LOGINNão sei quanto tempo permaneci presa naquela sala depois de descobrir a verdade sobre Arthur. Para mim, o tempo havia deixado de fazer sentido.
Eu estava morta.
E, por algum motivo que não conseguia compreender, continuava presa justamente ao homem que eu amava com todo o meu coração.
Meu peito doía com a traição. Era estranho perceber que, mesmo sem estar viva, eu ainda era capaz de sentir tanto. A morte havia levado meu corpo, mas não conseguira diminuir o que eu sentia.
Quando Arthur finalmente deixou o bar, fui obrigada a acompanhá-lo.
Entrei no carro com ele — ou melhor, alguma coisa me puxou para dentro. Sempre que tentava me afastar demais, uma força invisível me trazia de volta.
Era como uma corrente amarrada à minha alma.
O motorista seguiu pelas ruas quase vazias em direção à Mansão Luau, residência da família Dias.
Sentei-me ao lado de Arthur e o observei durante todo o trajeto.
Ele parecia tranquilo.
Tranquilo demais.
Naquela mesma noite, eu havia tentado ligar para ele enquanto morria.
Arthur não atendeu.
Depois descobri que me traía com Samantha e que pretendia se aproximar ainda mais da minha família por causa de nosso dinheiro.
Mesmo assim, uma pergunta continuava me perseguindo.
Arthur tinha alguma relação com minha morte?
Olhei para o rosto dele.
— Foi você?
Nenhuma reação.
Aproximei-me.
— Você mandou me matar, Arthur?
Ele continuou olhando pela janela.
Era enlouquecedor fazer perguntas a alguém que não podia me ouvir.
Se ao menos eu conseguisse descobrir por que estava presa a ele...
O carro atravessou os enormes portões da Mansão Luau.
Eu conhecia muito bem aquele lugar.
Quantas vezes havia entrado ali imaginando que, depois do casamento, aquela também seria minha casa?
Agora a ideia me causava repulsa.
Arthur desceu do carro, dispensou o motorista e entrou.
Alguns empregados o cumprimentaram.
Ele respondeu educadamente, como sempre fazia.
Era estranho observar como alguém podia parecer tão normal enquanto eu, que deveria ser o amor da vida dele, estava morta.
Subimos para o quarto.
Arthur tomou banho, vestiu o pijama e se deitou.
Poucos minutos depois, dormia tranquilamente.
Fiquei parada ao lado da cama.
— Como você consegue dormir?
Nenhuma resposta.
É claro.
Aproximei-me. Seu rosto parecia sereno.
Nada que denunciasse um homem envolvido em um assassinato.
Mas eu já tinha aprendido uma coisa sobre Arthur.
A aparência dizia muito pouco sobre quem ele realmente era.
Tentei deixar o quarto. Assim que alcancei a porta, a barreira invisível surgiu novamente.
Empurrei.
Nada.
Tentei atravessá-la com mais força.
Foi inútil.
— Por que você não me deixa ir?
Bati contra aquela barreira até perceber que não adiantaria.
Voltei para a poltrona.
Minha cabeça era um caos.
Por que eu ainda estava ali?
O que estava acontecendo comigo?
Quanto mais pensava, mais confusa ficava.
A noite passou lentamente.
Da janela do quarto de Arthur, vi o céu clarear e o dia nascer.
Ele havia dormido tranquilamente, como se nada de anormal estivesse acontecendo.
Somente para mim tudo havia mudado.
Quando amanheceu, Arthur despertou como se fosse apenas mais um dia.
Tomou banho. Vestiu um terno elegante. Escolheu a gravata diante do espelho.
Então pegou o celular.
Vi meu nome aparecer na tela.
**Cecília Albuquerque.**
Por alguns segundos, ele apenas encarou o contato.
Depois tocou no botão de chamada.
Meu coração apertou por reflexo.
O telefone chamou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Ninguém atendeu.
Arthur franziu a testa.
— Estranho...
Quase ri.
— Continue tentando.
Ele ligou novamente.
Nada.
— Deve estar ocupada.
Ocupada.
Olhei para ele, indignada.
— É. Muito ocupada!
Arthur guardou o aparelho e saiu do quarto.
Eu fui puxada atrás dele.
Na sala de jantar, Josias Dias já estava sentado à mesa.
Sempre achei o pai de Arthur um homem difícil de compreender. Falava pouco, observava muito e parecia avaliar cada pessoa como se estivesse diante de uma negociação.
Arthur se sentou.
Josias nem esperou que ele terminasse de servir o café.
— Você já marcou a data do casamento?
Arthur levantou os olhos.
— Ainda não.
— As famílias já se reuniram. Não entendo por que continua adiando.
Parei ao lado da mesa.
Casamento.
A palavra me provocou uma sensação amarga.
Até poucos dias antes, eu também pensava nisso.
No vestido.
Na cerimônia.
Na vida que construiríamos.
Que idiota.
Arthur tomou um gole de café.
— Não precisa se preocupar. Cecília me ama. Ela vai aceitar qualquer data que eu escolher.
Cerrei os punhos.
Josias colocou a xícara sobre o pires.
— Não estou preocupado com a cerimônia.
O tom dele mudou.
Fiquei atenta.
— Estou esperando esse casamento para apresentar à família Albuquerque a proposta de unir o Projeto Gênesis à nossa empresa.
Arthur permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Eu sei.
Aproximei-me da mesa.
Projeto Gênesis.
Conhecia aquele nome.
Mas por que Josias precisava esperar nosso casamento?
— Não demore muito — ele continuou.
Arthur assentiu.
— Pode deixar.
Observei os dois.
Pela primeira vez desde que chegara àquela casa, esqueci por alguns segundos minha própria morte.
Havia algo naquela conversa que me incomodava.
Josias queria aproximar o Projeto Gênesis de sua empresa.
E ambos precisavam do nosso casamento.
Seria apenas interesse comercial?
Ou havia alguma coisa que eu ainda não sabia?
Arthur se levantou.
Pegou a chave do carro e saiu para a empresa.
Mais uma vez fui obrigada a acompanhá-lo.
Durante toda a manhã, observei-o trabalhar.
Reuniões. Documentos. Telefonemas.
Funcionários entrando e saindo de sua sala.
Para qualquer pessoa que o visse, Arthur era apenas um empresário competente, educado e seguro de si.
Eu também acreditara naquela imagem.
Agora enxergava outra coisa.
A frieza nos olhos.
A facilidade com que mentia.
A tranquilidade assustadora com que seguia a própria vida enquanto eu estava desaparecida.
Na hora do almoço, ele pegou o celular novamente.
Meu nome apareceu na tela.
Arthur hesitou.
Foi rápido. Talvez menos de um segundo.
Mas eu percebi.
Então ligou.
O telefone chamou várias vezes.
Nada.
Dessa vez ele não pareceu apenas irritado. Havia alguma coisa diferente em seu olhar.
Inquietação.
Arthur desligou e ficou alguns segundos encarando a tela.
— O que deu nessa mulher?
Cruzei os braços.
— Idiota!
Ele colocou o celular sobre a mesa.
Continuei observando.
Foi então que o aparelho vibrou.
Arthur olhou para a tela.
Sua expressão mudou.
O rosto endureceu por um instante e, logo depois, relaxou.
Como se a pessoa que estivesse ligando fosse alguém que ele não queria ignorar.
Aproximei-me para ver o nome.
Senti uma onda de ódio atravessar minha alma.
**Samantha Novais.**
A mulher com quem Arthur me traía.
Arthur pegou o celular.
E, pela primeira vez naquele dia, sorriu antes de atender.
Michael não se levantou de imediato. Ficou olhando para a xícara que não tinha bebido, como se a palavra que Caio acabara de dizer precisasse de tempo para atravessar a sala, e eu fiquei olhando para ele, esperando que negasse, que rissse, que explicasse. Ele não fez nada disso.— Diga que desço em cinco minutos — falou, por fim, ajeitando a gravata que já estava no lugar. — E mande pôr mais um lugar à mesa. O senhor Seixas nunca vem só para um café.— Já mandei, senhor. — Caio hesitou na porta. — E, se servir de consolo, o mensageiro confirmou a entrega. O envelope está na delegacia há meia hora. Pelo menos uma coisa hoje saiu do jeito que o senhor queria.Michael assentiu sem responder. Antes de sair, pousou a mão sobre o meu livro, que continuava na mesa ao lado da xícara, e deixou-a ali por um instante, como quem se despede de alguém. Depois desceu, e eu desci atrás dele, com aquela coisa sem nome ainda presa no peito. Eu não tinha o direito de sentir nada. Estava morta, ele não m
Ninguém se mexeu depois que a mensagem apareceu. O técnico continuava curvado sobre o notebook, com as mãos suspensas acima do teclado, como se qualquer toque pudesse fazer chegar outra frase, e o assistente tinha dado dois passos na direção da janela sem perceber, do jeito que as pessoas fazem quando sentem que estão sendo observadas. Só Michael permaneceu exatamente onde estava. Leu a mensagem uma vez, devagar, e eu vi os olhos dele voltarem ao fim da frase e pararem no próprio nome.— Desconecte o aparelho — disse, por fim. — Agora. E anote o horário exato em que isso chegou, até o segundo.— Já desliguei, senhor. — O técnico afastou as mãos do teclado como quem solta um fio desencapado. — Zero hora e dezoito minutos. Mas, se me permite, isso não devia ser possível. Ninguém sabia que o aparelho estava ligado. A não ser que...— A não ser que alguém estivesse só esperando que ele acordasse. — Michael completou a frase sem levantar a voz. — Eles não precisavam saber onde estávamos, D
Passei a madrugada tentando lembrar uma palavra. Repeti o alfabeto, pensei em nomes, datas, apelidos, músicas da infância. Nada. No lugar onde a senha deveria estar, havia só aquele branco liso, sem marca nenhuma, como se alguém o tivesse apagado com cuidado. Tudo o que eu tinha descoberto antes de morrer estava trancado naquela pasta.— Preciso voltar para casa — eu disse, olhando para o homem que ainda dormia e para o meu livro sobre a mesa de cabeceira.Nenhuma reação. Essa era uma das coisas mais cruéis da morte: saber exatamente o que fazer e não ter controle nenhum sobre o próprio caminho.***Naquela mesma noite, na Mansão Luau, Josias tinha reunido algumas pessoas para jantar: dois diretores da empresa, um casal de sócios antigos e Samantha, apresentada a todos como "uma consultora que tem nos ajudado muito". Arthur passou o jantar quase calado, logo ele, que sempre sabia a hora exata de sorrir. Olhava o celular por baixo da mesa a cada poucos minutos, e a tela mostrava sempre
Por que você ainda não conseguiu partir? A pergunta ficou no quarto depois que a figura sumiu, como um perfume que não vai embora. O homem misterioso dormia, o meu livro continuava na mesa de cabeceira e eu, pela primeira vez desde a minha morte, não pensei no beco. Pensei no que veio antes dele. Talvez algumas respostas não estivessem na noite em que me mataram, e sim nos meses em que eu fingi não ver.***Meses antes de morrer, eu quase terminei com Arthur. Não houve uma grande descoberta, nenhuma mensagem comprometedora, nenhum flagrante. Foi pior: num dia qualquer, percebi que já não reconhecia o homem com quem ia me casar. Ele vivia ocupado, entre reuniões, viagens e problemas na empresa. Quando eu reclamava, dizia que eu precisava entender as responsabilidades dele; quando eu perguntava onde estava, dizia que eu queria controlá-lo; quando eu ficava triste, dizia que eu fazia drama. Até a noite em que eu não aguentei.Estávamos no jardim da minha casa, debaixo da figueira onde o
Voltamos para a mansão tarde da noite. O homem misterioso levava a pasta de couro debaixo do braço, com o meu livro dentro, e no banco da frente o assistente segurava um saco escuro e lacrado, onde o meu celular viajava isolado de qualquer sinal. Ninguém o ligaria antes que os técnicos o examinassem; essa tinha sido a ordem. Eu olhava para aquele saco como quem olha para um caixão pequeno demais.O assistente quebrou o silêncio quando o carro parou num sinal vermelho.— O técnico disse que consegue abrir o aparelho até amanhã à noite. Se tiver alguma coisa apagada, ele acha. Ele conversa com celular do jeito que a minha avó conversava com as plantas.— Diga a ele que trabalhe numa rede isolada. Nada desse telefone encosta na internet sem que eu saiba.— Já disse. Ele ficou ofendido por eu achar que precisava dizer.O homem misterioso quase sorriu, e eu quase sorri com ele. Mas a frase da figura não me deixava em paz e voltava a cada poste que passava pela janela: algumas respostas têm
A figura não voltou naquela noite, embora eu passasse horas olhando para o vidro. Quando o dia clareou, o assistente entrou com dois cafés, deixou um sobre a mesa do chefe e reparou no relógio parado.— Engraçado. Trocaram a pilha desse relógio na semana passada. — Tirou-o da parede, desconfiado. — Ou a pilha veio com defeito, ou esta casa está começando a ter opinião própria.O homem misterioso nem ergueu os olhos. Eu ergui: os ponteiros continuavam nas nove e quarenta e sete. O assistente trocou a pilha, o ponteiro voltou a correr como se nada tivesse acontecido, e só eu sabia que alguma coisa tinha acontecido.***Mais tarde, o assistente espalhou fotografias sobre a mesa: o galpão antes e depois do fogo, o tecido, o mapa da região.— Revisamos tudo, e tem uma coisa que não fecha. Temos o tecido, o sangue e a câmera destruída. Mas não temos bolsa, sapato, documento nem celular. Se fosse um assalto, por que alguém se daria ao trabalho de incendiar um galpão inteiro e apagar as câmer







