로그인Ana Albuquerque Pousei o celular sobre a mesa de cabeceira logo após desligar com a Katy, ainda sentindo o calor leve da conversa. A perspectiva de dias de sol e mar na Região dos Lagos parecia um respiro abençoado no meio do ritmo sufocante do hospital. Caminhei até a cozinha para pegar um copo d'água, pronta para apagar as luzes e deitar, quando o visor do meu telefone voltou a acender, vibrando sobre o balcão.Era o Julien.— Julien? Aconteceu alguma coisa? — perguntei assim que atendi, franzindo o cenho enquanto olhava para o relógio na parede.— Aconteceu que eu sou um homem sem paciência, Ana — a voz dele veio com aquele sotaque suave, carregada de uma vibração divertida. — E a ideia de esperar até as seis da manhã para te ver me pareceu um erro absurdo.Soltei uma risada baixa, encostando a cintura na bancada da cozinha.— Como assim? Onde você está?— Na sua garagem. O porteiro me deixou entrar com o carro, mas preciso que você libere o acesso ao elevador.Pisquei, su
Katy Nunes A porta do meu apartamento ainda parecia guardar o calor do abraço de Ian e a intensidade do seu último beijo. Fiquei alguns segundos encostada à madeira, com a mão repousando sobre a fechadura, sentindo o sorriso bobo teimando em se desenhar nos meus lábios. Mas o som do relógio de parede no hall me trouxe de volta à realidade: já passava das nove da noite e eu precisava organizar tudo antes que o dia seguinte amanhecesse.Caminhei até o quarto, acendi a luz e puxei a mala de bordo de cima do maleiro do armário.Ajeitei o espaço sobre a cama e separei biquínis, saídas de praia, shorts de linho, vestidos leves de algodão e rasteirinhas. O clima na Região dos Lagos prometia dias ensolarados e quentes, ideais para desligar a cabeça da rotina da agência.Enquanto dobrava uma blusa amarela, meus olhos bateram na agenda sobre a mesa de cabeceira, aberta na folha do fim de semana. Um aperto sutil no peito me pegou de surpresa.Domingo. 19h30. Jantar com o pai.Era a nossa
Ian Parker Quando nossos lábios finalmente se separaram, a respiração de Katy ainda estava descompassada. Segurei o rosto dela por mais alguns instantes, apreciando a entrega e o brilho suave nos olhos dela antes de me afastar a contragosto.— Bom, eu preciso ir — falei baixinho, deslizando os polegares pela linha do queixo dela. — Vim direto do aeroporto para cá quando cheguei de Nova York, então preciso ir até a minha casa organizar minhas malas de verdade. Tirar os casacos pesados e pegar roupas adequadas para o sol da Região dos Lagos.Katy sorriu, concordando com a cabeça enquanto se levantava do sofá comigo.— Faz sentido. Você não vai querer passar o fim de semana de praia usando terno — ela brincou, acompanhando-me até a porta de entrada.— Com certeza não — respondi, rindo fraco. Parei no hall da porta e olhei para ela. — Amanhã bem cedo eu venho te buscar aqui na porta do seu prédio. Nós vamos no meu carro. O Julien e a Ana vão no dele, aí nos encontramos todos na estr
Katy Nunes Quando a porta do apartamento da minha mãe se fechou atrás de nós, deixei meus ombros caírem. O silêncio do corredor parecia subitamente alto demais em comparação com o falatório, as risadas e o som de xícaras da tarde na casa da minha mãe. Entramos no elevador e subimos de volta para o meu andar em silêncio. Minha mão continuava firme na de Ian, com os dedos entrelaçados nos dele, sentindo o calor constante da sua pele.Ao entrarmos no meu apartamento, girei a chave na fechadura, tirei as sapatilhas logo no hall de entrada e andei descalça até o sofá. Joguei meu corpo no estofado macio, soltando um suspiro longo que parecia estar preso no meu peito há horas.Ian fechou a porta com calma. Ele tirou as chaves do bolso, deixou-as sobre o aparador e desabotoou os dois primeiros botões da gola da polo, num gesto simples que pareceu aliviar a tensão do dia. Ele parecia perfeitamente integrado àquele espaço pequeno, uma presença imponente que preenchia a sala de forma quase h
Ian Parker Ajustei a gola da camisa polo enquanto esperava Katy trancar a porta do apartamento. Eu podia sentir o olhar dela cravado em mim, carregado de uma mescla de surpresa e um resquício sutil de preocupação. Para ela, aquele era apenas um café da tarde no andar de baixo; para mim, era um salto no escuro sem qualquer tipo de rede de proteção. Cresci sob a sombra rígida do meu pai e do império financeiro dos Parker, na Itália — uma estrutura sufocante onde o conceito de família era sinônimo de etiqueta rigorosa, conversas estrategicamente calculadas e cobranças implacáveis. Romper com tudo aquilo após a morte da minha mãe e vir para a cidade natal dela no Brasil foi o movimento mais radical da minha vida. Eu precisei erguer a Vanguard Media do zero, ser o sócio majoritário do meu próprio destino, só para provar que a tirania do meu pai não tinha poder sobre mim. Mas a armadura de isolamento continuava ali. Jantares na Itália nunca foram sobre acolhimento. A ideia de entrar na
Katy Nunes O clima de cumplicidade que se instalou na mesa da cozinha era algo quente, quase palpável. Depois de desabafar sobre o encontro com o Júlio e sentir o apoio firme e sem julgamentos do Ian, parecia que um peso enorme tinha sido retirado dos meus ombros. O alívio me trazia uma leveza que eu não experimentava há semanas. Ian continuava segurando a minha mão por cima da mesa, desenhando círculos lentos no dorso dos meus dedos com o polegar. Ele parecia ter relaxado a postura tensa, embora o brilho protetor nos seus olhos ainda estivesse lá, vigilante. Foi nesse exato momento de calmaria que o meu celular, pousado ao lado do prato, começou a vibrar sobre o tampo de madeira, quebrando o silêncio aconchegante da cozinha. Olhei para a tela e vi o nome "Mamãe" piscando. Sorri involuntariamente. Minha mãe tinha o hábito quase mágico de ligar nos momentos em que eu menos esperava, mas em que mais precisava ouvir a voz dela. — Com licença... É a minha mãe — disse, olhando p







