MasukNa noite seguinte, a boate está ainda mais cheia. Entre clientes habituais, convidados importantes e reservas nos camarotes, mal consigo concluir um atendimento antes de ser chamada para outro. O bar trabalha sem pausa, e os funcionários atravessam o salão atentos às bandejas, procurando espaço entre as pessoas que se acumulam perto do palco.
Leo acompanha tudo pessoalmente. Em outras noites, passa parte do tempo no escritório ou no camarote reservado, mas hoje circula entre as mesas, conversa com a equipe e confere o andamento do serviço. Tento me concentrar nos pedidos, embora perceba sua presença antes mesmo de olhar em sua direção. Depois da conversa que tivemos, qualquer encontro exige um esforço que o restante do trabalho não pede.
Estou voltando ao bar quando Carla, a gerente da noite, me chama.
— Lucy, preciso da sua ajuda. Um dos clientes do camarote privado pediu atendimento especial. Quero que você assuma a mesa.
— Eu? — pergunto, ajustando a bandeja contra o corpo.
— Sim. O Leo está acompanhando os convidados. Confira comigo os pedidos antes de subir.
Assinto e escuto as orientações, procurando não me distrair com a informação de que ele estará lá. Depois de conferir o que já foi servido, sigo para o segundo andar. A música perde intensidade à medida que me afasto do salão, e bato na porta indicada.
— Entre.
Reconheço a voz de Leo antes de abrir. O camarote é amplo, com sofás de couro preto e uma iluminação suave que permite enxergar os convidados sem o brilho intenso da pista. Alguns homens de terno conversam com taças nas mãos. Leo está junto à parede e interrompe o que ouve assim que me vê.
— Esta é Lucy — apresenta. — Uma das nossas melhores dançarinas e garçonetes. Ela vai cuidar do atendimento de vocês.
Os homens se voltam para mim. Alguns apenas cumprimentam; outros deixam os olhos percorrerem meu corpo antes de responder. Mantenho a postura e paro perto da mesa, a uma distância que me permite ouvir os pedidos sem precisar me aproximar demais.
— Boa noite, senhores. O que desejam?
Registro as bebidas, confirmo as preferências e me retiro para buscar tudo no bar. Quando retorno, Leo continua no mesmo lugar, agora envolvido na conversa de um dos convidados. Procuro não olhar para ele enquanto organizo as garrafas e sirvo as taças, mas percebo sua atenção quando me inclino para alcançar a outra ponta da mesa.
Termino o serviço e recolho o que não será usado. Estou prestes a sair quando ele me chama.
— Lucy, quero que acompanhe o atendimento deste camarote esta noite.
Olho para ele por um instante antes de responder.
— Claro.
Permaneço perto o suficiente para atender às solicitações e faço algumas idas ao bar para repor as bebidas. Com o passar do tempo, a conversa fica mais alta, as risadas se prolongam e alguns comentários começam a ser dirigidos a mim. Respondo apenas ao que diz respeito ao serviço, mantendo a educação sem incentivar intimidade.
Leo percebe. Vejo sua expressão mudar quando um dos homens insiste em uma brincadeira depois de eu já ter me afastado. Ele conduz a conversa para outro assunto, mas a interrupção dura pouco. Assim que volto para recolher uma taça vazia, o mesmo convidado se inclina em minha direção e estende a mão para o meu braço.
Recuo, e Leo se aproxima antes que o homem tente novamente.
— Ela está aqui para trabalhar. Mantenha as mãos afastadas.
A firmeza de sua voz interrompe a conversa. O convidado recolhe a mão e murmura uma desculpa, olhando para os outros como se esperasse que alguém amenizasse o constrangimento. Ninguém interfere.
Leo se volta para mim e segura meu pulso com cuidado.
— Venha comigo.
Acompanho seus passos até o corredor reservado. Assim que a porta se fecha atrás de nós, ele me solta, mas permanece perto, observando meu rosto.
— Ele chegou a machucar você?
— Não. Eu me afastei.
Leo olha brevemente para a porta, ainda com a expressão fechada.
— Você não deveria ter de lidar com isso.
— Acontece às vezes — respondo. — Eu sei quando chamar a segurança.
— Isso não torna aceitável.
— Eu sei.
O silêncio que se segue muda minha percepção da proximidade entre nós. Até então, estava atenta ao que aconteceu no camarote; agora noto sua mão junto ao meu braço, a respiração ainda tensa e a maneira como seus olhos procuram os meus. Ele roça minha pele com os dedos, num gesto breve, e sinto a mesma inquietação da noite anterior.
— Leo…
Ele baixa o rosto e encosta a testa na minha. Fecho os olhos por um instante, surpresa com o contato, mas não me afasto. Ainda há vozes do outro lado da porta e música vindo do andar de baixo, embora eu precise me esforçar para prestar atenção a qualquer coisa além dele.
— Estou tentando manter distância — murmura. — Mas está ficando difícil.
Sua voz tão próxima me faz erguer o rosto. Nossas bocas estão a poucos centímetros, e percebo que ele também acompanha esse pequeno movimento. Penso no que conversamos, no tempo que pediu e nas razões que continuam existindo, mas nada disso diminui minha vontade de tocá-lo.
— Me diga se quer que eu pare.
Em vez de responder, levo a mão ao peito dele. Sinto o calor através da camisa e mantenho os dedos ali, consciente do que o gesto revela. Leo solta o ar devagar, e sua mão se firma levemente em meu braço enquanto inclina o rosto.
Quero que ele me beije. Já não consigo atribuir minha imobilidade à surpresa, nem fingir que estou apenas esperando que ele decida. Aproximo-me também, sentindo sua respiração junto à minha boca.
Os passos no corredor nos interrompem antes do beijo.
Leo se afasta e olha na direção do som. Retiro a mão de seu peito, tentando recuperar a postura, mas meus dedos ainda guardam a sensação da camisa e do corpo sob ela. Ele passa a mão pelo rosto e leva alguns segundos para voltar a me encarar.
— Volte para o salão, Lucy — diz, com a voz tensa. — Agora.
Assinto, embora a mudança repentina me deixe sem saber o que fazer com tudo o que acabamos de demonstrar. Aliso o tecido da roupa e sigo pelo corredor, diminuindo o passo antes de alcançar a escada. Preciso de alguns segundos para que meu rosto não revele o que aconteceu.
De volta ao trabalho, confiro os pedidos e procuro me ocupar. Consigo atender às mesas, levar as bebidas e responder aos clientes, mas, sempre que tenho um instante de silêncio, lembro da testa de Leo encostada na minha e da maneira como me aproximei quando ele estava prestes a me beijar. A interrupção nos deu a distância que nenhum dos dois procurou naquele momento.
Mais tarde, em casa, demoro a pegar no sono. Revivo a conversa no corredor, tentando entender como passamos tão depressa da preocupação com um cliente àquela proximidade. Também penso no tom com que ele me mandou voltar e me pergunto como vai agir quando nos encontrarmos novamente.
Não sei o que Leo pretende fazer com o que sente, e ainda preciso pensar no que isso pode significar para mim. Mas há uma coisa que já não tenho dificuldade em admitir: quando encostei a mão em seu peito, queria ficar. Se tivéssemos tido mais alguns segundos, eu o teria beijado.
ÚLTIMO CAPÍTULOLUCYOito dias se passam desde meu depoimento, mas a sensação de estar sendo observada não desaparece. Os documentos entregues por Richard confirmaram parte dos desvios cometidos por Bruno, e a polícia conseguiu ligar duas empresas falsas às contas do homem que ele assassinou. A segunda impressão encontrada no carro pertence a Mauro Santiago, primo dele e antigo funcionário de uma das empresas investigadas.Mauro passou a ser vigiado. A polícia acredita que ele esteja escondendo Bruno ou, pelo menos, fornecendo dinheiro, carros e documentos para mantê-lo em movimento.Desde então, nossa rotina se tornou uma sequência de procedimentos. Os seguranças trocam os trajetos dos carros, todas as entregas são verificadas e ninguém entra na propriedade sem autorização. Leo não toma uma decisão sem me consultar, embora eu perceba como cada saída de casa o deixa tenso.Nesta manhã, temos uma consulta marcada. A médica pediu que eu voltasse para repetir alguns exames, e adiar não se
LEONa manhã seguinte, encontro Lucy na cozinha antes mesmo de o sol nascer por completo. Ela está sentada à mesa, usando uma das minhas camisetas, com as pernas recolhidas na cadeira e uma xícara de café com leite presa entre as mãos. Pela quantidade ainda dentro da xícara, sei que não bebeu quase nada.Ela passou a noite acordando a cada barulho. Mesmo cercada por seguranças, câmeras e portões altos, não conseguiu descansar depois da ligação do investigador.Aproximo-me sem fazer movimentos bruscos e puxo a cadeira ao seu lado.— Você devia estar dormindo.— Você também.— Eu dormi um pouco.Lucy me lança um olhar que deixa claro que não acredita. Seguro sua mão e acaricio o anel que coloquei em seu dedo no dia anterior.— Quer me contar o que está pensando?Ela olha para nossas mãos.— Se Bruno está perto, não vai demorar para tentar chegar até mim.— Não sabemos se ele está vindo para cá.— Eu sei como ele pensa.A convicção em sua voz me impede de oferecer qualquer esperança vazia
O sábado amanhece com um céu tão azul que parece recém-pintado. Quando abro os olhos, o lado de Leo está vazio, mas o cheiro de café vindo do corredor me impede de entrar em pânico. Desde que voltamos para esta casa, qualquer ausência inesperada ainda desperta algo ruim dentro de mim.Visto a camiseta dele, que cobre boa parte das minhas coxas, e saio do quarto. Encontro Leo no antigo quarto de hóspedes, espalhando plásticos pelo chão enquanto dois homens da segurança deixam algumas caixas junto à parede. Há latas de tinta, pincéis, ferramentas e uma cômoda desmontada que ele, aparentemente, decidiu comprar sem me consultar.Encostado no batente, observo-o tentar prender uma das extremidades do plástico com o pé. Ele está tão concentrado que não percebe minha presença. O sorriso no rosto faz parecer que está preparando o próprio parque de diversões.— Vai pintar o quarto com a boca de tanto sorrir? — pergunto.Leo se vira. Há uma mancha branca em sua bochecha e outra na barra da camise
LEOChegamos em casa com as sacolas nas mãos e uma imagem do ultrassom guardada no bolso da minha camisa. O carro da segurança estaciona próximo ao portão, e um dos homens desce antes de nós para verificar a entrada. Ainda me incomoda precisar de toda essa proteção, mas basta olhar para Lucy para saber que não posso facilitar enquanto Bruno estiver solto.Ela entra abraçada ao urso de pelúcia, com um sorriso divertido desde que saímos da loja. Não parou de debochar da quantidade de coisas que comprei, embora tenha sido ela quem acrescentou o segundo body à pilha quando achou que eu não estava olhando.— A gente devia guardar tudo em uma caixa especial — sugere, deixando as sacolas sobre o sofá. — A imagem do ultrassom, as primeiras roupinhas, a pulseira da maternidade…— O primeiro sapatinho, o primeiro dente, uma mecha do cabelo…Lucy se vira para mim, estreitando os olhos.— Isso está começando a ficar assustador.— É organização.— É o primeiro sintoma de um pai babão.— Nosso filho
Acordo com o sol entrando preguiçoso pelas frestas da cortina. Por alguns segundos, não sei onde estou. Então sinto o braço pesado ao redor da minha cintura, o calor de um corpo colado às minhas costas e a respiração tranquila contra minha nuca.Leo.As lembranças da noite anterior retornam de uma vez: o banho, a pizza comida na cama, as conversas sobre o bebê, os beijos que demoraram mais do que deveriam. Meu corpo ainda guarda cada toque. Estou dolorida, sensível, com as pernas pesadas e um sorriso impossível de esconder.Viro-me devagar, tomando cuidado para não pressionar o ferimento dele, e descubro que Leo já está acordado.Deitado de lado, ele me observa em silêncio. Há alguma coisa intensa naquele olhar, como se ele ainda precisasse confirmar que não vai desaparecer tudo no instante em que piscar.— Dormiu alguma coisa? — pergunto, com a voz rouca.— Um pouco.— Mentiroso.O canto da boca dele se ergue.— Fiquei olhando para você.— Isso é um pouco assustador, senhor Ávila.— D
Não sei quanto tempo permaneço acordado. A luz atravessa a fresta da cortina e avança pelo chão, enquanto meu braço começa a formigar sob o peso de Lucy. Tento mudar de posição sem despertá-la, mas basta afastar um pouco o ombro para que ela se mova, procurando meu corpo antes mesmo de abrir os olhos. Quando me acomodo outra vez, seus dedos se fecham de leve em minha cintura, e fico quieto, observando o rosto que, durante semanas, só consegui alcançar em lembranças.O telefone vibra sobre o criado-mudo. Estico o braço livre e o pego antes que o ruído se repita. Há uma atualização da equipe responsável pela segurança, curta e sem qualquer novidade que exija minha presença. Leio duas vezes, com a atenção que aprendi a dedicar a mensagens assim, e respondo pedindo que me avisem caso alguma coisa mude. Quando devolvo o aparelho ao lugar, Lucy já está olhando para mim.— Aconteceu alguma coisa?Sua voz ainda está rouca de sono, mas o corpo perde a tranquilidade depressa. Ela ergue a cabeça







