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Capítulo 5

last update Data de publicação: 2026-04-14 06:41:07

Sofia terminou de checar os sinais vitais. Pressão um pouco alta, pulso acelerado. Mas a febre era o maior problema. Ela preparou uma seringa com paracetamol.

  — Callahan, vou administrar paracetamol no seu soro. — ela o informou ao pegar uma seringa con o remédio. Esperou que ele concordasse, mesmo carrancudo ele concordou, pois não tinha mais o que fazer. Tudo já estava fodido mesmo. 

  — Tá feito. — Ela disse assim que terminou de administrar o paracetamol em seu soro, jogou a seringa no coletor de perfurocortantes. — Tenta dormir, seu corpo precisa se recuperar. E… — ela hesitou, mas prosseguiu. — O rancho vai esperar, Miguel tá lá. Foca em sarar.

  Ele não respondeu. Ficou olhando fixo pra parede, o perfil duro iluminado pela luz fria da UTI. Mas Sofia viu, viu o tremor no queixo que ele tentou conter. Viu a pálpebra pesada que não era só de cansaço físico, mas da carga imensa que ele carregava. A raiva dele, a arrogância… era armadura. E a armadura tinha rachado, deixando ver o cara assustado e sobrecarregado por dentro.

  Aquela visão, mais do que qualquer peito sarado ou ereção involuntária, foi o que mexeu com Sofia.

  — Vou voltar mais tarde checar a febre — ela disse, a voz mais suave do que pretendia. Pegou a prancheta e virou-se para sair.

  — Enfermeira.

  A voz dele a fez parar na porta. Ele não tinha se virado. Ainda olhava pra parede.

  — Obrigado. Pelo bezerro. E… por não fazer piada. Do… outro assunto.

  Sofia ficou parada por um segundo. O "obrigado" soou estranho saindo daquela boca, forçado, mas verdadeiro.

  — Nem reparei, Sr. Callahan. Trabalho é trabalho. — Mentira deslavada. Ela tinha reparado pra caralho. — Descanse.

  Ela saiu, fechando a porta atrás de si. Só então soltou o ar que não sabia que estava prendendo. Seu próprio coração batia forte. O que foi aquilo? O constrangimento, a raiva, a vulnerabilidade dele e aquela maldita ereção que deixou os dois mais perdidos que cego em tiroteio.

  Dentro da UTI, Ethan Callahan finalmente se virou pra olhar a porta fechada. O constrangimento ainda queimava suas orelhas, mas era ofuscado por uma sensação mais estranha. A enfermeira, Sofia, ela tinha visto, enxergado tudo. A fraqueza, o desespero com o rancho, o irmão falhando e até aquela parte ridícula dele ter ficado duro feito pedra só porque ela tropeçou e olhou pra ele e ela não tinha rido, não tinha feito pouco caso. Tinha sido profissional e até meio gentil ali no final.

  Ele olhou pra barraca que já tinha desmontado embaixo do lençol. E ficou cabreiro com a reação do corpo. Cabreiro com a raiva que sentiu dele e depois dela. Cabreiro principalmente com aquele frio na barriga quando ela falou que voltaria mais tarde, uma sensação que não era medo, mas sim, expectativa?

  — Merda — ele resmungou pra almofada, enterrando o rosto nela. Serenity Creek tinha virado um campo minado e ele, Ethan Callahan, o cowboy mais casca-grossa do condado, tava pisando em todas as bombas. E a enfermeira de olhos castanhos era a maior delas.

 ***

 Marlene Callahan estava sentada à mesa da cozinha, uma fortaleza de madeira maciça arranhada por décadas. Diante dela, não havia comida. Havia contas. Pilhas de papel amarelado, avisos de cobrança com letras vermelhas gritando "ÚLTIMO AVISO" e uma pequena montanha de grãos de milho. Ela os contava, um a um, com dedos nodosos.

 A porta do fundo bateu com força contra a parede. Ben Callahan entrou cambaleando, o cheiro forte de uísque barato e suor ácido precedendo-o. Ele estava pálido, a camisa rasgada no ombro, uma mancha escura e úmida no jeans perto do joelho, sangue ou lama, era difícil dizer. Seus olhos, vermelhos e turvos, mal focaram na mãe.

 — Onde diabos você tava? — a voz de Marlene era ríspida, sabia que se tratava de seu filho problema mesmo sem levantar os olhos dos grãos. — Os cochos do norte tão vazios. Os bezerros tão mugindo de fome. E você some o dia todo?

 Ben encostou-se na pia, tentando se equilibrar. Aperto os olhos contra a luz fraca da lâmpada pendurada.

 — Tive… coisas. Coisas pra resolver.

 — Coisas. — Marlene finalmente olhou para ele. O desprezo nos olhos negros era uma coisa presente. — Cheirando a lixão e cambaleando? Essas "coisas"? O Ethan tá lá no hospital com a perna quebrada, e você, o irmão, o sangue do mesmo sangue, tá aí, se arrastando feito cachorro doente! Você resolveu alguma coisa que não seja encher a cara e arranjar mais dívida?

 Ben encostou a cabeça na madeira fria da geladeira. A vergonha e a raiva brigavam dentro dele, mas a bebida asfixiava qualquer sentimento mais forte.

 — Deixa eu em paz, mãe. Tô… tô cansado.

 — Cansado? — Marlene levantou-se de um salto, a cadeira rangendo no chão. Ela parecia maior do que era, inflamada pela fúria. — Cansado, você? Quem tá segurando esse rancho com unhas e dentes enquanto o orgulhoso do Ethan se espatifa e você afunda no lixo? Quem conta cada grão de milho pra ver se a gente come amanhã? Cansado é o Miguel, que tá lá fora agora, no escuro, tentando consertar a bomba do poço sul com arame e fé! Cansado eu tô, Ben! Cansada de carregar morto!

 Ela avançou, obrigando-o a sentir o peso do seu desgosto.

 — Olha pra você! Um lixo. O garoto de ouro do rodeio, que tinha o mundo na mão. O que sobrou? Dívida com agiota, nome sujo na cidade, e uma garrafa vazia como melhor amigo. Seu pai…

 — Não fala do pai! — Ben empurrou-se da pia, o rosto contraído num misto de dor e fúria súbita. — Tu não tem moral pra falar dele!

 Marlene não recuou um milímetro, seus olhos brilhando com frieza. 

 — Eu tenho moral porque eu tô aqui! Porque eu segurei as pontas quando ele partiu! Porque eu não fugi pra garrafa nem pra mesa de jogo quando a vida apertou! Seu pai, Ben Callahan, morreu com honra. Errou? Errou. Mas enfrentou as consequências. Olha pra você. Você nem pra enfrentar o espelho serve. É uma sombra. Uma vergonha. O Ethan, com a perna quebrada e o rancho desabando, ainda tem mais fibra no dedo mindinho do que você no corpo inteiro!

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