LOGIN“Quer dizer...” Ethan fez um gesto displicente com a mão na minha direção, como se estivesse afastando algo sem importância. “Você provavelmente deveria focar mais em si mesma. Talvez isso... ajudasse a colocar as coisas em ordem.”
Eu o encarei, completamente desconcertada. “Colocar o quê em ordem, exatamente?” Ele fez uma pausa. Seus olhos passaram por mim, desviaram e voltaram, como se ele precisasse se forçar a continuar. “Aria... é só olhar para a sua barriga. Sua forma física. Sua cintura. Quer dizer... você sabe... você ficou meio...” As palavras dele me atingiram como um golpe pesado direto no peito. Meus olhos arderam imediatamente, com um calor intenso. Não eram lágrimas suaves — eram daquelas carregadas de raiva e dor, nascidas de uma mágoa profunda. “Você está falando sério? Está criticando o meu corpo agora, Ethan?” Minha voz falhou, mas ainda saiu incisiva. Ele ergueu as mãos levemente. “Não estou criticando. Só estou dizendo que, talvez, se você...” “Depois de tudo o que meu corpo enfrentou?” Dei um passo à frente, com a respiração descompassada. “Você sequer se lembra das complicações que tive ao dar à luz a Mila? A hemorragia? Os pontos? Os meses em que mal conseguia andar sem sentir como se algo dentro de mim estivesse se rasgando?” Ele apenas me olhou com uma expressão fria e vazia, como se toda aquela história não significasse nada. “Perdi minha cintura fina porque carreguei nossa filha”, continuei. “Porque lutei contra algo que quase me tirou dela. E agora você está aí apontando para a minha barriga?” Ethan deu de ombros levemente, ainda agindo como se estivesse apenas sendo sensato. “Aria... estou sendo sincero com você. Você não tem mais a mesma aparência. E talvez esse seja um dos motivos pelos quais as coisas parecem... estranhas entre nós. Cuidar de si mesma poderia realmente ajudar.” Aquele foi o limite. Dei um tapa no rosto dele antes mesmo de perceber o que estava fazendo. O som estalado ecoou pelo ambiente. A cabeça dele virou bruscamente para o lado e, pela primeira vez, ele pareceu verdadeiramente atônito. “Eu te odeio.” Virei as costas e saí imediatamente, com passos rápidos e trêmulos. As lágrimas começaram a cair antes mesmo de eu chegar ao corredor. Sequei-as bruscamente com as costas da mão, mas elas continuavam a cair. Segui pelo corredor mais longo, que fazia uma curva atrás dos quartos de hóspedes, para que Mila e a babá não me vissem desmoronar daquele jeito. Minha respiração falhava enquanto eu caminhava, e as palavras dele se repetiam na minha cabeça sem parar. *Sua barriga... sua cintura... Conserte as coisas.* Consertar a mim mesma? Consertar a mim mesma para que eu pudesse ser atraente para ele novamente? Consertar a mim mesma para que ele não precisasse olhar para outra pessoa? Meu coração apertou dolorosamente. Porque, naquele momento de dor, tudo de repente fez sentido. Então era por isso que ele havia me traído. Ele olhava para mim e via alguém que não desejava mais; aquele vídeo que vi não foi apenas um erro casual ou simples desejo. Foi ele escolhendo outra mulher porque eu já não era mais a garota magra e de cintura fina com quem ele havia se casado. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. É claro que ele correu para ela. Sua velha amiga da faculdade. Aquela que parecia uma modelo. Aquela de pernas longas, barriga chapada e um corpo perfeito, conquistado sem qualquer esforço. O tipo exato de mulher com quem os homens sempre pareciam trair suas parceiras, tanto nos filmes quanto na vida real. Apoiei a mão na parede para me equilibrar, respirando com dificuldade. "Eu nunca vou te perdoar por isso, Ethan." Fiquei sentada no chão por algo que pareceu uma eternidade. Nem sei quanto tempo se passou. A única coisa que me diferenciava de alguém totalmente inconsciente era a vaga noção de que eu ainda estava ali sentada. Eu sentia meu corpo contra o piso frio, mas nada mais registrava em minha mente. Meus olhos estavam abertos, mas eu não via realmente nada. Era como se alguém tivesse colocado algodão nos meus ouvidos — todos os sons ao meu redor pareciam distantes e abafados, como se eu estivesse presa debaixo d'água. Nem sequer percebi os passos. A primeira coisa que senti foi uma mão gentil no meu ombro, e dei um sobressalto tão violento que o ar me faltou na garganta. Quando levantei o olhar, era Debby, a babá da Mila. Ela tinha aquela expressão de preocupação que as pessoas exibem quando sabem que algo está errado, mas não querem ser indiscretas. — Você está bem? — perguntou ela em voz baixa. “Estou bem”, respondi, embora minha voz soasse estranha e oca, até mesmo para os meus próprios ouvidos. Levantei-me do chão. Minhas pernas pareciam rígidas e desajeitadas, como se tivessem esquecido como funcionar direito. Debby estendeu meu celular. “Não parou de tocar. Foi por isso que vim procurar você.” “Obrigada.” Peguei o celular e olhei para a tela. Quinze chamadas perdidas. Todas do gerente da minha loja. É claro. Problemas nunca esperam o momento certo. Algo devia ter dado errado na loja. Assim que comecei a me afastar, parei e me forcei a perguntar: “E o meu mari...?” Fechei os olhos. Até dizer a palavra parecia exaustivo. “Meu marido e a Mila.” “Eles já foram”, disse Debby com delicadeza. “Arrumei o lanche da Mila, a mamadeira extra, o casaquinho e alguns petiscos. Mas ela estava muito quieta hoje de manhã.” Quieta. Assenti lentamente. “Tudo bem. Obrigada.” Afastei-me, verificando o celular enquanto caminhava. Uma mensagem longa de Clara apareceu na tela — problemas com fornecedores, pedindo permissão para usar uma verba e resolver a situação. Respondi rapidamente: “Clara, por favor, resolva isso. Você tem minha permissão.” Minha garganta estava seca e arranhando, como se eu tivesse engolido areia. Ainda era cedo, mas meu corpo já parecia totalmente esgotado, como se eu tivesse vivido uma vida inteira de dor. Desci as escadas em direção à cozinha. Debby veio logo atrás, em silêncio. “Pode ir agora”, disse eu, sem me virar. “Estou bem.” Ela hesitou. “Tem certeza?” “Pode ir, Debby. Por favor.” Ela hesitou por mais um segundo e depois assentiu. Debby não morava na casa principal — ela tinha seu pequeno apartamento nos fundos do pátio e só vinha quando Mila precisava dela. Mas, hoje, percebi que ela estava preocupada em me deixar sozinha. Forcei um sorriso pequeno e fraco. “Estou bem.” Assim que ela se afastou, minhas pernas quase cederam, mas segurei no corrimão e continuei andando. Fui direto para a pia, servi um copo d’água e bebi tudo de uma vez, embora minha mão tremesse levemente. Ignorei isso. Quando coloquei o copo sobre a bancada, o som ecoou pela cozinha silenciosa. Fiquei ali, apoiada no balcão, de olhos fechados, soltando o ar lentamente. Então, olhei para o teto. — Papai... o filho do seu amigo não está mais tratando sua filha como deveria — sussurrei. Dizer isso em voz alta doeu. Não por causa do Ethan, mas porque meu pai não estava mais ali para ouvir. Saí da cozinha e fui em direção à sala de estar. Estava prestes a seguir pelo corredor até o meu quarto quando notei a silhueta de Debby, ainda parada perto da entrada. — Debby — chamei, surpresa por ela ainda não ter ido embora. Caminhei lentamente em direção a ela. Foi então que percebi que havia mais alguém ali com ela. Aproximei-me para ver com quem ela estava conversando e, no instante em que vi claramente o rosto e o porte físico dele, quase esqueci como respirar. Ou talvez eu estivesse apenas exagerando. Mas, sinceramente... Quem diabos é esse?Ergui o olhar para o rosto dele. Aqueles olhos cor de tempestade prenderam os meus sem piscar, com uma intensidade tal que parecia que ele estava gravando cada detalhe meu em sua memória. Mais uma vez, era como se a minha dor realmente o ferisse pessoalmente.E, naquele breve instante, algo profundo dentro de mim finalmente se rompeu.Só por esta noite, eu disse a mim mesma. Quero me sentir uma mulher de verdade novamente — desejada, vista, cobiçada. Quero fazer algo imprudente e rezar para não acabar me arrependendo depois.Porque, depois desta noite, eu entraria com o pedido de divórcio. Eu empacotaria as coisas da Mila e as minhas, deixaria esta cidade para trás, administraria meus negócios de algum lugar distante e sairia daquela casa que ainda trazia o cheiro de Ethan por toda parte. Deixaria para trás a mulher que, silenciosamente, havia roubado o meu lugar nas histórias da minha filha e na cama do meu marido.Eu faria um corte definitivo. Um recomeço em um lugar onde ninguém so
ARIATerminei de me arrumar e vesti o vestido preto. Ele se moldava a cada curva do meu corpo, como se tivesse sido feito sob medida para mim.Eu estava diante do espelho alto no quarto de hóspedes, bem longe do quarto principal, onde o perfume do Ethan ainda pairava no ar. Eu não suportava mais ficar lá dentro. O cheiro dele agora me embrulhava o estômago.O tecido ajustava-se firmemente aos meus quadris, decotava-se profundamente no busto e terminava no alto das minhas coxas. Eu não tocava naquele vestido desde a noite em que o comprei, dois anos atrás — quando eu ainda era esperançosa e ingênua, esperando que Ethan finalmente olhasse para mim como costumava fazer. Ou, pelo menos, como eu achava que ele fazia.Ele nunca se deu ao trabalho.Mas, naquela noite, o vestido não era para ele.Passei as mãos lentamente pelas laterais, sentindo um leve tremor nos dedos. Dei um passo atrás e observei atentamente a mulher que me encarava de volta. Eu sempre sonhara em sair assim, mas fui tola
ROMANA mensagem surgiu às 14h29.“O que acontece se eu for hoje à noite?”Fiquei encarando aquelas palavras até a tela escurecer. Toquei nela para despertá-la novamente. Elas continuavam ali.Dez segundos depois de eu ter respondido “A porta tranca às 20h15. Não se atrase”, meu polegar ainda pairava sobre a tela, como se ela pudesse responder a qualquer momento.Recostei-me totalmente na cadeira do escritório. O couro gemeu sob o meu peso. A academia estava bem silenciosa àquela hora — apenas o zumbido constante do ar-condicionado e o barulho ocasional de equipamentos sendo movidos no andar de baixo. Mas a minha própria pulsação era mais alta do que tudo isso.Ela tinha enviado a mensagem às 14h29.Bem no meio do maldito dia.Aquilo me dizia que ela estivera carregando meu cartão consigo a manhã toda, girando-o entre os dedos, provavelmente imaginando se eu era algum tipo de psicopata ou apenas mais um vendedor insistente.Droga.Mudei de posição na cadeira. Minha mente voltou imedia
De repente, percebi que estava encarando aquele estranho há tempo demais. Lancei um olhar para Debby e fiz um leve sinal com a cabeça para que ela fosse embora. Ela saiu de fininho, sem dizer nada.— Oi — eu disse, mas minha voz saiu incerta e fraca.— Oi — ele respondeu, abrindo um sorriso.Que droga. Ele realmente sorriu.— Já passei por aqui antes — continuou ele, mantendo aquele sorriso tranquilo. — Mas parecia que não havia ninguém por perto.Ele estendeu o panfleto em minha direção e continuou falando, com a voz calma e suave.— Acabamos de abrir uma academia nova aqui perto. Equipamentos de ponta, personal trainers, várias modalidades... o pacote completo. Estamos distribuindo cupons de desconto para o pessoal da região. O primeiro mês sai pela metade do preço e...Academia.A palavra, por si só, me atingiu como um soco. Minha mente nem sequer registrou o resto do que ele dizia. Tudo voltou à tona: Ethan parado no quarto, mais cedo, apontando para minha barriga e minha cintura,
“Quer dizer...” Ethan fez um gesto displicente com a mão na minha direção, como se estivesse afastando algo sem importância. “Você provavelmente deveria focar mais em si mesma. Talvez isso... ajudasse a colocar as coisas em ordem.” Eu o encarei, completamente desconcertada. “Colocar o quê em ordem, exatamente?” Ele fez uma pausa. Seus olhos passaram por mim, desviaram e voltaram, como se ele precisasse se forçar a continuar. “Aria... é só olhar para a sua barriga. Sua forma física. Sua cintura. Quer dizer... você sabe... você ficou meio...” As palavras dele me atingiram como um golpe pesado direto no peito. Meus olhos arderam imediatamente, com um calor intenso. Não eram lágrimas suaves — eram daquelas carregadas de raiva e dor, nascidas de uma mágoa profunda. “Você está falando sério? Está criticando o meu corpo agora, Ethan?” Minha voz falhou, mas ainda saiu incisiva. Ele ergueu as mãos levemente. “Não estou criticando. Só estou dizendo que, talvez, se você...” “Depois de tud
Ethan parou a meio caminho da porta, como se já sentisse algo pesado se aproximando. Ele se virou lentamente, com as sobrancelhas franzidas, esperando que eu falasse.Minha garganta apertou dolorosamente. Tudo o que eu havia ensaiado na cabeça durante a noite veio à tona de uma só vez, tudo misturado. Engoli em seco e forcei as palavras a saírem.— Você pode voltar para casa mais cedo hoje? — Minha voz falhou um pouco. — Precisamos sentar e conversar.Ele franziu a testa, como se eu tivesse pedido algo impossível. — Conversar sobre o quê?Antes que eu pudesse começar a explicar, Mila entrou correndo no cômodo, cheia de energia e empolgação. Ela pegou a mochila da escola e mais algumas coisas que estavam no canto.Lancei um olhar rápido para ela. Como ela estava ocupada tentando calçar os sapatos da escola, baixei o tom de voz.— É importante, Ethan.Ele soltou um suspiro longo e pesado — aquele tipo de suspiro que deixava claro que ele via meus sentimentos como um fardo irritante. — A







