LOGIN[Ponto de Vista de Valerius]Mais tarde, estamos deitados na margem, envoltos nas roupas que recolhemos às pressas. O céu escureceu, e as primeiras estrelas começam a aparecer entre os galhos.Clara está deitada ao meu lado, a cabeça apoiada em meu braço. Luppo permanece desperto, satisfeito pela primeira vez em semanas.— Você vai me marcar? — ela pergunta, baixinho, como se tivesse medo da resposta.A pergunta me pega desprevenido. Meu corpo tensiona — não por recusa, mas por algo mais complexo.— Por que quer saber? — pergunto, evitando responder diretamente.— Porque quero ter certeza de que isso é real. — Ela vira o rosto para me encarar, e vejo a vulnerabilidade em seus olhos. — Duvido de tudo que parece bom demais.— Nosso vínculo é real — afirmo, e minha voz sai mais firme do que eu esperava.Ela se vira completamente para mim, apoiando o cotovelo na grama. O movimento nos deixa ainda mais próximos, e o cheiro dela — chuva, flor de laranjeira e mel — me envolve como uma lembra
[Ponto de Vista de Valerius]Fico parado na água, o coração disparado, incapaz de decidir se devo falar, me aproximar ou apenas contemplar aquele corpo que habitou meus sonhos durante dois meses.Sob a luz dourada do fim de tarde, finalmente vejo com clareza tudo o que nosso primeiro encontro me negou: os cabelos castanhos, longos e molhados, colados aos ombros como seda escura; o rosto delicado em formato de coração, com maçãs altas e um pequeno vinco de determinação entre as sobrancelhas, como se ela estivesse sempre pronta para desafiar o mundo.Mas são os olhos que me prendem — castanhos, profundos, com um brilho que nunca tinha visto em nenhuma outra loba. Não há neles medo, nem submissão. Apenas cautela... e algo que teima em brilhar por baixo, impossível de esconder.— Você é real — ela diz, a voz baixa, quase incrédula, como se temesse que eu desaparecesse se falasse alto demais.Um sorriso involuntário toca meus lábios.— Achei que fosse eu quem devia dizer isso.Dou um passo
[Ponto de Vista de Clara]Acordo bem cedo, como sempre. O ar ainda está fresco, mas já dava para sentir que o dia seria quente. Entro no banho e sinto a água deslizando suavemente pela minha pele — queria que ela pudesse não só me despertar, mas também levar os pensamentos que insistem em me acompanhar.Escolho um vestido leve de algodão, perfeito para enfrentar o dia quente que se aproxima. Sigo direto para a cozinha da nossa cabana.Chego esperando encontrá-la vazia — antes do barulho do dia, do vai-e-vem dos funcionários. Mas, para minha surpresa, lá está ela: Morgana.Sentada na mesa, mexendo distraidamente numa xícara, o olhar fixo no nada, como se estivesse esperando por alguém — e esse alguém, ao que tudo indicava, era eu.Não esperava encontrá-la ali; ela costuma fazer as refeições no salão principal com Ammara.Desde que soube que minha loba havia despertado — e que, teoricamente, eu teria encontrado meu companheiro —, ela vem agindo de forma estranha. Não é apenas curiosidad
[Ponto de Vista de Valerius]Faltam dois dias para o baile que vai definir os rumos da minha vida e eu não consigo parar de pensar na mulher do rio.Meu beta Renner está atolado nos preparativos: confirmar convidados, escolher flores, cuidar de protocolos que eu não tenho paciência de fingir que importam.Eu disse a ele que precisava checar a fronteira leste e parti. Não é exatamente uma mentira. Só não contei que a fronteira que eu ia checar ficava na beira daquele rio.Meu lobo, Luppo, está apático há semanas. Desde que a notícia do baile se espalhou, ele mal levanta a cabeça, como se já soubesse, antes de mim, que escolher uma rainha entre as lobas do reino seria trair o vínculo de companheiros que ele já via como nosso.Eu ainda não sabia se o que senti por ela nasceu do vínculo — ou do que haviam colocado na minha bebida naquela taverna. Mas Luppo não tinha dúvidas. E, por mais que eu tentasse racionalizar, eu também não.Luppo não quer uma rainha por conveniência.Luppo quer só
[Ponto de Vista de Clara]Nos dias seguintes, voltei ao rio sempre que pude. Mas não encontrei o colar.— Você ainda sente o vínculo? — perguntei a Luppita, sentada na margem, os pés dentro da água fria.Às vezes.— “Às vezes” não é resposta. Se ele quisesse mesmo nos encontrar, ficava aqui esperando. Ele nunca apareceu. Então é porque não deve estar interessado.Talvez ele não possa vir.— Ou talvez não queira, né?Ou talvez você devesse parar de tentar adivinhar os motivos de um homem que você viu por cinco minutos, no escuro, correndo por sua vida.Não respondi. Ela tinha razão — e era justamente isso que me irritava.As semanas se arrastaram. Eu voltei ao rio todas as noites, revirei a margem, procurei entre as pedras e as raízes, mas o colar não apareceu.O homem do rio não voltou a cruzar meu caminho. Nenhum reencontro. Nenhum sinal.Luppita permanecia inquieta, como um animal preso numa jaula pequena demais. Continuava dizendo que ele era o nosso companheiro, mas, com o passar
[Ponto de Vista de Morgana]Esperei Clara adormecer.Quando o silêncio tomou a casa, saí pelos fundos, envolta em um manto escuro. A lua cheia iluminava o caminho enquanto eu seguia em direção ao rio.Eu conhecia aquela parte do rio. Foi onde estive com Clara durante os rituais para o desabrochar da loba, que não aconteceu.Quando cheguei à margem, parei. A água estava calma, refletindo o céu estrelado como um espelho negro. Clara sempre falava que vinha nadar por aqui. Mas conhecer e encontrar eram duas coisas diferentes.— Deixa eu ver... humm, primeiro vou por aqui — murmurei.Caminhei devagar, examinando o chão, as pedras, as raízes expostas. A luz da lua não estava suficientemente clara, para revelar detalhes pequenos. Liguei a lanterna que trouxe comigo e comecei a procurar atentamente.Revirei a lama úmida da margem, levantei pedras cobertas de musgo, afastei folhas molhadas e galhos quebrados.Nada.— Droga — sussurrei.O tempo estava passando e, nada de encontrar o colar.Ser







