تسجيل الدخولAcordei antes do despertador tocar.
Por um instante, fiquei deitada, observando a claridade suave que entrava pelas frestas da cortina do meu quarto. Roma parecia respirar devagar naquela manhã e eu tentava acompanhar o ritmo. Hoje era o dia. O dia de enfrentar a agência, preencher formulários, ser avaliada, julgada, medida. O dia de admitir para alguém além de Pietra que eu estava grávida… e sozinha.
Levei a mão à barriga. Ainda não estava tão evidente para uma estranha, mas para mim era impossível ignorar. Já era uma presença constante, um peso leve e ao mesmo tempo enorme, como uma lembrança permanente de que a minha vida tinha virado de cabeça para baixo desde o verão passado.
E sim, eu pensava nele. Mais do que deveria. Mais do que gostaria.
Romeo tinha uma carreira colossal, uma filha, uma vida inteira que não incluía uma grávida desconhecida que ele conheceu numa noite impulsiva. Ele não era responsável por mim e eu me recusava a amarrar alguém à minha vida por obrigação.
Eu precisava construir meu caminho sozinha. Por mim… e pela criança.
Respirei fundo, me obrigando a levantar. No espelho do banheiro, a imagem me pareceu estranhamente firme. Olhos cansados, mas decididos. A roupa simples, mas arrumada. O batom discreto que Pietra insistiu para eu usar “porque faz você parecer confiante”.
— Vamos lá — murmurei para mim mesma.
E saí.
O prédio da agência de empregos cheirava a tinta fresca e café barato. Pessoas iam e vinham, algumas com pastas nas mãos, outras com expressões que refletiam exatamente o que eu sentia: expectativa misturada com medo.
A recepcionista apontou para um conjunto de cadeiras. Sentei-me, segurando a pasta com força, como se ela fosse um escudo. Meu nome foi chamado poucos minutos depois, mas a ansiedade fez parecer horas.
A entrevistadora era uma mulher elegante, sorriso profissional, olhar rápido como o de quem já viu todos os tipos de candidatos.
— Stella Monteiro Albanese? — Ela inclinou a cabeça. — Pode entrar.
Caminhei até a mesa, tentando manter os ombros retos. A pior parte começou ali: fichas, documentos, questões sobre experiências, habilidades, disponibilidade. Eu respondia tudo com calma, mesmo sabendo que a gravidez seria um obstáculo. Não havia como ignorá-la.
E então veio o momento inevitável.
— Você mencionou disponibilidade para trabalhar em horários flexíveis — ela disse, digitando algo. — Há alguma limitação que eu deva saber? Algum motivo para não conseguir realizar determinadas atividades?
Minhas mãos suaram. Eu engoli seco.
— Estou grávida — respondi. — Quatro meses.
Ela piscou devagar. Não houve pena. Não houve sorriso. Apenas um ajuste do corpo na cadeira e mais perguntas.
— Isso implica alguma restrição médica?
A palavra “preciso” saiu carregada demais. Senti a vergonha queimando no peito. Aquela mulher não precisava saber da minha vida, do divórcio, do casamento quebrado, da noite em que perdi o controle e busquei conforto nos braços de alguém que nunca mais veria. Ela não precisava saber que eu recomeçava do zero, num país que ainda não era meu.
Mas meu coração latejava forte, denunciando tudo o que eu tentava esconder.
A entrevistadora apenas anotou algo.
— Certo. Obrigada pela sinceridade. Vamos analisar seu perfil e entraremos em contato.
Acabou.
Eu agradeci e saí da sala com a sensação de que meu corpo havia sido drenado. Cada passo parecia mais pesado.
Precisava de ar.
O saguão da agência tinha grandes paredes de vidro e uma televisão pendurada na coluna central. Eu me apoiei no corrimão por um segundo, inspirando fundo. A náusea típica da manhã veio, mas passou rápido.
Foi quando ouvi um som familiar.
Violões. A vibração de uma plateia. Uma voz que eu conhecia como se ainda estivesse a poucos centímetros do meu ouvido.
Levantei a cabeça.
A televisão estava transmitindo um programa musical ao vivo. E ele estava ali.
Romeo.
Meu coração simplesmente parou.
Ele usava uma camiseta preta simples, o cabelo bagunçado de um jeito que parecia calculado e natural ao mesmo tempo. As tatuagens apareciam parcialmente no braço, e o sorriso dele — aquele sorriso — mexeu com algo dentro de mim que eu não queria nomear.
Ele falava da turnê, das noites sem dormir, do último show em Paris.
Até que o repórter fez a pergunta.
— Romeo, sua nova música explodiu nas paradas. A melodia é intensa, mas a letra… é muito pessoal. Qual foi a inspiração dessa composição?
Romeo sorriu de lado. Um sorriso curto. Um sorriso que eu reconhecia.
E então ele olhou para a câmera.
Diretamente.
Como se soubesse que alguém estava assistindo.
— A garota que conheci no último verão — disse. — Talvez tenha sido só uma noite, mas não esqueci.
A frase atravessou o saguão como um tiro.
Meu corpo inteiro congelou. Sua voz ecoou dentro de mim, como se repetisse para garantir que eu não perderia nenhuma sílaba.
A garota que conheci no último verão.
Uma noite.
Não esqueci.
A visão ficou turva.
Minhas mãos tremeram.
A pasta que eu segurava escorregou dos meus dedos e caiu no chão, os papéis se espalhando pelo piso liso. Não consegui me mover imediatamente. O ar faltou. Meu coração batia alto demais.
Ele… ainda pensava em mim. E, naquele exato momento, como se tivesse ouvido também, o bebê mexeu. Forte. Um movimento inesperado, intenso, como uma resposta ou um aviso.
A respiração saiu em um soluço silencioso.
Romeo me lembrava.
A casa está silenciosa de um jeito que só existe quando a noite já se acomodou em cada canto. Não é um silêncio vazio — é cheio de respirações pequenas, de passos que já aconteceram, de histórias que continuam mesmo quando ninguém fala.Elisa finalmente adormeceu.Ela tem sete meses agora, e dormir se tornou um ritual quase sagrado. O banho morno, a luz baixa, o cheiro do hidratante infantil que sempre me faz sorrir, como se o mundo pudesse caber naquele aroma. Eu a embalo devagar, sentindo o peso suave do corpo contra o meu peito, observando os cílios longos descansarem sobre as bochechas redondas. Quando a coloco no berço, ela suspira, como se estivesse concordando com o descanso.— Boa noite, meu amor — sus
O mar está calmo hoje.Há dias em que ele se agita, como se quisesse lembrar ao mundo que ainda é indomável, mas hoje… hoje ele apenas respira. Vai e volta na areia com um som suave, constante, quase como um coração tranquilo batendo no ritmo certo.Estou sentado em uma espreguiçadeira, os pés afundados na areia morna, e pela primeira vez em muito tempo não sinto aquela inquietação antiga dentro do peito. Aquela urgência que sempre me empurrou para o próximo show, o próximo contrato, o próximo aplauso.Hoje, eu fico.À minha frente, Stella está ajoelhada na areia, vestindo um vestido leve que o vento insiste em brincar. O cabelo preso de qualquer jeito, alguns
O iate corta o mar como se soubesse exatamente para onde estamos indo.O som da água batendo no casco é constante, quase hipnótico, e o sol reflete na superfície azul como milhares de promessas cintilando ao mesmo tempo. Eu observo da proa, os cabelos soltos sendo levados pelo vento, enquanto as meninas correm pelo convés rindo, livres, felizes — com aquele tipo de felicidade que só existe quando o mundo parece seguro.Seguro.Essa palavra nunca fez tanto sentido.Romeo alugou o iate inteiro para a lua de mel. Não apenas para nós dois, mas para a nossa família. Há uma babá experiente que acompanha as meninas com uma atenção amorosa, um chef que prepara pratos que parecem pequen
O cheiro da grama recém-cortada se mistura ao aroma suave das uvas maduras que cercam a vinícola dos meus pais. Chianti nunca pareceu tão viva quanto hoje. O sol da tarde atravessa as folhas da figueira centenária, criando sombras delicadas sobre o altar simples de madeira clara, decorado apenas com flores brancas e ramos verdes — como Stella pediu. Nada exagerado. Nada que roubasse o que realmente importava.Ainda assim, meu coração bate como se quisesse sair do peito.Estou ao lado dos meus pais, sentindo a mão firme do meu pai apertar meu ombro de leve, em um gesto silencioso que diz mais do que palavras jamais conseguiriam. Minha mãe sorri com os olhos marejados, segurando um lenço que ela jura não precisar, mas todos sabemos que vai.Os co
Eu não percebo quando começa.Só sei que estou sentada à escrivaninha do escritório, a casa silenciosa demais para o horário, o cursor piscando na tela do computador como se estivesse me cobrando alguma coisa. Escrevo uma frase. Apago. Escrevo outra. Minhas mãos estão frias, mesmo com o aquecedor ligado. O chá ao meu lado já esfriou há muito tempo.Há dias em que escrever é refúgio.Hoje, parece confronto.As palavras que surgem não são da história que eu deveria estar criando. São lembranças. Sensações. Fragmentos de uma versão minha que eu pensei ter deixado para trás.Meu peito aper
A casa dos meus pais tem um silêncio diferente à noite.Não é vazio. É denso. Carregado de histórias que já foram ditas ali, de decisões tomadas em mesas de madeira maciça, de risadas altas que ecoaram por décadas e agora descansam nos corredores. Estaciono o carro devagar, desligo o motor e fico alguns segundos parado, olhando para a luz acesa no escritório do meu pai.Ele sempre fica acordado até tarde.Respiro fundo antes de entrar. Não porque tenho medo da conversa — mas porque sei que ela vai mexer em coisas que eu evitei por tempo demais.Bato duas vezes na porta aberta.— Entra — a voz de Lorenzo vem firme, mas cansada.







