MasukCAPÍTULO 3 — A DÍVIDA FOI PAGA
Narrador: Dante Eu estava perdendo a paciência. E, quando isso acontecia, as pessoas ao meu redor costumavam descobrir que existiam limites que jamais deveriam ter ultrapassado. Marcelo Nogueira já tinha ultrapassado todos. Aquele desgraçado devia dinheiro demais, devia para gente demais e, ainda assim, continuava aparecendo na minha frente com a mesma cara de quem acreditava que uma boa desculpa seria suficiente para continuar respirando tranquilo. Eu não era banco. Não era instituição de caridade. Muito menos um homem conhecido por perdoar dívidas. Meu dinheiro não caía do céu, e quem colocava a mão nele sem cumprir a própria palavra precisava entender que toda escolha tinha consequência. Naquela tarde, eu estava sentado atrás da minha mesa, no escritório da mansão, com uma pasta aberta diante de mim e a paciência por um fio. Rafael permanecia próximo à porta, atento, enquanto dois dos meus homens aguardavam do lado de fora. O ar-condicionado mantinha o ambiente gelado, mas o calor que subia pela minha nuca não tinha nada a ver com a temperatura. Era raiva. Raiva de ter perdido tempo com um sujeito que não merecia nem a minha atenção. — Quanto tempo mais você acha que eu vou esperar, Marcelo? — perguntei, sem tirar os olhos dos documentos. Ele estava diante da minha mesa, inquieto, esfregando as mãos suadas na calça. Desde que entrara, não parava de olhar para os lados. — Patrão, eu vim resolver isso hoje. Soltei uma risada curta, sem humor. — Engraçado. Você me disse a mesma coisa na semana passada. — Dessa vez é diferente. Levantei os olhos. — Você tem cinco segundos para me apresentar alguma coisa que preste ou vai sair daqui com uma dívida muito maior do que aquela que trouxe. Marcelo engoliu em seco. — Eu trouxe o pagamento. Fechei a pasta devagar. — Finalmente. Ele assentiu depressa, como se aquela simples palavra tivesse acabado de salvar a vida dele. — Eu sabia que o senhor ia entender, patrão. Tive uns imprevistos, mas consegui encontrar uma solução. — Dinheiro? Marcelo hesitou. Foi um movimento pequeno, quase imperceptível. Mas eu conhecia aquele tipo de homem. Conhecia a maneira como mentirosos desviavam o olhar quando percebiam que a própria história começava a desmoronar. — Não exatamente — respondeu. Minha mandíbula endureceu. — Então, que porra você está chamando de pagamento? Ele virou o rosto na direção da porta. — Pode entrar! Franzi a testa. Ouvi passos do lado de fora e, logo depois, a porta se abriu. A primeira coisa que percebi foi que Marcelo não tinha entrado sozinho. A jovem que apareceu atrás dele parecia completamente deslocada naquele ambiente. Usava roupas simples, uma blusa clara e uma calça jeans que já tinha visto dias melhores. Os cabelos estavam presos de qualquer jeito, e ela segurava uma bolsa pequena contra o corpo, como se aquele objeto fosse a única coisa que ainda lhe pertencia. Era bonita. Não daquele jeito artificial que eu costumava encontrar nas mulheres que circulavam pelos ambientes em que vivia. A beleza dela era discreta, quase tímida. Tinha os olhos grandes, expressivos, e um rosto que denunciava o cansaço de quem vinha enfrentando dias difíceis. Mas não foi isso que me chamou a atenção. Foi o medo. Ela tentou escondê-lo, mantendo o queixo erguido, mas seus dedos apertavam a alça da bolsa com tanta força que os nós estavam esbranquiçados. A garota olhou para mim, depois para Rafael e, por fim, para Marcelo. Parecia esperar que alguém explicasse por que estava ali. E ninguém explicou. — Trouxe, patrão — Marcelo anunciou, dando um passo para o lado e deixando a jovem mais exposta diante de mim. — E dessa vez o senhor vai gostar do pagamento. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Depois, olhei para ele. — Você enlouqueceu? O sorriso dele vacilou. — Não, patrão. De jeito nenhum. — Eu perguntei se você enlouqueceu, Marcelo. Não se está satisfeito com a própria ideia. Ele soltou uma risada nervosa. — Eu sei que parece estranho, mas escuta o que eu tenho para dizer. Voltei os olhos para a jovem. Ela continuava parada no mesmo lugar. — Qual é o seu nome? — perguntei. A pergunta pareceu surpreendê-la. — Isabela. A voz saiu baixa, mas firme o suficiente para que eu escutasse. — Isabela o quê? — Martins. Assenti uma vez. — Você sabe por que está aqui, Isabela Martins? Ela olhou para Marcelo antes de responder. Aquele detalhe me incomodou. — Ele disse que o senhor poderia me ajudar. — Ajudar como? Ela apertou a bolsa contra o peito. — Com um empréstimo. O silêncio que se seguiu pareceu ocupar o escritório inteiro. Virei lentamente o rosto para Marcelo. Ele já não sorria. — Um empréstimo? — repeti. — É uma maneira de falar, patrão… — Não foi isso que eu perguntei. Marcelo passou a mão pela nuca. — A situação é complicada. — Então simplifica. Ele olhou para a jovem e voltou a se dirigir a mim. — Eu sei que estou devendo, Dante. Sei que a situação ficou feia. Mas trouxe algo que vale muito mais do que o dinheiro que não consegui levantar. A garota pareceu encolher os ombros. — Marcelo… — murmurou. Ele ignorou a voz dela. — Olha bem para ela, patrão. Bonitinha, novinha, criada direitinho… Meu olhar endureceu. — Cuidado com a próxima palavra que vai sair da sua boca. Marcelo percebeu o aviso, mas estava desesperado demais para recuar. — A garota é virgem, patrão. Virgem de verdade! Nunca pertenceu a homem nenhum. Por um instante, ninguém se mexeu. Rafael desviou os olhos para Marcelo com uma expressão de puro desprezo. Eu fiquei olhando para aquele desgraçado, tentando decidir se tinha ouvido corretamente. Ele havia colocado uma jovem diante de mim e estava falando dela como se apresentasse um carro, uma joia ou qualquer outra coisa que pudesse ser avaliada e entregue em troca de dinheiro. — Você trouxe uma mulher para o meu escritório e está me oferecendo a virgindade dela como pagamento? — perguntei, num tom tão baixo que Marcelo perdeu a cor do rosto. — Não precisa falar desse jeito, patrão. Eu só estou tentando resolver a situação. — A situação? Levantei um pouco o queixo. — Você acha que eu sou idiota? — Claro que não! — Então por que está agindo como se eu fosse? Ele abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu. Olhei novamente para Isabela. Ela estava pálida. Os olhos tinham começado a brilhar, e sua respiração parecia curta. Ainda assim, não chorava. Havia alguma coisa naquela tentativa de permanecer firme que me fez prestar mais atenção nela do que eu pretendia. — Isabela — chamei. Ela ergueu o rosto imediatamente. — Você sabia que ele pretendia trazer você aqui para me oferecer como pagamento de uma dívida? A expressão dela mudou. Foi como se eu tivesse falado em outro idioma. — O quê? A palavra saiu quase sem som. Marcelo se adiantou. — Calma, garota. Não precisa fazer esse teatro. Ela virou para ele tão depressa que a bolsa escorregou um pouco de seu ombro. — Que teatro? Você disse que ia me ajudar! — E vou ajudar. — Você falou que eu precisava conversar com um homem que poderia emprestar o dinheiro para o tratamento da minha mãe! A voz dela tremeu na última palavra. Minha atenção se voltou imediatamente para Marcelo. Tratamento da mãe. Empréstimo. Aquelas peças não se encaixavam na história que ele acabara de apresentar. — Sua mãe está doente? — perguntei. Isabela pareceu se lembrar de que eu estava ali. Limpou rapidamente o canto de um dos olhos, embora nenhuma lágrima tivesse chegado a cair. — Está internada. Ela precisa de tratamento, e eu não tenho dinheiro suficiente para pagar tudo. O Marcelo disse que conhecia pessoas que poderiam me emprestar o valor. Eu só preciso conseguir o dinheiro para ajudar minha mãe. Ela falava depressa, como se estivesse tentando me fazer entender antes que alguém interrompesse. — Eu vou trabalhar para pagar. Posso assinar um contrato, posso deixar meus documentos, posso fazer o que for necessário dentro da lei. Só preciso de uma oportunidade. Não vim aqui para… A voz falhou. Ela olhou para Marcelo, e a expressão que apareceu em seu rosto não era mais apenas medo. Era incredulidade. — Você disse que era um empréstimo — repetiu, agora diretamente para ele. — Você me prometeu! Marcelo estalou a língua. — Abaixa a voz, menina. — Você mentiu para mim? — Não começa! — Você mentiu para mim?! — ela insistiu, dando um passo na direção dele. — Eu confiei em você! O homem tentou agarrar o braço dela. — Já chega, porra! Isabela se esquivou, assustada, e recuou até quase esbarrar em uma das cadeiras. — Não encosta em mim! A reação foi imediata. — Rafael — chamei. Meu braço direito saiu da posição junto à porta e se colocou entre os dois. — Afasta a mão dela, Marcelo — ordenou ele. — Eu nem fiz nada! — Então vai ser fácil manter as mãos longe dela. Marcelo recuou, resmungando. Eu me levantei. Não precisava levantar a voz para fazer alguém entender que a situação havia mudado. Na maioria das vezes, bastava ficar de pé e deixar que a pessoa percebesse que já não estava no controle. Contornei a mesa devagar. Isabela acompanhou cada movimento meu. Quando parei a alguns passos de distância, ela apertou a bolsa contra o corpo novamente. Eu não era um homem que inspirava confiança. Sabia disso. Meu nome carregava histórias suficientes para fazer gente adulta baixar a cabeça antes mesmo de eu entrar em um lugar. E, naquele momento, a jovem diante de mim provavelmente estava tentando descobrir se havia saído de uma armadilha para cair em outra ainda pior. — Olha para mim, Isabela. Ela obedeceu, embora seus olhos denunciassem o esforço. — Você recebeu algum dinheiro do Marcelo? — Não. — Assinou algum documento? — Não, senhor. — Ele explicou por que estava trazendo você para esta casa? — Disse que eu conversaria com o senhor sobre o empréstimo. Eu não sabia que… Ela interrompeu a frase, respirando fundo. — Eu não sabia de nada disso. A última parte foi dita com tanta convicção que minha desconfiança deixou de estar voltada para ela. Eu já tinha visto homens mentirem por dinheiro, por poder e por medo. Já tinha visto gente inventar histórias inteiras para escapar de uma cobrança. Mas aquela garota não parecia estar representando. Ela estava descobrindo, diante de mim, que alguém em quem confiava a havia colocado numa situação que nunca escolhera. E Marcelo continuava tentando se salvar. — Patrão, ela está nervosa. É normal. Eu expliquei para ela que precisava fazer um acordo… — Que acordo? — perguntei. — Um acordo entre adultos. — Você está usando palavras bonitas para tentar esconder uma sujeira. Escolhe melhor a próxima. Ele engoliu em seco. — Eu tenho uma dívida com o senhor. Todo mundo sabe. Não consegui levantar o dinheiro, então encontrei uma maneira de compensar uma parte. A garota… — A garota tem nome. Marcelo apertou os lábios. — Isabela. — Repete. Ele me encarou, confuso. — O quê? — O nome dela. Você acabou de ouvir. Repete como se estivesse falando de uma pessoa, não de um objeto que resolveu colocar na minha frente. Rafael permaneceu imóvel, mas vi o canto de sua boca se contrair discretamente. Marcelo parecia prestes a perder o pouco controle que ainda tinha. — Dante, pelo amor de Deus, eu estou tentando pagar o que devo! — E eu estou tentando entender por que você acha que pode decidir o destino de outra pessoa para quitar uma dívida sua. — Ela veio comigo! — Porque você mentiu para ela. Ele não respondeu. Não precisava. O silêncio dele já dizia muito. Olhei para Isabela outra vez. Ela estava com os olhos fixos no chão, como se ainda tentasse organizar o que tinha acabado de descobrir. A menção à mãe parecia ter aberto uma ferida que ela vinha tentando manter escondida. — Você precisa voltar para o hospital? — perguntei. Ela levantou a cabeça de imediato. — Preciso. Minha irmã está lá com a minha mãe, mas eu prometi que voltaria. Ela deve estar preocupada. Havia urgência na voz dela. Não uma urgência inventada para escapar de mim, mas a preocupação genuína de alguém que tinha deixado uma pessoa amada em uma cama de hospital e não sabia quanto tempo ainda tinha para resolver os problemas. — Então eu quero ir embora — acrescentou, com a voz trêmula. — Por favor. Eu não quero dinheiro de graça. Eu não quero nada que não seja meu. Só quero voltar para minha família. A palavra família atingiu um lugar que eu não tinha intenção de examinar. Afastei esse pensamento antes que ganhasse espaço. Eu não conhecia aquela mulher. Não sabia quem ela era, o que tinha vivido ou se toda a história que contara era verdade. Não era do meu feitio tomar decisões baseado em pena. Mas também não era do meu feitio tolerar que alguém tentasse me enganar dentro da minha própria casa. E Marcelo havia cometido um erro que não conseguiria consertar com mais uma desculpa. Ele não tinha apenas deixado de pagar. Tinha me apresentado uma mentira como se fosse um acordo. — Você vai sair daqui quando eu entender exatamente o que aconteceu — falei, mantendo os olhos em Marcelo. Isabela ficou rígida. — O senhor vai me prender aqui? A pergunta saiu baixa, mas a acusação contida nela era impossível de ignorar. Virei o rosto para ela. — Eu disse que vou entender o que aconteceu. Não disse que você está presa. — Mas eu não quero ficar aqui. — Eu ouvi. — Então me deixa ir embora. Não havia insolência na voz dela. Havia medo, desespero e uma coragem que parecia estar sendo arrancada de algum lugar profundo. Ela não estava tentando me desafiar. Estava tentando recuperar o controle da própria vida. Por alguns segundos, considerei simplesmente mandar Rafael levá-la de volta ao hospital. Seria a solução mais rápida. Eu poderia arrancar a verdade de Marcelo depois, sem aquela garota no meio da confusão. Mas havia uma pergunta que ainda precisava de resposta. Se Marcelo tinha mentido para Isabela sobre o empréstimo, o que mais havia escondido? E, principalmente, por que estava tão desesperado para me entregar aquela jovem? Uma dívida daquele tamanho não desaparecia porque um homem aparecia com uma pessoa inocente. E eu não gostava de pontas soltas. — Rafael, fique com Isabela na sala ao lado. Ofereça água e ligue para o motorista. Ninguém vai tocar nela, e ninguém vai impedir que ela fale com a família. Rafael assentiu. — Entendido. Isabela hesitou, olhando de mim para a porta. — Eu posso ligar para minha irmã? — Pode. — Agora? — Agora, Isabela. Ela pareceu surpresa com a resposta. Não agradeceu, mas também não discutiu. Seguiu Rafael até a porta, segurando a bolsa junto ao corpo. Antes de sair, porém, virou o rosto na minha direção. — Eu não sabia de nada, senhor. Juro pela vida da minha mãe. Não respondi de imediato. Eu não precisava que ela jurasse. Precisava descobrir por que Marcelo tinha acreditado que conseguiria me fazer aceitar aquilo. Quando a porta se fechou, o escritório pareceu ainda mais silencioso. Marcelo tentou sorrir. Foi um erro. — Patrão, nós podemos resolver isso entre nós. A garota está nervosa, mas depois vai entender que… — Cala a boca. Ele fechou a boca imediatamente. Dei a volta na mesa, apoiei as mãos sobre a madeira e me inclinei na direção dele. — Você chegou à minha casa dizendo que tinha o pagamento da sua dívida. Depois me ofereceu uma mulher, falou sobre a virgindade dela como se isso aumentasse o valor da mercadoria e deixou que eu descobrisse, pela própria boca dela, que você prometeu um empréstimo para pagar o tratamento da mãe. Marcelo começou a suar ainda mais. — Não foi bem assim… — Você teve a oportunidade de explicar. Desperdiçou. Ele baixou os olhos. — Eu só precisava de mais tempo, Dante. — Não. Você precisava de dinheiro. E, como não tinha, resolveu usar uma garota que confiava em você para tentar comprar a minha paciência. — Eu pensei que o senhor fosse aceitar. A confissão saiu antes que ele pudesse segurá-la. Fiquei imóvel. — Você pensou que eu fosse aceitar? Marcelo percebeu o tamanho do erro e começou a balançar a cabeça. — Não desse jeito! Eu quis dizer que… eu achei que o senhor entenderia o valor dela, que poderíamos chegar a um acordo… — O valor dela? Minha voz ficou baixa. — Você ainda não entendeu nada. Ele recuou um passo. Eu me levantei lentamente, sem tirar os olhos dele. — Você disse que ela sabia o que estava fazendo. Então, por que essa garota está me perguntando onde vai assinar o empréstimo? Marcelo abriu a boca. Nenhuma palavra saiu. E, naquele instante, eu soube que a dívida estava longe de ter sido paga. Nota da autora ❤️🔥 Meninas, Marcelo acabou de cometer o pior erro da vida dele: tentar enganar Dante dentro da própria casa! Mas será que o traficante vai deixar Isabela ir embora depois de descobrir toda essa mentira? Me contem nos comentários: vocês acham que Dante vai proteger Isabela ou ela ainda terá motivos para temê-lo?CAPÍTULO 10 — A DÍVIDA ESCONDE OUTRA VERDADENarrador: DanteEu não gostava de Augusto Vasconcelos.Na verdade, poucas pessoas conseguiam despertar em mim tanta desconfiança quanto aquele homem. Ele era inteligente, calculista e tinha o péssimo hábito de acreditar que dinheiro era suficiente para comprar qualquer coisa.Já havíamos cruzado caminhos algumas vezes, sempre em situações nas quais interesses diferentes acabavam se encontrando. Nunca fomos aliados de verdade. No nosso mundo, uma parceria podia durar enquanto fosse conveniente, e eu sabia muito bem que Augusto era o tipo de homem capaz de sorrir enquanto preparava uma armadilha.Por isso, quando Rafael confirmou que Marcelo tinha se encontrado com um funcionário ligado a ele, minha desconfiança aumentou.A história estava longe de ser apenas uma dívida.E eu pretendia descobrir o motivo antes que alguém resolvesse dar outro passo.Estava no escritório desde cedo, analisando os documentos que Rafael havia reunido. Havia regis
CAPÍTULO 9 — A GAROTA POR TRÁS DO SILÊNCIONarradora: IsabelaEu nunca pensei que sentiria tanta saudade da minha casa.Era pequena, tinha alguns móveis antigos, paredes que precisavam de uma pintura e uma cozinha onde mal cabiam duas pessoas ao mesmo tempo. Mas era nossa. Cada cantinho guardava uma lembrança, cada barulho fazia parte da rotina e, mesmo com todas as dificuldades, eu sabia que aquele era o meu lugar.Na mansão de Dante Ferraz, tudo era diferente.O quarto era enorme, a cama parecia mais confortável do que qualquer outra em que eu já havia dormido e o banheiro tinha mais espaço do que a nossa cozinha. Ainda assim, eu não conseguia me sentir em casa.Talvez porque não estivesse.Estava sentada perto da janela, com os joelhos dobrados e o celular nas mãos. Já tinha conversado com Sofia duas vezes naquela noite. Minha irmã estava cansada, mas insistia em dizer que estava tudo bem.Eu sabia que ela estava tentando me tranquilizar.Minha mãe continuava internada, e eu não co
CAPÍTULO 8 — ELA NÃO TEM MEDO DE RESPONDERNarrador: DanteEu estava acostumado a ser obedecido.Não precisava repetir uma ordem, levantar a voz ou explicar minhas decisões. As pessoas ao meu redor conheciam minha maneira de agir e sabiam que questionar minhas determinações raramente terminava bem.Mas Isabela Martins parecia não ter recebido o aviso.Desde que chegou à minha casa, aquela garota fazia questão de deixar claro que não estava satisfeita com absolutamente nada. Não aceitava ajuda sem questionar, não escondia quando alguma coisa a incomodava e, principalmente, não parecia impressionada com o que eu tinha.Aquilo era estranho.Eu já tinha conhecido mulheres que se aproximavam por interesse, que tentavam chamar minha atenção e que enxergavam minha posição como uma oportunidade. Isabela não demonstrava nada disso.Ela queria ir embora.E fazia questão de repetir.Estava no escritório quando Rafael entrou sem bater.— Bom dia, patrão.— Aprendeu a bater na porta ou ainda está
CAPÍTULO 7 — SOB O TETO DE DANTE FERRAZNarradora: IsabelaEu nunca imaginei que passaria uma noite na casa de Dante Ferraz.Na verdade, nunca imaginei que conheceria aquele homem. Muito menos que acabaria envolvida em uma dívida que não era minha, numa investigação sobre o passado da minha mãe e em uma situação da qual eu só queria escapar.Mas ali estava eu.Sentada no banco de trás de um carro, voltando do hospital para a mansão do homem que me havia recebido como pagamento de uma dívida.A diferença era que, dessa vez, eu sabia por que estava indo.— Não existe outro lugar onde você possa ficar esta noite? — Rafael perguntou, olhando pelo retrovisor.Suspirei.— Minha casa.— Dante já explicou que a situação ainda não está segura.— E eu já expliquei que não quero ficar na casa dele.Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.— Marcelo desapareceu.Virei o rosto na direção dele.— Como assim, desapareceu?— Depois que foi levado para conversar com alguns homens, não conseguimos
CAPÍTULO 6 — MINHA MÃE PRECISA DE MIMNarradora: IsabelaEu só queria chegar ao hospital.Desde que havia saído da mansão de Dante, minha cabeça estava cheia de perguntas, mas nenhuma delas era mais importante do que saber como minha mãe estava. Eu precisava vê-la, segurar sua mão e ter certeza de que ela continuava ali.O carro seguia pelas ruas do Vidigal, acompanhado por outro veículo. Rafael estava no banco da frente, enquanto eu permanecia atrás, abraçada à minha bolsa.Não tinha pedido aquela escolta. Na verdade, se dependesse de mim, teria ido sozinha. Mas Dante havia determinado que seus homens me acompanhassem, e eu já tinha percebido que não seria fácil contrariar suas ordens.Olhei pela janela.As pessoas caminhavam pelas ruas, algumas conversavam nas portas de casa, outras carregavam sacolas e crianças brincavam nas calçadas. Tudo parecia tão normal que chegava a ser estranho pensar que, poucas horas antes, minha vida tinha virado de cabeça para baixo.— Está tudo bem aí a
CAPÍTULO 5 — O OLHAR QUE ELE NÃO CONSEGUE ESQUECERNarrador: DanteEu não gostava de perguntas sem respostas.Muito menos de pessoas que entravam na minha casa carregando problemas que não me pertenciam e, de alguma forma, conseguiam transformar um assunto simples numa dor de cabeça que eu não podia ignorar.Marcelo tinha uma dívida comigo. Uma dívida alta, antiga e perigosa. Eu queria receber o meu dinheiro, descobrir por que aquele desgraçado estava demorando tanto e encerrar o assunto.Era simples.Pelo menos deveria ter sido.Mas, naquela tarde, uma garota de olhos assustados havia entrado no meu escritório e virado tudo de cabeça para baixo sem sequer saber o que estava acontecendo.Isabela Martins.O nome continuava passando pela minha cabeça, e aquilo estava começando a me irritar.Eu não costumava pensar nas pessoas depois que elas saíam da minha frente. Não tinha tempo para isso. Minha vida era feita de decisões, cobranças, alianças e problemas que precisavam ser resolvidos a







