LOGINCAPÍTULO 9
Ao ouvir a sua recusa, a paciência do seu pai evaporou-se por completo.
Contornou a cama com passos rápidos e pesados, os seus sapatos gastos a bater no chão de linóleo com uma cadência ameaçadora. A Samanta tentou recuar, encolhendo-se contra a cabeceira da cama, procurando fazer-se pequena, invisível, mas ele foi mais rápido. Agarrou-a pelo braço com uma força brutal.
— Larga-me!
CAPÍTULO 80O Benício era, sem dúvida alguma, o De la Vega mais relaxado e extrovertido da sua geração.A sua filosofia era simples: se vais herdar um império, pelo menos certifica-te de desfrutar da viagem.Por isso, quando o departamento de marketing decidiu que precisavam de uma cara visível para uma nova campanha de publicidade de alto perfil, o casting interno foi um desastre.O Thiago tinha-se recusado rotundamente a parar em frente a uma câmara para dizer frases pré-fabricadas. O Mateo a exibir um olho morado estava fora de questão.Assim, por exclusão de partes e por vocação própria, o Benício foi o único que aceitou sair.— Corte! —gritou o realizador—. Benício, querido, preciso de mais... visão de futuro! Olha em direção ao horizonte como se estivesses a ver os barcos chegar, e
CAPÍTULO 79Trabalharam em silêncio durante quase uma hora. A atmosfera era tão densa que se podia cortar com o corta-papéis de prata que descansava inútil sobre a mesa. O único som era o estalar das folhas de papel bond ao ser viradas e o teclar rápido e rítmico da Karla no seu tablet.Quando finalmente a última folha foi rubricada, o Mateo deixou cair a esferográfica sobre a mesa e recostou-se na cadeira, fechando os olhos por uma fração de segundo, sentindo a batida dolorosa na têmpora.A Karla foi a primeira a dizê-lo em voz alta, quebrando o silêncio espesso com a mesma elegância com que fechava o seu tablet inteligente.— Creio que com esta assinatura já terminámos aqui, Mateo. Todo o pacote internacional está assegurado para a reunião de quarta-feira.Pôs-se de pé, alisando a saia do seu fa
CAPÍTULO 78A Karla aparcou na área de convidados do estacionamento subterrâneo. O Thiago já a estava a esperar junto aos elevadores privados.O elevador elevou-os em silêncio até ao ático.Quando as portas se abriram diretamente no vestíbulo do apartamento, o Thiago tocou a campainha integrada no painel de controlo, anunciando a sua presença.Uns segundos depois, ouviram-se passos arrastados. A porta principal de madeira de ébano abriu-se lentamente.O Mateo apareceu no umbral.Se a intenção do Thiago tinha sido preparar a Karla para o impacto visual, a advertência no escritório tinha ficado curta.Tinha o olho esquerdo rodeado por um hematoma que tinha evoluído para um tom amarelado e esverdeado, o pómulo inflamado desfigurava a simetria do seu rosto, e um penso branco cobria um corte na sobrancelha.Mas a surpresa não foi apenas para a Karla; foi mútua.O Mateo, que esperava pelo primo com os contratos numa mão e um saco de gelo a meio derreter na outra, ficou paralizado ao vê-la d
CAPÍTULO 77— Entrem —ouviu-se a voz clara e profissional da Karla a partir do interior.O Thiago abriu a porta do gabinete da Karla.— Dize-me, Thiago. Surgiu alguma coisa com o fecho das alfândegas? Estava prestes a enviar o relatório final do dia.O Thiago avançou até ficar em frente à secretária, apoiando ambas as mãos sobre a superfície fria.— O relatório está perfeito, Karla. Mas temos um assunto pendente que não pode esperar por amanhã. E não é exatamente um problema de alfândegas.A Karla deteve as mãos e olhou-o com fixeza.— De que se trata?— Temos de ir terminar a revisão dos contratos de sustentabilidade para a nova frota. E temos de o fazer fora do escritório. No apartamento do Mateo.A Karla franziu o sobrolho, claramente desagradada com a mudança de planos.— No apartamento do teu primo? —perguntou ela, recostando-se na sua cadeira giratória—. Outra vez não veio hoje trabalhar?— Não. Hoje tampouco —confirmou o Thiago, mantendo a voz neutra, embora a irritação pela au
CAPÍTULO 76A Lucía e a Sofía estavam apoiadas sobre a cerca da box principal, observando em silêncio como o potro recém-nascido tentava coordenar as suas longas patas para alcançar as tetas da mãe. A égua alazã lambia-o com devoção, alheia às intrigas da cidade.— Sofia... —disse a Lucía, com um tom muito mais suave, quase cúmplice—. Ontem disseste-me que ias à cidade para sair. Não me contaste como te correu o encontro.A Sofía pestanejou, tirada do seu enlevo pelo potro. A recordação do café na cidade, a timidez do Esteban e a interrupção gélida do Thiago atingiram-na com uma mistura de frustração e confusão.Apertou os lábios, alisando uma estilha imaginária na madeira da cerca.— Não saberia dizer-te, mamã —r
CAPÍTULO 75Eram passadas as quatro da tarde quando a Sofía, esgotada mas estranhamente relaxada, já estava a terminar de pentear a crina húmida do seu cavalo na área de lavagem exterior.O estalar de uns passos anunciou a chegada da matriarca.A Lucía Flores caminhava em direção a ela, levava o telemóvel numa mão e uma linha de tensão desenhada entre as sobrancelhas que à Sofía fazia sempre lembrar os interrogatórios prévios a um castigo na sua infância.A Lucía aproximou-se da filha para perguntar, sem preâmbulos nem saudações cordiais, indo direto à jugular do problema.— Sofía, ontem dormiste com o teu irmão?A Sofía não deteve o movimento da escova sobre o flanco do Eclipse, tentando manter a sua respiração e o seu ritmo cardíacos inalterad







