LOGINQuando a relógio despertou eu fui para o banho mecanicamente. Levantar cedo não era meu forte. Não iria repetir a roupa que ganhei de Dereck, então enquanto deixava a água molhar meus cabelos, pensava no que vestir naquele estilo. De repente a água ficou gelada e eu gritei. Mexi no chuveiro para troca de temperatura, mas não teve jeito: estava queimado. Aquilo era só o início do meu dia. Saí enrolada pela casa tremendo de frio. Encontrei uma saia bem usada e uma blusa branca que acompanhei com um blazer da mesma cor. O sapato iria repetir o que ganhei do príncipe, pois eram extremamente confortáveis. De onde ele havia tirado aquelas coisas? Eram novas... Nunca usadas. Tinham etiqueta e tudo mais. Eu não tinha muito tempo para pensar naquilo. Peguei os óculos fake e botei no meu rosto, saindo com os cabelos úmidos, pois não tive tempo para secar. Quando saí o carro enviado pelo príncipe já estava me esperando. Adentrei no banco traseiro e ele deu a partida.
- Você é motorista do príncipe Dereck? – perguntei.
- Sim. – foi a resposta seca.
- E se você esta aqui... E ele precisar se locomover para algum lugar?
- Provavelmente usará outro carro e outro motorista.
- Entendi.
Mas na verdade eu não entendi não. Se ele era o motorista particular do príncipe, por que não estava com ele? Por que Dereck queria tanto que eu usasse o motorista do castelo? Teria ele medo de eu desistir?
Em pouco tempo cheguei ao castelo. O motorista me deixou na rua e eu entrei pelo portão principal, me identificando aos guardas de plantão. Perguntei-me por que o carro de Dereck e seu motorista não ficavam no castelo e sim fora dele.
- Senhorita Lee, poderá se dirigir a entrada C do castelo.
- Como eu poderia saber onde é a entrada C?
- Siga pela sua esquerda, senhorita. A primeira porta entra e estarão esperando.
Não tinha quase ninguém por ali a não ser os guardas e algumas poucas garotas. Pude ver melhor o castelo naquele dia. Depois das enormes grades e entrada pelo único portão da frente, vislumbrava-se um gramado gigantesco com uma linda fonte no meio, reta com a entrada principal, tanto do portão quanto da porta. Alguns pequenos arbustos completavam o jardim. Tudo bem minimalista. O castelo eu não conseguia identificar se era salmão ou bege. Uma cor que eu nunca tinha visto em nenhuma casa ou estabelecimento comercial. O local era moderno e pequeno comparado à outros castelos que eu já havia visto em revistas ou mesmo na televisão. Dos dois primeiros andares tinham enormes janelas de vidro quadriculadas e no último as mesas davam no telhado, formando uma arquitetura única. Eu queria ter a oportunidade de poder ver aquele lugar a noite. Devia ser ainda mais fabuloso. Por que a rainha tinha de conduzir tudo de forma tão cruel e individualista, dando preferência à burguesia, sem se importar com o povo? Tudo poderia ser diferente. Bastava ela querer. Os Chevalier não foram sempre ruins. Houve bons monarcas no tempo antigo. Mas a rainha Anne Marie nasceu para ser quem era. Filha única da linhagem de seus pais, assumiu o trono aos dezoito anos, indo contra tudo e todos. Casara com o então príncipe Alfred, da Nova Ordem de Zenus às pressas para poder ser coroada logo após a morte trágica de seus pais num acidente de carro. Até hoje havia rumores de que havia sido uma morte premeditada, mas nunca se teve provas. A rainha era tão odiada que se cogitava que ela poderia ser a mandante do acidente que causou a morte dos próprios pais. Como ela era jovem, ninguém queria que ela assumisse o trono. Mas ela foi contra tudo e todos, casou e assumiu seu posto. Desde então, Noriah Sul viu todos os seus pesadelos se tornarem realidade. Inicialmente se pensava que a rainha era muito jovem, por isso pensava somente na burguesia e deixava o povo de lado. Mas os anos se passaram e foi se vendo que ela realmente era assim. E educação, que sempre foi a grande aposta do reino, trazido pelos próprios Chevalier, que já tiveram uma princesa que dava aulas para adultos analfabetos, foi deixada de lado pela rainha Anne. Assim como itens básicos para sobrevivência, como saúde, saneamento básico e ajuda financeira aos pequenos empresários. Cada Zona criou sua própria forma de vida, com poucos recursos, e com nada de ajuda financeira da monarquia. O tempo passou e o povo foi ficando cada vez mais revoltado. Porém começou a ter perseguições contra os rebeldes, chamados de anti monarquistas. Algumas pessoas desapareceram sem deixar vestígios. Suas famílias ficaram à mercê da fome e da pobreza absoluta, tendo que se mudarem para a Zona K, a mais pobre do reino. Por isso atualmente ser um anti monarquista significava viver sempre alerta e nunca assumir à qualquer pessoa, pois ninguém sabia quem apoiava ou não a rainha. E não apoiá-la poderia significar sumir e nunca mais ser encontrado. Eu ainda achava que haviam muito mais anti monarquistas do que pensávamos. Mas as pessoas tinham medo de assumir suas posições. A luta de Noriah Norte pela república durou anos. Antes eram governados também pelos Chevalier. O reino era tão grande que dividiram entre Norte e Sul para governarem. Então a família real se dividiu em dois palácios diferentes para dar conta de todo território. Porém a princesa de Noriah Norte acabou aderindo à causa dos republicanos. Não demorou muito para ela abdicar do trono e declarar a República de Noriah Norte. Eu era pequena na época, mas lembro da comemoração da Zona E. Todos ficaram felizes com o que houve. Tentaram em Noriah Sul também... Mas tínhamos a rainha Anne e ela era a própria monarquia. Para acabar com o reinado, só arrancando a cabeça dela.
Cheguei ao meu destino e fui encaminhada por outro guarda para dentro do castelo. Havia bem poucas meninas agora. Mas reconheci Sofia e fui até lá. A abracei:
- Que bom ver você aqui, Sofia.
- Bom ver você também, Kat. Mesmo sendo rivais.
- Não somos rivais... Estamos apenas disputando a mesma vaga de emprego. Há muitas garotas aqui e sabemos que só uma chegará lá. Eu torço por você.
- Eu também... Gostaria que pudesse haver vaga para nós duas.
Eu sorri:
- Tudo vai dar certo.
- Pelo menos para um de nós. – ela disse.
De alguma forma eu gostava daquela garota. Gostava quando a encontrava em cada fase que passava. Ela me transmitia alegria e simpatia.
- Tem alguma noção do que pode ser hoje? – perguntei curiosa.
- Não... Mas estou nervosa. E você?
- Um pouco. – menti. Na verdade eu não estava tão nervosa com a prova que passaria quanto por poder encontrar qualquer um dos príncipes por ali. Aquilo sim me aterrorizava um pouco.
Às 8 horas em ponto começaram a chamar as pessoas para salas individuais. Demorava-se certo tempo para saírem e tinham alguns papéis na mão quando se dirigiam à outra sala. Percebi nem todas tinham os papéis, então não sabia se era bom ou não receber aquilo.
Fui chamada depois das 10 horas. Sentei numa sala sozinha com uma mulher vestida de uniforme do castelo, que já percebi que era saia justa e blazer cinza. Sentei na frente dela.
- Bom dia, senhorita Lee.
- Bom dia.
- Vou lhe fazer algumas perguntas. E elas são importantes para saber se você passa ou não para a próxima fase.
- Tudo bem.
- Você tem alguma doença?
- Não. Tenho hipoglicemia, mas não é considerada uma doença acho... Ou seria?
- Alguém doente na sua família? – ela falou sem dar importância à minha resposta.
- Meu pai... Teve um acidente no passado e tem um pouco de dificuldade para caminhar. Nos últimos anos desenvolveu também depressão e síndrome do pânico... E anemia.
Ela ia anotando tudo. Eu não sabia se aquilo que falei sobre meu pai me eliminaria ou não da próxima fase.
- Algo importante que devemos saber sobre você, senhorita Lee...
- Sou vegetariana.
Ela anotou isso também. Depois perguntou:
- Solteira, namora ou mora com alguém?
Pensei um pouco. A vaga dizia que precisava ser solteira, no entanto não mencionava as duas outras opções. Então arrisquei:
- Tenho um namorado.
Ele me entregou alguns papéis e disse:
- São exames para confirmar se você realmente não tem nenhuma doença, como mencionou anteriormente.
Peguei os papéis das mãos dela e junto havia um enorme envelope. Antes que eu perguntasse, ela disse:
- Caso você passe nos exames médicos, amanhã tem um jantar às 19 horas nos salão secundário. É obrigatório trazer seu namorado.
- O jantar... É com a rainha? – perguntei perplexa.
- Não.
Quando saí procurei por Sofia, mas não a encontrei. Um guarda me acompanhou até um lugar que eu conhecia bem: a enfermaria. Reconheci Louise, que só me acenou com a cabeça. Na dúvida, também fui bem discreta, pois não sabia como proceder de forma que não me prejudicasse. Tirei sangue, fiz um raio x do tórax, do peito, exame de urina e uma tomografia da cabeça.
Isso ocupou quase toda a manhã. Depois foi servido um almoço para todas as participantes em um grande salão. As mesas estavam preparadas divinamente. Parecia um banquete. Não havia nomes específicos para sentarmos, então procurei Sofia e sentei-me com ela.
- Acredita que irão nos oferecer um almoço? – falou ela sorrindo. – Vamos almoçar no castelo de Noriah, Kat. E minha tia que fez a comida.
- Estou louca para provar a comida da sua tia. Deve ser fabulosa.
Chegaram alguns guardas e todos ficaram em silêncio. Não devia ter mais de 50 garotas ali. Então boa parte havia sido eliminada. O príncipe Magnus apareceu no salão, vestido elegantemente com um terno preto e gravata da mesma cor. Ele estava com a barba por fazer e o cabelo por cortar também.
- Bom dia. – ele disse com voz firme e forte. – Agradeço a presença e disposição de todas por passarem em todas as etapas e terem chegado até aqui. Sabemos do esforço e o cansaço que devem estar sentindo nesta semana, por isso a família real preparou este almoço como uma singela forma de agradecimento. Espero que aproveitem. Bom apetite.
Meu olhar ficou fixo nele e percebi que quando ele passou os olhos por mim parou mais tempo que nas demais. Estava eu a procurar um modo de flertar com o príncipe Magnus? Eu sorri sozinha. Ponha-se em seu lugar, Katrina Lee. Você não é princesa, como Kim lhe disse várias vezes. Você é só a plebeia, que precisa trabalhar com a mãe dele para sobreviver. Baixei meus olhos envergonhada com meus próprios pensamentos. Onde estava Dereck? Eu tinha tantas dúvidas agora e ele não aparecia mais para meu ajudar e explicar o que estava acontecendo.
Enquanto pensava no príncipe Magnus esqueci que ele próprio estava ali e quando olhei novamente em direção da porta ele não estava mais. Por que eu pensava tanto? Perdi tempo de olhar um pouco mais para ele.
- Ele é muito mais lindo pessoalmente do que na televisão. – observou Sofia.
- Sim... – eu me vi confessando.
- O príncipe Magnus não costuma fazer muitas aparições. – disse outra garota sentada próxima a nós. – Ele poderia nos brindar mais vezes com seus belos olhos na TV.
- Eu prefiro Dereck. – disse outra.
Eu ri. Tinha sido privilegiada em conhecer os príncipes. Então deveria ser grata e parar de ficar pensando besteiras.
Uma entrada foi servida: sopa de legumes e carne. Eu recusei.
- Não vai provar? – perguntou Sofia.
- Eu não como carne.
- Sério? – perguntou uma delas.
Eu confirmei com um aceno de cabeça afirmativo.
- Por quê? – perguntou Sofia. – Está divina esta sopa. Nunca comi nada igual.
- Não me passa pela cabeça comer um animal que foi morto para estar no meu prato.
Algumas me criticaram com os olhos e suas caras de desdém. Outra comentou:
- Não poderia casar com o príncipe Magnus. Ouvi dizer que o que ele mais gosta de fazer é caçar.
Fiquei chocada ao ouvir aquilo. Quem poderia ter como hobby matar animais?
- Ele... Faz isso? – Perguntei.
- Sim. Parece que tem até uma casa na floresta para caça.
- Como você sabe disso?
- Li uma entrevista dele numa revista.
Fiquei decepcionada com o que ouvi. Mas dei de ombros: eu jamais casaria com o príncipe Magnus. Então não comeria sua caça, nem o veria matar animais indefesos.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







