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CAPÍTULO 3

Author: Aldinha B.
last update publish date: 2026-03-12 00:04:14

 Enrico Novaz

"Tem gente que entra na sua vida como uma tempestade. Rápida. Violenta. Barulhenta. Rápida. Violenta. Barulhenta. E outras... como uma maldição.

Silenciosas.

Perigosas.

E que, por algum motivo inexplicável, você sabe que vai deseja e odeia ao mesmo tempo."

Eu ainda não sabia qual das duas Valentina Monteiro seria.

Mas estava prestes a descobrir.

— Senhor Novaz, a senhorita Monteiro chega em uma hora. A senhora Marta pediu que tudo esteja pronto para a apresentação formal.

Fechei a pasta sobre a mesa com mais força do que o necessário.

O som ecoou pelo escritório amplo, silencioso e impecável.

Revirei os olhos.

— Eu não pedi uma recepção.

Meu olhar passou rapidamente pelo ambiente que minha assistente havia preparado.

Mesa organizada.

Água.

Café.

Algumas flores ridículas em um vaso de cristal.

Como se aquilo fosse um encontro social.

— Isso aqui é uma assinatura — continuei. — Não um desfile.

Meu assistente, ajeitou os óculos no rosto, visivelmente desconfortável.

— Ela é... sua noiva, senhor. Talvez seja bom tentar parecer, no mínimo, civilizado.

Soltei um riso curto.

Frio.

— Civilizado? — murmurei com desdém. — Isso é um contrato. Casamento por conveniência. Não tenho que fingir gentileza.

Ele engoliu em seco.

Era sempre assim.

Pessoas que trabalhavam comigo demoravam algumas semanas para perceber que eu não tinha interesse em agradar ninguém.

Depois disso, ou se adaptavam…

Ou iam embora.

— Se precisar de algo — disse ele rapidamente — estarei lá fora.

Assenti sem realmente olhar para ele.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a dominar a sala.

Respirei fundo. Meus dedos tamborilaram sobre a mesa de mogno.

Um hábito antigo.

Um sinal de irritação.

Ou ansiedade.

Franzi a testa.

Por que diabos eu estava nervoso?

Era só mais uma mulher. Uma desconhecida que aceitou se casar comigo por dinheiro. 

Como tantas outras fariam.

Dinheiro tem um talento curioso para convencer pessoas de que suas escolhas são completamente voluntárias.

Inclinei a cadeira para trás.

Olhei pela janela.

Do quadragésimo andar, São Paulo parecia pequena.

Organizada.

Controlável.

Ao contrário das pessoas.

Pessoas são imprevisíveis.

Desleais.

E perigosamente emocionais.

Talvez por isso eu preferisse contratos.

Contratos não mentem.

Contratos não traem.

Contratos não acordam um dia dizendo que estão apaixonados por outra pessoa.

A lembrança veio sem aviso.

Um perfume doce.

Uma risada.

Uma mensagem no celular que não era para mim.

A mandíbula travou.

Afastei o pensamento imediatamente.

Passado é lixo emocional.

E eu não coleciono lixo.

Voltei a olhar para o relógio.

Faltavam cinco minutos.

Ótimo.

Quanto mais rápido essa reunião terminasse, melhor.

Assinatura.

Regras claras.

Casamento em um mês.

Fim da história.

Simples.

Controlado.

Previsível.

Mas então a porta se abriu. 

E o caos entrou.

Ela apareceu primeiro no reflexo do vidro atrás de mim.

Um movimento branco no corredor.

Quando me virei…

O ar pareceu ficar diferente.

Valentina Monteiro entrou na sala como alguém que não estava nem um pouco impressionado com aquele ambiente.

Ela usava um vestido simples, branco, sem frescuras. Cabelo preso, revelando um pescoço elegante, postura firme, e um olhar que me atravessou como uma lâmina.

Direto.

Firme.

Afiado.

Linda.

A palavra apareceu na minha cabeça antes que eu pudesse impedir.

Linda demais.

Muito mais do que eu esperava. 

Muito mais do que eu queria admitir.

— Enrico Novaz? — ela disparou assim que parou na minha frente. — Então é você o babaca que aceitou comprar uma esposa?

Por um segundo, o silêncio na sala foi absoluto.

— Que bom que já sabemos nossos papéis — respondi seco, cruzando os braços. — E você é a mocinha vendida que decidiu bancar a rebelde depois do contrato assinado?

Os olhos dela brilharam.

Raiva.

— Eu fui empurrada pra isso — ela cravou os olhos em mim. — E se pensa que vou sorrir, abaixar a cabeça e me calar... errou de mulher.

Ela deu um passo na minha direção.

Senti o sangue subir. Ela era irritante. Insolente. 

E ainda assim... maldita seja, ela era magnética.

— Acha mesmo que eu quero isso? — falei, me aproximando dela. — Que sonhei em casar com alguém que já vem com um namorado no passado e um rancor no olhar?

Ela não recuou. Nem um milímetro.

Qualquer pessoa normal teria recuado.

Os olhos dela permaneceram cravados nos meus.

Desafiadores.

— Melhor uma mulher com passado do que um homem sem alma.

Meu maxilar travou. O que diabos tinha nessa mulher? 

A cada palavra dela, meu corpo reagia de um jeito que eu odiava. 

O coração acelerava. O desejo queimava. 

E uma parte extremamente inconveniente do meu cérebro começou a perceber algo ainda pior.

Ela era fascinante.

Maldita seja.

A raiva crescia. Só raiva... certo?

— Você tem um mês pra se preparar. O casamento será rápido. Formal. Sem beijos. Sem encenações desnecessárias.

— Ótimo — ela respondeu, virando de costas com o queixo erguido. — Mas só pra avisar... eu posso até ser forçada a me casar, mas me apaixonar por você? Isso nunca vai acontecer.

E saiu da sala com um rebolado sutil, mas poderoso, deixando meu mundo silencioso... e a minha sanidade perigosamente instável.

A porta se fechou.

O silêncio voltou.

Mas algo estava diferente agora.

Fiquei parado no mesmo lugar por alguns segundos.

Olhando para a porta.

Sentindo algo estranho dentro do peito.

Irritação.

Desejo.

Curiosidade.

Uma mistura perigosa.

Passei a mão pelo rosto.

Droga.

De todas as mulheres do mundo…

Justamente aquela tinha que ser a minha esposa por um ano.

Caminhei lentamente até a janela.

Olhei a cidade novamente.

Mas agora minha mente não estava nos negócios.

Nem no contrato.

Nem no testamento do meu avô.

Estava nela.

No olhar desafiador.

Na coragem absurda.

Na forma como ela não recuou.

Pela primeira vez em anos, tive um pensamento extremamente inconveniente.

Talvez esse casamento fosse um erro.

Não porque eu não queria casar.

Mas porque Valentina Monteiro…

Era exatamente o tipo de desastre que um homem como eu deveria evitar.

E, mesmo assim…

Talvez eu já estivesse perigosamente curioso para descobrir até onde aquele desastre poderia ir.

Inferno.

Essa mulher ia me destruir.

 

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