INICIAR SESIÓNO período da manhã passou rápido. As aulas na escola particular em que trabalhava como professora de linguagem eram divididas entre horários, bem como no Brasil; mas sempre que conseguia executar suas horas, Hadassa já se encaminhava para outra, e isso poderia ser em uma propriedade ou qualquer outro cliente disposto a aprender alguma das línguas nas quais ela era especializada.
Logo ela estava seguindo para a propriedade Robinson em Hampstead. Em alguns bons 30 minutos entraria na região arborizada e quase campestre do bairro nobre. Quando o mordomo Roger abriu a porta, Agatha correu e saltou no colo da professora, abrigando-se no abraço caloroso de Hadassa. — Boa tarde, senhorita Albuquerque. — Roger saudou elegantemente. — Tia Hada! — ela agarrou a professora de português como se fosse sua tábua de salvação. — Oh! Olá Roger. — respondeu ao mordomo e logo voltou a atenção para a criança. — Oi, meu bem... — Hadassa permitiu-se aquele carinho tão puro e cheio de sentimentos tristes demais. — Como você está? — Estou com saudade da mamãe... — A criança de oito anos parecia entender mais do que suas palavras conseguiam expressar. — Mas a Cecí disse que a vovó não permitiu. Hadassa colocou a menininha no chão e estendeu-lhe a mão, caminhando para a biblioteca da enorme propriedade, onde ensinava para a pequena Agatha. — Eu te entendo, meu bem.— Hadassa a conduz até a escrivaninha e ajuda a se sentar, colocando-se de joelhos a frente da menininha. — Mas deve haver um motivo para sua avó tomar essa decisão. — Tia, você acha que minha mãe vai morrer? — A garotinha perguntou com lágrimas nos olhos e Hadassa engoliu em seco. Perdeu as palavras justamente quando queria ter uma resposta para dar, mas não aquela resposta. — O-olha meu bem, eu... — ela Desviou o olhar buscando algo na mente que pudesse ajudar. — Eu realmente não sei te responder sobre isso, mas... — Eu sei que ela vai morrer, tia. — Agatha baixou o olhar e enxugou uma lágrima que desceu pela bochecha rosada como a da mãe. A declaração pegou a professora de surpresa e ao mesmo tempo, causou um dor sem nome. Hadassa se viu em Agatha e não teve outra reação que não fosse abraçar a menina. — Eu vou ver sua mamãe. E eu prometo que vou dizer para ela o quanto você a ama. — Você poderia fazer isso, tia? — A garotinha perguntou com lágrimas nos olhos. — Poderia levar minha carrinha para ela? — Claro que sim, meu amor. — A essa altura, Hadassa chorava e mesmo que quisesse, não poderia ser diferente. Viu Agatha correr e sumir por alguns minutos, e quando retornou estava com um pequeno envelope e um botão de rosa branca nas pequenas mãos, acompanhada pela governanta Cecília. — Olha tia, Hada! — entregou os itens nas mãos da professora. — A Cecí me ajudou a encontrar uma flor que dure até você encontrar minha mamãe. Hadassa olhou para a criança e buscou forças para estancar as lágrimas. — Obrigado, Cecí! — Hadassa agradeceu a mulher que conheceu na propriedade Robinson e que estava ao lado de Agatha desde quando ela também assumiu as aulas da criança. — Por nada, Hada... — com os olhos penosos, a mulher de baixa estatura, corpo pluz size, cabelos lisos e curtos, aparentando estar na casa dos 45 anos, sorriu para a criança que não estava com esperança alguma no olhar, mas um amor quase palpável de tão imenso e real. — Agora vamos começar a aula! — Hadassa caminhou para frente da losa. — Depois podemos brincar um pouco no jardim. O que você acha? — Podemos levar o Oli? — a menininha perguntou e Hadassa olhou para a governanta. — Sim, mas devemos voltar antes da senhora Vitória chegar. — Cecília reforçou. — Por mim, tudo bem. — Hadassa deu de ombros e viu Agatha se animar com a possibilidade de sair um pouco daquela fortaleza junto com o irmãozinho. Elas só deveriam voltar antes de Vitória colocar os pés na mansão. ~ Passava das 19:30 quando o celular de Hadassa vibrou pela décima vez com as mensagens de uma Paula preocupada. — Ela dormiu. — Cecília falou baixinho, enquanto entrava no quarto de Agatha para pegar o pequeno Oliver que estava deitado no centro da cama entre Hadassa e a irmãzinha muito amorosa. — Você precisa ir. Lady Victória chegou e você já sabe... Hadassa sacudiu a cabeça em concordância e cheirou as duas crianças. — Realmente está tarde. — disse pegando a mochila largada em uma das poltronas e se agasalhando no casaco bege. A noite a temperatura estava caindo por consequência do inverno que se aproximava. — Vá pelos fundos. Chamei um taxi para deixá-la em Brent. — Não precisava, Cecí... — Hadassa caminhou até ela com o par de tênis na mão. — Claro que precisa. Você tem sido de muita ajuda para nós, Hada. Não sei o que seria dessas crianças sem você para ajudar. — o que Cecília dúzia era sincero. A verdade é que por mais que Victória estivesse tentando, não conseguia dar conta. Cecília, por ser governanta da casa já há algum tempo, estava tendo que se desdobrar para manter o funcionamento da propriedade com a ajuda de Roger, que estava lá desde quando Thomas e Clear se casaram, porém, a propriedade era extensa e por pertencer a nobreza Londrina, eram necessárias mais mãos para ajudar. E falando em ajuda, Cecília estava responsável pelas crianças também, visto que Clear não contratou nenhuma babá fixa. No início ela mesma dava conta de Agatha e tinha prazer nisto. Clear sempre foi uma ótima mãe, dedicada a suas funções como esposa de um capitão e parte do legado histórico de Lord Byron. Não contradizendo sua linhagem, foi a única da geração atual que desenvolveu o tato para artes como pintura e escrita, tendo livros de poemas lançados, vem como obras arrematada em exposições. Clear era amante da arte. As coisas mudaram com a perda de Thomas e ela acabou perdendo o brilho e a vontade de viver. Victória fazia de tudo para ajudar como podia e mesmo não sendo mãe biológica, sofria junco com a filha do homem que amava. — Cecília! — a voz de Victória soou uma nota mais aguda e a governanta apressou-se. — Eu preciso ir. Ela com certeza deve estar com enxaqueca e vai colocar esta casa abaixo se Roger e eu não aparecermos em no máximo um minuto. — A governanta disse, aproximando-se da cama para pegar o bebê. — Deixa isso comigo, Cecí. Vai lá! — Hadassa falou, desistindo de sair naquele momento. — Mas o taxi-... — Cecília iria argumentar quando viu Hadassa pegar o bebê da cama. — Se Lady Victória lhe ver aqui a essa hora-... — Cecília, deixa comigo. — a segurança na voz de Hadassa fez Cecília respirar e sair desejando-lhe boa noite e sorte. — Estou aqui, me Lady. — respirando fundo, a governanta desceu as escadas sem saber ao certo o que seria de Hadassa, mas pelo que conhecia da professora, tinha certeza que tudo ficaria bem. — O que houve? — Roger perguntou, encontrando-se com ela no caminho. — Hadassa ainda está aqui. — Você não havia chamado um taxi para ela? — o mordomo perguntou preocupado e claramente irritado. — Lady Victória está com enxaqueca e você sabe como ela fica quando está assim! — sibilou entre dentes. — Nós daremos um jeito. — Cecília tentou passar a segurança que viu em Hadassa. — Se vire! — Roger desapareceu por um dos corredores e Cecília suspirou. Pediria um aumento quando tudo passasse e logo após esse pensamento, riu de nervoso por não saber o que seria dali por diante. — Senhora. — apareceu no ateliê da casa, onde Victória estava de pé, massageando a cabeça e o peito diante de uma das pinturas inacabadas feitas por Clear. — Me traga um chá e um analgésico, por favor. — A mulher de pelo menos 60 anos não aparentava ter tal idade, mas naquele momento parecia ter sido pisoteada por uma debandada de búfalos. Mais que qualquer pessoa, Vitória entendia a dor de Clear porque também perdeu Lord Anthony Byron em um acidente do qual sentia-se culpada, pois foi durante uma discussão, onde ela tentava argumentar por Brian, seu filho mais velho por segundos, uma vez que Rachel era a mais nova e ambos formavam um casal de gêmeos; filhos do primeiro relacionamento de Victória com um homem que nunca a assumiu e abandonou-a grávida, sem nunca voltar. Anthony Byron na época vivia um casamento feliz com Leona, sua primeira esposa. Deste casamento nasceu Clear, a filha dois anos mais velha que Levy, o segundo filho e herdeiro do nome Byron, no entanto, o nascimento do menino foi a despedida de sua mãe. Ao dar a luz a Levy, Leona fatídicamente faleceu. Dois anos mais tarde, Anthony conheceu a escritora Victória Davies e apaixonou-se perdidamente por ela, tornando-a Lady Byron pouco tempo depois e tomando os filhos dela como co-herdeiros Byron. Entretanto, no dia em que morreu nas ferragens de um acidente de carro em que discutia com Victória, Lord Anthony lhe falava sobre as péssimas notas de Brian e o comportamento duvidoso do jovem; o que o obrigou a escolher seu próprio filho biológico Levy Eduard como chefe da família e herdeiro majoritário de todo patrimônio Byron, bem como herdeiro do título e da posição de Barão na cadeira dedicada a sua linhagem na aristocracia inglesa. Para Victória foi doloroso e difícil. Ela sentiu como se Anthony estivesse julgando e excluindo Brian apenas por não ter seu sangue. Momentos depois, ela arrependeu-se amarga e terrivelmente porque naquela estrada de Cornwall, indo para uma sessão de autógrafos a beira-mar para promover mais um de seus lançamentos, Victória sofreu um acidente do qual Anthony não saiu vivo e ela permaneceu com uma lesão na coluna que não a impossibilita a de andar, mas causava-lhe terríveis dores de cabeça e hipertensão. Sequelas que lhe perseguiam e jogavam em sua cara todos os dias que naquela discussão, Anthony tinha toda a razão.Victória desligou a chamada é respirou aliviada. Obviamente nada estava bem, mas apenas a certeza de que Levy estaria em casa muito em breve já representava alguma esperança. Levy era o chefe da família e tinha muito da personalidade organizada, forte e dominante de Anthony, bem como a beleza estonteante da memorável mãe Leona. De alguma forma, Victória sentia que apenas a presença dele poderia mudar todo aquele cenário de caos. Quase adormecida pelo cansaço e o analgésico que bateu forte, ela não percebeu que Brian estava a espreita, acompanhando o diálogo e decidindo qual seriam os próximos passos. Deixou a mãe sonolenta e saiu pela casa, encontrando a pessoa que queria descendo as escadas de maneira furtiva. — Ora, ora... — falou em um tom arrastado e malicioso, fazendo Hadassa brecar os ligeiros passos na escada. — Senhor Brian! — a moça abaixou o olhar e colocou as mãos nos bolsos de maneira nervosa. — E-eu já estava indo, mas as crianças-... — Pode ficar tranquil
Victória olhava para aquela pintura inacabada, mas não ficava em nada exatamente. Diante dela estava uma tela com o que seria provavelmente a última pintura de Clear. Era uma pintura abstrata; cores em tons de violeta, azul royal, preto e vinho preenchiam a tela até uma metade diagonal, enquanto a outra permanecia em branco... Victória prestou um pouco mais de atenção e percebe que Claro já havia deixado sua marca na tela, o que a fez questionar se a pintura estava realmente inacabada ou se aquele quadro era uma mensagem de como Clear se sentia depois de todas as ondas que a atingiram sem nenhum aviso. O telefone vibrou em sua mão, enquanto ela segurava firmemente a xícara de chá servida por Cecília na outra. Ela olhou para a tela do aparelho e suspirou, sentindo-se um pouco aliviada. — Olá, meu querido... — atendeu a chamada com a voz embargada, cheia de carinho, ternura, tristeza e cansaço; mas ainda assim, falar com ele sempre trazia-lhe certa paz. — Deveria estar dormin
O período da manhã passou rápido. As aulas na escola particular em que trabalhava como professora de linguagem eram divididas entre horários, bem como no Brasil; mas sempre que conseguia executar suas horas, Hadassa já se encaminhava para outra, e isso poderia ser em uma propriedade ou qualquer outro cliente disposto a aprender alguma das línguas nas quais ela era especializada. Logo ela estava seguindo para a propriedade Robinson em Hampstead. Em alguns bons 30 minutos entraria na região arborizada e quase campestre do bairro nobre. Quando o mordomo Roger abriu a porta, Agatha correu e saltou no colo da professora, abrigando-se no abraço caloroso de Hadassa. — Boa tarde, senhorita Albuquerque. — Roger saudou elegantemente. — Tia Hada! — ela agarrou a professora de português como se fosse sua tábua de salvação. — Oh! Olá Roger. — respondeu ao mordomo e logo voltou a atenção para a criança. — Oi, meu bem... — Hadassa permitiu-se aquele carinho tão puro e cheio de sentimen
Ela estava deitada e aquecida, mas o sono não vinha. Muitas coisas estavam passando como um filme em sua mente. Ela tinha a resposta para o pedido de Clear e isso era bastante óbvio; no entanto, não é como se fosse a coisa mais simples saber que alguém tão especial estava partindo para outro plano... Ela já conhecia essa estrada, e talvez por saber disso, Clear tenha lhe pedido algo tão profundo. Clear Byron não era apenas sua patroa; era uma amiga e até protetora. Houve um tempo em que Clear foi a única pessoa com quem Hadassa pode contar quando sentia o desespero da saudade por seu pai e irmã apertarem. E se não fosse por ela, com certeza a família Albuquerque não poderia estar reunida novamente, tampouco seu pai poderia ter o tratamento adequado para a idade. Devia muito a patroa e amiga, mas sentia-se incapaz de cumprir com aquele pedido de Clear simplesmente porque não queria que ela morresse. Mas Hadassa sabia que nem tudo poderia ser como o coração deseja. Clear e
Era o fim de tarde de uma sexta-feira e o metrô estava lotado. Hadassa tinha acabado de dar a última aula do dia e sentia-se como se fosse um daqueles trilhos, levando em consideração todo o cansaço e sono acumulados nos últimos meses; entretanto, não poderia reclamar. Era cansativo, mas a grana também era boa o suficiente para viver com dignidade e sustentar a família. Quando chegou em casa, o termômetro já marcava uns bons 11° C com a possibilidade de cair mais. Com certeza aquela seria uma boa noite de sono porque do jeito que estava cansada e com o frio de doer nos ossos, ela dormiria completamente encolhida depois de um bom banho quente e, quem sabe, uma sopa feita por Paula, sua irmã caçula. Respirou fundo quando o vagão em que estava parou e as portas deslizaram, dando a visão da multidão que descia, inclusive ela mesma espremida e esgotada. Dali por diante seria mais um ônibus e 7 minutos de caminhada até chegar no pequeno e simples prédio de designer antigo e industri







