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Capítulo 4

Author: Fazendeiro
Na manhã da minha partida, Vicente, coisa rara, não foi direto para o estúdio.

Eu estava conferindo o peso da bagagem quando ele parou à porta do quarto e ficou me olhando por um instante:

— Você está livre hoje à noite?

Eu fechei a mala:

— Para quê?

Ele me entregou um ingresso para a pré-estreia do documentário. Seus movimentos pareciam um pouco hesitantes:

— Você não dizia que sempre quis me ouvir tocar Meu Grande Amor?

Eu não peguei o ingresso.

Ele franziu a testa e estendeu o bilhete um pouco mais:

— Eu vou tocar hoje à noite.

Quando Vicente me magoava no passado, ele também nunca dizia nada parecido com um pedido de desculpas.

Ele apenas trazia alguma sobremesa de que eu gostava ou, depois de algum concerto, deixava para mim um ingresso da apresentação seguinte.

Para ele, isso bastava para reparar qualquer mágoa.

Oito anos haviam se passado, e ele continuava sabendo usar apenas essa forma.

— Eu reservei um lugar para você. — Ele disse. — Depois da apresentação, eu levo você para jantar.

Meus dedos tocaram o ingresso.

E, no fundo de mim, onde eu acreditava que os sentimentos já haviam esfriado havia muito tempo, algo voltou a se agitar.

Talvez porque aquele dia fosse justamente o nosso oitavo aniversário de casamento.

Talvez porque Meu Grande Amor nunca tivesse sido apenas uma melodia para mim.

De repente, eu quis acreditar nele uma última vez.

Às sete da noite, deixei a mala guardada no aeroporto e fui para o evento de pré-estreia do documentário.

Uma funcionária olhou meu ingresso e me conduziu pelo corredor até o fundo do salão. Por fim, ela parou no último assento encostado à parede:

— Senhora Bianca, o seu lugar é aqui.

Eu fiquei atordoada por um instante.

Bem diante do palco, no centro da primeira fileira, havia uma placa de "Reservado à família".

Natália, usando um vestido branco longo, sentou-se ali cercada por várias pessoas.

Quando Vicente passou pela lateral do palco, ele a viu.

Ele parou, inclinou-se e ajeitou o xale sobre os ombros dela.

Uma onda de risadinhas e comentários afetuosos percorreu o grupo ao redor.

Ninguém viu que eu estava na última fileira.

O documentário começou.

Nas imagens, Vicente atravessava sozinho uma longa fase sombria.

Natália aparecia como a pessoa que o acompanhou naquele período e contava como ele voltou a segurar o arco do violoncelo.

Eu assisti àquele passado remontado diante dos meus olhos e, de repente, tudo me pareceu estranho.

Era como se eu nunca tivesse existido naqueles oito anos.

Quando o filme terminou, a luz caiu no centro do palco.

Vicente ergueu o arco.

Assim que a primeira melodia soou, senti os olhos arderem, e as lágrimas quase escaparam.

Era Meu Grande Amor.

A música que ele havia escrito para mim, compasso por compasso, durante o inverno mais difícil da vida dele.

Ela não era apenas parte da nossa história.

Era também a prova do amor que eu um dia lhe entreguei sem reservas.

Perto do fim da apresentação, o telão passou a exibir imagens captadas pelas câmeras ao vivo.

A câmera começou a percorrer lentamente as fileiras, partindo dos assentos da frente em direção ao fundo do salão.

Eu vi a câmera se aproximar cada vez mais, e meu coração disparou contra a minha vontade.

Vicente sabia que eu estava ali.

Ele disse que aquele lugar havia sido reservado especialmente para mim.

Talvez ele apenas tivesse se esquecido de me colocar no assento reservado à família.

Talvez, daquela vez, ele realmente quisesse dedicar aquela música a mim mais uma vez.

A câmera passou por fileiras e mais fileiras de convidados.

Quando faltavam apenas alguns passos para chegar até mim, ela parou de repente.

No segundo seguinte, a imagem voltou para a primeira fileira.

Natália, com os olhos avermelhados, olhava para o palco de cabeça erguida.

O salão inteiro explodiu em aplausos.

Vicente sustentou o olhar dela através da luz do palco, com uma ternura evidente no rosto.

Sentada no escuro, abri lentamente a mão que mantinha cerrada.

Então era esse o lugar que ele havia reservado para mim: a última fileira.

Eu podia estar presente.

Eu podia testemunhar.

Mas eu não podia ser vista.

Por um instante, achei ridícula a esperança que havia alimentado.

Depois de oito anos, eu ainda era capaz de me iludir com um simples ingresso que ele me entregara, acreditando que continuava sendo a única pessoa para quem ele queria tocar Meu Grande Amor.

Eu não esperei o evento terminar.

Levantei-me em silêncio e saí pelo corredor lateral mais afastado.

Ninguém percebeu.

Quando cheguei ao aeroporto, os alto-falantes já anunciavam o embarque.

Peguei minha mala de volta e coloquei o celular no modo avião.

Antes de a tela apagar, Vicente me enviou uma mensagem.

[Por que você foi embora antes do fim?]

Logo depois, chegou outra.

[Natália não está muito bem. Vou levá-la para casa primeiro. Deixamos o jantar para a semana que vem.]

Eu não respondi.

A porta da aeronave se fechou lentamente atrás de mim.

Quando o avião começou a taxiar, a cidade se acendeu do lado de fora da janela, tomada por milhares de luzes.

Naquela cidade ficavam as salas de concerto onde ele se apresentava, os aplausos que recebia e a mulher que ele continuava escolhendo em vez de mim.

E eu, enfim, já não estava sentada na última fileira, esperando uma câmera que me pertencesse.

O avião ganhou velocidade e decolou.

Eu vi aquela cidade ficar cada vez mais distante.

Então tirei a aliança e a coloquei dentro do saquinho de papel preso ao encosto da poltrona à minha frente.

Vicente ainda não sabia:

Desta vez, eu não esperaria até a semana seguinte.

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