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Capítulo 6

last update Date de publication: 2026-04-15 05:06:27

 Ben levou a mão ao rosto, não para tapar os ouvidos, mas porque o mundo girava violentamente. A raiva se dissolveu em náusea. Ele engoliu com força, o gosto amargo da bile e do uísque subindo na garganta.

  — Ele… o Ethan… ele sempre foi o perfeito pra ti, né? O forte. O certo. Eu nunca… nunca cheguei aos pés.

  — Não, nunca chegou! — Marlene cuspiu as palavras. — Mas podia ter sido mais! Podia ter sido um homem, Ben! Em vez disso, escolheu ser um fardo. Um peso morto que a gente ainda tem que carregar.

  Ben olhou para a mãe. A mulher de ferro, de rosto marcado pelo sol e pela perda, os ombros ainda largos, mas curvados sob um peso invisível. Ele viu, por um instante fugaz, não apenas raiva, mas uma dor profunda, uma decepção que ia além da falência do rancho. Era a falência de um filho. E aquela dor, mais do que qualquer insulto, foi o que o incomodou.

  Ele não teve resposta. Não teve força. A náusea venceu. Ben virou-se de repente e vomitou violentamente na pia suja, o corpo tremendo como vara verde. 

  Marlene não se moveu. Não ofereceu ajuda. Não disse uma palavra. Apenas observou, os lábios apertados numa linha fina e branca. Quando ele terminou, escorrendo em lágrimas e suor, encostado na pia como um trapo molhado, ela voltou lentamente à mesa. Pegou um único grão de milho entre o polegar e o indicador.

  — Limpa essa sujeira — ela ordenou com a voz sem emoção, como se falasse com um estranho. — E depois vai pro seu quarto. Não quero te ver até você lembrar que tem um sobrenome pra honrar. Ou até o diabo te levar. O que vier primeiro.

  Ben encostou a testa fria no metal da torneira, os olhos fechados. O gosto do vômito e da derrota era tudo que restava. E o silêncio da casa. Ele não limpou a sujeira. Não foi pro quarto. Apenas deslizou para o chão frio, encolhido ao pé da pia, enquanto a mãe continuava sua contagem interminável, grão por grão.

  ***

  O ar da noite em Serenity Creek era um lençol morno e pesado, carregado com o cheiro de poeira seca e desespero. Sofia saiu do Santa Maria com passos que arrastavam, o cansaço entranhado nos ossos. O turno tinha sido longo, a tensão com Ethan na UTI – aquele constrangimento pegajoso, a vulnerabilidade dele sob a raiva – ainda ecoava na sua pele como um formigamento desagradável. Ela precisava de algo quente, gorduroso e humano. Algo que não cheirasse a antisséptico e derrota.

  O "Gordão's", uma lanchonete de beira de estrada com neon piscando metade das letras, era a única luz convidativa no caminho para seu apartamento minúsculo. Estacionou o Civic ao lado de uma picape imensa, negra e brilhante, que parecia um tanque de guerra no meio da poeira. Dawson, pensou, um frio súbito percorrendo sua espinha. Mas ele não estaria aqui, num buraco desses.

  Dentro, o ar estava carregado de cheiro de óleo queimado e bacon. Duas mesas ocupadas: caminhoneiros calados devorando bifes, e um casal de adolescentes rindo alto num canto. Sofia sentou-se no balcão, de costas para a porta, pedindo um café e um sanduíche de frango frito que prometia arrependimento instantâneo.

  — Tá com cara de quem lutou com o diabo e perdeu por pouco, enfermeira — comentou Gordão, o dono, um homem largo com avental manchado, colocando a caneca de café fumegante na sua frente. — Ou foi só o Ethan Callahan dando trabalho hoje?

  Sofia deu uma risada sem graça, envolvendo as mãos frias na caneca quente.

  — Um pouco dos dois, Gordão. Só quero comida e silêncio, por favor.

  Ele acenou com a cabeça, entendendo. Virou-se para a chapa, onde a gordura cantava. Foi quando a campainha da porta tilintou, trazendo uma corrente de ar quente e uma presença que preencheu o espaço pequeno como um gás pesado. Sofia não precisou virar. Sentiu os olhos pousarem nela. Pesados. Calculistas. A picape preta.

  Rick Dawson deslizou para o banco ao lado dela com a graça de um predador. Cheiro de couro caro e um leve amadeirado que lutava, e perdia, contra o aroma de fritura.

  — Sofia Alves. Que agradável coincidência. — A voz era suave, melíflua, mas tinha o fio de uma faca. — O destino parece gostar de nos colular no mesmo espaço. Duas vezes num dia… deve ser um sinal.

  Sofia manteve os olhos fixos no café. O coração batia um pouco mais rápido.

  — Sr. Dawson. Pequenas cidades, sabe como é. Poucos lugares decentes pra comer.

  Ele riu, um som baixo e agradável que não chegou aos olhos azuis e gelados.

  — Decente é uma palavra forte pro Gordão's. Mas tem seu charme. Autêntico. Como o povo daqui. — Ele acenou para Gordão. — Whisky, Gordão. Duplo, gelo. E traga uma porção daquelas asinhas apimentadas pra moça, por minha conta. Parece que precisa recuperar as energias depois de lidar com nosso… paciente difícil.

  — Não precisa, obrigada — disse Sofia rápido, mas Gordão já pegava as asas congeladas. Ela sentiu-se encurralada. — Eu já pedi meu sanduíche.

  — Considere um complemento. Um agradecimento pelo serviço prestado ao nosso querido Ethan. — Dawson apoiou os cotovelos no balcão, virando-se ligeiramente para ela. A proximidade era invasiva. — Como ele está? O orgulhoso herdeiro da Terra Seca? Conseguindo descansar com a perna atada, ou só acumulando mais raiva?

  Sofia tomou um gole de café, queimando a língua. Profissional. Era só profissional.

  — Ele está estável. Sob observação. A recuperação depende do repouso.

  — Repouso. — Dawson saboreou a palavra como se fosse uma piada. — Difícil quando o mundo que você conhece tá desabando, não é? Quando os credores batem à porta, o irmão tá afogando as mágoas no fundo de uma garrafa, e a única coisa que segura as pontas é um capataz velho e um poço que não dá água. — Ele pegou o copo de whisky que Gordão colocou à sua frente, girando o líquido âmbar. — O Ethan sempre foi teimoso. Como o pai. Joseph… aquele sim era um homem de princípios. Inflexíveis. Mortais. — Ele olhou para Sofia, um brilho perigoso nos olhos. — Morreu por causa deles, sabe?

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