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Capítulo 3

Autor: Justa
Senti uma pontada aguda no peito, uma dor que ia além da física. Até mesmo minha filha sabia que aquele homem era o Otávio, mas ele se recusava a admitir, endurecendo o coração contra a própria carne e sangue de uma maneira que me causava náuseas. Abracei Flora com força, pressionando seu rosto contra meu peito enquanto lutava para conter as lágrimas que ameaçavam transbordar.

— Seja boazinha, Flora. Aquele não é o papai. O papai já foi embora, ele não está mais aqui. — Sussurrei, tentando convencer a ela e a mim mesma daquela realidade cruel.

Não perdi tempo. Naquele mesmo dia, dirigi-me ao distrito militar para procurar o comandante, levando comigo a certidão de óbito para relatar oficialmente o falecimento e solicitar a baixa do registro militar de Otávio. O oficial me recebeu em seu escritório e, com um semblante solene, prestou suas condolências:

— Soube do sacrifício do camarada Otávio e lamento profundamente a perda. Vocês são a família dele; se tiverem alguma necessidade ou dificuldade, a organização fará o possível para aprová-la e ajudar.

Não hesitei um segundo sequer. Expus imediatamente o plano que vinha ponderando há muito tempo, aproveitando a abertura que ele me dera.

— Comandante, na verdade, eu gostaria de pedir um emprego no distrito militar. Qualquer coisa que seja suficiente para sustentar a mim e à minha filha, não importam as condições.

O oficial pareceu surpreso com o pedido repentino e franziu a testa, preocupado.

— Trabalhar no distrito militar é exaustivo e significa deixar sua terra natal para viver longe de tudo o que conhece. Você tem certeza de que pensou bem nisso?

Aquele era exatamente o meu objetivo: distância. Assenti com firmeza, sem demonstrar qualquer dúvida em meu olhar.

O processo correu rápido. Além de cancelarem o registro militar de Otávio, entregaram-me uma quantia referente à pensão e ao auxílio-funeral.

Ao voltar para casa, encontrei minha sogra sentada no pátio, como se estivesse de guarda. Assim que me viu passar pelo portão, sua voz estridente e carregada de desprezo cortou o ar.

— A portadora de desgraças voltou? O marido morre e você continua vadiando por aí o dia todo. Meu filho teve muito azar de se casar com uma mulher como você. — Disparou ela, cheia de veneno.

Minha filha estava sentada no chão de terra batida, soluçando baixinho enquanto descascava milho. O coração me doeu ao ver suas mãos pequenas cobertas de bolhas; algumas haviam estourado, deixando a carne viva exposta e inchada. A raiva queimou dentro de mim como fogo. Corri até ela e peguei Flora nos braços, protegendo-a.

— A Flora só tem cinco anos! A senhora não está vendo que as mãos dela estão em carne viva? — Gritei, incapaz de conter minha indignação.

A velha colocou as mãos na cintura, ergueu o queixo e cuspiu no chão com nojo.

— Sua perturbada! Não deu um neto para a família Fonseca e ainda se atreve a responder? Vocês duas são estranhas aqui, não trabalham e ainda querem comer de graça?

Soltei uma risada fria, sem humor algum.

— Bom, já que meu marido morreu, vou embora. Não se preocupe, não vou tirar vantagem de vocês nem mais um dia.

Virei as costas para sair, decidida, mas minha sogra, insatisfeita com a minha rebeldia, correu para bloquear meu caminho com o corpo.

— Quem vai servir a Mariana quando ela tiver o filho? Você comeu e bebeu de graça nesta casa por anos, não pense que pode simplesmente sacudir as mãos e ir embora agora!

Mariana observava tudo parada sob a janela, acariciando a barriga com um sorriso presunçoso nos lábios.

— Tatiana, quem mandou você não ser capaz de gerar um menino? Aqui dentro está o único neto da família Fonseca, então trate de servir bem e ficar quieta.

Otávio, que a amparava com uma das mãos como se ela fosse de porcelana, olhou para mim e ordenou com voz firme:

— A mãe já está velha e Mariana precisa de cuidados especiais. Pare de fazer birra, Tatiana, e aceite sua obrigação.

O escárnio subiu à minha garganta. Quando eu dei à luz uma menina, por que ele não disse que eu precisava de cuidados? Até quando minha bolsa estourou, fui sozinha para o hospital, arrastando-me de dor. Ninguém daquela família se importou. Minha sogra me desprezava por não ter tido um filho homem, e Otávio sequer apareceu para conhecer a filha. Com que direito exigiam que eu trabalhasse como uma escrava para eles agora?

Cerrei os dentes, engolindo a revolta para não explodir ali mesmo, e levei minha filha para o quarto. Apliquei a pomada em seus ferimentos com todo o cuidado do mundo, soprando para aliviar a ardência.

Ao sair do quarto momentos depois, ouvi as vozes de Otávio e Mariana conversando no corredor.

— Otávio, olhe o jeito da Tatiana. Se você não estivesse aqui me acompanhando no lugar do Fábio, ela já teria me matado de raiva. — Reclamou Mariana, com voz manhosa.

A resposta de Otávio soou gentil e amorosa, um tom que ele nunca usara comigo:

— Fique tranquila, Mariana. Por você e pelo nosso filho, eu te protegerei por toda a vida. A mãe também está do seu lado, senão ela jamais teria concordado que eu assumisse a identidade do Fábio.

Cravei as unhas na palma da mão com tanta força que quase sangrei. Então o filho de Mariana era do Otávio. Ela e minha sogra sabiam da troca de identidade o tempo todo. Eles estavam juntos há muito mais tempo do que eu imaginava; eu era a única que não sabia de nada, enganada como uma tola até aquele momento.

Olhando para o rosto adormecido da minha filha, consolei-me com a promessa de que logo sairíamos daquele inferno. E, de fato, a sorte parecia estar virando, pois dois dias depois, recebi a mensagem do comandante confirmando que o trabalho estava arranjado e eu poderia começar a qualquer momento.

Arrumei minhas coisas sem perder tempo. No entanto, assim que coloquei o pé para fora da porta com a mala, deparei-me com o rosto lívido de Otávio. O olhar dele caiu sobre a passagem de trem em minha mão, e sua voz soou gélida e ameaçadora:

— Aonde você pensa que vai, Tatiana?
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