MasukCapítulo 6: O Território Delas
(Ponto de vista do Vinícius) — "As palavras do Vinícius não têm peso suficiente para me ofender." A voz daquela garota do interior ressoava na minha cabeça enquanto eu tentava me concentrar na aula de Arquitetura de Dados. Eu girava a caneta entre os dedos, encarando as costas de Mel três fileiras à frente. A audácia dela era inacreditável. Quem ela pensava que era para falar comigo daquele jeito na frente da minha mãe? Nenhuma mulher jamais tinha me olhado com aquele desdém puro, como se eu fosse um detalhe insignificante na paisagem. E o pior era que, quanto mais ela me ignorava, mais meus olhos pareciam teimar em procurá-la. — Cara, você tá encarando a sua prima há vinte minutos — Tom sussurrou ao meu lado, inclinando a cadeira. — Vai encarar ou vai admitir que tá incomodado porque ela não caiu no seu charme? — Ficou maluco, Tom? — respondi, sem tirar os olhos dela, que agora anotava algo no caderno com uma agilidade irritante. — Estou só esperando o momento certo para mostrar que o lugar dela não é aqui. — Sei... — Paulo riu da cadeira da frente, virando-se para trás. — O problema é que o Gabriel do time de basquete não acha a mesma coisa. Olha lá. Meus olhos se travaram imediatamente. Gabriel — o ala-armador metido a besta do campus, cheio de sorrisos perfeitos e papo furado — tinha acabado de se sentar na banca vaga ao lado de Mel. Ele inclinou o corpo na direção dela, mostrando o celular com um sorriso galanteador. E a Mel? Em vez de dar o fora frio que dava em mim, ela deu um sorriso. Um sorriso verdadeiro, leve, que fez covinhas discretas aparecerem em suas bochechas. Um queimado esquisito e desconhecido subiu pelo meu pescoço, travando meu maxilar instantaneamente. Quase dobrei a caneta no meio. — O que foi, Vinícius? — Tom provocou, percebendo a mudança brusca no meu humor. — Não era você que disse que não dava a mínima para a caipira? — E não dou — respondi com a voz fria como gelo, levantando-me bruscamente da cadeira no meio da explicação do professor. O silêncio caiu sobre a sala por um segundo, mas eu não me importei. Caminhei a passos largos até a banca onde os dois conversavam. — Professor, desculpe a interrupção — falei em alto e bom som, parando bem ao lado da mesa de Mel e apoiando a mão na borda, cortando totalmente a visão que Gabriel tinha dela. — Só vim avisar a Melanie que a mãe dela ligou. Parece que a fazenda precisa dela urgently para resolver um problema com as vacas. A sala inteira explodiu em risadas abafadas. Tom e Paulo caíram na gargalhada no fundo. Gabriel me encarou, confuso e constrangido. Mel, por sua vez, congelou. O sorriso bonito que ela tinha no rosto desapareceu no mesmo instante, substituído por uma faísca de raiva pura. — Muito engraçado, Vinícius — ela disse, a voz baixa, fervendo de indignação enquanto se levantava devagar. — Sua maturidade realmente impressiona a todos nós. — Só estou cuidando das suas origens, priminha — dei um sorriso sarcástico, inclinando-me um pouco para falar só para ela. — E avisando o Gabriel aqui que o tempo dele é valioso demais para gastar com quem não sabe a diferença entre um código C++ e uma enxada. Gabriel pigarreou, sem graça, levantou as mãos e se afastou. Mel me encarou no fundo dos olhos. Se olhares pudessem matar, eu estaria enterrado a sete palmos. Ela juntou o material com uma violência contida, jogou a mochila no ombro e deu um passo para perto de mim. — Você é desprezível, Vinícius Albuquerque — ela sussurrou, perto o suficiente para que apenas eu ouvisse. O perfume doce de flor de laranjeira me atingiu em cheio, fazendo meu peito apertar por meio segundo. — Mas se acha que essa palhaçada me afeta, você está muito enganado. Ela passou por mim com a cabeça erguida, sem olhar para trás. Fiquei parado no meio do corredor da sala, vendo-a sair. Meus amigos continuavam rindo no fundo, achando que eu tinha acabado de "ganhar" mais uma rodada daquela disputa. Mas a verdade é que, enquanto eu observava a porta por onde ela tinha acabado de sumir, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto amargo de que quem tinha perdido a cabeça tinha sido eu.Capítulo — O lugar que eu escolhi Mel Eu sempre achei que, quando chegasse o dia da minha formatura, sentiria alguma coisa grandiosa. Imaginei que acordaria sabendo exatamente o que aquele momento significava, que lembraria de cada dificuldade e que conseguiria colocar em palavras tudo o que tinha acontecido desde o primeiro dia de faculdade. Mas, naquela manhã, enquanto me arrumava diante do espelho, tudo parecia mais simples. Eu estava feliz. E também estava nervosa. Talvez porque terminar a faculdade não significasse que eu tinha chegado ao fim de alguma coisa. Na verdade, significava que uma nova fase estava começando. Olhei para o vestido que tinha escolhido e sorri. Mel: — Então é isso. Dona Ana apareceu atrás de mim. Dona Ana: — É isso o quê? Mel: — Eu terminei. Ela sorriu. Dona Ana: — Terminou uma etapa. Não a sua história. Virei para ela. Mel: — Você sempre tem uma resposta pronta? Dona Ana: — Depois de tantos anos cuidando de você, alguma co
Capítulo — Antes do próximo começo Mel Os últimos meses passaram mais rápido do que eu gostaria. Entre a faculdade, o trabalho e as consultas de Helena, os dias pareciam sempre cheios. Quando eu finalmente tinha um momento para respirar, alguma outra coisa já estava acontecendo. Ainda assim, havia uma diferença importante. Eu não estava mais tentando sobreviver à rotina. Eu estava vivendo. Na faculdade, as coisas também estavam chegando ao fim. Os professores começaram a falar sobre as últimas avaliações, os trabalhos finais e a cerimônia que se aproximava. Eu ainda não conseguia acreditar que estava tão perto de terminar. Naquela tarde, saí da aula acompanhada de Helena. Ela já estava com uma barriga que começava a aparecer, embora ainda não fosse tão grande quanto ela imaginava que estaria naquela altura. Helena: — Eu ainda não me acostumei. Mel: — Com o quê? Helena: — Com as pessoas olhando para a minha barriga. Mel: — Elas estão olhando porque agora dá
Capítulo — O meu lugar Mel Começar naquela empresa foi diferente de tudo que eu tinha imaginado. Nos primeiros dias, eu cheguei antes do horário, conferi minhas anotações mais vezes do que precisava e tentei prestar atenção em cada detalhe. Eu queria mostrar que merecia aquela oportunidade, mas também estava consciente de que ninguém esperava que eu soubesse tudo de imediato. Ainda assim, o medo de errar estava presente. No terceiro dia, depois de passar quase duas horas trabalhando em uma parte do projeto, percebi que havia escolhido um caminho que não funcionaria. Fiquei olhando para a tela, frustrada. Uma das pessoas da equipe percebeu. Colega: — Algum problema? Mel: — Acho que fui pelo caminho errado. Colega: — E você percebeu sozinha? Mel: — Sim. Colega: — Então já resolveu metade do problema. Olhei para ela, surpresa. Colega: — Aqui ninguém espera que você nunca erre. A gente espera que você saiba identificar o erro e tentar outra solução. Aquilo me
Capítulo — O que vem depois Mel Na semana seguinte, minha rotina ficou ainda mais corrida. Entre as aulas da faculdade, os trabalhos e os preparativos para conhecer pessoalmente a equipe da empresa, eu mal tive tempo de perceber que os dias estavam passando. Talvez fosse justamente isso que eu precisava naquele momento: ter coisas para fazer que não envolvessem ficar pensando em todas as possibilidades que o futuro poderia trazer. Na terça-feira, saí da última aula e encontrei Vinícius esperando por mim do lado de fora. Ele estava encostado no carro, mexendo no celular, e levantou os olhos assim que me viu. Vinícius: — Finalmente. Mel: — Você está me esperando há quanto tempo? Vinícius: — Tempo suficiente para concluir que estudantes universitários gostam de sofrer. Mel: — Você nunca estudou o suficiente para descobrir isso. Vinícius colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido. Vinícius: — Isso foi desnecessário. Mel: — Foi verdadeiro. Ele abriu a porta do carro para
Capítulo — O próximo passo Mel Na quinta-feira, acordei mais cedo do que precisava. Não porque tivesse alguma coisa urgente para fazer, mas porque meu cérebro decidiu que aquele era o melhor dia para lembrar de todas as possibilidades de dar errado. Fiquei alguns minutos olhando para o guarda-roupa, tentando decidir o que vestir para a segunda conversa com a empresa. Eu sabia que não precisava parecer outra pessoa para impressioná-los, mas também não queria aparecer com a primeira roupa que encontrasse. Depois de trocar de roupa duas vezes, finalmente escolhi algo simples e confortável. Quando desci, encontrei Dona Ana na cozinha. Dona Ana: — Você está nervosa. Mel: — Está tão óbvio assim? Dona Ana: — Você trocou de roupa duas vezes. Mel: — Como sabe? Dona Ana: — Eu conheço você. Sentei-me à mesa e aceitei a xícara de café que ela colocou na minha frente. Dona Ana: — Não pense nessa conversa como se fosse uma prova. Mel: — Estou tentando. Dona Ana: — Você
Capítulo — Quando a vida começa a se encaixar Mel Nos dias que se seguiram à conversa com a empresa, eu tentei não pensar demais no assunto. Era mais fácil falar do que fazer, porque toda vez que o celular vibrava, eu imediatamente procurava uma mensagem ou um e-mail que pudesse trazer alguma novidade. Eu sabia que precisava ter paciência, mas nunca fui exatamente boa nessa parte. Naquela manhã, eu estava sentada à mesa do café quando meu celular vibrou outra vez. Peguei o aparelho tentando agir com naturalidade, embora Helena estivesse do outro lado da mesa e já tivesse percebido a minha reação. Helena: — Se você continuar olhando para esse celular desse jeito, ele vai acabar pedindo uma ordem de restrição. Mel: — Estou esperando uma resposta. Helena: — Eu sei. Você olha para ele a cada trinta segundos desde ontem. Mel: — Não é para tanto. Helena: — É exatamente para tanto. Dona Ana, que estava preparando café, olhou para nós duas e soltou uma risada. Dona Ana: — Vocês dua







