MasukBen levou a mão ao rosto, não para tapar os ouvidos, mas porque o mundo girava violentamente. A raiva se dissolveu em náusea. Ele engoliu com força, o gosto amargo da bile e do uísque subindo na garganta.
— Ele… o Ethan… ele sempre foi o perfeito pra ti, né? O forte. O certo. Eu nunca… nunca cheguei aos pés.
— Não, nunca chegou! — Marlene cuspiu as palavras. — Mas podia ter sido mais! Podia ter sido um homem, Ben! Em vez disso, escolheu ser um fardo. Um peso morto que a gente ainda tem que carregar.
Ben olhou para a mãe. A mulher de ferro, de rosto marcado pelo sol e pela perda, os ombros ainda largos, mas curvados sob um peso invisível. Ele viu, por um instante fugaz, não apenas raiva, mas uma dor profunda, uma decepção que ia além da falência do rancho. Era a falência de um filho. E aquela dor, mais do que qualquer insulto, foi o que o incomodou.
Ele não teve resposta. Não teve força. A náusea venceu. Ben virou-se de repente e vomitou violentamente na pia suja, o corpo tremendo como vara verde.
Marlene não se moveu. Não ofereceu ajuda. Não disse uma palavra. Apenas observou, os lábios apertados numa linha fina e branca. Quando ele terminou, escorrendo em lágrimas e suor, encostado na pia como um trapo molhado, ela voltou lentamente à mesa. Pegou um único grão de milho entre o polegar e o indicador.
— Limpa essa sujeira — ela ordenou com a voz sem emoção, como se falasse com um estranho. — E depois vai pro seu quarto. Não quero te ver até você lembrar que tem um sobrenome pra honrar. Ou até o diabo te levar. O que vier primeiro.
Ben encostou a testa fria no metal da torneira, os olhos fechados. O gosto do vômito e da derrota era tudo que restava. E o silêncio da casa. Ele não limpou a sujeira. Não foi pro quarto. Apenas deslizou para o chão frio, encolhido ao pé da pia, enquanto a mãe continuava sua contagem interminável, grão por grão.
***
O ar da noite em Serenity Creek era um lençol morno e pesado, carregado com o cheiro de poeira seca e desespero. Sofia saiu do Santa Maria com passos que arrastavam, o cansaço entranhado nos ossos. O turno tinha sido longo, a tensão com Ethan na UTI – aquele constrangimento pegajoso, a vulnerabilidade dele sob a raiva – ainda ecoava na sua pele como um formigamento desagradável. Ela precisava de algo quente, gorduroso e humano. Algo que não cheirasse a antisséptico e derrota.
O "Gordão's", uma lanchonete de beira de estrada com neon piscando metade das letras, era a única luz convidativa no caminho para seu apartamento minúsculo. Estacionou o Civic ao lado de uma picape imensa, negra e brilhante, que parecia um tanque de guerra no meio da poeira. Dawson, pensou, um frio súbito percorrendo sua espinha. Mas ele não estaria aqui, num buraco desses.
Dentro, o ar estava carregado de cheiro de óleo queimado e bacon. Duas mesas ocupadas: caminhoneiros calados devorando bifes, e um casal de adolescentes rindo alto num canto. Sofia sentou-se no balcão, de costas para a porta, pedindo um café e um sanduíche de frango frito que prometia arrependimento instantâneo.
— Tá com cara de quem lutou com o diabo e perdeu por pouco, enfermeira — comentou Gordão, o dono, um homem largo com avental manchado, colocando a caneca de café fumegante na sua frente. — Ou foi só o Ethan Callahan dando trabalho hoje?
Sofia deu uma risada sem graça, envolvendo as mãos frias na caneca quente.
— Um pouco dos dois, Gordão. Só quero comida e silêncio, por favor.
Ele acenou com a cabeça, entendendo. Virou-se para a chapa, onde a gordura cantava. Foi quando a campainha da porta tilintou, trazendo uma corrente de ar quente e uma presença que preencheu o espaço pequeno como um gás pesado. Sofia não precisou virar. Sentiu os olhos pousarem nela. Pesados. Calculistas. A picape preta.
Rick Dawson deslizou para o banco ao lado dela com a graça de um predador. Cheiro de couro caro e um leve amadeirado que lutava, e perdia, contra o aroma de fritura.
— Sofia Alves. Que agradável coincidência. — A voz era suave, melíflua, mas tinha o fio de uma faca. — O destino parece gostar de nos colular no mesmo espaço. Duas vezes num dia… deve ser um sinal.
Sofia manteve os olhos fixos no café. O coração batia um pouco mais rápido.
— Sr. Dawson. Pequenas cidades, sabe como é. Poucos lugares decentes pra comer.
Ele riu, um som baixo e agradável que não chegou aos olhos azuis e gelados.
— Decente é uma palavra forte pro Gordão's. Mas tem seu charme. Autêntico. Como o povo daqui. — Ele acenou para Gordão. — Whisky, Gordão. Duplo, gelo. E traga uma porção daquelas asinhas apimentadas pra moça, por minha conta. Parece que precisa recuperar as energias depois de lidar com nosso… paciente difícil.
— Não precisa, obrigada — disse Sofia rápido, mas Gordão já pegava as asas congeladas. Ela sentiu-se encurralada. — Eu já pedi meu sanduíche.
— Considere um complemento. Um agradecimento pelo serviço prestado ao nosso querido Ethan. — Dawson apoiou os cotovelos no balcão, virando-se ligeiramente para ela. A proximidade era invasiva. — Como ele está? O orgulhoso herdeiro da Terra Seca? Conseguindo descansar com a perna atada, ou só acumulando mais raiva?
Sofia tomou um gole de café, queimando a língua. Profissional. Era só profissional.
— Ele está estável. Sob observação. A recuperação depende do repouso.
— Repouso. — Dawson saboreou a palavra como se fosse uma piada. — Difícil quando o mundo que você conhece tá desabando, não é? Quando os credores batem à porta, o irmão tá afogando as mágoas no fundo de uma garrafa, e a única coisa que segura as pontas é um capataz velho e um poço que não dá água. — Ele pegou o copo de whisky que Gordão colocou à sua frente, girando o líquido âmbar. — O Ethan sempre foi teimoso. Como o pai. Joseph… aquele sim era um homem de princípios. Inflexíveis. Mortais. — Ele olhou para Sofia, um brilho perigoso nos olhos. — Morreu por causa deles, sabe?
A manhã seguinte amanheceu quente e impiedosa, como se o próprio Texas quisesse testar os limites de Sofia. Ela havia dormido mal, o cheiro de Ethan ainda impregnado em sua mão apesar de ter lavado três vezes. Cada vez que fechava os olhos, via o pau grosso dele pulsando, o jato forte de porra atingindo a cabeceira da cama e o olhar chocado que ele lhe dera depois.Agora, às nove da manhã, ela estava diante da porta do quarto dele com uma toalha limpa no ombro, uma bolsa cheia de produtos de higiene e uma determinação fria no peito.— Entre — grunhiu Ethan antes mesmo que ela batesse.Sofia abriu a porta. Ele estava sentado na beira da cama, o gesso apoiado num banquinho improvisado. O lençol mal cobria sua nudez. O olhar cinzento que encontrou o dela era uma mistura perigosa de irritação, vergonha e algo muito mais escuro.— Bom dia — disse ela, profissional. — Vamos fazer o banho hoje. Miguel adaptou uma cadeira de plástico no banheiro. Consegue se transferir ou precisa de ajuda?Et
Sofia sorriu de lado. Um sorriso que não chegava aos olhos. Ela largou a toalha e, sem aviso, fechou a mão diretamente na carne quente e latejante dele. A pele era macia, mas o pau era duro como ferro. Grossíssimo. Veias saltadas. A cabeça roxa e brilhante soltava pré-gozo sem parar.— Olha pra isso — murmurou ela, começando a mover a mão devagar, de cima para baixo, espalhando a lubrificação natural. — Tá tão duro que deve estar doendo. E olha como baba… parece que quer gozar desde que eu entrei nesse quarto.Ethan cerrou os dentes, os punhos apertando o lençol.— Sofia… caralho… para com isso.Mas ele não fez nenhum movimento para afastá-la. Na verdade, seus quadris subiram levemente, buscando mais fricção.Ela acelerou o movimento da mão, apertando mais na base e afrouxando na cabeça, fazendo um som molhado e obsceno ecoar no quarto silencioso.— Você me paga pra cuidar de tudo, Ethan — disse ela, a voz rouca agora, carregada de raiva e excitação. — Inclusive dessa vara grossa que
A casa dos Callahan parecia ainda mais velha e hostil à noite. O vento uivava entre as tábuas soltas do telhado, fazendo a madeira ranger como ossos velhos. Sofia Alves estava deitada na cama estreita do quarto de hóspedes — um cubículo apertado no final do corredor, com cheiro de mofo e naftalina. Eram quase duas da manhã e o sono teimava em não chegar.Ela vestia apenas uma camiseta velha e larga que mal cobria a curva da bunda e uma calcinha de algodão simples. O ar estava quente, abafado, carregado daquela poeira seca típica da Terra Seca. Mesmo com a janela entreaberta, o calor não dava trégua.Um gemido rouco cortou o silêncio.Sofia sentou-se imediatamente, o instinto de enfermeira despertando num segundo. O som viera do quarto de Ethan, duas portas adiante. Ela pegou a bolsa médica que deixara ao lado da cama, acendeu a lanterna do celular e saiu pelo corredor escuro.A porta do quarto dele estava entreaberta. Um feixe de luz fraca do abajur escapava para o corredor. Sofia emp
A porta da frente do casarão dos Callahan rangeu em um protesto alto e prolongado quando Ethan a empurrou, Sofia entrou primeiro, sua figura delineada contra a luz do exterior. Ela fez uma pausa por um segundo, permitindo que seus olhos se ajustassem à escuridão, enquanto empurrava a cadeira de rodas de Ethan sobre o limiar de madeira desgastada. O corredor era largo e sombrio, com fotografias em preto-e-branco de gerações de Callahans observando, seus rostos sérios testemunhas silenciosas da chegada daquela intrusa.Foi então que uma figura emergiu de uma porta ao fundo do corredor. Marlene Callahan não fez nenhum som. Ela simplesmente apareceu, como um fantasma surgindo das profundezas da casa. Estava vestida com um vestido escuro e simples, e seus olhos negros, afundados nas órbitas, brilharam com um fogo sombrio ao pousarem em Sofia.— Então trouxe a peça de volta — a voz de Marlene cortou o ar silencioso como um chicote, carregada de um desdém tão profundo que era quase físico. —
Ela finalmente parou o que estava fazendo e olhou para ele, uma sobrancelha levemente arqueada.— Sim, Sr. Callahan?O uso do título formal foi um golpe baixo. Ele merecia.— Obrigado. Por… aceitar.Ela manteve seu olhar.— É meu trabalho. O hospital está me pagando para isso. — Uma pausa calculada. — Como exatamente você conseguiu essa proeza? A Dra. Vance não é conhecida por sua flexibilidade orçamentária.Ele desviou o olhar, envergonhado.— Eu… disse que pagaria. O que fosse necessário.— Ah — a resposta dela foi uma sílaba carregada de entendimento. — Então é isso. Não é sobre precisar da minha ajuda. É sobre poder comprá-la. É mais fácil assim, não é? Transformar tudo em uma transação. Nada de dívidas emocionais. Nada de… confiança.— Não é isso! — ele protestou, mas soou falso até para seus próprios ouvidos.— Não? — ela se aproximou, finalmente, e pela primeira vez ele viu um lampejo da mulher por trás da enfermeira, uma centelha de raiva ferida. — Porque da última vez que ver
As semanas que se seguiram foram um exercício de persistência silenciosa para Sofia e de isolamento teimoso para Ethan. O corredor do hospital tornou-se um palco de encontros evitados e olhares desviados. Sofia cumpria suas funções com eficiência profissional impecável, checando seus sinais vitais, administrando medicamentos, ajustando o gesso, mas a ponte de calor e tensão sexual que existira entre eles havia se desintegrado, substituída por um deserto cortante de formalidade.Ethan, por sua vez, enterrava-se cada vez mais fundo em uma fortaleza de silêncio e rancor. A dúvida plantada pela mãe criara raízes profundas, intoxicando cada interação com Sofia. Ele via duplicidade em seu sorriso profissional, uma agenda oculta em sua competência. As tentativas dela de puxar conversa, de perguntar sobre o rancho, sobre Ben, eram interpretadas como bisbilhotice para relatar a Dawson. A dor na perna era uma companhia constante, mas era a ferida na sua confiança que mais latejava.O dia da alt







