MasukPOV: KONSTANTIN
Alice chorou durante onze minutos.
Eu sabia porque o sistema registrava cada segundo no canto inferior da tela, embora não precisasse do relógio para perceber quando o choro diminuiu. Os ombros deixaram de tremer primeiro; depois ela afastou o rosto dos joelhos, limpou as lágrimas com a manga e permaneceu sentada no chão diante do vidro escuro, olhando para um jardim que não podia alcançar.
Eu não aumentei o áudio.
Não precisava.
Medo tinha utilidade. Fazia pessoas abandonarem respostas ensaiadas, cometerem erros, procurarem auxílio onde normalmente não procurariam. Eu passara anos vendo homens muito mais experientes que Alice entregarem informações simplesmente porque o silêncio lhes dera tempo suficiente para imaginar o pior.
Ela tinha perguntado se eu a mataria.
Eu escolhera não responder.
Mikhail considerava aquilo desnecessário.
Eu considerava cedo demais para oferecer alguma segurança a ela.
Às oito e quatro, Alice se levantou. Tentou a porta por onde eu havia saído, depois a que levava ao banheiro, embora soubesse perfeitamente que aquela abria por dentro. Às oito e nove examinou a junção entre o vidro e o piso. Às oito e doze encontrou o jantar que Marta deixara em um compartimento lateral.
Às oito e treze decidiu que não comeria.
Às oito e vinte e seis comeu um pedaço de pão.
Mikhail entrou no escritório sem bater e encontrou meu olhar novamente na tela.
— Isso está ficando perturbador.
Desliguei o monitor principal, embora o reflexo do vidro ao lado continuasse me permitindo saber que Alice estava em movimento.
— Vittorio. Algo de útil a relatar?
O humor desapareceu.
Mikhail colocou uma pasta sobre a mesa.
— Já começou.
Abri.
Um carregamento retido no porto. Outra autorização de passagem suspensa. Duas inspeções extraordinárias pedidas em empresas que, até aquela manhã, ninguém parecia interessado em inspecionar.
— Ele é rápido.
— Ele perdeu a filha.
— Ele perdeu controle sobre a filha.
Mikhail apoiou as mãos no encosto da cadeira à frente.
— Talvez sejam as duas coisas.
Continuei lendo.
Eu conhecia Vittorio havia tempo suficiente para saber que separar afeto de posse nele era quase impossível. Podia amar Alice e, ainda assim, ter preparado documentos para retirar dela aquilo que legalmente lhe pertencia. Uma coisa não anulava a outra.
Pessoas raramente eram tão simples quanto gostavam de acreditar.
— Três contatos — Mikhail acrescentou. — Dois com Luca. Um comigo.
— Exigências?
— Uma só.
Olhei para ele.
— Alice.
Fechei a pasta.
— Não.
— Eu não respondi.
— Responda agora.
Mikhail soltou o ar lentamente.
— Você sabe que isso vai crescer.
— Foi por isso que esperei quinze anos.
Do outro lado do vidro, alguma coisa caiu.
Meu olhar desviou.
Alice tinha aberto uma das gavetas sob a estante e deixado alguns livros escorregarem. Ajoelhou para recolhê-los, irritada, o cabelo caindo sobre o rosto.
— Você está fazendo de novo — Mikhail comentou.
— Observação faz parte da investigação.
— Claro.
— Quer mais alguma coisa?
— Quero entender até onde pretende levar isso.
— Até ter respostas.
— E se ela realmente não souber?
Parei.
A pergunta era simples.
A resposta também deveria ser.
— Ainda não temos evidência suficiente para concluir isso.
Mikhail me observou por tempo demais.
— Não foi bem isso que perguntei.
— Pois essa será a resposta que vai receber.
Ele caminhou até o vidro, embora do lado de Alice a superfície permanecesse completamente opaca.
— Você fez uma garota de dezenove anos acreditar que talvez fosse morrer.
— Ela faz vinte em três dias. Já fiz muitas coisas bem piores antes.
Alice sentou na cama e levou um copo d’água à boca.
Mikhail continuou olhando.
— O psiquiatra confirmou.
Voltei a atenção para ele.
— Quando?
— Depois de amanhã, três da tarde. É o primeiro horário em que Morel consegue vir sem remarcar dois pacientes e levantar perguntas.
— Quero o histórico completo antes.
— Já pedi.
— Formação, dívidas, família, vulnerabilidades.
— Konstantin, ele é médico.
— E vai entrar numa propriedade minha para avaliar alguém que Vittorio está disposto a começar uma guerra para recuperar.
Mikhail assentiu.
— O que exatamente quer dele?
— Memória autobiográfica. Consistência. Lacunas. Quero saber tudo o que Alice esconde.
— Ele não é detector de mentiras.
— Eu sei o que um psiquiatra faz.
— Às vezes tenho minhas dúvidas.
Ignorei.
O áudio da redoma acendeu sozinho quando Alice aumentou o volume da televisão. Desliguei novamente. Não queria som ambiente no escritório.
Cinco minutos depois, liguei.
Ela não estava assistindo televisão.
Falava sozinha.
— Excelente, Alice. Parabéns. Primeiro sequestro da vida e você consegue irritar o sequestrador em menos de dez minutos.
Mikhail virou o rosto lentamente para mim.
— Você não estava ouvindo.
— Agora estou.
— Evidentemente.
Alice continuou arrumando os livros que tinha derrubado.
— Nem sei quem é Sofia. Nem sei que raio de chave é essa. E o homem simplesmente olha como se eu tivesse enterrado a esposa dele no quintal. Filho da puta.
A mão de Mikhail foi até a boca para esconder um sorriso.
— Não.
Ele baixou.
Alice sentou no chão junto à estante.
— Psicopata.
Mikhail olhou para mim.
— Tecnicamente, isso ainda não é diagnóstico.
— Saia.
— Ela ainda está falando.
— Eu terminei com você.
Ele não se moveu.
Alice apoiou a cabeça na lateral da cama.
— E precisava ser daquele tamanho? Porque aparentemente ser sequestrada por um homem normal não seria traumático o suficiente.
Mikhail soltou uma risada.
Desliguei o áudio.
— Eu falei para sair.
— Agora eu definitivamente eu vou.
Ele pegou a pasta, mas antes de alcançar a porta o sistema voltou a captar a voz dela. Eu tinha esquecido de retirar completamente o canal secundário.
— Arrogante. Grosso. Olhos estranhos. Mãos enormes. Cara de fome.
Mikhail parou.
Minha atenção ficou imóvel.
— Nem pense em dizer alguma coisa.
— Eu não disse nada.
Alice soltou um suspiro. E depois disse baixo.
— Bonito, ainda por cima. Deus deve realmente me odiar.
Mikhail abriu a porta.
— Boa noite.
— Mikhail.
— Estou indo.
A porta fechou.
Fiquei sozinho.
Desliguei o áudio.
Não precisava de mais nada.
O comentário não significava coisa alguma. Pessoas reconheciam características físicas mesmo sob estresse. Era fisiologia, não intimidade.
Voltei aos relatórios.
Vittorio perderia dinheiro antes de admitir que estava vulnerável. Ricardo Moretti provavelmente tentaria transformar o desaparecimento de Alice em alguma vantagem pessoal. Luca já trabalhava para descobrir qual estrutura os documentos alterariam quando ela completasse vinte.
Três problemas concretos.
Todos mais importantes do que a garota do outro lado do vidro.
Durante quase uma hora consegui tratá-los assim.
Quando olhei novamente para o monitor, Alice já tinha apagado parte das luzes. Saiu do banheiro usando uma camiseta larga que ia até metade das coxas e o cabelo úmido preso de qualquer maneira. Caminhou até a porta principal, testou o painel uma vez e desistiu.
Depois olhou diretamente para a parede escura.
— Eu sei que provavelmente ninguém pode me ouvir. Mas se eu não conversar vou enlouquecer. Tenho tantos pensamentos girando na minha mente agora.
Não ativei o áudio de resposta.
— Não sei o que quer que eu diga seu filho da puta. Não sei nada sobre uma chave. E se você acha que me assustar vai fazer eu lembrar de uma coisa que nunca aconteceu, você é mais idiota do que parece. Burro.
Ficou esperando.
Eu também.
— Meu pai vai me encontrar. Eu acho.
A convicção diminuiu na última palavra.
Alice odiou perceber.
Eu percebi também.
Ela foi para a cama.
A tela marcava vinte e três e dezessete quando a respiração dela finalmente mudou.
Eu deveria ter encerrado o sistema.
Em vez disso, fui até o vidro.
Do lado dela, a superfície continuava negra. Do meu, um comando tornou a parede perfeitamente transparente sem alterar o que Alice enxergava.
Dormia de lado, uma das mãos sob o rosto, a outra fechada sobre o lençol. Sem raiva e sem medo contraindo suas feições, parecia mais nova.
Isso não deveria importar.
Sofia escrevera o nome dela.
Sofia escrevera sobre a chave.
Vittorio estava destruindo negócios milionários para recuperá-la.
Aos vinte anos, documentos que eu ainda não compreendia completamente mudariam de efeito.
Tudo apontava para Alice.
Eu só precisava descobrir como. Como tudo isso estava interligado. Pelo que perdi Sofia?
Apoiei a mão no vidro.
Ela se mexeu no sono.
Os cabelos se afastaram do rosto e a boca entreabriu-se ligeiramente contra o travesseiro.
Meu olhar ficou ali.
Tempo demais.
A lembrança do comentário dela voltou sem permissão.
Bonito, ainda por cima.
Não havia satisfação naquela reação.
Havia irritação.
Desejo era simples quando não interferia em nada. Eu conhecia mulheres, corpos, prazer e o tipo de acordo em que ninguém confundia uma noite com promessa.
Alice não pertencia a nenhuma dessas categorias.
Era uma resposta.
Um problema.
Uma peça colocada no centro de uma investigação que começara com minha mulher, grávida, morta numa estrada.
Ainda assim, quando me afastei do vidro, percebi que durante alguns segundos eu não tinha pensado em Sofia.
Nem em Vittorio.
Nem na chave.
Eu tinha pensado em como seria beijar a boca de Alice Bellandi.
E odiei isso muito mais do que deveria.
POV: KONSTANTINEva Conti chegou às dezenove e dez.Eu havia esquecido que viria.Isso, sozinho, já era um problema.Eu não esquecia compromissos.Ela entrou pela sala lateral usando um vestido preto simples, casaco claro e a tranquilidade de quem já tinha atravessado aquela casa vezes suficientes para não olhar para seguranças, câmeras ou portas biométricas.Eva tinha trinta e quatro anos, administrava uma empresa de consultoria que não dependia de mim e nunca fingira interesse em transformar nossa relação em outra coisa.Era exatamente por isso que funcionava.— Você esqueceu — disse quando me viu.— Não.Ela tirou o casaco.— Vocêestá me recebendo aqui no anexo... Você está sem paletó, o jantar ainda não chegou e Mikhail me recebeu dizendo “boa sorte”. Você esqueceu.— Tive uma semana complicada.— Eu ouvi versões.Meu olhar endureceu.Eva percebeu.— Não perguntei.Essa era outra razão.Ela sabia onde não entrar.Marta apareceu na porta.— Jantar em quinze minutos.— Obrigada.Ent
POV: KONSTANTINNeri apareceu morto na sexta-feira às vinte e duas e quarenta.Mikhail não tentou transformar a informação em algo menos desagradável.Colocou a fotografia sobre minha mesa, afastou a cadeira e esperou.Eu olhei apenas o necessário.— Onde?— Estrada secundária, quarenta quilômetros ao sul. Um agricultor encontrou.— Alguma assinatura?— Nenhuma que possamos provar.Não precisava.Neri desaparecera poucas horas depois de ajudarmos Alice a sair da casa de Vittorio. Bellandi não costumava desperdiçar mensagens quando podia produzir exemplos.Afastei a fotografia.— Família?— Segura.— Compense.— Já está feito.O sistema da redoma permanecia minimizado no monitor lateral. Eu havia passado o dia inteiro evitando abri-lo sem necessidade.A palavra necessidade começava a ficar incômoda.Alice tinha circulado pela casa durante horas, memorizado portas, inventado um trabalho universitário ridiculamente transparente para registrar horários e passado três vezes diante do mesmo
POV: ALICENa manhã seguinte ao meu aniversário, descobri que vinte anos não vinham acompanhados de nenhuma habilidade especial para lidar com sequestradores, documentos suspeitos ou homens que encostavam a mão do outro lado de uma parede de vidro e conseguiam bagunçar pensamentos que eu preferia manter perfeitamente separados.Konstantin continuava sendo o homem que tinha me arrancado de casa, me trancado numa redoma e decidido que a minha liberdade dependia de respostas que eu não possuía. Também continuava sendo o homem que, na noite anterior, tinha dito talvez quando anunciei que sairia dali.Eu não sabia qual das duas coisas me incomodava mais.Talvez era diferente de não.Talvez significava que alguma coisa tinha mudado, mesmo que eu não soubesse o quê.E, quando não se tinha informação suficiente para entender um homem como Konstantin Voronov, restavam duas opções: enlouquecer tentando adivinhar ou começar a coletar informação melhor.Escolhi a segunda.Marta apareceu às oito e
POV: KONSTANTINAlice completou vinte anos numa quinta-feira.Às seis e quarenta e dois Vittorio enviou a primeira mensagem.Hoje ela faz vinte.Às seis e cinquenta e nove veio a segunda.Você não entende o que começou.Eu começava a entender.Mikhail colocou uma fotografia sobre minha mesa. Ricardo Moretti estava ao lado de Santoro num aeroporto privado.— Três horas atrás.— Luca?— Já está trabalhando.— Segurança norte?— Reforçada.— Jardim?— Também.— Redoma?Mikhail respirou pelo nariz.— Dois homens em cada acesso. Se colocar mais, ela vai precisar pedir licença para respirar.— Então mantenha dois.Ele me observou.— Estou começando a reconhecer evolução.— Nada a ver.Marta entrou sem bater.— Quero um bolo.— Não.— Ela faz vinte anos.— Eu sei disso.— Então, bolo.Continuei lendo.Marta estava trabalhando nesta casa já a anos. Confiava muito nela, mesmo quando ela tinha opinião própria e queria explanar ela. Nesses momentos, gostava um pouco menos.— Qual exatamente é a
POV: ALICEO homem que entrou na redoma às três e sete carregava uma caixa de chá.Depois de Mikhail e o relógio, aquilo parecia quase uma provocação literária.Devia ter pouco mais de quarenta anos, cabelos começando a clarear nas têmporas e uma postura tranquila demais para alguém que atravessava a porta de uma prisão particular como se estivesse chegando a uma consulta normal.— Alice Bellandi?— Infelizmente.— Adrian Morel.— O psiquiatra.Ele olhou para a poltrona.— Posso sentar?A pergunta me pegou desprevenida.— A casa não é minha.— Não perguntei de quem é a casa.Olhei melhor para ele.— Pode.Adrian sentou e colocou a caixa sobre a mesa.— Preto, verde ou camomila?— Isso é técnica?— Chá?— Aparecer parecendo normal para eu esquecer que foi contratado pelo homem que me sequestrou.Ele considerou a frase antes de responder.— Não acho sua situação normal.— Já é mais do que ouvi de muita gente aqui.Escolheu chá verde para si.Eu pedi água.— Konstantin quer saber se eu e
POV: ALICENo dia seguinte, a internet voltou às oito da manhã.Não houve aviso, pedido de desculpas ou conversa. Simplesmente funcionava outra vez, o que era uma maneira muito Konstantin de lembrar que até a devolução de algo podia parecer demonstração de poder.A piscina também tinha deixado de ser proibida. Segundo Marta, isso não significava que eu poderia ir até ela quando quisesse.— Então qual exatamente é o benefício?— Você pode pedir.— Estou emocionada.Ela colocou uma pilha de guardanapos em meus braços.— Usa a emoção para dobrar isso.Depois do dia anterior, eu tinha prometido a mim mesma uma coisa: nenhuma nova tentativa seria feita porque uma porta aparecera aberta por acaso.Por isso acompanhei Marta sem protestar quando saímos da redoma.Dessa vez eu não corri.Observei.A primeira porta ficava liberada pouco menos de quatro segundos. A segunda exigia a palma inteira de Marta. Na terceira, Tomás olhava automaticamente para uma câmera instalada num ponto onde eu não t







