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Capítulo 2

Autor: Justa
Otávio agiu com rapidez impressionante; em pouco tempo, o corpo foi cremado e ele retornou com a pequena urna nas mãos. A casa já estava preparada para o velório, e os vizinhos começavam a chegar para prestar solidariedade. Ao verem um homem jovem e saudável reduzido a uma foto em preto e branco e uma caixa de cinzas, os suspiros de lamento e os murmúrios de "que pena" preenchiam o ambiente.

Meu rosto estava lívido, uma palidez herdada do sofrimento da vida anterior, o que me conferia a aparência exata de uma viúva devastada. Abraçando Mariana com uma proteção excessiva, Otávio se dirigiu a mim:

— Mariana acabou de descobrir que está grávida. O ambiente pesado do velório pode fazer mal a ela e ao bebê, então ela não participará da vigília, está bem?

Ele a acomodou em uma cadeira com uma delicadeza repugnante, o rosto transbordando um carinho que deveria ser proibido. Ignorando a intimidade obscena dos dois, fui surpreendida quando Mariana se dirigiu a mim, quebrando meu silêncio:

— Tatiana, agora que você não tem homem em casa, vai acabar precisando que o meu Fábio resolva as coisas para você. Não acha justo retribuir o favor, já que vai dar trabalho?

Havia uma ganância nua em seus olhos, cobrando por serviços futuros que sequer pedi.

Otávio logo fez coro, aproveitando a oportunidade:

— É verdade, cunhada. Você ainda tem aqueles braceletes e brincos de ouro do seu dote, não tem? Seria bom repassá-los para a Mariana. Você é a viúva, agora uma mãe solteira... francamente, não tem uso para luxos dessa natureza.

Levantei a cabeça bruscamente, fixando o olhar nele. Aquelas joias eram a única lembrança que minha mãe, após uma vida inteira de economias, deixava para mim no leito de morte. A audácia dele era inacreditável.

Sem demonstrar qualquer remorso, Otávio continuou suas exigências com a naturalidade de quem cobra uma dívida:

— Você vive na roça, fazendo trabalho pesado, daria as joias para a Mariana fazer bom uso, afinal, seria um desperdício estragá-las na lida. Além disso, Otávio me disse antes de morrer que tinha deixado dinheiro guardado no quarto. Passe tudo para mim, preciso resolver umas pendências que ele deixou.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, calculando meu movimento, antes de esconder o rosto nas mãos e desabar em um choro convulso que atraiu a atenção de todos.

— Não tem dinheiro nenhum! — Solucei, garantindo que minha voz fosse ouvida. — As economias do Otávio acabaram há muito tempo, e até meu dote foi usado para cobrir os gastos dele. Não me restou um centavo sequer.

— Impossível! Otávio me garantiu que havia mais de quinhentos reais! — Exclamou ele, perdendo a compostura e o tom de luto.

— Era mentira dele. — Retruquei, mantendo a voz firme apesar das lágrimas cênicas. — Ele tinha vergonha de admitir que estava quebrado, só falou isso para manter as aparências de homem rico. Fábio, seu irmão se foi e você é o único homem da família agora. Em vez de nos amparar, você vem exigir dinheiro de uma viúva e uma órfã? Quer nos empurrar para a morte também?

Minha acusação, embora baseada em uma mentira sobre o dinheiro, colocou Otávio em um beco sem saída. Os vizinhos ao redor começaram a cochichar, lançando olhares de reprovação e pena, murmurando que ele deveria ter piedade da cunhada.

— Meu irmão disse que tinha quinhentos reais, ele não mentiria sobre isso. — Insistiu Otávio, com o rosto fechado, recusando-se a largar o osso.

Soltei uma risada fria, levantei-me e comecei a arrastar todos os pertences pessoais de "Otávio" para o meio da sala.

— Já que Otávio só deixou velharias e dívidas morais, vou queimar tudo na frente de vocês. Assim ninguém fica cobiçando lixo, achando que é tesouro.

Puxei o braseiro de metal usado para queimar incenso e papéis votivos e comecei a atirar lá dentro os documentos, as cartas e as roupas dele. O fogo subiu rápido. Otávio fez menção de avançar para impedir, mas parou, com a expressão sombria, lembrando-se de seu papel. Contudo, quando comecei a jogar no fogo os presentes que ele havia me dado ao longo dos anos, sua paciência ruiu.

— Tatiana, essas são coisas que o Otávio te deu! Qual o sentido de queimar tudo? — Explodiu ele, incapaz de se conter ao ver seus próprios pertences virarem cinzas.

— O dono morreu, esses objetos perderam o sentido. — Respondi, com a voz embargada, jogando a última peça no fogo crepitante. — Além do mais, vocês me pressionam por dinheiro com o corpo dele ainda quente... Vou perguntar diretamente à alma do Otávio, enquanto queimo isso, onde foi que ele escondeu essa suposta fortuna!

Minha performance foi impecável, carregada de dor e revolta. Os presentes suspiravam, comovidos com meu desespero. Com o rosto lívido de raiva contida, Otávio não teve escolha a não ser assistir em silêncio enquanto eu reduzia sua antiga vida a pó.

Mais tarde, de volta ao quarto e longe dos olhares curiosos, minha filha Flora me encarou com seus grandes olhos inocentes e perguntou, confusa:

— Mamãe, aquele homem é o papai. Por que todo mundo está chamando ele de titio?
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