LOGIN
*Elise*
O relógio de pêndulo no corredor da Casa do Alpha parecia bater mais alto que o normal. Faltavam apenas algumas horas para o meu aniversário de dezoito anos. — Você está tensa — Harry comentou. Ele estava encostado na lareira de pedra, girando um copo de cristal entre os dedos. — E você parece que vai para um funeral, não para a própria cerimônia de acasalamento amanhã — eu rebati, cruzando os braços para afastar o frio da sala imensa. Harry suspirou, abandonando a pose de herdeiro por um segundo. — É o nosso dever, Elise. A matilha precisa de estabilidade militar e política. Meu pai faz questão disso. — Eu sei. O futuro Alpha e a futura Luna. Destinados desde o berço. — A amargura na minha voz era difícil de esconder. — Nós seremos bons líderes — ele tentou soar otimista, mas falhou miseravelmente. — Poderíamos ter uma vida muito pior, concorda? — Claro — murmurei. — Uma vida inteira ao lado de alguém que vejo apenas como um irmão mais velho. Ele deu um sorriso triste e compreensivo. — A Deusa da Lua sabe o que faz. Quando seu lobo despertar hoje à noite, talvez as coisas mudem. Talvez o vínculo facilite a nossa convivência. — Talvez — eu respondi, me afastando da lareira. — Vou para casa. Preciso me preparar para a meia-noite. — Até mais tarde, futura Luna. Saí da mansão sentindo o ar cortante da noite bater no meu rosto. A neve começava a cair, e eu só queria o calor e o conforto do meu quarto. Distraída com a ansiedade que borbulhava no meu peito, virei o corredor de pedra do jardim e bati de frente em uma parede sólida vestida em uma jaqueta de couro escuro. — Cuidado por onde anda — uma voz rouca e grave soou logo acima de mim. Levantei o olhar e meu coração deu aquele salto familiar e traiçoeiro. Henry. Diferente de Harry, que exalava a polidez e a postura impecável esperada de um herdeiro legítimo, Henry era pura força contida e ângulos duros. O cabelo escuro caía rebelde sobre a testa, e uma cicatriz fina marcava a lateral do seu rosto e o pescoço, lembrança de batalhas que o Alpha o forçava a lutar na linha de frente. Ele era o filho bastardo. Rejeitado pela elite, tolerado por obrigação, e tratado como uma arma. Mas para mim... ele era o centro da minha gravidade. — Desculpe, Henry. Eu estava com a cabeça longe. O rosto dele, geralmente fechado em uma máscara de frieza e cinismo para o resto da matilha, suavizou instantaneamente. Um sorriso carinhoso, que raramente alcançava seus olhos quando estava perto dos outros, curvou seus lábios. Era algo que ele parecia reservar apenas para mim. — Fugindo do seu grande destino, Elise? — ele perguntou, o tom provocativo escondendo algo mais profundo que eu nunca conseguia decifrar. — Apenas indo para casa antes que a meia-noite chegue — respondi. Minha respiração condensava no ar frio entre nós dois. Meus olhos travaram nos dele. Escuros. Intensos. Solitários. — A grande noite. O lobo finalmente vai acordar. — Ele deu um passo para trás, abrindo espaço para eu passar, mas a atmosfera entre nós continuava densa, elétrica. — Boa sorte. — Obrigada — sussurrei, apertando o passo, mas hesitei antes de ir embora. — Eu... eu te vejo amanhã na cerimônia? O sorriso dele vacilou. A sombra da rejeição voltou a cobrir suas feições endurecidas. — Amanhã é a consagração do meu irmão e da futura Luna. Meu lugar é nas sombras da floresta, Elise. Você sabe disso. Antes que eu pudesse argumentar, ele se virou e caminhou em direção à linha das árvores, sumindo na escuridão. Caminhei a passos largos e trêmulos até a minha casa. O chalé do meu pai, o atual Beta da matilha, ficava a poucos minutos dali. Entrei em silêncio, ignorando as luzes acesas na cozinha, e tranquei a porta do meu quarto. A imagem de Henry não saía da minha cabeça. O contraste entre ele e Harry era brutal. Harry era a paz, o dever e o tédio. Henry era a tempestade, o perigo e o único desejo que me era proibido ter. Durante toda a minha vida, fui treinada para ser a Luna de Harry. A política exigia isso. Os anciões exigiam isso. Mas, no fundo da minha alma, eu tinha um único pedido egoísta. “Por favor, Deusa da Lua”, rezei silenciosamente, ajoelhada perto da janela, olhando para a lua cheia que dominava o céu de inverno. “Não me ligue a Harry. Mude o nosso destino. Que seja o Henry.” O relógio no meu criado-mudo marcou 23:59. Um calor súbito e avassalador começou na base do meu estômago e irradiou por cada nervo, osso e músculo do meu corpo. Minha respiração falhou. Não havia dor, apenas uma energia ancestral e selvagem rasgando as amarras da minha mente. Meu lobo estava acordando. Fechei os olhos com força quando o relógio bateu meia-noite. O vínculo de companheiros — o temido e sagrado mate bond — disparou dentro do meu peito como uma flecha incandescente, puxando minha alma violentamente na direção daquele a quem eu pertencia. Meus sentidos explodiram. O cheiro de pinho, couro gasto e calor invadiu meus pulmões com uma clareza absurda. Eu conhecia aquele cheiro. Era Henry. A Deusa havia me ouvido. Mas antes que eu pudesse abrir os olhos e sorrir com a realização, um uivo grave, carregado de pura agonia e fúria, cortou o silêncio da noite lá fora. No mesmo instante, o fio dourado do vínculo recém-formado no meu peito pulsou com força, me competindo a encontrar o final daquele laço, a outra ponta da minha alma. E sem pensar duas vezes, corri para a porta em direção ao meu destino.*Elise*A noite estava silenciosa lá fora, banhando a Casa do Alpha com a luz pálida do inverno, mas o quarto estava preenchido por um calor denso e reverente.Não havia a urgência desesperada do passado, nem o caos de um instinto mágico fora de controle. Dessa vez, cada toque era uma descoberta e uma prece. Os sussurros roucos dele roçavam minha pele, perguntando se ele podia continuar, e eu respondia a todos com uma entrega sincera, despindo-nos não apenas das roupas, mas das últimas amarras que nos afastavam.O fogo consumia nossos corpos, e a nossa proximidade se tornava febril. Henry se inclinou sobre mim, seu rosto afundando na curva do meu pescoço, onde o meu pulso batia descompassado. Senti o hálito quente dele e, em seguida, o raspar letal de suas presas recém-descidas.Naquele exato milésimo de segundo, o ar travou em meus pulmões. Quando seus dentes encostaram no meu pescoço, a memória sombria e asfixiante do terror daquela noite inundou minha mente. S
*Henry*O brilho dourado havia sido engolido pela pedra maldita, deixando para trás um rastro de escuridão e um silêncio sepulcral. Caído de joelhos, paralisado pelo pó de prata lunar, eu observei o corpo inerte de Elise sobre a terra fria. O terror de tê-la perdido esmagou meus pulmões. O cheiro dela, a essência inconfundível de jasmim e chuva que o meu lobo reconhecia como lar, havia desaparecido completamente.A prata finalmente perdeu o efeito. Arrastei-me até ela, as mãos trêmulas alcançando seu rosto.Elise abriu os olhos lentamente, o rosto pálido iluminado pela luz fria da lua. Eu prendi a respiração, esperando o baque, a rejeição ou o desespero. Mas ela apenas piscou, respirou fundo e se sentou.O olhar dela encontrou o meu. A alma humana dela ainda estava ali. E, com um vazio devastador abrindo-se no meu peito, percebi que Elise passa pela mesma experiência. A minha fera se contorcia em confusão, olhando para a mulher que eu amava sem enxergar a predest
*Elise*A lua cheia pairava alta no céu noturno, banhando o refúgio do vale em uma luz prateada e fria. Silas desenhara o círculo de runas no chão de terra com pó de prata lunar, posicionando a pedra de medição que carregava a marca de Mara no centro exato. Henry e eu estávamos sentados frente a frente, as nossas mãos firmemente entrelaçadas sobre o desenho no chão.O ritual começou.Silas recitava um cântico baixo e gutural, cujas palavras eu não conseguia decifrar. Ele caminhava lentamente ao redor do círculo, e a energia mágica zumbiu no ar, densa e pesada, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.Aos poucos, o milagre que tanto buscávamos começou a acontecer.Senti o momento exato em que a ressonância caótica cedeu. O zumbido constante da ansiedade de Henry, que vinha se misturando à minha nas últimas semanas, começou a retroceder, escorrendo pelas bordas da minha consciência. Senti as dores e emoções se separando. O calor possessivo dele e a urgê
*Henry*Eu encarei a pedra nas mãos trêmulas de Elise. O fio de luz púrpura pulsava no centro do cristal, espremido de forma antinatural entre a prata da alma dela e o ouro do meu lobo. Uma quarta energia. Meu sangue ferveu, o instinto de proteção rugindo contra os meus tímpanos.A porta da cabana se abriu antes que eu pudesse gritar. Silas entrou, os passos serenos cessando imediatamente ao notar a nossa postura defensiva e a luz hostil iluminando o ambiente.— O que é isso? — rosnei, avançando um passo e apontando para a pedra. — Que energia é essa, Silas? Tem mais alguém dentro dessa conexão!Silas não recuou diante do rosnado do Alpha. Ele abaixou os olhos para o cristal brilhante, e a máscara clínica e controlada que ele vestia finalmente cedeu a uma melancolia profunda, pesada e inegavelmente antiga.— Sim, Henry. Há mais alguém — ele admitiu, a voz caindo para um sussurro áspero.Ele nos deu as costas lentamente e caminhou até uma prateleira isol
*Elise*O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar.— O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada.Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo.Silas pegou um pequeno estilete de prata.— A mão, Alpha, por favor.Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente.No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquejo afiado
*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u







