ログインNo dia seguinte, chego à boate mais cedo que o habitual. Preciso conversar com Carla sobre minha escala, mas também quero ter alguns minutos para me preparar antes de encontrar Leo. Passei boa parte da noite lembrando o que aconteceu no corredor, a mão que apoiei em seu peito e a proximidade interrompida pelos passos. Agora, longe dele, consigo pensar nas perguntas que deveria ter feito. O problema é não saber se vou conseguir dizê-las quando estivermos frente a frente.
Carla me vê assim que entro e deixa por um instante o que está conferindo no balcão.
— Lucy, o Leo pediu que você fosse direto à sala dele quando chegasse.
Ajusto a bolsa no ombro, tentando disfarçar a inquietação.
— Ele disse por quê?
— Não. Só pediu que eu avisasse. — Ela me observa brevemente antes de voltar às anotações. — Boa sorte.
A escolha das palavras não ajuda. Penso em perguntar se aconteceu algum problema, mas prefiro descobrir com ele. Subo as escadas devagar e bato na porta do escritório, ainda tentando decidir como vou agir.
— Entre.
Leo está sentado à mesa, com uma pasta de documentos aberta diante de si. Quando me vê, fecha a pasta e apoia os antebraços sobre a mesa. Sua expressão séria me faz parar perto da porta por um instante.
— Sente-se, Lucy.
Obedeço e acomodo a bolsa no colo. Espero que ele fale, mas o silêncio se prolonga enquanto nos observamos. Não encontro em seu rosto a aproximação da noite anterior, e começo a me perguntar se me chamou justamente para encerrar aquilo.
— Estou mudando sua função — diz, por fim.
Franzo a testa.
— Como assim?
— Quero você trabalhando apenas nos bastidores. Supervisão dos figurinos, organização dos camarins e coordenação das entradas no palco. Não vai mais atender os clientes nem fazer as apresentações.
Demoro alguns segundos para compreender o alcance da decisão. Olho para ele, esperando uma explicação que transforme aquilo em uma proposta, mas Leo permanece sério.
— Você está me punindo?
— Claro que não.
— Então por que está mudando meu trabalho de uma hora para outra?
Ele se recosta na cadeira e passa a mão pelos cabelos.
— Porque não quero mais você exposta àquelas situações. Não quero ver outro homem tentando colocar as mãos em você.
A lembrança do camarote me causa desconforto, mas ouvir aquela justificativa não me tranquiliza.
— Leo, esse sempre foi o meu trabalho. O cliente ter passado dos limites não significa que eu fiz alguma coisa errada.
— Não estou dizendo que fez.
— Mas sou eu quem vai deixar de fazer o que fazia.
Sua mandíbula se contrai. Ele olha para a mesa por um instante e volta a me encarar.
— Com você, eu não consigo tratar isso da mesma maneira.
A confissão me atinge, embora não apague a irritação. Aperto a alça da bolsa entre os dedos, tentando manter a voz estável.
— E se eu não quiser mudar de função?
— A decisão é minha, Lucy. Estou informando como vai ser a partir de hoje.
Endireito o corpo na cadeira.
— Isso é autoritário até para você.
— Chame como quiser. Prefiro que fique irritada comigo a ver aquela situação se repetir.
Leo se levanta e contorna a mesa. Acompanho seus movimentos sem saber se quero que se aproxime ou que permaneça onde estava. Quando para diante de mim, preciso erguer o rosto para sustentar seu olhar.
— Não estou fazendo isso apenas como seu chefe — admite. — Estou fazendo como um homem que já não consegue lidar bem com a ideia de outros homens tocando você.
Sinto o calor subir pelo pescoço. Há dias espero que ele seja claro sobre o que sente, mas não imaginei que essa clareza viesse acompanhada de uma decisão sobre meu trabalho.
— Leo…
Ele se agacha diante da cadeira, ficando à altura dos meus olhos. A proximidade dificulta minha tentativa de organizar o que quero dizer.
— Pode ficar com raiva de mim — murmura. — Mas aceite a mudança.
Olho para ele sem responder. Quero acreditar que há cuidado no que está fazendo, e parte de mim se deixa envolver pelo que acabou de confessar. Ainda assim, a conversa termina com a sensação de que minha opinião teve pouco espaço. Saio do escritório levando comigo a nova função e uma inquietação que não consigo resolver apenas com a lembrança de seu olhar.
Passo o restante do dia conhecendo as tarefas dos bastidores. Há figurinos para conferir, peças que precisam de ajustes e uma sequência de apresentações que exige atenção aos horários. O trabalho me agrada mais do que eu esperava. Gosto de organizar o que antes encontrava pronto e de acompanhar os detalhes que permitem que cada dançarina entre no palco sem imprevistos.
Isso, porém, não elimina o incômodo com a maneira como tudo foi decidido. Sempre que penso na conversa, lembro que não tive tempo de avaliar a mudança antes de começar a exercê-la.
Leo aparece nos bastidores diversas vezes. Confere comigo a ordem dos números, pergunta sobre os figurinos e me chama para resolver detalhes que, até então, pareciam passar sem sua supervisão direta. Não sei se está acompanhando minha adaptação ou procurando motivos para se aproximar. Em alguns momentos, quando nossas mãos se encontram ao pegar uma prancheta ou conferir uma peça, nenhum dos dois se afasta tão depressa quanto deveria.
Felícia percebe antes do fim da noite. Enquanto ajeito um figurino no cabide, ela se encosta à bancada e me observa com um sorriso.
— Então agora você é chefe da produção?
— Estou cuidando de algumas coisas por aqui.
— Percebi. — Ela inclina o rosto, procurando meus olhos. — Essa mudança tem a ver com o Leo, não tem?
Continuo alinhando a peça, embora já não haja nada fora do lugar.
— Foi ele quem decidiu.
— Não foi isso que eu perguntei.
Olho para ela, e Felícia ri ao ver minha expressão.
— Ai, amiga… isso ainda vai dar o que falar.
Não consigo acompanhar seu bom humor. Talvez, em outro momento, eu também brincasse, mas ainda estou tentando entender o que Leo quer de mim e por que suas atitudes parecem me aproximar ao mesmo tempo que suas palavras pedem distância.
No fim da noite, recolho alguns figurinos deixados no camarim. A maior parte da equipe já está se preparando para ir embora, e aproveito o silêncio para guardar as últimas peças. Estou dobrando uma delas quando ouço a porta se fechar.
Viro e encontro Leo junto à entrada.
— Está tarde — diz.
— Já estou terminando.
Ele gira a chave na fechadura. O som me faz olhar para sua mão antes de voltar ao rosto dele.
— Leo, o que você está fazendo?
Ele se aproxima, mantendo os olhos nos meus.
— Estou cansado de fingir que não quero estar perto de você.
Seguro o figurino por mais um instante e depois o deixo sobre a bancada. Quando ele dá outro passo, recuo até sentir a parede nas costas. Leo para diante de mim e apoia as mãos dos dois lados da minha cabeça. Não me toca, mas sua proximidade ocupa toda a minha atenção.
— Diga que você também sente isso, Lucy.
Meu coração b**e depressa. Penso em tudo o que tentei esconder durante o dia, nos olhares que evitei e nas vezes em que esperei que ele voltasse aos bastidores. Não tenho como negar sem mentir.
— Eu sinto.
Ele fecha os olhos brevemente. Quando volta a me olhar, sua expressão me faz acreditar que finalmente vai me beijar.
— Diga se quer que eu pare — pede, com a voz baixa.
Não respondo. Quero que ele compreenda o que já admiti, e ergo o rosto enquanto ele se aproxima. Sua respiração alcança minha boca; estou prestes a encostar os lábios nos dele quando Leo interrompe o movimento e apoia a testa na minha.
— Não assim — murmura.
Permaneço imóvel, tentando entender.
— Assim como?
Ele demora a responder. Seus olhos se abrem, mas não encontram os meus de imediato.
— Você merece mais do que eu posso oferecer. Eu não posso te dar um relacionamento cheio de romantismo, Lucy. Não posso ser o homem que você deseja.
A proximidade que, segundos antes, me aquecia começa a me causar um constrangimento difícil de suportar. Não sei o que ele pensa que desejo. Não conversamos sobre isso, não tive a oportunidade de dizer o que espero, mas ele já parece ter chegado a uma conclusão por nós dois.
Leo retira as mãos da parede e se afasta.
— Vá para casa — diz. — Antes que eu faça alguma coisa que não possa desfazer.
Baixo os olhos e mordo o lábio para conter as lágrimas. Gostaria de perguntar por que me procurou, por que trancou a porta e pediu que eu admitisse o que sentia se pretendia me afastar logo depois. As perguntas estão claras na minha cabeça, mas não consigo fazê-las sem revelar o quanto suas palavras me machucaram.
Pego minha bolsa e espero que ele destranque a porta. Não olho para seu rosto quando passo, porque já estou me esforçando demais para sair sem chorar diante dele.
No corredor, caminho até a escada tentando recuperar a respiração. Não sei se o que sinto por Leo já pode ser chamado de amor, mas sei que deixei crescer uma esperança a cada aproximação. Ele me disse que pensava em mim, demonstrou ciúme, procurou minha presença e, quando correspondi, recuou mais uma vez.
Talvez exista desejo entre nós, mas começo a perceber que isso não significa que ele queira me deixar fazer parte de sua vida. Essa diferença dói mais do que eu esperava. Vou embora lembrando o quanto desejei aquele beijo e tentando entender como me proteger de um homem que me chama para perto, mas não permanece comigo quando eu chego.
ÚLTIMO CAPÍTULOLUCYOito dias se passam desde meu depoimento, mas a sensação de estar sendo observada não desaparece. Os documentos entregues por Richard confirmaram parte dos desvios cometidos por Bruno, e a polícia conseguiu ligar duas empresas falsas às contas do homem que ele assassinou. A segunda impressão encontrada no carro pertence a Mauro Santiago, primo dele e antigo funcionário de uma das empresas investigadas.Mauro passou a ser vigiado. A polícia acredita que ele esteja escondendo Bruno ou, pelo menos, fornecendo dinheiro, carros e documentos para mantê-lo em movimento.Desde então, nossa rotina se tornou uma sequência de procedimentos. Os seguranças trocam os trajetos dos carros, todas as entregas são verificadas e ninguém entra na propriedade sem autorização. Leo não toma uma decisão sem me consultar, embora eu perceba como cada saída de casa o deixa tenso.Nesta manhã, temos uma consulta marcada. A médica pediu que eu voltasse para repetir alguns exames, e adiar não se
LEONa manhã seguinte, encontro Lucy na cozinha antes mesmo de o sol nascer por completo. Ela está sentada à mesa, usando uma das minhas camisetas, com as pernas recolhidas na cadeira e uma xícara de café com leite presa entre as mãos. Pela quantidade ainda dentro da xícara, sei que não bebeu quase nada.Ela passou a noite acordando a cada barulho. Mesmo cercada por seguranças, câmeras e portões altos, não conseguiu descansar depois da ligação do investigador.Aproximo-me sem fazer movimentos bruscos e puxo a cadeira ao seu lado.— Você devia estar dormindo.— Você também.— Eu dormi um pouco.Lucy me lança um olhar que deixa claro que não acredita. Seguro sua mão e acaricio o anel que coloquei em seu dedo no dia anterior.— Quer me contar o que está pensando?Ela olha para nossas mãos.— Se Bruno está perto, não vai demorar para tentar chegar até mim.— Não sabemos se ele está vindo para cá.— Eu sei como ele pensa.A convicção em sua voz me impede de oferecer qualquer esperança vazia
O sábado amanhece com um céu tão azul que parece recém-pintado. Quando abro os olhos, o lado de Leo está vazio, mas o cheiro de café vindo do corredor me impede de entrar em pânico. Desde que voltamos para esta casa, qualquer ausência inesperada ainda desperta algo ruim dentro de mim.Visto a camiseta dele, que cobre boa parte das minhas coxas, e saio do quarto. Encontro Leo no antigo quarto de hóspedes, espalhando plásticos pelo chão enquanto dois homens da segurança deixam algumas caixas junto à parede. Há latas de tinta, pincéis, ferramentas e uma cômoda desmontada que ele, aparentemente, decidiu comprar sem me consultar.Encostado no batente, observo-o tentar prender uma das extremidades do plástico com o pé. Ele está tão concentrado que não percebe minha presença. O sorriso no rosto faz parecer que está preparando o próprio parque de diversões.— Vai pintar o quarto com a boca de tanto sorrir? — pergunto.Leo se vira. Há uma mancha branca em sua bochecha e outra na barra da camise
LEOChegamos em casa com as sacolas nas mãos e uma imagem do ultrassom guardada no bolso da minha camisa. O carro da segurança estaciona próximo ao portão, e um dos homens desce antes de nós para verificar a entrada. Ainda me incomoda precisar de toda essa proteção, mas basta olhar para Lucy para saber que não posso facilitar enquanto Bruno estiver solto.Ela entra abraçada ao urso de pelúcia, com um sorriso divertido desde que saímos da loja. Não parou de debochar da quantidade de coisas que comprei, embora tenha sido ela quem acrescentou o segundo body à pilha quando achou que eu não estava olhando.— A gente devia guardar tudo em uma caixa especial — sugere, deixando as sacolas sobre o sofá. — A imagem do ultrassom, as primeiras roupinhas, a pulseira da maternidade…— O primeiro sapatinho, o primeiro dente, uma mecha do cabelo…Lucy se vira para mim, estreitando os olhos.— Isso está começando a ficar assustador.— É organização.— É o primeiro sintoma de um pai babão.— Nosso filho
Acordo com o sol entrando preguiçoso pelas frestas da cortina. Por alguns segundos, não sei onde estou. Então sinto o braço pesado ao redor da minha cintura, o calor de um corpo colado às minhas costas e a respiração tranquila contra minha nuca.Leo.As lembranças da noite anterior retornam de uma vez: o banho, a pizza comida na cama, as conversas sobre o bebê, os beijos que demoraram mais do que deveriam. Meu corpo ainda guarda cada toque. Estou dolorida, sensível, com as pernas pesadas e um sorriso impossível de esconder.Viro-me devagar, tomando cuidado para não pressionar o ferimento dele, e descubro que Leo já está acordado.Deitado de lado, ele me observa em silêncio. Há alguma coisa intensa naquele olhar, como se ele ainda precisasse confirmar que não vai desaparecer tudo no instante em que piscar.— Dormiu alguma coisa? — pergunto, com a voz rouca.— Um pouco.— Mentiroso.O canto da boca dele se ergue.— Fiquei olhando para você.— Isso é um pouco assustador, senhor Ávila.— D
Não sei quanto tempo permaneço acordado. A luz atravessa a fresta da cortina e avança pelo chão, enquanto meu braço começa a formigar sob o peso de Lucy. Tento mudar de posição sem despertá-la, mas basta afastar um pouco o ombro para que ela se mova, procurando meu corpo antes mesmo de abrir os olhos. Quando me acomodo outra vez, seus dedos se fecham de leve em minha cintura, e fico quieto, observando o rosto que, durante semanas, só consegui alcançar em lembranças.O telefone vibra sobre o criado-mudo. Estico o braço livre e o pego antes que o ruído se repita. Há uma atualização da equipe responsável pela segurança, curta e sem qualquer novidade que exija minha presença. Leio duas vezes, com a atenção que aprendi a dedicar a mensagens assim, e respondo pedindo que me avisem caso alguma coisa mude. Quando devolvo o aparelho ao lugar, Lucy já está olhando para mim.— Aconteceu alguma coisa?Sua voz ainda está rouca de sono, mas o corpo perde a tranquilidade depressa. Ela ergue a cabeça







