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Capítulo 5

Autor: Dzel
last update Data de publicação: 2026-08-03 21:21:47

Se a Dra. Maria Júlia soubesse o quanto a expressão de choque no seu rosto era fascinante, ela teria tentado disfarçar.

A forma como a cor fugiu da sua pele, a boca perfeitamente desenhada ficando ligeiramente entreaberta e os olhos arregalados me encarando como se eu fosse um fantasma,ou o próprio diabo, valeu cada segundo da espera. A garota audaciosa que ontem à noite me deu um perdido na boate, deixando apenas o rastro do perfume no meu terno, agora parecia ter engolido a própria língua no meio do meu escritório.

Dei dois passos lentos na direção dela, apreciando o silêncio tenso que tomou conta da sala. Coloquei as mãos nos bolsos da calça e mantive o meio sorriso de canto que eu sabia que a desestabilizava.

— É... "você" repeti a palavra dela, saboreando cada sílaba.

— O mundo é realmente um lugar pequeno, não é, doutora? Ou talvez o Rio de Janeiro seja pequeno demais para você fugir de mim.

Ela piscou algumas vezes, tentando desesperadamente recuperar o controle e a postura profissional. Cruzou os braços, mas notei o leve treor em suas mãos.

— Marcos... — ela murmuro, a voz saindo quase como um sopro.

— Marcos Vance — completei, me apresentando formalmente com o tom aveludado que usei na noite anterior.

— Para o asfalto, para a imprensa e para a justiça, um empresário do ramo imobiliário. Mas, aqui dentro, como você já deve ter percebido pelos rapazes de fuzil lá fora... eu sou a palavra final. Sou o dono deste lugar.

Ela engoliu em seco. Deu um meio passo para trás, encarando o luxo do escritório e depois voltando os olhos para mim.

— O homem do bar... é o chefe da favela, ela constatou, como se ainda estivesse tentando montar o quebra-cabeça na cabeça.

— O próprio, dei uma risada baixa, curtindo a confusão mental dela.

— Mas não se preocupe, Maria Júlia. Não costumo morder... a menos que me peçam com carinho. E ontem à noite me pareceu que a química era boa demais para terminar com você escapando pela porta dos fundos.

— Eu tive meus motivos, ela rebateu rápido, recuperando uma fração do gênio forte que demonstrou ontem.

— E eu vim aqui por causa de uma proposta de trabalho, não para...

— Eu sei exatamente por que você veio, interrompi, caminhando até a mesa e pegando o paletó. Envejei o desespero velado no olhar dela quando percebeu que eu estava no controle absoluto da situação. — E vamos falar de trabalho. Venha comigo.

Caminhei até a porta e a abri, fazendo um sinal para que ela me acompanhasse. Assim que pisamos no corredor e descemos pelo elevador privado, percebi a rigidez no corpo dela. Chegando à rua, a comunidade estava em seu ritmo normal, mas a nossa presença mudou a dinâmica da viela. Por onde eu passava, os moradores acenavam com respeito, e os homens armados baixavam levemente a cabeça.

Maria Júlia olhava para os lados como se estivesse pisando em um campo minado. Ver o pavor estampado no olhar daquela mulher tão inteligente e instruída era um divertimento à parte para mim.

— Relaxa, doutora, comentei baixinho, me aproximando do ouvido dela enquanto caminhávamos lado a lado pelas ruas da Rocinha.

— Você está andando com o homem mais poderoso dessa região. Ironia da vida: aqui dentro, sob a minha proteção, você estará infinitamente mais segura do que em qualquer rua da Zona Sul. Ninguém encosta um dedo em você. Ninguém nem olha de lado.

Ela manteve a cabeça erguida, mas o peito subia e descia rápido.

— E como funciona tudo por aqui? ela perguntou, tentando soar estritamente profissional.

— Simples. Eu mantenho a ordem, eu mando e todos obedecem a polícia não entra para esculhambar morador porque sabe o preço, e o crime violento não tem espaço aqui. Eu garanto o remédio, a comida e a paz dos moradores. Em troca, exijo respeito e silêncio.

Chegamos em frente ao posto de saúde. A estrutura era simples, mas limpa. Parei na entrada e me virei para ela, cruzando os braços e encarando-a com firmeza. A brincadeira na minha voz deu lugar a um tom mais sério, cirúrgico, que fez ela congelar no lugar.

— O posto é seu. O trabalho é salvar vidas: moradores, crianças, idosos... e, quando necessário, os meus homens. Tudo o que você precisar para trabalhar, equipamentos, remédios, reformas, é só me pedir. Você terá recursos que nenhum hospital público do Estado jamais sonhou em te dar, além de atender quero que você seja responsável pelas contratações de mais médicos se for necessário, mas tudo tem que passar primeiro por mim.

Ela assentiu devagar, processando cada palavra.

— Mas preste atenção em uma regra de ouro, Maria Júlia,continuei, dando um passo à frente e diminuindo o espaço entre nós. O medo nos olhos dela era palpável, e ver aquilo me dava uma sensação estranha de domínio.

— Tudo o que você vir, ouvir ou medicar dentro deste morro, morre aqui dentro. Não existe prontuário para a polícia, não existe fofoca no asfalto. Linguarudo por aqui não tem segunda chance. X9 que fala demais, morre. Entendeu o recado?

O ar pareceu faltar nos pulmões dela. O susto foi tão grande que ela deu um pequeno nó na garganta antes de conseguir responder.

— Eu... eu sou médica. Meu compromisso é com a ética e com a vida dos pacientes. Não sou informante de ninguém, a resposta veio firme, apesar do tremor perceptível na voz.

— Excelente resposta, voltei a sorrir, apreciando a coragem que ela encontrava lá no fundo.

— Agora vamos à parte boa. Vamos falar dos seus benefícios.

Caminhei com ela para a sombra da entrada do posto.

— O salário é o triplo do que qualquer clínica da Zona Sul pagaria a uma recém-formada. Pagamento sempre no primeiro dia do mês, em conta ou em espécie, como preferir. Segurança particular para ir e vir da sua casa até a entrada da comunidade todos os dias. E, claro, a garantia absoluta de que a sua família no subúrbio estará protegida por mim. Ninguém vai mexer com a filha do mecânico.

Maria Júlia arregalou os olhos novamente ao ouvir a menção ao pai dela. Ela percebeu naquele instante que eu já sabia tudo sobre a sua vida. A teia estava completamente montada.

Ela encarou o posto de saúde, depois olhou para mim. Era a oportunidade da vida dela, a chance de sair do sufoco financeiro, embrulhada em um pacote perigoso chamado Marcos Vance.

— E então, Dra. Maria Júlia? Aceita o contrato? perguntei, estendendo a mão para ela.

Ela olhou para a minha mão estendida, hesitou por três longos segundos, soltou um suspiro pesado e finalmente me cumpriu. A pele macia dela contra a minha trouxe de volta a memória elétrica da boate.

— Eu aceito, ela disse, sustentando meu olhar.

— Perfeito,fechei a mão ao redor da dela com um pouco mais de força do que o necessário, sem soltar. Olhei no fundo dos seus olhos e deixei o tom profissional de lado, voltando a ser o homem da noite anterior.

— Como selamento do nosso acordo... você deve me um jantar.

Ela travou, surpresa.

— O quê?

— Você me deve um jantar pelo perdido de ontem à noite. E como seu novo chefe e protetor, não aceito recusas. Hoje, às nove. Passo para te pegar.

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