Pisco do Jardim
Depois que Vinícius Cardoso pôs fim ao caso extraconjugal e voltou para casa, minha família inteira passou a vigiar cada passo dele.
Quando ele saía para jogar o lixo, meu pai o seguia e gravava um vídeo para me mostrar:
— Ele está se comportando direitinho. Nem sequer olhou para o celular.
Quando ele ia ao escritório de advocacia para uma reunião, minha mãe se disfarçava de faxineira e entrava sem despertar suspeitas:
— Nenhuma mulher chegou perto dele.
Quando ele voltou ao país depois de concluir um processo, minha melhor amiga passou um aparelho detector por todo o corpo dele.
— Nenhum fio de cabelo de outra mulher, nenhuma marca de batom. Está tudo normal.
Todos me garantiam que Vinícius havia voltado a me amar. Ele próprio se ajoelhava ao lado da minha cama todas as noites e jurava que, dali em diante, só amaria a mim e à nossa filha.
Até que, no sétimo mês de gravidez, Vinícius viajou a trabalho e eu fui sozinha a uma consulta de pré-natal. Ao passar pela ala da maternidade, porém, dei de cara com ele segurando um bebê nos braços e beijando, emocionado, a mulher deitada na cama. Meus pais e minha melhor amiga também estavam ao redor dela, todos com os olhos marejados.
Reconheci a mulher na mesma hora. Era Carolina Martins, a mulher com quem ele havia me traído. Assim que perceberam minha presença, todos ficaram tensos e, instintivamente, se colocaram entre mim e o bebê, como se precisassem protegê-lo de mim.
Eu, porém, apenas me aproximei tranquilamente e ajeitei a gola da camisa de Vinícius:
— O bebê é uma gracinha. Parece com você. Não vou atrapalhar vocês. Ainda preciso voltar para casa e lavar a roupa.