LOGINSofia terminou de checar os sinais vitais. Pressão um pouco alta, pulso acelerado. Mas a febre era o maior problema. Ela preparou uma seringa com paracetamol.
— Callahan, vou administrar paracetamol no seu soro. — ela o informou ao pegar uma seringa con o remédio. Esperou que ele concordasse, mesmo carrancudo ele concordou, pois não tinha mais o que fazer. Tudo já estava fodido mesmo.
— Tá feito. — Ela disse assim que terminou de administrar o paracetamol em seu soro, jogou a seringa no coletor de perfurocortantes. — Tenta dormir, seu corpo precisa se recuperar. E… — ela hesitou, mas prosseguiu. — O rancho vai esperar, Miguel tá lá. Foca em sarar.
Ele não respondeu. Ficou olhando fixo pra parede, o perfil duro iluminado pela luz fria da UTI. Mas Sofia viu, viu o tremor no queixo que ele tentou conter. Viu a pálpebra pesada que não era só de cansaço físico, mas da carga imensa que ele carregava. A raiva dele, a arrogância… era armadura. E a armadura tinha rachado, deixando ver o cara assustado e sobrecarregado por dentro.
Aquela visão, mais do que qualquer peito sarado ou ereção involuntária, foi o que mexeu com Sofia.
— Vou voltar mais tarde checar a febre — ela disse, a voz mais suave do que pretendia. Pegou a prancheta e virou-se para sair.
— Enfermeira.
A voz dele a fez parar na porta. Ele não tinha se virado. Ainda olhava pra parede.
— Obrigado. Pelo bezerro. E… por não fazer piada. Do… outro assunto.
Sofia ficou parada por um segundo. O "obrigado" soou estranho saindo daquela boca, forçado, mas verdadeiro.
— Nem reparei, Sr. Callahan. Trabalho é trabalho. — Mentira deslavada. Ela tinha reparado pra caralho. — Descanse.
Ela saiu, fechando a porta atrás de si. Só então soltou o ar que não sabia que estava prendendo. Seu próprio coração batia forte. O que foi aquilo? O constrangimento, a raiva, a vulnerabilidade dele e aquela maldita ereção que deixou os dois mais perdidos que cego em tiroteio.
Dentro da UTI, Ethan Callahan finalmente se virou pra olhar a porta fechada. O constrangimento ainda queimava suas orelhas, mas era ofuscado por uma sensação mais estranha. A enfermeira, Sofia, ela tinha visto, enxergado tudo. A fraqueza, o desespero com o rancho, o irmão falhando e até aquela parte ridícula dele ter ficado duro feito pedra só porque ela tropeçou e olhou pra ele e ela não tinha rido, não tinha feito pouco caso. Tinha sido profissional e até meio gentil ali no final.
Ele olhou pra barraca que já tinha desmontado embaixo do lençol. E ficou cabreiro com a reação do corpo. Cabreiro com a raiva que sentiu dele e depois dela. Cabreiro principalmente com aquele frio na barriga quando ela falou que voltaria mais tarde, uma sensação que não era medo, mas sim, expectativa?
— Merda — ele resmungou pra almofada, enterrando o rosto nela. Serenity Creek tinha virado um campo minado e ele, Ethan Callahan, o cowboy mais casca-grossa do condado, tava pisando em todas as bombas. E a enfermeira de olhos castanhos era a maior delas.
***
Marlene Callahan estava sentada à mesa da cozinha, uma fortaleza de madeira maciça arranhada por décadas. Diante dela, não havia comida. Havia contas. Pilhas de papel amarelado, avisos de cobrança com letras vermelhas gritando "ÚLTIMO AVISO" e uma pequena montanha de grãos de milho. Ela os contava, um a um, com dedos nodosos.
A porta do fundo bateu com força contra a parede. Ben Callahan entrou cambaleando, o cheiro forte de uísque barato e suor ácido precedendo-o. Ele estava pálido, a camisa rasgada no ombro, uma mancha escura e úmida no jeans perto do joelho, sangue ou lama, era difícil dizer. Seus olhos, vermelhos e turvos, mal focaram na mãe.
— Onde diabos você tava? — a voz de Marlene era ríspida, sabia que se tratava de seu filho problema mesmo sem levantar os olhos dos grãos. — Os cochos do norte tão vazios. Os bezerros tão mugindo de fome. E você some o dia todo?
Ben encostou-se na pia, tentando se equilibrar. Aperto os olhos contra a luz fraca da lâmpada pendurada.
— Tive… coisas. Coisas pra resolver.
— Coisas. — Marlene finalmente olhou para ele. O desprezo nos olhos negros era uma coisa presente. — Cheirando a lixão e cambaleando? Essas "coisas"? O Ethan tá lá no hospital com a perna quebrada, e você, o irmão, o sangue do mesmo sangue, tá aí, se arrastando feito cachorro doente! Você resolveu alguma coisa que não seja encher a cara e arranjar mais dívida?
Ben encostou a cabeça na madeira fria da geladeira. A vergonha e a raiva brigavam dentro dele, mas a bebida asfixiava qualquer sentimento mais forte.
— Deixa eu em paz, mãe. Tô… tô cansado.
— Cansado? — Marlene levantou-se de um salto, a cadeira rangendo no chão. Ela parecia maior do que era, inflamada pela fúria. — Cansado, você? Quem tá segurando esse rancho com unhas e dentes enquanto o orgulhoso do Ethan se espatifa e você afunda no lixo? Quem conta cada grão de milho pra ver se a gente come amanhã? Cansado é o Miguel, que tá lá fora agora, no escuro, tentando consertar a bomba do poço sul com arame e fé! Cansado eu tô, Ben! Cansada de carregar morto!
Ela avançou, obrigando-o a sentir o peso do seu desgosto.
— Olha pra você! Um lixo. O garoto de ouro do rodeio, que tinha o mundo na mão. O que sobrou? Dívida com agiota, nome sujo na cidade, e uma garrafa vazia como melhor amigo. Seu pai…
— Não fala do pai! — Ben empurrou-se da pia, o rosto contraído num misto de dor e fúria súbita. — Tu não tem moral pra falar dele!
Marlene não recuou um milímetro, seus olhos brilhando com frieza.
— Eu tenho moral porque eu tô aqui! Porque eu segurei as pontas quando ele partiu! Porque eu não fugi pra garrafa nem pra mesa de jogo quando a vida apertou! Seu pai, Ben Callahan, morreu com honra. Errou? Errou. Mas enfrentou as consequências. Olha pra você. Você nem pra enfrentar o espelho serve. É uma sombra. Uma vergonha. O Ethan, com a perna quebrada e o rancho desabando, ainda tem mais fibra no dedo mindinho do que você no corpo inteiro!
Ben levou a mão ao rosto, não para tapar os ouvidos, mas porque o mundo girava violentamente. A raiva se dissolveu em náusea. Ele engoliu com força, o gosto amargo da bile e do uísque subindo na garganta. — Ele… o Ethan… ele sempre foi o perfeito pra ti, né? O forte. O certo. Eu nunca… nunca cheguei aos pés. — Não, nunca chegou! — Marlene cuspiu as palavras. — Mas podia ter sido mais! Podia ter sido um homem, Ben! Em vez disso, escolheu ser um fardo. Um peso morto que a gente ainda tem que carregar. Ben olhou para a mãe. A mulher de ferro, de rosto marcado pelo sol e pela perda, os ombros ainda largos, mas curvados sob um peso invisível. Ele viu, por um instante fugaz, não apenas raiva, mas uma dor profunda, uma decepção que ia além da falência do rancho. Era a falência de um filho. E aquela dor, mais do que qualquer insulto, foi o que o incomodou. Ele não teve resposta. Não teve força. A náusea venceu. Ben virou-se de repente e vomitou violentamente na pia suja, o corpo trem
Sofia terminou de checar os sinais vitais. Pressão um pouco alta, pulso acelerado. Mas a febre era o maior problema. Ela preparou uma seringa com paracetamol. — Callahan, vou administrar paracetamol no seu soro. — ela o informou ao pegar uma seringa con o remédio. Esperou que ele concordasse, mesmo carrancudo ele concordou, pois não tinha mais o que fazer. Tudo já estava fodido mesmo. — Tá feito. — Ela disse assim que terminou de administrar o paracetamol em seu soro, jogou a seringa no coletor de perfurocortantes. — Tenta dormir, seu corpo precisa se recuperar. E… — ela hesitou, mas prosseguiu. — O rancho vai esperar, Miguel tá lá. Foca em sarar. Ele não respondeu. Ficou olhando fixo pra parede, o perfil duro iluminado pela luz fria da UTI. Mas Sofia viu, viu o tremor no queixo que ele tentou conter. Viu a pálpebra pesada que não era só de cansaço físico, mas da carga imensa que ele carregava. A raiva dele, a arrogância… era armadura. E a armadura tinha rachado, deixando ver o
Sofia encostou a testa na porta fria da UTI, respirando fundo. O cheiro de desinfetante e desespero já era quase familiar. O ibuprofeno lutava bravamente contra a dor de cabeça, mas nada resolvia o nó no estômago. Ethan Callahan, só o nome já dava trabalho. Ela ajustou o jaleco, afundou os ombros num gesto falso de confiança e empurrou a porta. Os passos foram firmes até uns dois metros da cama. Aí, o joelho direito decidiu pregar uma peça. Não foi um tropeção, foi uma falha total, como se o osso tivesse virado gelatina. Ela cambaleou pra frente, a mão se agarrando na grade da cama com um estalo seco que ecoou no silêncio da sala. — Taí pra me matar de susto, enfermeira? — a voz de Ethan era áspera e rouca de sono ou raiva, ela não sabia dizer. Ele estava sentado na cama, meio inclinado pra frente, tentando alcançar uma garrafa d'água na mesa de cabeceira. O movimento tinha puxado a camisa aberta do pijama hospitalar pra o lado. E foi aí que o mundo desacelerou. O torso dele,
Sofia dirigia sem rumo, as palavras do Dawson e dos homens do café martelando na cabeça. "Até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta." A imagem do Ethan, pálido na UTI, se misturava com o tal "acidente" do pai. Quem diabos era Rick Dawson pra ter uma sombra tão grande? Distraída, pegou um desvio errado. O asfalto acabou, trocado por trilhas de trator em terra rachada. Cercas de arame serpenteavam por morros secos. Placas de "Propriedade Privada - Callahan" pendiam, descascadas pela areia. A Terra Seca. Sofia estacionou na sombra rala de um mesquite. A desolação era de cortar o coração. O pasto, que devia ter sido verde, era um tapete marrom sob o sol impiedoso. Ossos de gado branqueavam perto da cerca, e um moinho de vento enferrujado chiava feito alma penada. Lá longe, a casa principal, uma estrutura de madeira boa, mas com telhado caído e janelas cegas de poeira. — Bonito, né? — uma voz áspera cortou o silêncio. Sofia deu um pulo. Marlene Callahan tinha
Sofia passou o relatório do plantão. Os olhos ardiam de cansaço, mas a adrenalina ainda zumbia nas veias. Na UTI, atrás do vidro fosco, Ethan Callahan apagado sob sedação, a perna engessada pendurada num trambolho de tração. Monitores piscavam devagar: batimento 58, pressão 110/70, saturação 98%. Estável, mas no fio da navalha. — Tá vivo depois da faca, mas a infecção é a próxima rodada — disse Dra. Vance, aparecendo ao seu lado com um café pela metade. — Os Callahan têm osso duro e cabeça de pedra. Não espere agradecimento. Sofia olhou o perfil cortante de Ethan na luz branca. Sem a raiva, parecia mais novo, frágil. As cicatrizes nas mãos contavam histórias de arame e rédea puxada. — Ele acordou? — Por um instante. Rosnou pra enfermeira que tentou dar remédio. Chamou ela de "envenenadora da cidade". — Vance deu uma risadinha seca. — Bem-vinda a Serenity Creek, onde desconfiança é esporte. Vai descansar. Esse calor come os desavisados. *** Sofia encostou a testa no volant
Ethan Callahan apertou o chapéu contra o vento forte que soprava feito um furacão, os olhos ardendo por causa da areia. Lá embaixo, no barranco liso, o bezerro recém-nascido berrava feito doido, com as patas de trás presas num monte de raiz e arame farpado. — Ben! Preciso de ajuda com esse maldito arame! — gritou, mas o vento engoliu as palavras. Seu irmão mais novo, encostado na caminhonete, mal se aguentava em pé. A garrafa de bourbon balançava na sua mão mole. Ethan cuspiu terra, a raiva estampada no rosto. Enquanto Ben afundava no vício, ele carregava sozinho o rancho à beira do colapso. Com o facão na mão, Ethan desceu o barranco. O vento chicoteava seu rosto, reduzindo a visão a poucos metros. Quando seu cavalo, Relâmpago, pisou numa pedra solta, o mundo virou. Ethan ouviu o estalo seco da perna antes de sentir a dor, um clarão branco que o jogou contra as rochas. Ele gritou, mas o som sumiu na fúria da tempestade. Ben se aproximou de onde Ethan estava, ele teve a impres







