Lembro da primeira vez que entrei num sarau organizado pelo ABC Uberaba: um misto de biblioteca viva e show acústico no pátio da antiga fábrica de tecidos. Ali, vi como o projeto virou catalisador de uma geração que desconstrói rótulos. Artistas plásticos como Rita Campos começaram a ilustrar capas de álbuns de bandas locais, enquanto rappers participam de peças teatrais improvisadas. Essa troca criou uma identidade visual única – dá pra reconhecer um cartaz do movimento só pelas cores vibrantes e colagens cheias de referências à cultura caipira atualizada.
E o impacto vai além dos eventos. Conversando com professores da rede pública, descobri que muitos alunos passaram a compor após workshops do ABC nas escolas. A cena musical virou tema de redação no ENEM regional, e até o comércio aderiu – lojas de instrumentos musicais dobraram nos últimos três anos, todas com adesivos do projeto colados nas vitrines.
Aqui em Uberaba, o ABC funciona como uma espécie de rede subterrânea que conecta criativos de bairros distintos. Na Zona Leste, onde predomina o rap, eles trouxeram aulas de mixagem que resultaram no selo 'Quilombo Beats'. Já no centro histórico, resgataram o antigo coral da igreja e o reinventaram com arranjos que misturam canto gregoriano e percussão africana. Até os food trucks adotaram a vibe – tem um que só abre durante ensaios abertos e virou ponto de venda de zines musicais. Essa permeabilidade mudou até a forma como as pessoas consomem arte na cidade.
Morar em Uberaba me fez perceber como o ABC é um celeiro de talentos que transforma a cena cultural da cidade. Aqui, o projeto não só revela bandas indie como 'Casa de Farinha' e 'Solteiros Ouvintes', mas também cria espaços colaborativos onde artistas experimentam fusões inesperadas – pense em samba com sintetizador ou poesia falada sobre batidas de trap. As oficinas no Teatro Vera Cruz viraram ponto de encontro de adolescentes que antes não tinham acesso a instrumentos, e agora montam coletivos como 'Selva Tapes', gravando discos caseiros que circulam até em feiras de São Paulo.
O que mais me fascina é como essa efervescência transborda para as ruas. Durante o 'Festival Uberaba Contemporânea', lojas abandonadas no centro viram galerias pop-up, e até o bar do seu Zé na esquina vira palco para DJs que mesclam forró eletrônico com samples de discos de vinil antigos. Essa apropriação orgânica do espaço público fez a cidade repensar até seu calendário cultural – hoje a prefeitura inclui editais específicos para projetos híbridos que o ABC ajudou a popularizar.
2026-07-15 13:07:28
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