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UM CEO APAIXONADO
UM CEO APAIXONADO
Author: Valquíria Rosa

Estado decadente (Matteo)

last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-25 15:46:25

A fumaça esbranquiçada e espessa do narguilé preenchia meu quarto como um véu sufocante, e eu sentia um prazer doentio nisso, como se cada tragada fosse uma forma de anestesiar a alma. Observava as chamas insinuantes dançando sensualmente na minha frente, como uma mulher promíscua que se oferece sem pudor. Aliás, me pergunto se por acaso existe alguma mulher que não seja promíscua. A dúvida me corroía, mas logo a imagem nítida de Katy atravessou minha mente, seus cabelos loiros esvoaçantes, seu corpo curvilíneo que noite após noite eu havia amado, e aquele sorriso traiçoeiro que me cativou, transformando-me num tolo. Maldita, mil vezes maldita, como eu a odeio profundamente, como eu queria ter sido eu seu carrasco.

Me acomodei debaixo dos confortáveis lençóis, o cheiro de menta e tabaco servindo como uma canção de ninar, me transportando para a terra dos sonhos, mas os sonhos não eram refúgio, eram prisões. O sol majestoso brilhava no céu como se dissesse: “Mais um dia inicia, a vida continua.” Irritado, fechei as cortinas. Dentro de mim não havia lugar para luz, depois de um banho quente, entrei no meu Porsche vermelho e me dirigi ao tatame, onde treinaria para minha próxima luta, marcada para o próximo fim de semana.

— Achei que não fosse vir mais, Matteo.

— E por acaso já falhei com meus compromissos, Amauri?

— Parece que alguém não dormiu bem...

Amauri não era apenas meu treinador, era como um pai para mim. Acreditou no meu potencial, me apoiou quando mais precisei, conhecia-me como conhecia a si mesmo. Começamos os treinamentos, mas hoje eu não estava rendendo. Estava perdido em pensamentos, afogado em lembranças.

— Soca com mais força, Matteo. Você parece que está acariciando o saco de pancadas. Pense que ele é o seu pior inimigo.

Fechei os olhos e, em vez de ver o saco de pancadas, visualizei meu pai ali parado, sorrindo cínico para mim. O ódio correu como veneno por minhas veias. Logo comecei a socar com toda minha força, como se minha vida dependesse disso. Cada golpe era uma catarse, cada impacto uma tentativa de matar o fantasma que me perseguia.

— Matteo?? Matteo!

Fitei atônito Amauri, que me olhava como se eu houvesse enlouquecido.

— Você parecia um louco desvairado.

— Vamos continuar o treinamento ou não?

O saco de pancadas foi substituído por Gabriel, companheiro de profissão e grande amigo. Soquei com gosto. Era melhor treinar com alguém que revidava do que com um objeto inanimado. Isso fazia a adrenalina percorrer cada fibra do meu corpo, lembrando-me que eu ainda estava vivo.

— Bom, pessoal, por hoje é só pronunciou Amauri.

Antes de alcançar meu Porsche, Gabriel me interceptou.

— O que você quer, Gabriel?

— Já faz um tempo que não nos falamos, Matteo. Gostaria de sairmos como antes, tomarmos um drink como velhos amigos que somos...

Abri a porta do Porsche e Gabriel se acomodou ao meu lado.

— Para onde?

— Um drink cairia muito bem agora.

O bar estava mergulhado em penumbra, iluminado por lâmpadas amareladas que pendiam do teto como velhas sentinelas, o cheiro de álcool misturado ao suor humano impregnava o ar. Risadas estridentes ecoavam, zombando da minha miséria. Virei o quinto copo de whisky, que desceu amargo pela garganta, o álcool, juntamente com o tabaco, havia se tornado minhas companheiras inseparáveis.

— Você não parece bem, Matteo...

Sabia perfeitamente aonde Gabriel queria chegar, mas mascarei um largo sorriso nos lábios, que mais parecia a risada do Joker, estava ciente que parecia ainda mais maluco do que o habitual.

— Nunca estive melhor, velho amigo.

Gabriel me olhava com preocupação genuína, mas eu não queria sua piedade. Ele não entendia que dentro de mim havia um campo de batalha constante. Katy, meu pai, minhas derrotas, meus medos. Tudo se misturava em um coquetel venenoso que eu engolia sem hesitar.

— Você precisa se cuidar, Matteo. Essa luta não é só no tatame, é dentro de você.

As palavras dele ecoaram como um sermão, eu odiava sermões mas, no fundo, sabia que ele tinha razão. O whisky queimava, mas não apagava o fogo que ardia em mim. O tabaco me envolvia, mas não sufocava os gritos internos. Eu estava vivo, mas não sabia se queria continuar assim.

O barulho ao redor parecia distante. As pessoas riam, se divertiam, mas para mim tudo era apenas ruído. Gabriel falava, mas sua voz se perdia. Eu o observava, tentando decifrar se sua preocupação era genuína ou apenas curiosidade. Talvez fosse o último resquício de amizade verdadeira que me restava.

De repente, lembrei-me de Amauri. Sua voz firme, seu olhar paternal. Ele acreditava em mim, mas eu não acreditava em nada, nem em mim mesmo. O treino era apenas uma desculpa para extravasar a raiva, a luta no próximo fim de semana seria apenas mais uma batalha externa, enquanto a guerra interna continuava sem trégua.

— Matteo, você ainda tem escolha. Não precisa se perder nesse caminho.

Gabriel insistia, eu sorri, um sorriso lento e cruel.

— Escolha? Minha escolha já foi feita há muito tempo.

O silêncio pairou entre nós, o bar continuava vivo, mas dentro de mim reinava a escuridão. O Porsche me esperava lá fora, vermelho como o sangue que corria em minhas veias. Eu sabia que a noite não terminaria ali,o whisky não seria suficiente, o tabaco não seria suficiente, nada seria suficiente.

Enquanto dirigia pelas ruas iluminadas por postes solitários, senti o peso da solidão. Katy era um pesadelo constante ,meu pai era apenas um fantasma, Amauri era um guia que eu não sabia se queria seguir, e Gabriel... Gabriel era apenas um lembrete de que eu ainda não estava completamente sozinho. Mas até quando?

O motor rugia, e eu acelerava como se quisesse fugir de mim mesmo mas não havia fuga. A fumaça, o álcool, o suor, o sangue, tudo fazia parte de mim, e eu era Matteo, o lutador, o traído, o filho rejeitado, o amigo perdido, eu era um homem em guerra, e a guerra não tinha fim. .

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