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Capítulo 4

Autor: Pequena Letra
Jéssica chegou ao apartamento e, sem tempo sequer para beber um gole de água, começou a retornar as ligações dos clientes. Depois de alternar entre quatro idiomas diferentes, ela desabou no sofá, exausta.

Como diretora de vendas do prestigiado resort Villa do Éden, seu dia a dia exigia contato diário com uma clientela exigente, coordenando desde reservas individuais até grandes eventos corporativos.

Ela massageou as têmporas e, no instante em que ia largar o celular, notou as mensagens da sua diretora.

[Você vai mesmo abrir mão da sua promoção para brincar de dona de casa para aquele namorado secreto que você nem pode assumir para os outros?]

[Não se esqueça do motivo que a fez trabalhar comigo anos atrás. Estou muito decepcionada com você!]

A diretora não era apenas sua chefe, mas também sua mentora. Foi ela quem ajudou Jéssica, uma jovem de família rica que havia perdido tudo, a conquistar seu espaço no competitivo ambiente do Villa do Éden. No dia anterior, essa mesma mentora havia conseguido uma oportunidade de promoção que só aparecia uma vez a cada cinco anos, mas Jéssica havia recusado.

O motivo de tamanha loucura era que Lucas queria que, após assumirem o namoro de forma oficial, ela dedicasse todo o seu tempo a ele e à família Pereira.

A expressão de choque e decepção da chefe ainda pesava na sua consciência. Respirando fundo, Jéssica abriu o formulário de inscrição no celular, preencheu os dados e enviou.

A resposta chegou por mensagem de texto: [Não é preciso preencher formulário para desistir.]

Jéssica deu um meio sorriso e digitou: [E quem disse que eu vou desistir?]

Minutos depois, a chefe enviou um áudio com um tom bem mais contido:

— Tem certeza disso?

— Certeza absoluta. Obrigada por tudo, chefe. Prometo que não vou mais decepcionar a senhora. — Respondeu Jéssica, com firmeza na voz.

— Beleza. — Foi a única resposta, mas o alívio na respiração da mulher era evidente.

Naquele momento, um peso enorme sumiu dos ombros de Jéssica.

O homem havia ido embora, mas sua carreira continuava ali.

Ela se levantou do sofá, pegou uma caixa de papelão no armário e começou a guardar tudo o que Lucas havia deixado para trás. Durante a arrumação, percebeu algo irônico. Com exceção das coisas que ela mesma havia comprado para ele, os pertences que Lucas trouxe por vontade própria eram escassos e sem a menor importância. Foi então que se lembrou de como ele detestava aquele apartamento. Ele costumava dizer que não suportava vê-la em um lugar tão humilde e que não queria ferir o orgulho dela oferecendo algo melhor.

"No fundo, ele só achava esse lugar um lixo", pensou Jéssica, soltando uma risada seca.

Era ridículo lembrar de como ela ficava emocionada com aquelas desculpas esfarrapadas. Ela fechou a caixa com força e decidiu que jogaria tudo no lixo na manhã seguinte.

O toque do celular interrompeu seus pensamentos. Era Teresa Silva, sua colega de trabalho e melhor amiga.

— Jéssica, passei o dia inteiro esperando vocês dois postarem a foto oficial do namoro! Como é que a notícia que sai é dele assumindo um compromisso com a Rosana? — Perguntou Teresa, afobada.

Teresa era a única pessoa de confiança no hotel que sabia sobre o relacionamento secreto.

— Nós terminamos. — Jéssica respondeu com a voz serena e impecável.

— Ah, pronto. Que tipo de joguinho é esse agora? Olha, amanhã eu passo na feira perto da chácara e compro aquelas verduras frescas. Você não disse que o senhor Lucas adora aquele seu creme de legumes? — A voz de Teresa soava casual, sem dar muita importância. Ela nem se deu ao trabalho de perguntar o motivo da briga, já acostumada com os dramas do casal. Na cabeça da amiga, bastava uma refeição caseira e uns mimos para os dois voltarem às boas.

— É sério desta vez, Teresa. Eu sofri um acidente de carro e bati a cabeça com força suficiente para curar a minha ilusão romântica. Ele... — Jéssica contou o episódio da amnésia fingida em um tom quase divertido, sem se abalar.

— Ele fingiu perder a memória? Que canalha! Quem ele pensa que você é? — A respiração de Teresa acelerou de indignação no outro lado da linha, logo substituída por uma preocupação genuína. — Você se machucou muito? Quer que eu vá ficar com você?

O peito de Jéssica se aqueceu com a oferta. Era reconfortante saber que Teresa sempre se importava com ela.

— Não precisa, amiga. Amanhã eu só vou ao hospital fazer um retorno médico e logo volto à minha rotina de trabalho.

— Então vai descansar. E, por favor... não seja idiota de tentar ajudar esse traste a "recuperar" a memória, hein? — Teresa ainda parecia não acreditar muito na resolução da amiga.

Jéssica deu um meio sorriso, balançando a cabeça.

— Pode deixar. Isso não vai acontecer.

...

Na mansão.

Lucas acordou e notou o espaço vazio ao seu lado na cama. Vestiu um roupão de seda de qualquer jeito e desceu as escadas. Laura veio recebê-lo de imediato.

— Bom dia, senhor Lucas. A senhorita Rosana acordou bem cedo para preparar o seu café da manhã.

— Entendi. — Murmurou ele, lançando um olhar de aprovação para a cozinha.

Rosana era mesmo a mulher ideal. Tinha classe para os eventos sociais, dedicação para os afazeres da casa e muita disposição entre os lençóis. Acima de tudo, o status da família dela estava à sua altura. Uma realidade bem diferente da de Jéssica.

A lembrança da ex fez Lucas franzir a testa.

"Até que ela teve algum orgulho e não me incomodou a noite inteira", pensou, acomodando-se na cadeira.

Rosana surgiu da cozinha trazendo uma bandeja com um sorriso doce no rosto.

— Que bom que acordou, meu bem. Sente-se para comer.

— Obrigado. — Respondeu ele, aguardando o prato.

A decepção veio em seguida. A bandeja trazia apenas torradas, presunto frito e um copo de café gelado. Ele encarou a comida, insatisfeito.

Rosana pousou a xícara na mesa e percebeu a expressão dele.

— Aconteceu alguma coisa?

Lucas ignorou o café e se serviu de um copo de água em temperatura ambiente.

— Eu já te expliquei que detesto esse tipo de comida de manhã.

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, fazendo um bico charmoso.

— Mas eu não sei cozinhar outras coisas, amor.

— Se não sabe, é só aprender. A Jéssi... — Lucas parou de falar no meio da frase.

Jéssica era uma patricinha que nunca havia tocado em uma panela antes de conhecê-lo. No entanto, ela aprendeu a fazer pratos complexos do zero. Bastava ele comentar que estava com vontade de comer algo, e ela passava a noite procurando receitas. Na manhã seguinte, o prato perfeito estava na mesa.

Ele engoliu o nome da ex e inventou uma desculpa qualquer.

— Eu sou muito exigente com a minha alimentação, só deixo as pessoas mais íntimas cuidarem disso.

— Está bem, eu prometo que vou aprender aos poucos. Mas quebra esse galho para mim hoje, vai? — Rosana ignorou o deslize de Lucas com um sorriso suave, mas seus olhos revelavam uma raiva contida.

Lucas não respondeu. Apenas acenou para a governanta.

— Laura, prepara aquele creme de legumes para mim.

A mulher encolheu os ombros, constrangida.

— Senhor Lucas, eu não sei fazer aquela receita. Só a senhorita Jéssica sabe o ponto certo.

O preparo parecia simples por levar apenas legumes, mas exigia um cuidado extremo. A ordem dos ingredientes e o tempo exato de cozimento faziam toda a diferença para manter o valor nutricional e a cor vibrante do prato. Ninguém na casa queria ter aquele trabalho absurdo por causa de um simples creme. Ninguém, exceto Jéssica.

— E ela não deixou a receita anotada quando veio pegar as coisas dela? — O tom de Lucas engrossou.

Jéssica conhecia seus gostos melhor que ninguém. Nas brigas anteriores, ela sempre deixava suas refeições prontas antes de sair de casa, feitas com ingredientes comprados direto do produtor na feira. E, assim que a comida acabava, ela voltava de cabeça baixa, pedindo desculpas para agradá-lo. O roteiro era sempre o mesmo.

Laura continuou parada, esfregando as mãos de nervoso.

— Não, senhor.

Lucas bateu o copo de água na mesa com força.

"Que ótimo. Essa mulher está ficando cada vez mais manipuladora", pensou ele, soltando um riso debochado. Fez um sinal para Rosana comer sozinha, levantou-se e foi para a sala pegar o celular.

Ele queria ver qual seria a nova tática de Jéssica para chamar a sua atenção.

Digitou rápido no aplicativo de mensagens: [A Laura disse que não tem a receita daquele seu creme de legumes. Qual é o passo a passo?]

Ao enviar a mensagem, o texto ficou marcado com apenas um tique cinza, sem ser entregue. Jéssica teve a coragem de bloqueá-lo?

Lucas soltou uma risada incrédula e jogou o aparelho no sofá. O teatrinho dela estava muito bem ensaiado. Ele só esperava que ela aguentasse a pose até o fim, sem vir rastejando atrás dele depois.

Na sala de jantar, Rosana apertava as mãos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, lutando para manter a fisionomia dócil. Assim que voltou para o seu quarto, pegou o celular e ligou para um de seus seguranças de confiança.

— Tenho um serviço para você.

— Pois não, senhora.

...

Do outro lado, Jéssica abriu os olhos e, por reflexo, olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Oito da manhã! Ela deu um pulo e se sentou na cama, com o coração acelerado. Quando seus pés tocaram o chão frio, a realidade a atingiu. Ela e Lucas não estavam mais juntos. Não havia mais necessidade de correr de manhã cedo para preparar o café de ninguém.

Como a força do hábito era assustadora.

Jéssica se jogou de volta no colchão, deu um espreguiço longo e puxou a coberta com os pés. Especialistas diziam que bastavam vinte e oito dias para criar uma nova rotina. Ela iria aproveitar o final de semana para dormir até não aguentar mais.

Durante a tarde, o tempo fechou na hora em que ela precisou sair para o retorno médico no hospital. A chuva fina de outono caía sem parar, acompanhada de um vento gelado que parecia cortar a pele. Jéssica encolheu o pescoço e puxou o guarda-chuva para baixo, apressando o passo pela calçada.

Ela mal teve tempo de reagir. Depois de caminhar alguns metros, uma mão áspera surgiu por trás, cobrindo sua boca e seu nariz. Usando o próprio guarda-chuva da vítima para esconder a ação, o agressor a puxou com força para dentro de um beco escuro em obras.

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