LOGINAcordei antes de Bella.Algo muito raro. Muito, muito raro mesmo. Normalmente ela conseguia transformar qualquer manhã tranquila numa verdadeira competição olímpica de barulho, pulo e voz alta — parecia que o sol não podia nascer sem que ela já estivesse correndo pelos cantos, cantando, chamando, fazendo da casa um lugar cheio de vida. Mas hoje ,nesse dia… não. O silêncio vinha antes do Aquele telefonema de Leandro me deixou pior, não porque ele sumiu.Isso é do feitio dele,as vezes não conheço ele direito, não sei se ele some por medo ou querendo resolver as coisas.Fui até a cozinha devagar, na ponta dos pés, como se não quisesse que o dia me notasse ainda. Coloquei água para ferver. O som da água enchendo a chaleira foi a primeira coisa que ouvi, suave, familiar. Abri a janela e o ar fresco da manhã entrou devagar, trazendo o cheiro de grama molhada e café de longe.Na casa da frente, uma mulher regava as plantas com calma, o jato d’água brilhando no sol que começava a aparecer. Um
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a casa inteira, que
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
ConsequênciasEu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes, de adesivos para enfeitar o caderno. E me







