MasukCAPÍTULO 2 — A CASA DO HOMEM MAIS PERIGOSO DO VIDIGAL
Narradora: Isabela Eu escolhi a roupa mais bonita que tinha no guarda-roupa. Não era nada luxuoso. Uma calça jeans escura, uma blusa bege de mangas compridas e meu tênis mais conservado. Prendi parte dos cabelos castanhos para que não ficassem caindo no rosto e passei um pouco de hidratante nos lábios, tentando disfarçar o cansaço que as últimas semanas haviam deixado em mim. Eu sabia que não estava indo a um encontro social. Estava indo atrás de dinheiro, e não queria que o homem que supostamente me ajudaria pensasse que eu não levava aquela oportunidade a sério. Antes de sair, parei diante do pequeno espelho pendurado na parede do quarto. Meus olhos estavam inchados. Havia olheiras profundas sob eles, e minha expressão parecia muito mais cansada do que meus vinte e dois anos deveriam permitir. Passei os dedos pelo rosto e respirei fundo. — Vai dar certo, Isabela — murmurei para mim mesma. — Você só precisa conseguir esse dinheiro. Meu celular vibrou em cima da cama. Era uma mensagem do hospital. Meu coração disparou antes mesmo de abrir. A enfermeira responsável pelo acompanhamento da minha mãe avisava que eu poderia visitá-la naquela noite, mas que precisava conversar com a administração sobre as despesas pendentes. Sentei na beirada da cama. Eu não tinha mais tempo para esperar. Se aquele empréstimo não desse certo, eu sinceramente não sabia como conseguiria manter o tratamento. Guardei o celular na bolsa e saí do quarto. Sofia estava na cozinha, tomando café. Assim que me viu, deixou a xícara sobre a mesa. — Você vai mesmo? Assenti. — Vou. — Isa, eu passei a noite pensando nisso. Não gosto dessa história. Puxei a cadeira e me sentei por alguns segundos diante dela. — Eu também não gosto, Sofia. Mas o Marcelo disse que vai me levar até o homem que pode emprestar o dinheiro. Eu vou conversar, entender as condições e, se não forem boas, volto para casa. Minha irmã me observou em silêncio. — Promete que não vai assinar nada sem ler? Segurei sua mão. — Prometo. Ela apertou meus dedos. — E promete que vai me ligar se alguma coisa parecer errada? — Prometo, meu amor. Tentei sorrir, mas ela não sorriu de volta. Sofia era minha irmã caçula, mas, em alguns momentos, parecia enxergar coisas que eu não conseguia ver. Talvez porque eu estivesse tão desesperada para salvar nossa mãe que qualquer possibilidade de ajuda parecia uma bênção. Levantei-me e dei um beijo na testa dela. — Cuida das coisas por aqui. Assim que eu conseguir resolver isso, vou direto para o hospital. — Isa… Virei-me na direção dela. — Eu te amo — Sofia disse, com os olhos marejados. Meu peito apertou. — Também te amo. Mais do que tudo. Saí antes que ela percebesse que meus olhos também estavam cheios de lágrimas. Marcelo chegou às seis em ponto. Eu o esperava na entrada da viela, segurando a bolsa contra o corpo. Quando o vi se aproximar, tentei esconder a ansiedade. — Boa noite — cumprimentei. Ele me olhou de cima a baixo, demorando um pouco mais do que eu gostaria antes de responder. — Boa noite, Isabela. Tá pronta? — Estou. Obrigada por me ajudar com isso. Marcelo soltou uma risada curta. — Calma, garota. Primeiro vamos conversar com o homem. Depois você me agradece. Assenti e o acompanhei. Ele havia estacionado um carro preto um pouco mais adiante. Entrei no banco do passageiro e coloquei a bolsa no colo. Assim que Marcelo ligou o motor, percebi que ele estava diferente. Não parecia tão tranquilo quanto no dia anterior. Segurava o volante com força, olhava constantemente pelos retrovisores e verificava o celular a cada poucos minutos. Tentei não dar importância. Talvez estivesse preocupado com o dinheiro. Talvez o homem que nos receberia fosse exigente. Eu não conhecia os detalhes daquele empréstimo, e isso me deixava um pouco nervosa. Ainda assim, resolvi perguntar. — Marcelo, como ele se chama mesmo? Ele manteve os olhos na rua. — Dante. — Dante o quê? — Ferraz. Esperei que acrescentasse alguma coisa, mas ele não disse mais nada. — Ele costuma emprestar dinheiro para pessoas que não conhece? Marcelo soltou um suspiro impaciente. — Isabela, você faz pergunta demais. Abaixei o olhar. — Desculpa. É que eu nunca fiz isso antes. Ele virou o rosto por um instante. — Então presta atenção no que eu vou te dizer. Seja educada, responda o que perguntarem e não fica inventando história. Dante não gosta de gente que desperdiça o tempo dele. Senti um arrepio percorrer meus braços. — Ele é muito bravo? Marcelo deu uma risada sem humor. — Você não faz ideia. Voltei a olhar pela janela. As ruas pelas quais passávamos eram cada vez mais diferentes das que eu conhecia. As casas simples e as vielas estreitas foram dando lugar a construções maiores, portões altos e residências que pareciam pertencer a outro mundo. O Vidigal era assim: havia lugares onde as pessoas lutavam para conseguir o básico e outros onde o dinheiro parecia não ter fim. Eu conhecia aquela realidade desde criança, mas raramente tinha motivos para subir até a parte mais luxuosa da comunidade. Quando o carro dobrou uma rua mais reservada, avistei dois homens armados próximos a um portão de ferro escuro. Meu coração acelerou. — Marcelo… — chamei baixinho. — Que foi? — Por que tem homens armados na entrada? Ele sequer pareceu surpreso. — Segurança. — Segurança de quê? — Porra, Isabela, você quer mesmo começar com essas perguntas agora? Fechei a boca. Não queria irritá-lo. Ele era a única pessoa que, até aquele momento, parecia capaz de me ajudar a conseguir o dinheiro. O carro parou diante do portão. Um dos homens se aproximou da janela de Marcelo, falou alguma coisa que não consegui ouvir e examinou o interior do veículo. Depois de alguns segundos, o portão começou a se abrir. Foi então que percebi o tamanho da propriedade. A mansão tinha dois andares, paredes claras, enormes janelas de vidro e um jardim cuidadosamente iluminado. Havia carros importados estacionados perto da entrada e câmeras espalhadas pelos muros. Tudo parecia caro. Tudo parecia inacessível. E, de repente, senti que não pertencia àquele lugar. Apertei a alça da bolsa. — Marcelo, tem certeza de que é aqui? — É aqui, garota. Ele estacionou e desligou o motor. Por alguns segundos, nenhum de nós se mexeu. Eu olhava para a mansão, tentando controlar o nervosismo que crescia dentro do meu peito. — Ele vai mesmo me emprestar esse dinheiro? Marcelo virou o rosto para mim. Seu sorriso apareceu lentamente. — Vai dar tudo certo. Quis acreditar nele. Abri a porta e saí do carro. O ar estava mais frio naquela parte da comunidade, e uma brisa fez alguns fios de cabelo grudarem em meu rosto. Ajeitei a blusa, peguei a bolsa e acompanhei Marcelo até a entrada. Dois seguranças abriram a porta sem dizer uma palavra. Entramos. O interior da mansão era ainda mais impressionante do que o exterior. O chão brilhava, os móveis eram sofisticados e havia um enorme lustre pendurado no teto. Tudo estava perfeitamente organizado, mas o ambiente não transmitia aconchego. Era bonito. Era caro. E era assustadoramente frio. Uma mulher que parecia trabalhar ali passou por nós sem demonstrar curiosidade. Marcelo cumprimentou um dos homens que estavam próximos à escada e continuou andando, como se conhecesse cada canto daquela casa. Eu, por outro lado, mal conseguia disfarçar o nervosismo. — Espera aqui — ele ordenou, quando chegamos diante de uma porta escura. Olhei para ele. — Você não vai entrar comigo? Marcelo segurou a maçaneta. — Vou. Só fica quietinha e deixa que eu converso primeiro. Assenti, embora aquela resposta não me tranquilizasse. Ele abriu a porta. — Patrão, cheguei. Entrei logo atrás dele. O escritório era amplo, com estantes de madeira escura, uma mesa enorme e janelas que mostravam parte da cidade. Havia alguns documentos espalhados sobre a mesa e um homem sentado atrás dela. Um homem que, mesmo antes de levantar a cabeça, parecia controlar tudo ao seu redor. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços. As tatuagens cobriam boa parte da pele visível, subindo pelos braços e desaparecendo sob o tecido. Um relógio caro brilhava em seu pulso, e os dedos tamborilavam lentamente sobre a madeira. Quando finalmente ergueu os olhos, senti meu corpo inteiro ficar tenso. Ele era bonito. Bonito de um jeito intimidador, com cabelos escuros, barba bem aparada e um maxilar marcado. Mas foram os olhos que me fizeram esquecer por um instante o que pretendia dizer. Eram escuros, frios e atentos. Olhos de um homem que não precisava gritar para ser obedecido. Dante Ferraz. Eu não sabia praticamente nada sobre ele, mas compreendi imediatamente por que Marcelo havia me advertido para não desperdiçar seu tempo. Dante não olhou para mim por mais de um segundo. Sua atenção se voltou para Marcelo. — Demorou. A voz era grave, baixa e carregada de impaciência. — Desculpa, patrão. Tive uns problemas no caminho. Dante encostou-se na cadeira. — Eu não quero saber dos seus problemas. Quero saber se você trouxe o que me deve. Engoli em seco. Aquilo não parecia uma conversa sobre empréstimos. Marcelo passou a mão pela nuca e soltou uma risada nervosa. — Então, patrão… Sobre isso… Dante estreitou os olhos. — Sobre isso o quê? — Eu consegui resolver. — Resolver como? Marcelo olhou rapidamente para mim. Foi um olhar estranho, difícil de interpretar. Tentei sorrir, imaginando que talvez estivesse prestes a explicar que eu precisava do dinheiro e que Dante concordara em ajudar. Mas ele voltou a atenção para o homem sentado atrás da mesa. — Eu trouxe uma solução melhor do que dinheiro. Dante permaneceu imóvel. — Você tem cinco segundos para me explicar essa merda antes que eu perca a paciência. Marcelo riu, mas o som saiu forçado. — Calma, patrão. O senhor vai gostar. Foi então que ele segurou meu braço e me conduziu um passo à frente. O gesto me surpreendeu. — Marcelo? Ele não respondeu. Olhei para Dante, esperando que alguém explicasse o que estava acontecendo. O traficante finalmente voltou os olhos para mim. Dessa vez, não desviou imediatamente. Seu olhar percorreu meu rosto, demorando-se por alguns segundos em meus olhos. Não havia gentileza naquela expressão, apenas uma curiosidade fria que me fez apertar a bolsa contra o corpo. Eu estava prestes a perguntar novamente sobre o empréstimo quando Marcelo abriu aquele sorriso nojento que eu ainda não conhecia. Um sorriso que não combinava com a promessa de ajuda que havia feito na noite anterior. Ele me empurrou delicadamente para a frente, como se estivesse apresentando alguma coisa de que se orgulhava. — Trouxe, patrão. E dessa vez o senhor vai gostar do pagamento. Meu coração pareceu parar. Pagamento? Eu olhei para Marcelo, depois para Dante. O homem atrás da mesa não sorriu. Pelo contrário. Sua expressão ficou ainda mais fechada, e o silêncio que tomou conta do escritório foi tão pesado que senti vontade de sair correndo. — Que pagamento? — perguntei, com a voz baixa. Marcelo finalmente olhou para mim. E, naquele instante, percebi que havia alguma coisa terrivelmente errada. Nota da autora ❤️🔥 Meninas, vocês não imaginam o que Marcelo está prestes a revelar diante de Dante! E o olhar desse homem promete deixar Isabela sem chão… Me contem nos comentários: o que vocês acham que Marcelo está escondendo?CAPÍTULO 10 — A DÍVIDA ESCONDE OUTRA VERDADENarrador: DanteEu não gostava de Augusto Vasconcelos.Na verdade, poucas pessoas conseguiam despertar em mim tanta desconfiança quanto aquele homem. Ele era inteligente, calculista e tinha o péssimo hábito de acreditar que dinheiro era suficiente para comprar qualquer coisa.Já havíamos cruzado caminhos algumas vezes, sempre em situações nas quais interesses diferentes acabavam se encontrando. Nunca fomos aliados de verdade. No nosso mundo, uma parceria podia durar enquanto fosse conveniente, e eu sabia muito bem que Augusto era o tipo de homem capaz de sorrir enquanto preparava uma armadilha.Por isso, quando Rafael confirmou que Marcelo tinha se encontrado com um funcionário ligado a ele, minha desconfiança aumentou.A história estava longe de ser apenas uma dívida.E eu pretendia descobrir o motivo antes que alguém resolvesse dar outro passo.Estava no escritório desde cedo, analisando os documentos que Rafael havia reunido. Havia regis
CAPÍTULO 9 — A GAROTA POR TRÁS DO SILÊNCIONarradora: IsabelaEu nunca pensei que sentiria tanta saudade da minha casa.Era pequena, tinha alguns móveis antigos, paredes que precisavam de uma pintura e uma cozinha onde mal cabiam duas pessoas ao mesmo tempo. Mas era nossa. Cada cantinho guardava uma lembrança, cada barulho fazia parte da rotina e, mesmo com todas as dificuldades, eu sabia que aquele era o meu lugar.Na mansão de Dante Ferraz, tudo era diferente.O quarto era enorme, a cama parecia mais confortável do que qualquer outra em que eu já havia dormido e o banheiro tinha mais espaço do que a nossa cozinha. Ainda assim, eu não conseguia me sentir em casa.Talvez porque não estivesse.Estava sentada perto da janela, com os joelhos dobrados e o celular nas mãos. Já tinha conversado com Sofia duas vezes naquela noite. Minha irmã estava cansada, mas insistia em dizer que estava tudo bem.Eu sabia que ela estava tentando me tranquilizar.Minha mãe continuava internada, e eu não co
CAPÍTULO 8 — ELA NÃO TEM MEDO DE RESPONDERNarrador: DanteEu estava acostumado a ser obedecido.Não precisava repetir uma ordem, levantar a voz ou explicar minhas decisões. As pessoas ao meu redor conheciam minha maneira de agir e sabiam que questionar minhas determinações raramente terminava bem.Mas Isabela Martins parecia não ter recebido o aviso.Desde que chegou à minha casa, aquela garota fazia questão de deixar claro que não estava satisfeita com absolutamente nada. Não aceitava ajuda sem questionar, não escondia quando alguma coisa a incomodava e, principalmente, não parecia impressionada com o que eu tinha.Aquilo era estranho.Eu já tinha conhecido mulheres que se aproximavam por interesse, que tentavam chamar minha atenção e que enxergavam minha posição como uma oportunidade. Isabela não demonstrava nada disso.Ela queria ir embora.E fazia questão de repetir.Estava no escritório quando Rafael entrou sem bater.— Bom dia, patrão.— Aprendeu a bater na porta ou ainda está
CAPÍTULO 7 — SOB O TETO DE DANTE FERRAZNarradora: IsabelaEu nunca imaginei que passaria uma noite na casa de Dante Ferraz.Na verdade, nunca imaginei que conheceria aquele homem. Muito menos que acabaria envolvida em uma dívida que não era minha, numa investigação sobre o passado da minha mãe e em uma situação da qual eu só queria escapar.Mas ali estava eu.Sentada no banco de trás de um carro, voltando do hospital para a mansão do homem que me havia recebido como pagamento de uma dívida.A diferença era que, dessa vez, eu sabia por que estava indo.— Não existe outro lugar onde você possa ficar esta noite? — Rafael perguntou, olhando pelo retrovisor.Suspirei.— Minha casa.— Dante já explicou que a situação ainda não está segura.— E eu já expliquei que não quero ficar na casa dele.Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.— Marcelo desapareceu.Virei o rosto na direção dele.— Como assim, desapareceu?— Depois que foi levado para conversar com alguns homens, não conseguimos
CAPÍTULO 6 — MINHA MÃE PRECISA DE MIMNarradora: IsabelaEu só queria chegar ao hospital.Desde que havia saído da mansão de Dante, minha cabeça estava cheia de perguntas, mas nenhuma delas era mais importante do que saber como minha mãe estava. Eu precisava vê-la, segurar sua mão e ter certeza de que ela continuava ali.O carro seguia pelas ruas do Vidigal, acompanhado por outro veículo. Rafael estava no banco da frente, enquanto eu permanecia atrás, abraçada à minha bolsa.Não tinha pedido aquela escolta. Na verdade, se dependesse de mim, teria ido sozinha. Mas Dante havia determinado que seus homens me acompanhassem, e eu já tinha percebido que não seria fácil contrariar suas ordens.Olhei pela janela.As pessoas caminhavam pelas ruas, algumas conversavam nas portas de casa, outras carregavam sacolas e crianças brincavam nas calçadas. Tudo parecia tão normal que chegava a ser estranho pensar que, poucas horas antes, minha vida tinha virado de cabeça para baixo.— Está tudo bem aí a
CAPÍTULO 5 — O OLHAR QUE ELE NÃO CONSEGUE ESQUECERNarrador: DanteEu não gostava de perguntas sem respostas.Muito menos de pessoas que entravam na minha casa carregando problemas que não me pertenciam e, de alguma forma, conseguiam transformar um assunto simples numa dor de cabeça que eu não podia ignorar.Marcelo tinha uma dívida comigo. Uma dívida alta, antiga e perigosa. Eu queria receber o meu dinheiro, descobrir por que aquele desgraçado estava demorando tanto e encerrar o assunto.Era simples.Pelo menos deveria ter sido.Mas, naquela tarde, uma garota de olhos assustados havia entrado no meu escritório e virado tudo de cabeça para baixo sem sequer saber o que estava acontecendo.Isabela Martins.O nome continuava passando pela minha cabeça, e aquilo estava começando a me irritar.Eu não costumava pensar nas pessoas depois que elas saíam da minha frente. Não tinha tempo para isso. Minha vida era feita de decisões, cobranças, alianças e problemas que precisavam ser resolvidos a







