LOGINTHOMAS ..Bárbara lutou como uma leoa por sete dias. Mas no sétimo, ela foi embora. Os gritos de Bia e Bruna ficaram marcados na minha mente.Os médicos iniciaram as manobras de reanimação, mas, daquela vez, não conseguiram reverter o quadro da maneira como haviam feito anteriormente. Depois de uma avaliação neurológica criteriosa e dos exames necessários, a equipe nos chamou para conversar.O médico responsável não tentou suavizar o que precisava ser dito.— Sinto muito. Bárbara preenche os critérios para o diagnóstico de morte encefálica.Bia começou a negar com a cabeça antes mesmo que ele terminasse de explicar. Bruna chorava ao meu lado, enquanto eu tentava compreender cada palavra.— Não existe possibilidade de recuperação? Perguntei.Ele manteve a expressão séria.— Não, senhor. O diagnóstico foi confirmado conforme os procedimentos exigidos. A pessoa com morte encefálica é considerada legalmente morta. Os aparelhos podem manter temporariamente algumas funções do organismo
Eu e Bruna recebemos alta dois dias depois do incêndio. Nosso corpo ainda carregava as consequências da fumaça, e eu precisava de cuidados por causa da gravidez, mas não havia nada que me fizesse permanecer longe daquele hospital. Todos os dias estávamos lá, sentadas perto uma da outra, esperando notícias, perguntando aos médicos sobre os exames e tentando acreditar que Bárbara abriria os olhos.Bruna quase não falava. Às vezes, ficava olhando para as próprias mãos, outras vezes encostava a cabeça no meu ombro e fechava os olhos. Eu sabia que ela estava sofrendo tanto quanto eu, talvez até mais, porque as duas haviam dividido uma vida inteira, e agora precisávamos aprender a imaginar o futuro sem a presença da pessoa que sempre esteve entre nós.Thomas tentava cuidar de tudo. Cuidava de mim, acompanhava Bruna, conversava com os médicos e resolvia as questões que surgiam depois do incêndio. Eu via o cansaço no rosto dele, a preocupação que tentava esconder e o esforço para não demonstr
BIA..CINCO MESES DEPOIS...Yakutsk, na Sibéria, é considerada uma das cidades habitadas mais frias do planeta, um lugar onde o inverno transforma o ar em uma ameaça e a temperatura pode cair tanto que até respirar parece exigir coragem. Dizem que, quando o frio chega ao extremo, as pessoas aprendem a respeitar o silêncio, a permanecer dentro de casa e a não desperdiçar calor com portas abertas. Talvez por isso eu tenha escolhido um lugar assim para desaparecer, embora, no fundo, saiba que não existe temperatura capaz de congelar uma dor que continua queimando por dentro.Daqui, deste quarto escuro, não consigo ouvir nada do lado de fora, apenas eu, minha solidão e o eco do grito que dei cinco meses atrás naquele hospital.Ninguém sabe onde estou. Me tornei uma desaparecida, como se não tivesse sido escolha minha sumir, como se alguém tivesse me arrancado do mundo sem deixar pistas, quando a verdade é que fui eu quem decidiu desaparecer. Eu escolhi não ser encontrada, escolhi n
Não queria me sentar, não queria relaxar e muito menos queria ouvir o que ele estava prestes a dizer, embora soubesse que não tinha escolha.— Senhor Thomas, antes de qualquer coisa, preciso explicar a gravidade do quadro dela.— Então explique.Minha voz saiu seca, quase agressiva, mas eu não tinha forças para fingir tranquilidade. O médico abriu a prancheta e consultou algumas informações antes de voltar a me encarar.— Bárbara chegou ao hospital em estado bastante delicado, apresentando comprometimento respiratório importante em decorrência da inalação de fumaça. Nossa equipe iniciou os procedimentos necessários imediatamente, mas, durante o atendimento, ela sofreu 4 paradas cardíacas.Senti o chão desaparecer por alguns segundos.— Quatro?— Sim. Foi necessário iniciar as manobras de reanimação. Conseguimos restabelecer a circulação, mas ela não apresentou uma recuperação respiratória adequada.Olhei para ele sem conseguir compreender como aquelas palavras podiam estar relacionada
A pergunta saiu entre soluços, e eu senti um aperto tão forte no peito que precisei controlar a respiração antes de responder. Não queria prometer aquilo que não estava ao meu alcance, mas também não podia deixá-la sozinha naquele estado.— Primeiro preciso que você volte para o quarto, Bruna. — Mas eu já assinei o documento.— Isso não é um problema. Volte para lá e diga que vai ficar. Eu prometo que vou deixar você por dentro de tudo.Ela me encarou por alguns segundos, procurando alguma segurança no meu rosto. Depois, assentiu lentamente. Ajudei ela a se levantar e caminhei com ela de volta, mantendo uma das mãos em suas costas para evitar que perdesse o equilíbrio. No caminho, ela não disse mais nada, apenas enxugou as lágrimas com as costas das mãos.Quando chegamos à sala de observação, a enfermeira que havia tentado contê-la nos recebeu com uma expressão de reprovação, mas não fez comentários. Ajudei Bruna a se acomodar na cama e esperei até que estivesse confortável.— Não sa
Bruna desconectou todos os acessos, quando olhei para trás, vi a enfermeira tentando a todo custo fazer ela voltar para o quarto. Os olhos da minha cunhada eram de puro pavor, e eu não precisava perguntar o motivo para entender que ela havia chegado à mesma conclusão que eu, se os médicos estavam correndo daquela maneira, se uma sirene havia sido acionada e se alguém gritou que era uma das irmãs, então havia uma possibilidade terrível de que Bárbara estivesse lutando pela própria vida, pensei na Bia, mas a possibilidade de ser ela, era mínima.— ME SOLTA!Ela gritou, mas a enfermeira continuou insistindo para que voltasse ao quarto.— Deixe ela vir.A profissional virou o rosto na minha direção, visivelmente contrariada.— Sr. Thomas, ela ainda está muito fraca.— Ela já é adulta e responsável por si mesma. Se ela não quer ficar no quarto, então a solte.— Então ela terá que assinar um documento se responsabilizando por qualquer intercorrência.— Eu assino qualquer coisa.Bruna respon







