DONATELA
Assim que encerro a ligação, permaneço alguns instantes olhando para a tela do celular, tentando compreender a notícia que acabei de receber, eu deveria estar organizando minha mudança para a mansão de Domenico Bertolucci, mas um de seus soldados acaba de informar que houve um acidente e que ninguém sabe onde ele está.
— O homem foi bastante claro ao dizer que o telefone de Domenico havia sido recuperado, porém seu paradeiro continuava desconhecido.
— A informação me deixa inquieta, principalmente porque sei que meu pai estava planejando algo contra ele, embora eu não conhecesse todos os detalhes de suas intenções.
Caminho até o escritório de papai com o celular nas mãos, sentindo uma apreensão que aumenta a cada passo.
— Não estou apaixonada por Domenico e nunca escondi de meu pai que meu coração pertence a outro homem.
— Entretanto, isso não significa que desejasse sua morte ou que concordasse com uma emboscada para eliminá-lo.
— Nosso noivado sempre esteve relacionado aos interesses das famílias, e eu acreditava que poderíamos encontrar uma maneira de desfazer aquele compromisso sem transformar a situação em uma guerra.
— Agora, diante da possibilidade de Domenico ter sido assassinado, começo a compreender que meu pai talvez tenha levado seus planos muito além do que eu imaginava.
Entro no escritório e encontro papai sentado atrás de sua mesa, aparentemente tranquilo, papai levanta os olhos quando me aproximo, e sua expressão demonstra curiosidade ao perceber que estou preocupada.
— Não espero que pergunte o que aconteceu, porque preciso saber imediatamente se a notícia que recebi está relacionada ao que ele vinha preparando.
— Papai, o senhor acha que conseguiu o que queria? Acabei de ligar para a mansão de Domenico porque pretendia confirmar minha mudança, mas um dos soldados atendeu ao telefone e disse que aconteceu um acidente.
— Segundo ele, ninguém sabe onde Domenico está, e os homens continuam procurando por ele.
—O senhor acha que isso significa que seu plano deu certo?
Meu pai se acomoda melhor na cadeira e me observa com uma tranquilidade que me incomoda profundamente.
— Enquanto tento compreender o que aconteceu, ele parece analisar a notícia como se tivesse acabado de receber a confirmação de um negócio importante.
— Sua ausência de preocupação me faz apertar o celular entre os dedos, porque começo a perceber que talvez não exista qualquer arrependimento por trás de suas decisões.
— Se os homens dele estão dizendo que Domenico desapareceu depois de um acidente, minha filha, acredito que chegou a hora de agirmos.
— Não podemos permitir que outras famílias se antecipem e tentem ocupar os territórios que ele controla. — Precisamos reunir nossos soldados e assumir uma posição antes que alguém perceba a oportunidade que surgiu.
Eu o encaro, surpresa com a rapidez de seu raciocínio, ele não pergunta se Domenico está ferido, se existe alguma possibilidade de encontrá-lo vivo ou se devemos esperar por informações mais concretas.
— Sua primeira preocupação é reunir homens e avançar sobre os territórios de alguém que, até poucos dias atrás, deveria se tornar meu marido.
— Agirmos como, papai? O senhor está falando de reunir nossos soldados para invadir a fortaleza de Domenico? Nós nem sabemos se ele morreu, os próprios homens disseram que ainda estão procurando por ele.
— Exatamente, Donatela, enquanto eles estão desorganizados, precisamos demonstrar força, se conseguirmos assumir o controle da fortaleza e consolidar nossa posição, você ficará livre para se casar com quem realmente deseja.
— Poderemos estabelecer uma aliança com os russos e ampliar nossa influência. Não é isso o que você sempre quis?
Eu respiro profundamente, tentando controlar a irritação que começa a tomar conta de mim, meu pai sabe que amo Nicolai e que nunca desejei me casar com Domenico, mas está utilizando meus sentimentos como justificativa para uma situação que considero extremamente perigosa.
— Não posso aceitar que ele apresente uma possível morte como se fosse apenas uma oportunidade para realizar meus desejos pessoais.
— Papai, eu queria me casar com Nicolai, mas nunca desejei que alguma coisa ruim acontecesse com Domenico.
— Não compreendo por que o senhor precisou armar essa situação. Poderíamos ter conversado, desfeito meu noivado e negociado diretamente com a família de Nicolai.
— O senhor poderia ter organizado meu casamento com o filho do Pakhan e conquistado uma aliança importante sem precisar provocar tudo isso.
Meu pai se inclina para a frente, apoiando os braços sobre a mesa, percebi que minhas palavras não o agradam, mas não pretendo ficar calada apenas porque ele considera suas decisões incontestáveis.
—Durante muito tempo, aceitei que meus interesses fossem tratados como parte dos acordos entre famílias, porém agora estamos falando de uma emboscada contra um homem que não precisava morrer para que eu pudesse construir uma vida com quem amo.
— Você está pensando apenas no casamento, Donatela, e não consegue enxergar o que está em jogo.
—' Se eu simplesmente desfizesse seu noivado e aceitasse uma aliança com os russos, continuaria possuindo os mesmos territórios que controle atualmente.
— O casamento poderia fortalecer nossa posição, mas não me daria o domínio que pretendo conquistar.
Ele se levanta e começa a caminhar pelo escritório, falando com a segurança de alguém que já imaginou todas as vantagens de seu plano.
— Eu o acompanho com os olhos, sentindo que cada palavra confirma minhas suspeitas sobre a verdadeira dimensão de sua ambição.
— Domenico Bertolucci não controla apenas algumas regiões dos Estados Unidos, sua influência alcança diferentes partes do mundo, e você sabe que ele também exerce um domínio imenso sobre a Itália.
— Se eu conseguir assumir os territórios e os negócios que pertencem a ele, minha posição será muito mais importante.
—Não serei apenas um aliado dos russos, mas um homem capaz de negociar com eles em condições muito mais vantajosas.
Eu balanço a cabeça, incapaz de concordar com aquela maneira de pensar, meu pai está convencido de que poderá assumir tudo o que Domenico construiu, como se os homens que trabalham para ele simplesmente aceitassem a chegada de outra família.
— Conheço pouco sobre a organização dos Bertolucci, mas sei que Domenico possui soldados leais e uma estrutura poderosa.
— Não consigo imaginar que todos abandonariam suas posições sem resistência.
— O senhor está esquecendo que Domenico tem homens de confiança, papai, ele não construiu todo esse poder sozinho, e não acredito que seus soldados vão aceitar que o senhor simplesmente apareça e tome tudo.
—'Além disso, ninguém confirmou que ele morreu, se estiver ferido, escondido em algum lugar, esperando o momento de voltar?
Meu pai interrompeu a caminhada e me encara com uma expressão de impaciência, percebi que ele não gosta de ser contrariado, principalmente quando acredita ter encontrado uma oportunidade de aumentar seu poder. — Entretanto, quanto mais o escuto, mais tenho a impressão de que está subestimando Domenico e a organização que pretende enfrentar.
— Você está deixando o medo controlar seus pensamentos, Donatela. Não podemos conduzir nossos negócios considerando todas as possibilidades negativas.
— Precisamos aproveitar as oportunidades quando aparecem, e o desaparecimento de Domenico é uma oportunidade que não pretendo desperdiçar.
— Não é apenas medo, papai, prudência, o senhor está falando de invadir a fortaleza de um homem que controla territórios em vários países, sem sequer ter certeza de que ele está morto.
— Se Domenico sobreviver e descobrir que o senhor organizou a emboscada, não vai simplesmente aceitar o que aconteceu, o senhor poderá provocar uma guerra muito maior do que imagina.
Volto a olhar para o celular, lembrando da maneira como o soldado respondeu às minhas perguntas, ele parecia cuidadoso com cada informação, e agora me pergunto se realmente desconhecia o paradeiro de Domenico ou se estava apenas cumprindo ordens.
— Não tenho qualquer prova de que exista alguma coisa sendo escondida, mas a incerteza é suficiente para me deixar desconfortável.
— Eu não estou me sentindo segura, papai, desde que recebi aquela ligação, tenho a impressão de que alguma coisa vai dar errado.
— Minha intuição está me dizendo que o senhor cometeu um erro muito grande, e não consigo afastar essa sensação, osenhor deveria esperar antes de tomar qualquer decisão.
Meu papai solta uma risada brevemente, sem demonstrar que leva minhas preocupações a sério.
— Depois retorna à cadeira e me observa com uma expressão que conheço desde a infância, aquela que costuma assumir quando considera meus argumentos excessivamente sentimentais.
— Você é igual à sua mãe, Donatela, sempre pensando com o coração, sempre permitindo que os sentimentos interfiram nas decisões, no nosso mundo, ninguém sobrevive dessa maneira.
— Precisamos pensar com a razão, analisar as vantagens e agir antes dos adversários, na máfia, amor não existente e o interesses, alianças e poder.
Suas palavras me atingem de uma maneira que não esperava, não porque desconheça a frieza com que ele administra seus negócios, mas porque estou cansada de ouvir que meus sentimentos não possuem importância.
— Durante muito tempo, meu pai tratou meu casamento como uma negociação, sem considerar que eu poderia desejar uma vida diferente daquela que ele havia planejado.
— Existe amor, sim, papai, amo Nicolai, o senhor pode acreditar que tudo se resume a territórios e alianças, mas não pode decidir o que sentimos.
— E Nicolai não concorda com o que o senhor fez. Ele não queria que Domenico fosse eliminado para que pudéssemos ficar juntos.
Meu pai franze a testa ao ouvir o nome de Nicolai, e percebo que minha afirmação não corresponde ao que ele esperava.
— Talvez imaginasse que o homem que amo ficaria satisfeito com a possibilidade de meu noivado chegar ao fim, independentemente das circunstâncias.
— Entretanto, Nicolai conhece os riscos de uma decisão como aquela e não considera aceitável provocar um conflito apenas para antecipar nosso casamento.
— Nicolai não precisa concordar com todos os meus métodos, Donatela, quando compreender as vantagens dessa aliança, perceberá que estou construindo um futuro muito mais importante para vocês dois.
— O senhor não pode ter tanta certeza disso, Nicolai não é um homem que aceita qualquer coisa apenas porque poderá obter vantagens.
— E existe outra questão que o senhor parece estar ignorando: eu não sei se o próprio Pakhan concordará com o que aconteceu.
— O senhor está contando com uma aliança que ainda depende da aceitação de uma família poderosa, e não acredito que eles vão gostar de descobrir que o senhor provocou uma guerra sem considerar as consequências.
Meu pai permanece em silêncio por alguns instantes, observando-me com atenção, não sei se minhas palavras conseguiram fazê-lo reconsiderar alguma coisa, mas percebo que a menção ao Pakhan desperta seu interesse.
— Afinal, toda a estratégia que está imaginando depende de uma aproximação com os russos, e não existe garantia de que eles aceitarão participar de um conflito contra os Bertolucci.
— Eu me aproximo da mesa e apoio as mãos sobre a superfície, procurando fazê-lo compreender que minha preocupação não está relacionada apenas aos sentimentos que tenho por Nicolai.
— Estamos diante de uma situação capaz de comprometer o futuro de nossa família, e não quero que meu pai continue tomando decisões como se ninguém pudesse enfrentá-lo.
Pense bem, papai, o senhor pode ter acreditado que estava resolvendo todos os nossos problemas quando armou aquela emboscada, mas talvez tenha criado uma situação muito pior.
— Se Domenico estiver vivo, poderá voltar disposto a descobrir quem tentou eliminá-lo.
— E, mesmo que não esteja, os homens dele não vão entregar tudo sem reagir, osenhor não pode simplesmente presumir que conseguirá dominar os territórios porque ele desapareceu.
Meu pai desvia os olhos por um instante, mas continua sem demonstrar arrependimento, conheço sua ambição e sei que dificilmente abandonará um plano apenas porque estou tentando alertá-lo.
— Ainda assim, preciso dizer tudo o que penso, porque não quero que ele interprete meu silêncio como concordância.
— Eu quero me casar com Nicolai, papai, mas não quero que nosso casamento seja construído sobre uma guerra que poderia ter sido evitada, papai o senhor está colocando em risco nossa família, os homens que trabalham para nós e até a aliança que pretende estabelecer com os russos.
— Não sei o que realmente aconteceu com Domenico, mas sei que o senhor está agindo como se já tivesse vencido.
Eu me afasto da mesa e seguro novamente o celular, sentindo que não conseguirei convencê-lo naquele momento.
— Meu pai continua sentado, observando-me com uma expressão fechada, e compreendo que ele considera minhas preocupações um obstáculo aos seus planos. Entretanto, não consigo ignorar a sensação de que existe alguma coisa errada naquela história.
— Antes de sair do escritório, volto a olhar para ele e faço uma última tentativa de alertá-lo.
— O senhor precisa pensar muito bem antes de reunir seus soldados e tentar invadir a fortaleza de Domenico.
— Porque, se ele não morreu e descobrir o que aconteceu, as consequências poderão ser terríveis para todos nós. O senhor pode ter dado um tiro no próprio pé ao organizar essa emboscada, papai.
— Não espero sua resposta, saí do escritório levando comigo a inquietação que me acompanha desde a ligação, porque meu pai parece convencido de que o desaparecimento de Domenico representa o início de sua vitória.
Eu, porém, não consigo compartilhar daquela certeza. Quanto mais penso no que aconteceu, mais temo que ele tenha provocado um conflito que não conseguirá controlar.