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Vendida ao REI da MÁFIA
Vendida ao REI da MÁFIA
Author: Merida Lonson

Capítulo 01

Author: Merida Lonson
last update publish date: 2026-09-09 10:37:52

O cheiro de fumaça e fuligem ainda parecia impregnado na minha pele, entranhado nos meus poros de uma forma que água nenhuma seria capaz de lavar. Segurando a pequena urna de cerâmica escura contra o peito, observei o céu acinzentado da tarde parecer desabar sobre a cidade. O funeral do meu pai fora rápido, silencioso e solitário. Sem flores, sem discursos emocionados, sem rostos conhecidos para me oferecer condolências. Apenas eu, o crematório e o eco dos últimos avisos que ele murmurara no leito de morte: “Se algo acontecer comigo, vá embora, Lívia. Não olhe para trás. Não confie em ninguém que mencione o meu passado.”

Apertei o casaco preto contra o corpo, sentindo o ar frio da rua cortar minhas bochechas. Meu pai sempre fora um homem reservado, um contador de histórias de poucas palavras que vivia nas sombras e evitava chamar atenção. Para mim, ele era apenas um homem cansado tentando me dar uma vida comum. Mas a paranoia que o consumira nos últimos meses agora parecia ter uma razão assustadora de ser.

Ao dobrar a esquina da minha rua, a pouca iluminação pública começou a falhar, piscando em um ritmo febril. O ambiente parecia deserto demais, frio demais. Apressando os passos, apertei a chave de casa entre meus dedos trêmulos. O som de um motor gutural rasgou o silêncio logo em seguida.

Uma van preta, de vidros totalmente escurecidos, subiu a calçada de estalo, bloqueando minha passagem.

Antes que eu conseguisse gritar, a porta lateral correu. Dois homens altos, de rostos cobertos por balaclavas, saltaram para o asfalto. Um deles me agarrou pela cintura, pressionando um pano áspero impregnado com um odor químico forte contra meu nariz e boca. Lutei desajeitadamente. A urna com as cinzas do meu pai escapou das minhas mãos, chocando-se contra o chão e se estilhaçando, espalhando o pó cinza no asfalto molhado. Não... — foi meu último pensamento consciente antes que a escuridão me tragasse.

A consciência retornou em ondas dolorosas de náusea e tontura. Pisquei devagar, tentando focar a visão. Minhas mãos estavam amarradas para trás com abraçadeiras de plástico que cortavam meus pulsos a cada movimento, e minhas pernas estavam presas à base de uma cadeira de metal fria.

Eu estava em um salão subterrâneo amplo, iluminado por holofotes amarelados que lançavam sombras grotescas nas paredes de concreto aparente. O ar cheirava a mofo, tabaco barato e suor acumulado. À minha frente, havia um pequeno palco improvisado. Nas laterais e ao fundo da sala, agrupavam-se homens em ternos sob medida, conversando em sussurros graves enquanto seguravam copos de uísque.

— Calma, garotinha. Não tente se mexer — debochou uma voz rouca ao meu lado.

Um homem franzino, de terno amassado e cicatriz no queixo, segurou meu rosto com força, virando-me para a multidão silenciosa.

— O que é isso? Me soltem! O que vocês querem comigo? Eu não tenho dinheiro! — protestei, minha voz falhando pelo pânico.

— Você não precisa de dinheiro, coisinha. Você é o produto — o homem riu, voltando-se para o salão. — Senhoras e senhores, como prometido! A filha do velho. Sem rastro, sem polícia, sem complicações. A chave de acesso para quem souber fazer as perguntas certas. Lance inicial: meio milhão de dólares.

Senti meu sangue congelar nas veias. Leilão. Eles estavam me vendendo como uma mercadoria. Tentei me debater, mas a cadeira era rígida. Homens na plateia começaram a erguer as mãos, ditando números como se negociassem um imóvel. As ofertas subiam rapidamente: setecentos mil, oitocentos mil, um milhão.

— Um milhão e duzentos mil! — gritou um homem na primeira fileira, trajando um sobretudo escuro.

O leiloeiro sorriu, erguendo o martelo de madeira.

— Um milhão e duzentos mil para o senhor Shel! Alguém dá mais? Uma... duas...

— Cinco milhões.

A voz que cortou o salão não era alta, mas possuía uma autoridade tão absoluta e gélida que o burburinho na sala cessou instantaneamente. Todos os olhares se voltaram para o fundo do salão, onde a penumbra escondia a entrada.

Um homem deu um passo à frente, saindo das sombras. Ele vestia um terno perfeitamente cortado em tom cinza-chumbo. Alto, de ombros largos e postura impecável, transpirava um perigo silencioso. Seus cabelos escuros estavam alinhados e os olhos, de um tom denso e indecifrável, fitavam o palco com um desprezo quase enfadado.

Ao seu lado, um homem um pouco mais velho, de feições sérias e olhar atento, mantinha a mão dentro do paletó. Ele observava a multidão com a compostura de quem conhecia cada canto daquele submundo.

O silêncio no salão tornou-se sufocante.

— Senhor... Voss — o leiloeiro gaguejou, o sorriso sumindo imediatamente. — Não sabíamos que o senhor honraria este evento com sua presença.

Ares Voss caminhou devagar pelo corredor central. Os homens que antes faziam lances afastavam-se respeitosamente, abrindo caminho como se temessem ser notados. Ele nem sequer olhou para eles. Seus olhos estavam fixos em mim.

— Cinco milhões de dólares — repetiu Ares, parando a poucos metros do palco. — Em dinheiro, transferido agora. E ela sai comigo.

— Mas... senhor Voss — interveio o homem que havia dado o lance anterior, dando um passo à frente com o rosto contraído de raiva. — O leilão estava aberto. A regra da mesa...

Ares lentamente virou o rosto para encará-lo. O olhar do Rei da Máfia era como uma lâmina afiada.

— As regras da mesa são mantidas pela minha família, Shel — disse Ares, a voz suave, quase aveludada, mas impregnada de uma ameaça morta. — Você quer questionar quem dita as leis nesta cidade?

O tal sr. Shel engoliu em seco, os punhos fechados ao lado do corpo, mas acabou recuando um passo, inclinando a cabeça em uma concordância contrariada. Ninguém ali parecia ousar desafiar aquele homem.

— Transferência feita — anunciou o homem ao lado de Ares, baixando o telefone com um aceno sutil para o leiloeiro.

Ares subiu os degraus do palco sem pressa. Ele tirou um canivete de prata do bolso interno do paletó, abriu a lâmina com um estalo seco e se aproximou de mim. Encolhi-me, prendendo a respiração enquanto ele se inclinava. O cheiro dele — uma mistura de amadeirado, couro e charuto fino — envolveu meus sentidos.

Com dois cortes precisos e rápidos, ele seccionou as abraçadeiras nos meus pulsos e tornozelos.

— Você... você vai me matar? — sussurrei, a voz trêmula, segurando meus pulsos marcados de vermelho.

Ares guardou a lâmina e olhou no fundo dos meus olhos. Não havia piedade na expressão dele, apenas uma determinação implacável.

— Não — ele respondeu baixinho, a voz apenas para eu ouvir. — Eu acabei de comprar a sua vida. E a partir de agora, você pertence a mim.

Ele tirou o próprio sobretudo pesado e o jogou sobre meus ombros trêmulos, cobrindo-me. Em seguida, segurou-me firmemente pelo cotovelo, guiando-me para fora do palco.

O acompanhante de Ares abriu a porta do utilitário blindado que aguardava na saída do galpão, mantendo os olhos atentos à rua.

— Está tudo limpo, Ares. Ninguém nos seguiu— informou o homem, assumindo o banco do passageiro dianteiro enquanto o motorista dava partida.

Ares sentou-se ao meu lado no banco traseiro. A van cortou a noite em velocidade constante, afastando-se do distrito industrial. Encolhi-me no canto do banco, abraçando o sobretudo dele que ainda mantinha o calor de seu corpo. O pânico de ser sequestrada dava lugar a um terror ainda mais profundo: eu estava no carro do homem mais perigoso da cidade.

— Quem é você? Por que pagou aquilo por mim? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora meu corpo todo estivesse tremendo.

Ares nem sequer se virou para me olhar. Ele observava a chuva que começava a bater no vidro escurecido do carro.

— O seu pai fez muitos inimigos, garota. E deixou pendências que não teve tempo de resolver — disse ele, o tom frio e distante. — Aqueles homens que te pegaram sabem que sua cabeça tem um valor, só não sabem quanto. Entretanto, tem gente que sabe e fará de tudo para tê-la.

— Impossível.— eu disse.

— O seu pai sabia demais. E você é o único rastro que sobrou dele — declarou. — Há pessoas nesta cidade que fariam qualquer coisa para ver você morta antes que descubram o que o seu pai escondeu. A partir de hoje, você não sai do meu alcance. Você cumpre as minhas ordens e não fala com ninguém.

— Você me ajudou para ser sua prisioneira? — falei, erguendo o queixo apesar do medo.

Um esboço de sorriso gelado surgiu nos lábios dele.

— Eu não te ajudei. Eu comprei você. Você está viva, Lívia. No nosso mundo, isso é o mais próximo de liberdade que você vai conseguir.

O carro acelerou, entrando pelos grandes portões de ferro de uma imensa propriedade nas colinas da cidade. Olhei pela janela, vendo a silhueta da mansão se erguer contra o céu noturno.

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