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Capítulo 02

Author: Merida Lonson
last update publish date: 2026-09-09 10:37:56

O estofado de couro escuro do utilitário blindado parecia sugar o resto de calor que ainda me restava. Encolhida contra a porta, apertei o sobretudo pesado de Ares contra o peito, usando o tecido denso como um escudo improvisado entre o mundo e meu próprio pavor. O cheiro dele — uma mistura sufocante de madeira nobre, couro e um toque amargo de charuto — invadia minhas narinas a cada respiração desajeitada, lembrando-me, a cada segundo, de que eu já não controlava nada na minha própria vida.

Minhas mãos ainda tremiam violentamente. Os pulsos queimavam, ardendo nas marcas vermelhas e profundas deixadas pelas abraçadeiras de plástico que me prenderam àquela cadeira de metal. Mas a dor física não era nada comparada ao abismo que se abrira dentro do meu peito.

As cinzas do meu pai.

A imagem da urna de cerâmica se estilhaçando no asfalto molhado da minha rua voltou com uma força avassaladora, fazendo minhas amígdalas contrairem em um nó seco. O pó cinza, tudo o que restava do homem que me criou, fora varrido pela chuva fria e pisoteado por botas de homens mascarados. Eu nem sequer tivera o direito de chorar por ele. Não tive tempo para o luto. Fui arrancada do meu mundo comum e jogada em uma sala escura, leiloada como um pedaço de carne para homens de olhares famintos e ternos alinhados.

Rolei os olhos devagar para o homem sentado ao meu lado.

Ares observava a tempestade através do vidro escurecido, a postura ereta e absolutamente relaxada, como se comprar uma pessoa por cinco milhões de dólares fosse um evento corriqueiro em sua agenda. A iluminação fraca dos postes da estrada cortava o perfil dele em ângulos duros: a linha afiada do maxilar, o nariz reto, os lábios finos e cerrados em uma apatia calculada. Ele não parecia um ser humano comum. Parecia uma escultura lapidada em mármore escuro, fria e inalcançável.

O silêncio dentro do carro era uma tortura à parte, interrompido apenas pelo chiado dos pneus no asfalto molhado e pelas orientações baixas que o braço direito dele dava ao motorista no banco da frente.

— Por quê? — a palavra escapou da minha garganta, mais como um arranhão seco do que como uma pergunta real.

Ares nem sequer se mexeu de imediato. Apenas o ritmo lento de sua respiração denunciava que ele me ouvira.

— Por que o quê, Lívia? — a voz dele veio baixa, aveludada, mas com aquele peso que fazia o ar no meu peito sumir.

— Por que você fez aquilo? Por que gastou uma fortuna por mim? — Voltei-me para ele, deixando a raiva e o desespero empurrarem o medo para escanteio. As lágrimas finalmente transbordaram, queimando minhas bochechas geladas. — Eu sei quem você é. Eu vi como aqueles homens olhavam para você. Você é um monstro igual a eles. Se acha que vou ser sua refém ou seu joguete, você...

Num movimento fluido e assustadoramente rápido, Ares se virou e segurou meu queixo com os dedos como ferro. A firmeza de sua pegada não machucava, mas travava qualquer tentativa minha de me afastar.

Seus olhos encontravam os meus. Eram de um tom tão escuro que era impossível discernir a pupila da íris. Uma imensidão gélida, sem uma gota de empatia.

— Meça bem as suas palavras, garota — disse ele, a voz num sussurro perigosamente calmo que arrepiou todos os pelos do meu corpo. — Aqueles homens naquela sala queriam cortar a sua garganta assim que tirassem de você o que queriam. Se eu quisesse um joguete, não teria gasto cinco milhões de dólares. Eu teria apenas esperado você ser jogada em uma vala.

Minha respiração engatou. O ar não entrava. O calor dos dedos dele no meu queixo contrastava de forma perturbadora com a frieza de suas palavras.

— Meu pai... ele era só um contador — murmurei, tentando me apegar à última mentira em que acreditei a vida toda. — Ele não tinha nada a ver com esse mundo!

— O seu pai mentiu para você a vida inteira para te proteger — Ares soltou meu queixo, voltando a olhar para a janela, deixando a marca de sua mão queimando na minha pele. — Ele não era um simples contador. Ele fazia parte da minha organização. E a decisão dele de esconder o que sabia colocou um alvo gigantesco nas suas costas.

A verdade caiu sobre mim como uma pedra gigante. Meu pai, o homem carinhoso que fazia café da manhã nos domingos e lia livros de história ao meu lado, era parte de um império criminoso? As paranoia dos últimos meses, as trancas duplas nas portas, a ordem expressa para que eu queimasse seus cadernos se ele morresse... tudo começou a se encaixar de um jeito aterrorizante. Ele sabia que esse dia chegaria.

— Ele me avisou — sussurrei, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas enquanto um soluço doloroso rasgava meu peito. — Ele disse para não confiar em ninguém...

— E ele estava certo — Ares respondeu, sem qualquer traço de comoção diante do meu choro. — Não confie em ninguém nesta cidade. Nem em mim. A única diferença entre mim e os outros é que eu preciso de você viva.

O utilitário reduziu a velocidade, dobrando à esquerda e cruzando grandes portões de ferro trabalhado que se abriram automaticamente. A iluminação suave de refletores embutidos na grama revelou uma propriedade monumental. Uma mansão de arquitetura clássica e imponente erguia-se no topo da colina, cercada por árvores altas e muros que pareciam inescaláveis. Segurança ostensiva estava por toda parte: homens armados, usando ternos escuros e earpieces, mantinham guarda nas entradas e pátios.

Era uma fortaleza. Uma prisão de altíssimo luxo.

O carro parou em frente à escadaria principal. O braço direito de Ares desceu imediatamente, abrindo a porta do passageiro e mantendo um olhar atento aos arredores antes de sinalizar para nós.

— Vamos — Ares ordenou, saindo do carro.

Hesitei por um segundo, minhas pernas parecendo feitas de chumbo. No entanto, sabendo que não tinha para onde fugir no meio daquela tempestade, deslizei para fora do banco. O ar frio da noite atingiu meu rosto, fazendo-me encolher dentro do sobretudo gigante de Ares.

A subida da escadaria foi um borrão de luzes amareladas e rostos severos de guardas que baixavam a cabeça em sinal de respeito absoluto quando Ares passava. Caminhei ao lado dele, sentindo-me uma intrusa minúscula naquele império de opulência e perigo.

Ao cruzarmos as portas duplas de madeira maciça da entrada, o calor do hall principal me atingiu. O chão de mármore refletia o brilho de um lustre de cristal gigantesco pendurado no teto alto. Pinturas a óleo e esculturas de aparência antiquíssima decoravam o ambiente. Era a fachada impecável de um homem que dominava a elite, escondendo por baixo o sangue e a violência que presenciei no galpão.

— Victor — Ares chamou sem olhar para trás, enquanto desabotoava o paletó de seu terno cinza.

O braço direito deu um passo à frente, aproximando-se com a postura impecável e a expressão séria de quem controlava os bastidores daquela casa.

— Sim, Ares?

— Leve-a para a suíte do segundo andar, no asa leste. Tranque as portas por fora e coloque dois homens na porta. Ninguém entra, ninguém sai sem a minha autorização direta.

Senti um aperto no peito ao ouvir a instrução. Tranque as portas. A confirmação de que eu era, sem sombra de dúvidas, uma prisioneira.

O braço direito fez um aceno sutil de cabeça.

— Pode deixar. Vou cuidar de tudo pessoalmente — disse ele, voltando seu olhar para mim com uma expressão que tentava parecer tranquilizadora, mas que não alcançava a frieza de seus olhos. — Por aqui, senhorita Lívia.

Ares nem sequer se despediu. Ele caminhou a passos firmes em direção a um lance de escadas oposto, desaparecendo no corredor escuro do primeiro andar, carregando consigo a aura sufocante de controle que dominava o lugar.

Acompanhei o braço direito pelo corredor amplo do segundo andar. O silêncio da mansão era quase incômodo, quebrado apenas pelo som abafado dos meus sapatos no tapete espesso. Cada porta fechada parecia guardar um segredo que eu não queria descobrir.

— Não precisa ter medo, garota — disse o homem, mantendo um tom de voz baixo e controlado enquanto parava em frente a uma porta pesada no fim do corredor. — Ares pode parecer implacável, mas se ele te trouxe para cá, você está mais segura do que em qualquer outro lugar do mundo.

— Segura? — olhei para ele, a voz embargada de amargura. — Eu fui vendida. Fui acorrentada. Perdi as cinzas do meu pai e agora estou trancada em um castelo de criminosos. Isso não é segurança, é um pesadelo.

Ele abriu a porta, revelando um quarto vasto, decorado em tons neutros, com uma cama king-size, varanda privativa e um banheiro espaçoso ao fundo. Era absurdamente luxuoso, mas para mim, parecia apenas uma cela decorada.

— O mundo lá fora é muito pior do que este quarto, Lívia — ele respondeu, com uma firmeza quase paternal na voz, ajustando a postura antes de recuar para o corredor. — Fique quietinha aqui. O Ares sabe o que faz.

A porta foi fechada com um baque seco, e o som metálico da chave girando na fechadura ressoou pelo quarto, cravando a realidade na minha mente.

Caminhei a passos trêmulos até a cama e me deixei cair sobre o colchão macio. O silêncio do quarto de repente se tornou pesado demais. Aquele sobretudo que ainda me cobria cheirava a Ares, lembrando-me da presença esmagadora do homem que agora dominava meu destino.

Abracei meus joelhos contra o peito e afundei o rosto no tecido. As lágrimas que segurei durante toda aquela jornada finalmente vieram em uma avalanche incontrolável. Chorei pelo meu pai, pela vida simples que nunca mais teria de volta, pelo pavor do incerto e pela dor de saber que, naquele jogo cruel de poder, eu não passava de uma peça a ser movida por homens sem alma.

Lá fora, a tempestade desabava sobre as janelas de vidro blindado, mas o maior perigo já estava dentro daquela casa. E eu não tinha para onde correr.

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