Michelle
Passei por sete lares adotivos.
Antes que cada um deles me mandasse embora, paravam de responder às minhas perguntas, paravam de olhar para mim e deixavam a casa mergulhar em silêncio.
Eu não suportava aquele tipo de silêncio. Então, tornei-me alguém que falava demais.
Quando minha mãe biológica finalmente me levou para a poderosa Família Moretti aos dezessete anos, tentei ainda mais fazer com que gostassem de mim.
Em apenas um dia, eu já sabia os aniversários dos seguranças, o podcast favorito da enfermeira da escola e onde meus colegas de classe guardavam seus medicamentos de emergência.
Minha meia-irmã, Bianca, chamou isso de manipulação.
Meu meio-irmão, Luca, chamou de vício em atenção.
Para me curar, ele ordenou que toda a minha escola e minha família não falassem comigo durante setenta e duas horas. Minhas ligações foram bloqueadas. Minhas mensagens foram colocadas em quarentena. Até mesmo minha mãe prometeu não responder.
Então, sofri um acidente.
Bianca trocou secretamente a placa de sinalização da trilha na minha mochila, fazendo com que eu pegasse por engano um caminho abandonado.
Caí de uma altura de quase quatorze metros em um túnel de contrabando inundado, e minha perna ficou esmagada sob uma laje de concreto.
Liguei para todos que conhecia.
Noventa e nove vezes.
Ninguém atendeu.
Antes de fechar os olhos, enviei uma última mensagem de voz.
— Desculpa. Eu sei que falo demais. Mas não se preocupe. Não vou mais incomodar vocês.