Share

Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer
Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer
Author: Pêra

Capítulo 1

Author: Pêra
— Mãe, não vai mais ter casamento.

O vento noturno soprava impiedosamente através do rasgo no tecido fino do vestido de noiva, enquanto Susana caminhava descalça pela rua deserta, a barra da saia arrastando na poeira e no asfalto frio. Do outro lado da linha, houve um instante de silêncio absoluto, logo quebrado por uma voz trêmula, carregada de incredulidade e dor.

— Como assim, minha filha? — A mãe perguntou, e Susana podia imaginar as lágrimas escorrendo pelo rosto dela. — Você amou o Nathan escondido por cinco anos, não nos ouviu quando imploramos para você voltar... Mudou-se sozinha para essa cidade tão longe de casa só para ficar perto dele. O Nathan te fez algum mal? Ele te humilhou?

A garganta de Susana se fechou, um nó apertado que impedia a respiração, e as lágrimas, que ela tentava conter, transbordaram sem controle.

Ela estava errada. Errada por ter sido tão teimosa, por ter ignorado os conselhos dos pais e, pior, por ter desperdiçado sua juventude com um homem que, em pleno dia do casamento, foi capaz de abandoná-la por seu antigo amor. A única sorte em meio ao desastre era que a cerimônia não havia sido concluída; a certidão de casamento continuava em branco, sem as assinaturas que selariam sua sentença.

— Mãe, não se preocupe. — Disse Susana, respirando fundo o ar gelado para tentar estabilizar a voz. — Vou apenas resolver as pendências aqui e, na semana que vem, volto para casa. Definitivamente.

Já passava da meia-noite quando ela finalmente retornou ao apartamento que dividia com Nathan. O silêncio da casa parecia zombar dela enquanto retirava as malas do armário e começava a empacotar sua vida.

Nathan só apareceu na manhã seguinte.

Ele entrou com a calma habitual, trazendo sacolas de um restaurante cinco estrelas, e começou a dispor o café da manhã na mesa, alheio à tensão no ar.

— Você tem gastrite, não pode ficar sem comer de manhã. — Disse ele, com aquele tom de preocupação automática.

Sentada no sofá, Susana apenas o observou em silêncio. Antes do casamento, a ansiedade lhe causava dores de estômago terríveis. O médico havia trocado sua medicação e a instruído explicitamente a evitar refeições pesadas pela manhã, algo que ela contara a Nathan várias vezes. Ele sempre respondia com um "tudo bem" distraído, mas, como sempre, nunca absorvia a informação.

Era aquela a essência de Nathan, uma gentileza de fachada. A delicadeza dele parecia estar atrás de uma redoma de vidro, uma delicadeza que era visível, admirável, mas intocável e fria. Ele nunca se importava de verdade. Prova disso era que, naquele momento, ele sequer notou as malas de viagem espalhadas pela sala e as caixas de papelão empilhadas, prontas para serem lacradas.

— Sei que você está chateada porque saí do casamento ontem. — Começou Nathan, aproximando-se com uma postura relaxada, como se estivesse discutindo um simples atraso para o jantar. — Mas a Bianca ficou doente de repente, voltou sozinha do exterior... Eu não podia deixá-la desamparada. Vamos escolher outra data, faremos uma festa ainda mais luxuosa para compensar.

Antes que pudesse pegar o telefone para ligar para o cerimonialista, o aparelho vibrou em sua mão. Ao atender, o som de um choro baixo e abafado vazou pelo alto-falante.

— Nathan, onde você está? — A voz de Bianca soava frágil, manhosa, calculada para despertar instinto protetor. — Estou sozinha aqui no hospital, com tanto medo... A dor voltou muito forte. Você não pode vir ficar comigo?

A postura de Nathan mudou instantaneamente; suas costas ficaram rígidas, os músculos tensos de preocupação.

— O que o médico disse? Sente mais alguma coisa além da dor? — Perguntou ele, a voz urgente.

Houve um breve silêncio do outro lado, seguido por uma risada fraca e charmosa.

— Que bobo, não é nada grave... É só que eu queria você aqui. Sem você, sinto um vazio tão grande.

Nathan olhou para Susana por alguns segundos, as sobrancelhas franzidas em um conflito interno que durou pouco. A decisão já estava tomada.

— Já estou indo. — Respondeu ele, num tom tão doce que parecia capaz de derreter pedras.

Ao encerrar a chamada, ele se virou para Susana, a expressão voltando a ser impessoal, quase executiva.

— Coma primeiro. A Bianca precisa de mim.

Sem esperar resposta, ele girou no calcanhar e saiu, suas passadas largas ecoando pela casa até a porta bater. Susana permaneceu imóvel, sem piscar, sem reagir. A tempestade emocional que deveria ter devastado seu peito já havia se dissipado, substituída por uma dormência acolhedora. Afinal, que Nathan sempre amou Bianca era a verdade que sempre esteve lá.

Susana se lembrou da primeira vez que o viu, na cerimônia de calouros da universidade. Nathan, como representante dos alunos, discursou sem nenhum papel nas mãos, alternando entre vários idiomas com uma fluidez impressionante. Sua aura de elegância distante e a voz grave capturaram a atenção de todos no auditório. Sentada na multidão, Susana sentiu o coração falhar uma batida ao olhar para aquela figura brilhante no palco.

Mas não demorou para que a universidade inteira soubesse de que Nathan amava Bianca, e a amava com uma intensidade beirando a loucura.

Houve uma noite em que ele usou três mil drones no campo de atletismo para se declarar, desenhando um céu estrelado artificial e o nome dela na escuridão. Susana, que ironicamente dividia o dormitório com Bianca, foi a encarregada de levar as flores e o bolo, servindo de coadjuvante na própria história de amor que desejava viver. Quando Bianca comentou, despretensiosamente, que gostaria de passar o aniversário no sul da França, Nathan providenciou um jato particular e a levou pessoalmente.

Os fóruns da faculdade explodiram com fofocas, e foi juntando os pedaços dessas conversas que Susana montou o quebra-cabeça de que as famílias Ribeiro e Santos eram amigas há gerações. O casamento entre Nathan e Bianca fora arranjado quando ambos ainda eram bebês. Aos olhos do mundo, eram o par perfeito, destinados um ao outro.

O problema era que Bianca não tinha o menor interesse naquele destino traçado.

— Acabei de entrar na faculdade, mal comecei a viver e já querem me prender a um noivado? — Reclamou Bianca várias vezes, deitada na cama do dormitório enquanto Susana estudava.

Ela chegou a tentar, em tom de brincadeira cruel, empurrar Susana para Nathan, sugerindo que os dois formariam um casal, algo que Nathan rejeitou com uma frieza cortante na época.

Quando a formatura se aproximou e as famílias começaram a organizar a festa de noivado, o impensável aconteceu. No dia da cerimônia, Bianca fugiu. Pegou um voo para o exterior sem avisar ninguém, cortou contatos e deixou os convidados e a imprensa atônitos diante de um salão vazio.

Aquela foi a primeira vez que Susana viu Nathan verdadeiramente furioso. Ele a procurou logo depois, o rosto uma máscara de calma forçada, escondendo a tempestade.

— A Bianca não queria que ficássemos juntos? — Disse ele, olhando nos olhos de Susana sem qualquer traço de afeto. — Então vamos ficar juntos.

Ele fez uma pausa, respirou fundo e completou com uma racionalidade que feriu mais do que um grito:

— Não tenho sentimentos românticos por você, Susana. Mas prometo ser um marido respeitoso, maduro e responsável. Não vou fugir como ela fez.

Susana ficou paralisada por um longo tempo, processando a proposta seca, mas acabou assentindo. Foi assim que ela permaneceu naquela cidade estranha, criando raízes em um solo infértil, alimentando a esperança vã de que sua presença constante poderia, um dia, aquecer o coração dele. O casamento foi marcado às pressas, tão rápido que seus pais sequer tiveram tempo de viajar para a cerimônia.

Ela acreditou naquilo. Acreditou até o momento em que Bianca retornou, decidida a destruir o casamento deles por puro capricho. E Nathan? Em vez de sentir raiva, ele a acolheu, mimando-a e atendendo a cada desejo, incapaz de dizer "não".

Ali, sozinha na sala com o café da manhã esfriando sobre a mesa, Susana finalmente compreendeu. Não amar é simples assim, não amar. Um coração frio não se aquece com esforço alheio. Era hora de soltar a corda.

Com movimentos lentos, ela pegou o celular e digitou uma mensagem breve para Nathan: [Não precisa se preocupar com a nova data. O casamento acabou.]
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 24

    Dois anos depois, numa tarde suave de primavera.Susana permanecia na varanda de sua nova casa, aquecendo as mãos na xícara de chá de flores que segurava. Embora o apartamento não fosse muito grande, a iluminação era perfeita; naquele instante, o pôr do sol atravessava as portas de vidro, banhando a sala com um tom dourado e acolhedor, quase cor de laranja. No jardim do térreo, as cerejeiras recém-plantadas exibiam suas flores ainda esparsas e, sempre que o vento soprava, um perfume delicado subia até ali.Eduardo se aproximou em silêncio e a abraçou por trás, apoiando o queixo no topo da cabeça dela com ternura.— O que você está olhando com tanta atenção? — Perguntou ele, num tom baixo.— Nada de mais. — Susana se recostou levemente no peito dele, absorvendo aquele calor humano que tanto a tranquilizava. — Só estava pensando que, finalmente, a primavera chegou de verdade.A voz de Susana soava calma, carregando uma suavidade que antes parecia impossível. Contudo, Eduardo sabia que e

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 23

    A maca deslizava pelos corredores do hospital em velocidade vertiginosa rumo à sala de emergência.A bala havia perfurado o tórax esquerdo de Nathan, rasgando tecidos vitais e artérias principais com uma precisão cruel. Apesar dos esforços coordenados da equipe médica, que gritava ordens e injetava drogas vasoativas, os números no monitor cardíaco despencavam em queda livre.Pouco antes de ser engolido pelas portas duplas do centro cirúrgico, no limiar onde a consciência começa a se desfazer na escuridão eterna, a visão de Nathan, turva e fragmentada, conseguiu um último feito milagroso, que foi focar-se.Ele viu Susana. Ela estava logo ali, amparada pelo abraço protetor de Eduardo. O rosto dela não tinha cor, as lágrimas lavavam a fuligem e o sangue em suas bochechas, e seu corpo tremia sem parar. No entanto, os olhos dela estavam cravados nele. Aqueles olhos, que ele conhecia tão bem e que agora transbordavam uma dor dilacerante, tornaram-se o último ponto de luz em seu mundo que se

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 22

    O interior do Galpão 3, na antiga zona de mineração, era um cenário de desolação e penumbra. No centro daquele espaço vasto e opressivo, Susana estava amarrada a uma cadeira de metal fria, enquanto Bianca, com uma pistola antiga e desgastada tremendo em punho, aguardava com uma ansiedade febril a chegada de Nathan e Eduardo. Num canto afastado, dois capangas trocavam olhares nervosos, esfregando as mãos suadas nas calças jeans encardidas.Eles mantinham as cabeças baixas, hipnotizados pela luz dos celulares, na esperança vã de contatar alguém lá fora antes que a situação explodisse. Contudo, quando Nathan e Eduardo surgiram quase simultaneamente na entrada inferior do armazém, qualquer tentativa de fuga ou comunicação congelou.— Droga, a casa caiu... — Murmurou um dos bandidos, a voz trêmula denunciando o medo. — A gente só queria uma grana fácil, não assinar um B.O. desse tamanho.O outro homem, movido pelo instinto de sobrevivência, levou a mão à cintura para pegar o telefone e ped

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 21

    — Por que o Nathan, que eu nem fazia questão, agora rasteja atrás de você? — Continuou Bianca, a voz cortando o ar como vidro quebrado. — Por sua culpa, ele cancelou a parceria da família Ribeiro com a minha. Você roubou tudo o que eu tinha! Se não fosse por você, o Nathan nunca teria mudado. Eu ainda seria a herdeira dos Santos, a invejada Bianca! É tudo culpa sua! Você é uma praga na minha vida!— Você enlouqueceu! — Retrucou Susana, sentindo o terror gelar seus pés diante daquela expressão distorcida. — As escolhas do Nathan são dele. O que eu tenho a ver com os negócios da sua família? Foi você quem...— Cala a boca! — Berrou Bianca, num acesso de fúria, agarrando um objeto pesado que estava sobre uma mesa lateral.O coração de Susana falhou uma batida. Era uma pistola antiga, o metal escuro e oleoso reluzindo sob a luz fraca. Embora Bianca não apontasse a arma diretamente para sua cabeça, a simples presença daquele objeto letal foi suficiente para congelar o sangue nas veias de Su

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 20

    Era o fim de uma tarde que prometia ser comum, não fosse pela urgência de um pedido de casamento que chegou à floricultura em cima da hora, exigindo arranjos com flores específicas que estavam em falta no estoque. Como Eduardo estava preso na livraria, ocupado com o balanço mensal que não poderia ser adiado, Susana verificou o trajeto no aplicativo de mapas e decidiu ir sozinha de bicicleta elétrica até o mercado atacadista de flores, localizado na periferia da cidade.O depósito era mais distante do que ela imaginava e, quando iniciou o trajeto de volta, o céu já havia sido engolido por um crepúsculo cinzento e pesado. Com o cesto da bicicleta carregado de caixas de flores, Susana pedalava por um trecho isolado da estrada quando notou, pelo retrovisor, um furgão cinza e desgastado se aproximando em alta velocidade. O veículo colou na traseira de sua bicicleta de forma agressiva, fazendo o coração dela disparar. Num reflexo de autoproteção, ela tentou desviar para a direita, buscando

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 19

    O crepúsculo caía sobre a cidade e as luzes das ruas começavam a acender, pintando o cenário urbano com tons alaranjados. Susana e Eduardo saíram da livraria, cada um carregando sacolas com novas aquisições, e caminhavam em direção a um restaurante de comida caseira, famoso e escondido no final de uma rua tranquila.Porém, antes que pudessem dobrar a esquina para a travessa do restaurante, um vulto emergiu da sombra de uma grande árvore, bloqueando o caminho.Era Nathan.Ele havia recebido alta recentemente. Sob a luz amarelada do poste, sua palidez era evidente e o corpo parecia mais magro dentro das roupas largas. Seus olhos se cravaram no rosto de Susana com uma intensidade perturbadora, varreram Eduardo brevemente e pararam na proximidade natural e íntima entre o casal. Ele exalava uma tensão rígida que destoava daquela noite agradável.— Susana. — Chamou ele, com a voz áspera. — Precisamos conversar.Susana interrompeu o passo. O sorriso leve que trazia nos lábios desapareceu, dan

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status