Antes mesmo de conseguir raciocinar, Jéssica foi atirada com brutalidade contra o chão de asfalto, úmido e gelado.
A chuva implacável encharcou suas roupas em questão de segundos. Pressionando o peito dolorido, ela cerrou os dentes para forçar o próprio corpo a se reerguer.
Ao erguer o olhar, deparou-se com dois desconhecidos a poucos passos de distância. Os homens vestiam camisas estampadas de gosto duvidoso e exalavam uma aura de pura malícia. Um cheiro acre de cigarro barato empesteava o ar, perceptível mesmo com a distância.
Ignorando a pontada aguda na costela, ela se arrastou para trás.
— O que vocês querem comigo? — Ela perguntou, com a voz trêmula, mas desafiadora.
O homem soltou uma risada áspera, passando a língua pelos dentes amarelados pelo fumo.
— O que a gente quer? O que você acha, gracinha?
O tom carregado de segundas intenções era inconfundível. O olhar faminto percorria as curvas de Jéssica, agora delineadas pelo tecido molhado. A intenção ficou transparente.
Sem perder tempo com súplicas, ela varreu o ambiente em busca de uma rota de fuga. O local era uma área de construção abandonada, cercada por tapumes velhos, matagal alto e blocos de concreto. Foi no meio desse caos que ela avistou um vaso de cerâmica lascado. Aproveitando um breve instante de distração dos criminosos, Jéssica agarrou o objeto e o arremessou na direção deles, disparando logo em seguida rumo à saída do beco.
A liberdade parecia estar a poucos centímetros, mas a esperança durou pouco. Em questão de segundos, os agressores a alcançaram. Mãos rudes a agarraram pelos braços, e o fedor de suor misturado com álcool invadiu suas narinas, revirando seu estômago. Desesperada, Jéssica cravou as unhas na parede de tijolos e se debateu com toda a fúria que pôde reunir.
Foi no meio dessa luta desigual que seus olhos captaram uma cena do outro lado da rua. Lucas estava saindo do seu carro. Uma faísca de alívio acendeu em seu peito. Mesmo com o fim do amor entre eles, havia uma vida inteira de memórias e um passado compartilhado. Ele jamais permitiria que ela fosse atacada no meio da rua.
— Lucas! Lucas, por fa...
O grito de socorro foi calado à força quando a mão áspera do segundo homem tapou sua boca. Juntos, os marginais a arrastaram de volta para as sombras do beco estreito.
As unhas de Jéssica rasparam contra o reboco, deixando um rastro de desespero na parede. A poucos metros dali, Lucas lançou um olhar frio e indiferente na direção do tumulto. Em vez de correr para ajudá-la, ele deu as costas, oferecendo a mão para ajudar Rosana a descer do veículo, e os dois caminharam para longe.
Jéssica acompanhou aquela silhueta sumir na chuva, o rosto perdendo toda a cor.
Quando o amor acabava, a crueldade tomava o seu lugar com uma facilidade assustadora.
Jogada no chão com violência mais uma vez, o impacto fez com que o celular escorregasse de sua bolsa. Num gesto frenético, ela tentou pegar o aparelho para acionar a polícia, mas seus dedos sujos de lama e chuva não conseguiam desbloquear a tela. Os dois agressores não fizeram qualquer menção de impedi-la. Pelo contrário, assistiam à cena com um sadismo tranquilo, soltando risadas debochadas.
— Pode tentar à vontade, boneca. — Zombou um deles. — Até a polícia chegar, vai parecer que foi tudo consensual. Ninguém vai se meter numa briga de casal.
O homem tirou do bolso uma garrafa de cachaça barata de cheiro forte, enquanto o comparsa sacava o celular, apontando a câmera na direção dela.
As pupilas de Jéssica dilataram em puro terror. A compreensão do plano a atingiu como um soco, pois eles queriam forçá-la a beber até perder os sentidos, forjar um encontro e gravar tudo para destruir sua reputação.
Um esquema tão sórdido e bem planejado jamais sairia da cabeça daqueles dois bandidos de quinta categoria. Contudo, não havia tempo para juntar as peças desse quebra-cabeça.
O homem da garrafa abriu a fivela do cinto e avançou como um animal faminto. Movida pelo instinto de sobrevivência, Jéssica reuniu o resto de suas forças e cravou um chute certeiro na barriga do agressor.
— Filha da puta! — Gritou ele, dobrando-se de dor.
A fúria tomou conta do marginal. Ele agarrou o tornozelo de Jéssica, arrastando-a pelo asfalto áspero até tê-la presa sob si. Com uma das mãos, apertou o maxilar dela até quase deslocá-lo e virou a garrafa de cachaça direto em sua boca.
— Me... solta... — Ela engasgava, tentando empurrá-lo enquanto o líquido queimava sua garganta.
Com a respiração pesada de excitação, o homem cravou os olhos nas roupas coladas ao corpo dela, incapaz de conter a própria luxúria.
— Chegou a minha vez de provar o sabor da mulher do senhor Lucas!
"Senhor Lucas? Como esse tipo de escória saberia o nome dele? E pior, como saberiam do nosso relacionamento? Alguém pagou por isso... encomendaram esse ataque para me destruir!", pensou ela.
Enquanto a terrível verdade se desenhava em sua mente, o homem projetou o rosto para beijá-la. A garganta de Jéssica ardia como fogo, impedindo qualquer grito de socorro. Restava apenas continuar lutando, desferindo socos e chutes às cegas contra o peso esmagador sobre ela.
Perdendo a paciência, o agressor desferiu um tapa no rosto dela e fechou as mãos grossas ao redor de seu pescoço.
— Para de se fazer de difícil, sua vagabunda! Você não passa de um resto que o senhor Lucas jogou fora!
O olhar do bandido transbordava uma violência selvagem. Ele apertou ainda mais a garganta dela, usando a mão livre para rasgar o casaco de Jéssica.
A falta de ar enviou um zumbido ensurdecedor aos seus ouvidos. Enquanto o mundo escurecia, um turbilhão de memórias invadiu sua mente, lembranças dos quatro anos de dedicação absoluta a um homem que a tratava como nada. E, no limite da consciência, a imagem do anúncio oficial do namoro de Lucas e Rosana piscou em sua cabeça.
"Não! Eu me recuso a morrer assim!", pensou ela.
Os olhos de Jéssica se arregalaram, injeitados de ódio. Tateando o chão em meio ao desespero, seus dedos esbarraram em um caco afiado do vaso que havia quebrado minutos antes. Ela apertou a cerâmica pontiaguda com tanta força que a própria mão sangrou. Havia apenas uma certeza cravada em sua alma. Se fosse para descer ao inferno, levaria aqueles desgraçados junto com ela.
No exato instante em que ergueu o caco para cravá-lo no pescoço do agressor, os olhos do homem saltaram das órbitas. O peso de seu corpo cedeu por completo, tombando inerte sobre o chão sujo como um saco de pedras. O comparsa que gravava a cena apagou logo em seguida, desabando no asfalto sem emitir um único som.
Mordendo os lábios pálidos e trêmulos, Jéssica empurrou o corpo desmaiado e cambaleou até ficar de pé. Ao erguer os olhos, a primeira coisa que viu foi um elegante guarda-chuva preto cortando a tempestade. A chuva densa caía como um véu translúcido, deixando a figura sob o guarda-chuva envolta em um mistério quase etéreo. A única coisa palpável naquela visão era um par de olhos escuros, intensos e, de alguma maneira, assustadoramente familiares.
Antes que sua mente pudesse processar quem era o misterioso salvador, suas pernas cederam. Ela despencou em direção ao asfalto, mas foi amparada por braços firmes. O mundo girou e afundou na escuridão. Na fronteira do inconsciente, sentiu seu corpo ser erguido com grande facilidade, enquanto uma voz grave e imponente ecoava acima de sua cabeça:
— Resolva os dois.
...
Hospital.
Acomodada entre os travesseiros do quarto particular, Rosana exibia uma expressão de sofrimento delicado, com os olhos marejados de lágrimas enquanto encarava Lucas.
— Ai, Lucas... A culpa foi toda minha por ter torcido o pé de um jeito tão idiota. Sinto tanto por fazer você largar o trabalho só para me trazer ao hospital. — A voz dela soava doce e frágil.
Lucas mantinha o olhar fixo na paisagem chuvosa do lado de fora da janela, sem prestar qualquer atenção.
— Lucas? — Chamou Rosana de novo, com cautela.
Lucas desviou os olhos do vidro, as sobrancelhas franzidas em sinal de confusão.
— Aquela hora, na rua... Era a voz da Jéssica me chamando, não era?
Ouvir aquele nome fez a máscara de doçura de Rosana quase despencar. Disfarçando a irritação, ela mudou de postura e destilou seu veneno em tom de inocência:
— Sério? Meu Deus, será que ela voltou a seguir os seus passos como uma perseguidora?
O traço de dúvida no rosto de Lucas durou apenas um segundo antes de se transformar em um sorriso de puro escárnio.
— Ela acha que eu vou cair nesse joguinho de novo. Não foi ela que posou de durona e me bloqueou de tudo? Que fique claro, não vou mover um dedo por aquela mulher.
Um sorriso de triunfo despontou nos lábios de Rosana, mas ela logo o escondeu soltando um gemido de dor bem ensaiado, curvando-se para segurar o tornozelo.
— Ai, meu pé! Tá doendo muito!
A postura fria de Lucas desapareceu. Ele caminhou apressado até a cama, sentando-se na beirada com preocupação evidente.
— Está doendo tanto assim? Deixa eu dar uma olhada.
— Uhum... — Concordou ela, aproveitando a aproximação para deslizar o tecido do vestido para cima. A fenda subiu devagar pelas coxas até quase não deixar nada para a imaginação.
Movimentando a perna com um charme provocante, ela sussurrou de forma manhosa:
— Está doendo de verdade, Lucas. O que você vai fazer para me curar?
Um sorriso malicioso curvou os lábios do homem. Em um movimento ágil, ele se inclinou sobre ela, prendendo-a contra os lençóis brancos da cama de hospital.
— Você é uma diabinha, sabia? — Provocou ele.
Rosana deslizou os braços pelo pescoço de Lucas, puxando-o para mais perto.
— Vai me dizer que não adora?
— Mais do que deveria.
Os dois se entregaram a um beijo carregado de desejo. Segundos depois, uma enfermeira abriu a porta com os curativos na mão. Ao dar de cara com a cena íntima, o rosto da enfermeira esquentou de vergonha. Ela fechou a porta e saiu de fininho, com um sorriso sem graça no rosto.
...
Do outro lado do hospital.
Quando Jéssica enfim abriu os olhos, encontrou uma jovem enfermeira ajustando o gotejamento do soro ao lado da maca.
— Que bom que você acordou. Está sentindo alguma dor ou desconforto? — Perguntou a enfermeira com um tom acolhedor.
Jéssica balançou a cabeça em negação, seus olhos varrendo as paredes brancas do quarto. Não havia sinal do homem que a salvara daquele pesadelo. Aflita, ela segurou a manga do jaleco da enfermeira.
— Moça, por favor... Onde está o homem que me trouxe para cá?
— O cavalheiro que acompanhou você? Ele ficou aqui até a sua febre baixar e depois foi embora. — Explicou a enfermeira, ajeitando os lençóis.
— E ele não deixou nenhum número de telefone? Um nome, qualquer coisa? — A ansiedade transbordava na voz de Jéssica.
— Infelizmente não, senhora. Não deixou nada.
— Entendo... Obrigada.
Jéssica encostou a cabeça no travesseiro, tomada por uma frustração que nem ela mesma sabia explicar.
"Por que aquela presença parecia tão familiar? Aqueles olhos no meio da tempestade...", pensou Jéssica, consigo mesma.
A sensação de já conhecê-lo de algum lugar não saía de sua cabeça.
Foi então que a enfermeira pegou um tecido escuro que repousava sobre a mesa de cabeceira.
— Sabe, durante o pico da febre, você tremia de frio sem parar. Acabou agarrando o cachecol daquele moço como se a sua vida dependesse disso, e não soltava de jeito nenhum. Nós duas tentamos tirar da sua mão, mas foi em vão. O jeito foi ele deixar o cachecol aí com você.
O rosto de Jéssica esquentou de vergonha. Só de imaginar a cena humilhante de estar brincando de cabo de guerra com a roupa de um estranho, a vontade era de voltar a dormir para fugir da realidade.
Ela esticou a mão e pegou a peça. O contato com a lã de caxemira de altíssima qualidade era de uma maciez ímpar, transmitindo um calor reconfortante. Apesar do design em preto, os detalhes da trama denunciavam um trabalho artesanal exclusivo. Aquele cachecol não era algo que se comprasse em qualquer vitrine de shopping.
Ao trazer o tecido para perto do rosto, Jéssica sentiu a fragrância impregnada nos fios. Era um aroma amadeirado, misturado com um toque sutil de tabaco fino e uma frieza inexplicável. O cheiro combinava por inteiro com a intensidade daquele olhar negro sob a chuva.
Enquanto Jéssica estava imersa em pensamentos, a enfermeira soltou um suspiro sonhador, recordando-se dos eventos do turno:
— Ah, mas quem diria que eu veria dois homens maravilhosos no mesmo plantão, né? E ambos tão protetores! Aquele empresário chique, o Sr. Lucas, estava mimando tanto a namorada dele, a Srta. Rosana, num quarto aqui perto. Eles estavam num clima de romance tão gostoso que a gente ficou até constrangida de atrapalhar!