a mãe sonolenta e saiu pela casa, encontrando a pessoa que queria descendo as escadas de maneira furtiva. — Ora, ora... — falou em um tom arrastado e malicioso, fazendo Hadassa brecar os ligeiros passos na escada. — Senhor Brian! — a moça abaixou o olhar e colocou as mãos nos bolsos de maneira nervosa. — E-eu já estava indo, mas as crianças-... — Pode ficar tranquil
Victória olhava para aquela pintura inacabada, mas não ficava em nada exatamente. Diante dela estava uma tela com o que seria provavelmente a última pintura de Clear. Era uma pintura abstrata; cores em tons de violeta, azul royal, preto e vinho preenchiam a tela até uma metade diagonal, enquanto a outra permanecia em branco... Victória prestou um pouco mais de atenção e percebe que Claro já havia deixado sua marca na tela, o que a fez questionar se a pintura estava realmente inacabada ou se aquele quadro era uma mensagem de como Clear se sentia depois de todas as ondas que a atingiram sem nenhum aviso. O telefone vibrou em sua mão, enquanto ela segurava firmemente a xícara de chá servida por Cecília na outra. Ela olhou para a tela do aparelho e suspirou, sentindo-se um pouco aliviada. — Olá, meu querido... — atendeu a chamada com a voz embargada, cheia de carinho, ternura, tristeza e cansaço; mas ainda assim, falar com ele sempre trazia-lhe certa paz. — Deveria estar dormin
O período da manhã passou rápido. As aulas na escola particular em que trabalhava como professora de linguagem eram divididas entre horários, bem como no Brasil; mas sempre que conseguia executar suas horas, Hadassa já se encaminhava para outra, e isso poderia ser em uma propriedade ou qualquer outro cliente disposto a aprender alguma das línguas nas quais ela era especializada. Logo ela estava seguindo para a propriedade Robinson em Hampstead. Em alguns bons 30 minutos entraria na região arborizada e quase campestre do bairro nobre. Quando o mordomo Roger abriu a porta, Agatha correu e saltou no colo da professora, abrigando-se no abraço caloroso de Hadassa. — Boa tarde, senhorita Albuquerque. — Roger saudou elegantemente. — Tia Hada! — ela agarrou a professora de português como se fosse sua tábua de salvação. — Oh! Olá Roger. — respondeu ao mordomo e logo voltou a atenção para a criança. — Oi, meu bem... — Hadassa permitiu-se aquele carinho tão puro e cheio de sentimen
Ela estava deitada e aquecida, mas o sono não vinha. Muitas coisas estavam passando como um filme em sua mente. Ela tinha a resposta para o pedido de Clear e isso era bastante óbvio; no entanto, não é como se fosse a coisa mais simples saber que alguém tão especial estava partindo para outro plano... Ela já conhecia essa estrada, e talvez por saber disso, Clear tenha lhe pedido algo tão profundo. Clear Byron não era apenas sua patroa; era uma amiga e até protetora. Houve um tempo em que Clear foi a única pessoa com quem Hadassa pode contar quando sentia o desespero da saudade por seu pai e irmã apertarem. E se não fosse por ela, com certeza a família Albuquerque não poderia estar reunida novamente, tampouco seu pai poderia ter o tratamento adequado para a idade. Devia muito a patroa e amiga, mas sentia-se incapaz de cumprir com aquele pedido de Clear simplesmente porque não queria que ela morresse. Mas Hadassa sabia que nem tudo poderia ser como o coração deseja. Clear e
Era o fim de tarde de uma sexta-feira e o metrô estava lotado. Hadassa tinha acabado de dar a última aula do dia e sentia-se como se fosse um daqueles trilhos, levando em consideração todo o cansaço e sono acumulados nos últimos meses; entretanto, não poderia reclamar. Era cansativo, mas a grana também era boa o suficiente para viver com dignidade e sustentar a família. Quando chegou em casa, o termômetro já marcava uns bons 11° C com a possibilidade de cair mais. Com certeza aquela seria uma boa noite de sono porque do jeito que estava cansada e com o frio de doer nos ossos, ela dormiria completamente encolhida depois de um bom banho quente e, quem sabe, uma sopa feita por Paula, sua irmã caçula. Respirou fundo quando o vagão em que estava parou e as portas deslizaram, dando a visão da multidão que descia, inclusive ela mesma espremida e esgotada. Dali por diante seria mais um ônibus e 7 minutos de caminhada até chegar no pequeno e simples prédio de designer antigo e industri







