LOGINO Dr. Roberto Fontes subiu na terça-feira com dois historiadores, uma pasta de couro e uma cara que Gabriel conhecia de trinta anos e que aparecia umas quatro vezes por década.Reuniram-se na biblioteca do casarão, com a mesa de jacarandá coberta de papel: a certidão de inteiro teor da Carta Patente Imperial de 1878, a escritura ratificada de 1885, as plantas de agrimensura, o mapa cartográfico em aquarela e as seis matrículas das glebas da encosta norte.Fontes não sentou. Ficou de pé, com os dedos apoiados na mesa, e falou durante quarenta minutos.— Doutor Gabriel, eu vou dizer uma coisa antes de começar, e eu preciso que o senhor entenda que eu não estou sendo dramático. — Ele ajustou os óculos. — Eu trabalho para esta família há trinta anos. Eu li esse decreto pela primeira vez em dois mil e vinte e quatro, quando o se
Carlos Valois subiu a serra num sábado, sozinho, e não avisou que vinha.Estacionou no pátio às onze da manhã, desceu do carro com aquela rigidez do lado direito que a família chamava de idade, e encontrou o filho no gramado com os gêmeos.— Pai?— Eu preciso te mostrar uma coisa. — O velho tirou os óculos escuros. — Pega o carro. Vamos descer.---Desceram os três quilômetros da estrada de terra e viraram à direita na estadual, e Carlos foi guiando com o queixo, em silêncio, durante onze minutos.— Aqui.Gabriel encostou.Era uma curva. Uma curva fechada à esquerda, na descida, com o barranco de um lado e um talude de araucárias do outro, e uma defensa metálica amassada num trecho de uns quinze metros que ninguém tinha trocado.— Foi aqu
Gabriel Valois marcou com Renata Aragão para uma segunda-feira, às sete da manhã, numa cafeteria da Rua Pedroso Alvarenga que abria às seis e meia e que ficava a quatro quadras da sede.Escolheu a cafeteria de propósito. Não podia ser a empresa, não podia ser a casa dela, não podia ser um escritório de advocacia — e ele tinha passado o domingo inteiro entendendo que, para aquela conversa, ele precisava de um lugar onde ela pudesse levantar-se e ir embora a pé.Ela chegou às sete em ponto, de blazer, com a bolsa no ombro e a expressão de quem já sabe que vai ser demitida.— Doutor.— Bom dia. Senta, por favor.Renata sentou-se. Pousou a bolsa na cadeira ao lado, alinhada.— O senhor leu o relatório preliminar.— Li.— Então o senhor já sabe que e
Vera Duarte ficou dois dias sem contar a ninguém.Foi trabalhar na segunda. Conferiu o estoque. Fechou o caixa na terça à noite. Deu o remédio da mãe, trançou o cabelo da irmã, ouviu a tabuada do sobrinho, e carregou dentro do celular uma gravação de uma hora e quarenta minutos que ela não conseguiu ouvir uma segunda vez.Na quarta-feira de manhã, na fila do ônibus, ela finalmente entendeu o que estava acontecendo com ela.Não era luto. Não era alívio.Era desemprego.Fazia nove anos que Vera Duarte tinha um trabalho em tempo integral que ninguém pagava e que ela nunca tinha pedido demissão: odiar um homem sem rosto. Era o que a segurava de pé às cinco e vinte da manhã. Era o motor. Era a coisa que transformava a vida dela numa história com direção em vez de numa sucess&a
Achar um homem com meio dedo levou nove dias.Foi o sindicato de novo, e foi a rede de segurança privada, e foi um irmão do genro da Lourdes que trabalhava em portaria e que conhecia gente que conhecia gente.Chamava-se Nelson Prata, tinha cinquenta e oito anos, e tinha trabalhado dezenove anos numa empresa de segurança patrimonial que prestava serviço para eventos corporativos de grande porte em São Paulo. Perdeu metade do indicador direito em mil novecentos e noventa e oito, numa porta de aço de banco.Estava desempregado desde dois mil e vinte e dois.Morava em Ferraz de Vasconcelos, numa casa de dois cômodos nos fundos de um terreno, com um cachorro amarelo amarrado no portão.---Vera foi num sábado de manhã e não avisou ninguém.Não avisou Gabriel, não avisou Marcos Viana, não avisou a mãe. E
Não foi a inteligência da Valois Asset que encontrou Nelson Prata.Foi Vera Duarte, e foi por um caminho que dinheiro nenhum abriria, e ela levou vinte e dois dias.Começou pelo sindicato.O Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Apart-Hotéis, Motéis, Restaurantes e Similares de São Paulo fica num prédio de quatro andares no centro, com escada de granilite gasto e uma sala de espera com dez cadeiras. Vera foi num sábado de manhã, no dia de plantão jurídico, e pegou senha atrás de um cozinheiro que estava brigando por verba rescisória.Foi atendida por um rapaz de vinte e poucos anos.Ela não contou a história. Contou a metade que servia: que a irmã tinha trabalhado como camareira terceirizada no Marquês em dois mil e dezesseis, que tinha adoecido, que ela precisava provar vínculo para uma coisa







