LOGIN— Arthur, estou com saudades. Quando vem me ver?
A voz feminina saiu doce e melosa do celular.
Não precisei ouvir seu nome para saber quem era.
Samantha Novais.
A mulher com quem Arthur me traía.
Permaneci ao lado dele, sentindo a raiva crescer dentro de mim. Queria arrancar o telefone de suas mãos e exigir que me explicasse tudo. Queria saber há quanto tempo aquilo acontecia e como ele conseguira me enganar sem que eu percebesse.
Mas não podia fazer nada.
Não podia tocá-lo.
Não podia pegar o celular.
Não podia sequer obrigá-lo a olhar em minha direção.
Eu estava morta.
Restava-me apenas observar.
Arthur ajeitou-se na cadeira.
Então aconteceu algo que me machucou mais do que eu esperava.
A frieza habitual desapareceu de seu rosto.
Ele sorriu.
Não aquele sorriso arrogante que eu conhecia.
Era diferente.
Suave.
Carinhoso.
E sua voz, quando respondeu a Samantha, carregava uma delicadeza que eu jamais havia recebido.
— Não fique assim. Só você está no meu coração. Ainda preciso ficar com Cecília. Meu pai está me pressionando para marcar o casamento.
Senti como se alguma coisa se quebrasse dentro de mim.
Aquela forma carinhosa de falar...
Aquele tom suave...
A preocupação em tranquilizá-la...
Nada daquilo jamais havia sido dirigido a mim.
Durante todo o tempo em que estivemos juntos, acreditei que Arthur fosse apenas um homem reservado. Pensava que ele não sabia demonstrar sentimentos ou que precisava de mais tempo para aprender a ser carinhoso.
Quantas vezes tentei justificar sua frieza?
Quantas vezes disse a mim mesma que cada pessoa amava de uma maneira diferente?
Agora compreendia a verdade.
Arthur sabia ser gentil.
Sabia falar com carinho.
Sabia tranquilizar uma mulher.
Sabia sorrir durante uma conversa.
Ele apenas nunca havia feito nada daquilo comigo.
Meu coração se partiu naquele momento.
A morte não me impedia de sentir dor.
Ao contrário, parecia tornar tudo mais intenso.
Permaneci olhando para aquele rosto que conhecia tão bem e que, ao mesmo tempo, parecia pertencer a um desconhecido.
Quem era o verdadeiro Arthur?
O homem frio que estivera ao meu lado?
Ou aquele que agora sorria enquanto conversava com Samantha?
Talvez eu nunca tivesse conhecido nenhum dos dois.
Arthur continuou conversando com a amante.
Sua voz permanecia leve e carinhosa. Em alguns momentos, sorria discretamente. Em outros, respondia com palavras que eu sempre desejara ouvir.
A melosidade entre os dois embrulhava meu estômago.
Já não sabia o que doía mais: descobrir que fora traída ou perceber que o homem com quem pretendia me casar nunca me amara.
Como pude permitir que aquele homem entrasse na minha vida?
Como consegui levá-lo para dentro da minha casa, apresentá-lo à minha família e acreditar que ele seria o homem com quem passaria o restante dos meus dias?
A lembrança de minha casa surgiu de repente.
Uma tristeza profunda tomou conta de mim.
Pensei em meus pais, que sempre me trataram como uma verdadeira princesa. Desde pequena, recebera amor, atenção e proteção. Os dois faziam tudo o que podiam para me ver feliz.
Minha mãe estava sempre preocupada com cada detalhe da minha vida.
Meu pai tentava me proteger de qualquer sofrimento.
Nunca me faltara carinho.
Nunca me faltara uma família.
Depois, pensei em meu irmão.
Bonito, inteligente e responsável, ele já administrava a empresa da família e, em pouco tempo, se tornaria o principal chefe dos negócios.
Apesar da postura séria que mantinha diante dos funcionários, comigo ele era apenas o irmão protetor que sempre estivera ao meu lado.
Era impossível imaginar como reagiria ao descobrir que eu havia morrido.
Meu irmão certamente procuraria respostas.
Não aceitaria facilmente minha morte.
Tentaria encontrar o culpado e descobrir exatamente o que havia acontecido.
Mas como poderia ajudá-lo?
Como poderia contar a verdade se ninguém era capaz de me ouvir?
Uma dor sufocante atravessou minha alma.
Ao imaginar o momento em que minha família descobrisse minha morte, senti-me ainda mais desesperada.
Minha mãe perderia as forças.
Meu pai tentaria permanecer firme diante de todos, mas eu sabia que ele sofreria profundamente.
Meu irmão não descansaria enquanto não encontrasse o responsável.
A vida parecia cruel demais.
Por que eu?
Por que tudo precisava ter acontecido daquela maneira?
Nunca desejei o mal de ninguém. Sempre acreditei que pessoas boas receberiam coisas boas em troca.
Naquele momento, porém, não conseguia enxergar qualquer justiça no mundo.
Havia perdido a vida.
Fora traída pelo homem que deveria me amar.
Meu corpo permanecia desaparecido.
E agora minha família corria o risco de nunca descobrir o que realmente me acontecera.
Arthur continuava conversando com Samantha, completamente alheio à minha presença.
Eu queria ir embora.
Queria me afastar dele.
Queria procurar minha família, mesmo que não pudesse falar com ninguém.
A dor de deixar para trás as pessoas que tanto me amavam era imensa, mas permanecer ao lado de Arthur parecia uma punição ainda pior.
Tentei me afastar.
Caminhei alguns passos, decidida a abandonar aquele lugar, mas senti novamente a força invisível que me impedia de seguir adiante.
Era como se uma corrente prendesse minha alma a Arthur.
Quanto mais tentava me distanciar, maior era a resistência.
Eu não entendia o motivo.
Por que estava ligada a ele?
O que ainda precisava descobrir?
Meu pensamento voltou para minha família.
Será que meus pais já estavam preocupados?
Será que haviam tentado falar comigo?
Será que meu irmão começaria a me procurar?
Desejava desesperadamente que alguém percebesse meu desaparecimento.
Queria que encontrassem meu corpo.
Queria que descobrissem a verdade.
Mesmo morta, precisava voltar para casa.
Precisava receber ao menos uma despedida digna.
Foi então que um som chamou minha atenção.
O celular de Arthur vibrou outra vez.
A ligação com Samantha havia terminado, e uma nova notificação surgiu no visor.
Olhei para a tela.
A princípio, acreditei que fosse outra mensagem da amante.
Porém, ao enxergar o nome do remetente, fiquei completamente imóvel.
Meu coração pareceu parar.
Aproximei-me rapidamente do aparelho.
Não podia ser verdade.
Talvez tivesse lido errado.
Talvez minha mente estivesse confundindo as letras.
Mas o nome continuava ali, brilhando na tela do celular de Arthur.
**Cecília.**
A mensagem havia sido enviada por mim mesma.
Michael não se levantou de imediato. Ficou olhando para a xícara que não tinha bebido, como se a palavra que Caio acabara de dizer precisasse de tempo para atravessar a sala, e eu fiquei olhando para ele, esperando que negasse, que rissse, que explicasse. Ele não fez nada disso.— Diga que desço em cinco minutos — falou, por fim, ajeitando a gravata que já estava no lugar. — E mande pôr mais um lugar à mesa. O senhor Seixas nunca vem só para um café.— Já mandei, senhor. — Caio hesitou na porta. — E, se servir de consolo, o mensageiro confirmou a entrega. O envelope está na delegacia há meia hora. Pelo menos uma coisa hoje saiu do jeito que o senhor queria.Michael assentiu sem responder. Antes de sair, pousou a mão sobre o meu livro, que continuava na mesa ao lado da xícara, e deixou-a ali por um instante, como quem se despede de alguém. Depois desceu, e eu desci atrás dele, com aquela coisa sem nome ainda presa no peito. Eu não tinha o direito de sentir nada. Estava morta, ele não m
Ninguém se mexeu depois que a mensagem apareceu. O técnico continuava curvado sobre o notebook, com as mãos suspensas acima do teclado, como se qualquer toque pudesse fazer chegar outra frase, e o assistente tinha dado dois passos na direção da janela sem perceber, do jeito que as pessoas fazem quando sentem que estão sendo observadas. Só Michael permaneceu exatamente onde estava. Leu a mensagem uma vez, devagar, e eu vi os olhos dele voltarem ao fim da frase e pararem no próprio nome.— Desconecte o aparelho — disse, por fim. — Agora. E anote o horário exato em que isso chegou, até o segundo.— Já desliguei, senhor. — O técnico afastou as mãos do teclado como quem solta um fio desencapado. — Zero hora e dezoito minutos. Mas, se me permite, isso não devia ser possível. Ninguém sabia que o aparelho estava ligado. A não ser que...— A não ser que alguém estivesse só esperando que ele acordasse. — Michael completou a frase sem levantar a voz. — Eles não precisavam saber onde estávamos, D
Passei a madrugada tentando lembrar uma palavra. Repeti o alfabeto, pensei em nomes, datas, apelidos, músicas da infância. Nada. No lugar onde a senha deveria estar, havia só aquele branco liso, sem marca nenhuma, como se alguém o tivesse apagado com cuidado. Tudo o que eu tinha descoberto antes de morrer estava trancado naquela pasta.— Preciso voltar para casa — eu disse, olhando para o homem que ainda dormia e para o meu livro sobre a mesa de cabeceira.Nenhuma reação. Essa era uma das coisas mais cruéis da morte: saber exatamente o que fazer e não ter controle nenhum sobre o próprio caminho.***Naquela mesma noite, na Mansão Luau, Josias tinha reunido algumas pessoas para jantar: dois diretores da empresa, um casal de sócios antigos e Samantha, apresentada a todos como "uma consultora que tem nos ajudado muito". Arthur passou o jantar quase calado, logo ele, que sempre sabia a hora exata de sorrir. Olhava o celular por baixo da mesa a cada poucos minutos, e a tela mostrava sempre
Por que você ainda não conseguiu partir? A pergunta ficou no quarto depois que a figura sumiu, como um perfume que não vai embora. O homem misterioso dormia, o meu livro continuava na mesa de cabeceira e eu, pela primeira vez desde a minha morte, não pensei no beco. Pensei no que veio antes dele. Talvez algumas respostas não estivessem na noite em que me mataram, e sim nos meses em que eu fingi não ver.***Meses antes de morrer, eu quase terminei com Arthur. Não houve uma grande descoberta, nenhuma mensagem comprometedora, nenhum flagrante. Foi pior: num dia qualquer, percebi que já não reconhecia o homem com quem ia me casar. Ele vivia ocupado, entre reuniões, viagens e problemas na empresa. Quando eu reclamava, dizia que eu precisava entender as responsabilidades dele; quando eu perguntava onde estava, dizia que eu queria controlá-lo; quando eu ficava triste, dizia que eu fazia drama. Até a noite em que eu não aguentei.Estávamos no jardim da minha casa, debaixo da figueira onde o
Voltamos para a mansão tarde da noite. O homem misterioso levava a pasta de couro debaixo do braço, com o meu livro dentro, e no banco da frente o assistente segurava um saco escuro e lacrado, onde o meu celular viajava isolado de qualquer sinal. Ninguém o ligaria antes que os técnicos o examinassem; essa tinha sido a ordem. Eu olhava para aquele saco como quem olha para um caixão pequeno demais.O assistente quebrou o silêncio quando o carro parou num sinal vermelho.— O técnico disse que consegue abrir o aparelho até amanhã à noite. Se tiver alguma coisa apagada, ele acha. Ele conversa com celular do jeito que a minha avó conversava com as plantas.— Diga a ele que trabalhe numa rede isolada. Nada desse telefone encosta na internet sem que eu saiba.— Já disse. Ele ficou ofendido por eu achar que precisava dizer.O homem misterioso quase sorriu, e eu quase sorri com ele. Mas a frase da figura não me deixava em paz e voltava a cada poste que passava pela janela: algumas respostas têm
A figura não voltou naquela noite, embora eu passasse horas olhando para o vidro. Quando o dia clareou, o assistente entrou com dois cafés, deixou um sobre a mesa do chefe e reparou no relógio parado.— Engraçado. Trocaram a pilha desse relógio na semana passada. — Tirou-o da parede, desconfiado. — Ou a pilha veio com defeito, ou esta casa está começando a ter opinião própria.O homem misterioso nem ergueu os olhos. Eu ergui: os ponteiros continuavam nas nove e quarenta e sete. O assistente trocou a pilha, o ponteiro voltou a correr como se nada tivesse acontecido, e só eu sabia que alguma coisa tinha acontecido.***Mais tarde, o assistente espalhou fotografias sobre a mesa: o galpão antes e depois do fogo, o tecido, o mapa da região.— Revisamos tudo, e tem uma coisa que não fecha. Temos o tecido, o sangue e a câmera destruída. Mas não temos bolsa, sapato, documento nem celular. Se fosse um assalto, por que alguém se daria ao trabalho de incendiar um galpão inteiro e apagar as câmer







