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Capítulo 14 - Eu lhe digo verdades

last update Data de publicação: 2021-06-01 08:22:44

Enquanto eu e Kim íamos para a sala secreta da faculdade, meu telefone tocou. Atendi:

- Senhorita Katrina Lee?

- Sim, sou eu.

- Esperamos você às 8 horas no castelo.

- Eu passei para a próxima fase? – falei não me contendo de alegria.

- Sim.

- E... Qual foi minha nota? Quer dizer, você pode me responder isso?

- A senhorita acertou todas as questões.

Eu não pude me conter e dei um grito no meio da rua. Tentei me conter e disse:

- Obrigada.

Desliguei o telefone e olhei para Kim:

- Kim, eu acertei todas as questões da prova.

Ele me abraçou:

- Eu não esperava menos de você, Kat. Você será a dama de companhia da rainha. Eu tenho certeza disto.

Eu estava feliz pela primeira vez. Acho que porque realmente foi mérito meu. Não foi ajuda do meu pai, nem de Dereck. Eu era inteligente e sabia que tinha ido bem na prova. Mas jamais saberia se ganharia o cargo por mim ou pelos outros.

O dia estava ensolarado e bonito. Temperatura agradável. Kim comprou um sorvete e me deu um de morango, que ele sabia que era meu preferido.

- Melhor você comer que aqui não tem príncipe para socorrer você. – ele alertou. – Se você cai eu roubo sua coroa. – brincou.

Eu dei um tapa leve nele e continuei saboreando meu sorvete. Em pouco tempo estávamos na sala secreta. Diana e Léo já estavam lá. Assim que me viu, Léo veio até mim e meu deu um beijo na boca. Como eu queria sentir qualquer coisa por ele... Mas eu não sentia. Beijá-lo lembrava de quando eu treinava meu primeiro beijo na parede do meu quarto: frio e sem graça. Eu não era uma mulher que conseguia viver mais ou menos qualquer coisa. Sempre fui muito certa do que eu queria e não queria e um namoro como aquele não era para mim. Sabendo dos sentimentos de Léo por mim eu sentia um pouco de culpa. Mas eu não poderia continuar enganando ele.

- Temos uma anti monarquista no castelo. – disse Kim.

- Então você conseguiu? – perguntou Léo sentando junto de mim, me abraçando. Eu sentia que ele poderia me enforcar a qualquer momento de tanto que ele me apertava.

- Na verdade ainda não. Estou indo para a próxima fase. – confirmei.

- A reunião do nosso grupo ao grupo maior será no sábado. – disse Diana. – Foi transferida.

- Onde será? – perguntou Léo.

- Na Zona F.

- Mas... Não conheço quase nada lá. – disse Léo.

- Eu também não... Mas me arrisco se for preciso. – disse Kim.

- Eu... Tenho um pouco de medo. – confessei. – Vocês sabem o quanto eu quero a rainha Anne fora do poder. Mas estar no grupo anti monarquia e ao mesmo tempo ao lado dela me dá arrepios. Eu preciso ser muito cuidadosa.

- Com certeza. – disse Diana. – Mas você será nossa esperança.

- Ultimamente muitas pessoas têm depositado esperança em mim. Espero não decepcionar ninguém. – falei.  

- Você jamais decepcionaria alguém, meu amor. – disse Léo.

Olhei para ele um pouco sem graça. Desnecessário o comentário dele.

- Tem um detalhe. – disse Diana.

- Qual?

- Todos deverão ocultar o rosto.

- Isso me dá um pouco de medo. – disse Kim. – Estamos preparados para enfrentar a monarquia de verdade?

- Não é nosso objetivo desde o início? – falou Léo.

- Também tenho um pouco de medo, Kim. Mas não estarmos com nossos rostos à mostra é um bom sinal. Poderemos falar o que quisermos e não há como nos identificarem.

- Verdade. – disse Léo.

- Tem razão, Kat.

- Estaremos juntos. Isso que importa. – falou Diana.

- Acham que pode haver luta algum dia? Anti monarquistas com guardas do castelo? – perguntou Kim.

- Se este dia chegar, estaremos prontos para o fim da monarquia. – eu disse.

- Estou orgulhosa de onde vamos chegar... – falou Diana. – Achei que sempre seríamos este grupo pequeno. Conseguiremos avançar, conhecer muitas outras pessoas que tem o mesmo objetivo que nós: derrubar a rainha.

- Devem também pensar no que querem para depois. Vimos que Noriah Norte Republicana também não deu muito certo. – lembrou Kim.

- Mas este processo é lento, Kim... Eles conseguirão avançar. – eu falei.

- Então nos encontramos no sábado. Posso levar todos. – disse Léo.

- Então nos encontramos próximo das 23 horas na praça central da Zona E. – sugeriu Diana.

- Por que tão tarde? – perguntou Kim.

- É um grupo grande... Acho que eles têm medo de ser pegos.

- Pode ser...

Despedimo-nos. Kim e Léo ficaram comigo. Diana se foi. Olhei para ela. Diana não conseguia disfarçar que não era uma anti monarquista. Eu tinha orgulho dela. Não éramos melhores amigas, mas eu a admirava muito. Era uma mulher inteligente e batalhadora. Assim como eu vinha de família pobre, mas o pai não havia jogado tudo fora. Então hoje ela tinha muito mais condições financeiras do que eu, que já tive um sobrenome muito reconhecido na Zona E. Hoje vivíamos do nosso sobrenome apenas, pois a maioria das pessoas já sabiam que os Lee não tinha um centavo.

Quando saímos dali fomos dar uma volta pelo espaço externo da faculdade. Era um lugar agradável, arborizado e gostoso. Eu torcia para Kim não me deixar sozinha com Léo. Mas minha felicidade não durou muito. Logo ele encontrou um ex-colega de classe e foi conversar, para me deixar mais à vontade com meu então namorado.

Sentamos num banco, debaixo de uma árvore. Eu deitei minha cabeça nas pernas dele, deixando meus olhos ofuscarem com os raios de sol que entravam pelas folhas das árvores.

- Eu amo a primavera. – falei.

- Eu sei...

- Léo, acho que precisamos conversar.

- Acho que não. – ele disse parecendo temer o que eu diria.

- É que...

- Me dê um tempo ao menos. – ele pediu. – Eu posso fazer você se apaixonar por mim.

Olhei nos olhos dele. Ele não era o amor da minha vida e jamais seria. Nós não tínhamos química nenhuma. Eu já havia beijado outros homens e nunca um beijo foi tão mecânico e ruim como o dele. Eu havia esbarrado nos braços do príncipe Magnus e meu coração bateu tão descompassadamente que achei que estava morrendo. Eu não podia continuar com aquilo.

- Léo, eu acho que não temos nada a ver um com o outro.

- Até sábado... Por favor.

Respirei e pensei: por que não? Poucos dias e eu poderia me livrar dele, lhe dando a chance que ele pediu.

- Ok.

Levantei e fui procurar Kim pelo gramado. Léo foi comigo. Logo o encontramos sentado com o colega que ele havia encontrado antes.

- Vamos, Kim? – convidei.

- Nem por um decreto da rainha. –ele disse piscando.

- Beijos. Nos falamos amanhã.

Pelo visto Kim havia se arranjado com alguém. Fazia tempo que ele não namorava e eu ficava feliz sempre que ele encontrava alguém. Kim merecia toda felicidade do mundo e era muito difícil para ele todo preconceito que passava em sua vida. Por sorte ele tinha uma família que o aceitava e amigos que pensavam da mesma forma. Mas nem todos eram assim. O mundo era cruel às vezes. Principalmente com os gays.

Léo me levou em casa. Quando cheguei já estava escurecendo. Brinquei um pouco com Leon e depois do jantar liguei para Kevin para saber o que ele queria comigo.

- Oi Kevin... Você me ligou. O que queria?

- Por que não me atendeu?

- Porque eu não estava com meu celular. Tive uma hipoglicemia dentro do castelo. Parei na enfermaria.

- Sim, eu soube.

- Mamãe lhe contou?

- Claro. Pensa na felicidade dela em receber a ligação do castelo dizendo que você estava lá dentro.

- Mas... O que você queria mesmo?

- Saber como estava a questão do seu emprego como dama de companhia.

- Estou no processo ainda. Então não descarto a possibilidade de conseguir. Se me perguntasse há dias atrás eu diria que era impossível. Hoje eu já vislumbro este emprego para mim.

- Deve ser uma grana que nunca vimos na vida.

- Não sei se chega a tanto, Kevin... Mas acho que o suficiente para sustentar papai, mamãe e Leon deve dar.

- Você não teria que sustentar nosso pai.

- Ele me sustentou até agora...

- Ele perdeu todo nosso dinheiro...

- Kevin, eu não quero discutir sobre isso. – falei. – Você só estava com saudades então?

- Também... Mas não só isso.

- Então vamos direto ao ponto. – falei incisiva.

- Maninha, se você estiver dentro do castelo, ninguém nos segura...

- Como assim? Não entendi...

- Kat, tem noção de quantas coisas valiosas tem lá dentro?

- Kevin, você não está insinuando que eu poderia roubar algo, não é? – falei incrédula.

- Longe de mim, maninha. Só estou dizendo...

- Kevin Lee, eu não vou falar com você sobre isso. Estou profundamente magoada com o que você está dizendo.

- Kat... Eu não insinuei nada. Só lembrei você do quanto estará num lugar onde cada objeto que você ver vale mais do que a nossa própria vida.

- Kevin, nada vale mais que as nossas vidas.

- Você entendeu o que eu quis dizer.

- Não... Não entendi. E não quero entender. Eu nem estou lá ainda... Sou uma mera aspirante ao cargo. Portanto, não pense besteiras.

- Ok, não está mais aqui quem falou.

- Onde você está, Kevin?

- Estou na Zona I.

- O que você está fazendo aí?

- Negócios.

- Você... Está morando aí?

- Por enquanto sim.

- Kevin, o que você está fazendo com a sua vida?

- Nada diferente do que você está fazendo com a sua.

- Do que está falando?

- Eu soube que você está namorando com Léo.

- E o que isso tem a ver?

- Vai se vender por um casamento para pagar as dívidas de nosso pai?

- Claro que não... Você sabe que eu não faria isso.

- Você não gosta daquele homem.

- Kevin, você não manda em mim.

- Você ganha mais dinheiro se eu lhe vender para um traficante do que para este playboy metido a anarquista. Se é dinheiro que você quer para nossa família, eu arranjo o marido que pagará bem.

- Kevin, eu odeio você.

- Por que eu lhe digo verdades?

- Você não sabe nada sobre mim. – gritei e desliguei o telefone.

Eu realmente estava odiando Kevin naquele momento. Não era a primeira vez que ele falava em me vender como um objeto para seus amigos traficantes. Ele poderia não gostar de Léo, mas em nada Léo lembrava os homens com os quais ele andava. Eu achava que Kevin era revoltado por meu pai ter perdido tantas vezes tudo tínhamos. E tinha pena dele em alguns momentos. Achava que eu havia superado melhor a forma de vida que vivemos, sempre na corda bamba: um dia cheios de dinheiro, no outro sem um centavo para comprar o leite do dia. Mas jamais pensei em roubar ou casar-me por dinheiro. Eu tinha dignidade. Era a única coisa que não podiam me roubar. Eu tinha ambições, interesses, eu queria ser feliz, mas também queria ser alguém na vida. Kevin não tinha nada disso. Ele só queria fazer tudo da maneira mais fácil, não importava se era legal ou ilegal ou quantas pessoas poderiam sofrer as consequências de suas escolhas.

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