Se connecterSofia encostou a testa na porta fria da UTI, respirando fundo. O cheiro de desinfetante e desespero já era quase familiar. O ibuprofeno lutava bravamente contra a dor de cabeça, mas nada resolvia o nó no estômago. Ethan Callahan, só o nome já dava trabalho. Ela ajustou o jaleco, afundou os ombros num gesto falso de confiança e empurrou a porta.
Os passos foram firmes até uns dois metros da cama. Aí, o joelho direito decidiu pregar uma peça. Não foi um tropeção, foi uma falha total, como se o osso tivesse virado gelatina. Ela cambaleou pra frente, a mão se agarrando na grade da cama com um estalo seco que ecoou no silêncio da sala.
— Taí pra me matar de susto, enfermeira? — a voz de Ethan era áspera e rouca de sono ou raiva, ela não sabia dizer. Ele estava sentado na cama, meio inclinado pra frente, tentando alcançar uma garrafa d'água na mesa de cabeceira. O movimento tinha puxado a camisa aberta do pijama hospitalar pra o lado.
E foi aí que o mundo desacelerou.
O torso dele, exposto, não era um torso de modelo de revista, não. Era um mapa em relevo de trabalho duro. Cicatrizes finas cruzavam a pele bronzeada, uma mais grossa perto do ombro direito, parecia marca de bala ou faca. Músculos definidos não pela academia, mas pelo peso de cercas, sacos de ração e rédeas puxadas. Uma linha escura de pelos começava um pouco acima do umbigo e descia… bem, descia pra um lugar que o lençol cobria, as a visão era suficiente. O suor do esforço dava um brilho à pele, e o cheiro dele era de terra, suor e algo medicinal que invadiu o espaço de Sofia com uma força que a deixou tonta por um segundo a mais do que deveria.
Seus olhos traidores percorreram o caminho das cicatrizes até o músculo peitoral esquerdo que estava tenso com o esforço.
— Puta que pariu, ele é forte mesmo! — o pensamento escapou antes que ela pudesse engolir.
Ethan congelou no movimento de pegar a garrafa. Ele sentiu o olhar dela nele como se o estivesse venerando, ele virou a cabeça. Os olhos cinza, normalmente tempestuosos se estreitara, em um primeiro momento em confusão. Depois em um entendimento sagaz que fez uma de suas sobrancelhas negra subir.
— Tá perdida, enfermeira? — a voz dele cheia de sarcasmo. — O mapa do tesouro é mais pra baixo, mas acho que não é o tipo de coisa que se acha num hospital.
Sofia engoliu seco, o rosto pegando fogo. Merda... Merda... Merda...
— Seu joelho… eu… tava vendo se o inchaço diminuiu — a desculpa saiu patética e ela sabia. O joelho dele tava debaixo do lençol, porra! — E você devia estar deitado! Quem deixou você sentar?
Ele ignorou a pergunta com os olhos ainda pregados nela transparecendo um misto de indignação e… algo mais? Sofia não teve tempo de decifrar. Porque foi quando ela reparou. Lá embaixo, na região coberta pelo lençol fino do hospital… algo se mexia. Não era um tremor de dor. Era uma elevação de uma ereção discreta, mas inegável.
Os olhos de Ethan seguiram o dela. E quando ele viu o que seu próprio corpo estava fazendo, o rosto dele passou de bronzeado para um vermelho-tijolo em meio segundo. A indignação que vinha direcionada a Sofia se virou contra ele mesmo com uma força quase física.
— Que porra é essa?! — ele rosnou, baixo e feroz, como se o próprio pau o tivesse traído. Ele jogou o lençol por cima do colo com um movimento brusco, quase violento, como se quisesse esconder uma arma ilegal. — Desgraça de remédio tarado que vocês botam nesse soro!
Sofia forçou a respiração a voltar ao normal. Profissional. Era só profissional.
— É um efeito colateral possível da morfina residual e do estresse, Sr. Callahan. Completamente involuntário. Não significa absolutamente nada. — Ela se aproximou, evitando olhar pra qualquer coisa abaixo da cintura dele. Focou no soro. — Vou checar sua infusão. Tá na vancomicina, né? Previne a infecção óssea.
Ethan estava rígido como uma tábua com seu maxilar travado, os olhos fixos na parede oposta, evitando a todo custo olhar pra ela ou pra própria ereção embaixo do lençol. O rubor no pescoço dele era visível.
— Tá tudo que eu preciso combater é essa palhaçada e você sai daqui.
— Não posso. É meu turno. E você tá com febre. — Ela tocou a testa dele rápido, antes que ele pudesse recuar. A pele estava quente e úmida. — 38.5, chuto. Vou pedir paracetamol.
Ele arfou quando o dedo frio dela tocou a pele.
— Não quero mais droga! Quero que me deixem em paz! E que esse… problema… suma!
— O “problema” vai sumir quando você relaxar. Quanto mais nervoso, pior. É biologia básica. — Ela ajustou o fluxo do soro evitando qualquer contato desnecessário. O ar entre eles estava denso, um misto de constrangimento e uma tensão elétrica que Sofia não queria nomear. — Como tá a dor? De zero a dez?
— Dez sendo que ter que te aguentar? Onze. — Ele cravou os dedos no lençol da maca hospitalar, os nós de seus dedos esbranquiçados pela força que segurava no lençol.
— Bom sinal. Se tivesse num doze, já tava gritando. — Ela anotou algo na prancheta com sua voz leve na tentativa de dissipar o clima. — O cara que tava com você no dia do acidente veio te visitar mais cedo. Trouxe notícias do rancho.
Isso fisgou a atenção dele. Os olhos acinzentados se voltaram pra ela, a postura ligeiramente menos rígida.
— E? O bezerro? Os machos no pasto sul?
— O bezerro tá bem, foi o que ele disse. Tirou ele do barranco. E os machos… — Sofia hesitou, vendo o brilho de esperança nos olhos de Ethan. — … tão precisando de água. Muita. O poço do sul tá dando menos que um choro de viúva. Palavras dele.
A esperança se apagou, substituída por uma amargura profunda. Ethan fechou os olhos, deixando a cabeça cair no travesseiro com um baque suave.
— Dawson. O filho da puta desviou o lençol de novo. Só pode. — A mão dele fechou em punho, mas a força parecia ter sumido. Era só cansaço e raiva impotente. O "problema" embaixo do lençol, notou Sofia discretamente, tinha de fato recuado.
— O Miguel tá segurando as pontas. Compras básicas, ele disse. Arroz, feijão… — Ethan se interrompeu continuando logo em seguida. — ele tá segurando o mundo nas costas, como sempre. — A voz de Ethan perdeu a aspereza por um segundo, revelando uma gratidão cansada. Ele abriu os olhos, olhando pra Sofia. Dessa vez, sem raiva, só uma exaustão profunda. — E o Ben? Alguém viu aquele desgraçado?
Sofia mordeu o lábio.
— Na farmácia ontem. Tava com o dedo cortado. E… não tava sóbrio.
Ethan soltou um som baixo, entre um riso amargo e um gemido. Virou o rosto de novo pra parede.
— Claro que não tava. Porque seria diferente? — disse cansado com o tom de derrota transparente em sua voz.
Ben levou a mão ao rosto, não para tapar os ouvidos, mas porque o mundo girava violentamente. A raiva se dissolveu em náusea. Ele engoliu com força, o gosto amargo da bile e do uísque subindo na garganta. — Ele… o Ethan… ele sempre foi o perfeito pra ti, né? O forte. O certo. Eu nunca… nunca cheguei aos pés. — Não, nunca chegou! — Marlene cuspiu as palavras. — Mas podia ter sido mais! Podia ter sido um homem, Ben! Em vez disso, escolheu ser um fardo. Um peso morto que a gente ainda tem que carregar. Ben olhou para a mãe. A mulher de ferro, de rosto marcado pelo sol e pela perda, os ombros ainda largos, mas curvados sob um peso invisível. Ele viu, por um instante fugaz, não apenas raiva, mas uma dor profunda, uma decepção que ia além da falência do rancho. Era a falência de um filho. E aquela dor, mais do que qualquer insulto, foi o que o incomodou. Ele não teve resposta. Não teve força. A náusea venceu. Ben virou-se de repente e vomitou violentamente na pia suja, o corpo trem
Sofia terminou de checar os sinais vitais. Pressão um pouco alta, pulso acelerado. Mas a febre era o maior problema. Ela preparou uma seringa com paracetamol. — Callahan, vou administrar paracetamol no seu soro. — ela o informou ao pegar uma seringa con o remédio. Esperou que ele concordasse, mesmo carrancudo ele concordou, pois não tinha mais o que fazer. Tudo já estava fodido mesmo. — Tá feito. — Ela disse assim que terminou de administrar o paracetamol em seu soro, jogou a seringa no coletor de perfurocortantes. — Tenta dormir, seu corpo precisa se recuperar. E… — ela hesitou, mas prosseguiu. — O rancho vai esperar, Miguel tá lá. Foca em sarar. Ele não respondeu. Ficou olhando fixo pra parede, o perfil duro iluminado pela luz fria da UTI. Mas Sofia viu, viu o tremor no queixo que ele tentou conter. Viu a pálpebra pesada que não era só de cansaço físico, mas da carga imensa que ele carregava. A raiva dele, a arrogância… era armadura. E a armadura tinha rachado, deixando ver o
Sofia encostou a testa na porta fria da UTI, respirando fundo. O cheiro de desinfetante e desespero já era quase familiar. O ibuprofeno lutava bravamente contra a dor de cabeça, mas nada resolvia o nó no estômago. Ethan Callahan, só o nome já dava trabalho. Ela ajustou o jaleco, afundou os ombros num gesto falso de confiança e empurrou a porta. Os passos foram firmes até uns dois metros da cama. Aí, o joelho direito decidiu pregar uma peça. Não foi um tropeção, foi uma falha total, como se o osso tivesse virado gelatina. Ela cambaleou pra frente, a mão se agarrando na grade da cama com um estalo seco que ecoou no silêncio da sala. — Taí pra me matar de susto, enfermeira? — a voz de Ethan era áspera e rouca de sono ou raiva, ela não sabia dizer. Ele estava sentado na cama, meio inclinado pra frente, tentando alcançar uma garrafa d'água na mesa de cabeceira. O movimento tinha puxado a camisa aberta do pijama hospitalar pra o lado. E foi aí que o mundo desacelerou. O torso dele,
Sofia dirigia sem rumo, as palavras do Dawson e dos homens do café martelando na cabeça. "Até os mais duros quebram quando a terra seca e a dívida aperta." A imagem do Ethan, pálido na UTI, se misturava com o tal "acidente" do pai. Quem diabos era Rick Dawson pra ter uma sombra tão grande? Distraída, pegou um desvio errado. O asfalto acabou, trocado por trilhas de trator em terra rachada. Cercas de arame serpenteavam por morros secos. Placas de "Propriedade Privada - Callahan" pendiam, descascadas pela areia. A Terra Seca. Sofia estacionou na sombra rala de um mesquite. A desolação era de cortar o coração. O pasto, que devia ter sido verde, era um tapete marrom sob o sol impiedoso. Ossos de gado branqueavam perto da cerca, e um moinho de vento enferrujado chiava feito alma penada. Lá longe, a casa principal, uma estrutura de madeira boa, mas com telhado caído e janelas cegas de poeira. — Bonito, né? — uma voz áspera cortou o silêncio. Sofia deu um pulo. Marlene Callahan tinha
Sofia passou o relatório do plantão. Os olhos ardiam de cansaço, mas a adrenalina ainda zumbia nas veias. Na UTI, atrás do vidro fosco, Ethan Callahan apagado sob sedação, a perna engessada pendurada num trambolho de tração. Monitores piscavam devagar: batimento 58, pressão 110/70, saturação 98%. Estável, mas no fio da navalha. — Tá vivo depois da faca, mas a infecção é a próxima rodada — disse Dra. Vance, aparecendo ao seu lado com um café pela metade. — Os Callahan têm osso duro e cabeça de pedra. Não espere agradecimento. Sofia olhou o perfil cortante de Ethan na luz branca. Sem a raiva, parecia mais novo, frágil. As cicatrizes nas mãos contavam histórias de arame e rédea puxada. — Ele acordou? — Por um instante. Rosnou pra enfermeira que tentou dar remédio. Chamou ela de "envenenadora da cidade". — Vance deu uma risadinha seca. — Bem-vinda a Serenity Creek, onde desconfiança é esporte. Vai descansar. Esse calor come os desavisados. *** Sofia encostou a testa no volant
Ethan Callahan apertou o chapéu contra o vento forte que soprava feito um furacão, os olhos ardendo por causa da areia. Lá embaixo, no barranco liso, o bezerro recém-nascido berrava feito doido, com as patas de trás presas num monte de raiz e arame farpado. — Ben! Preciso de ajuda com esse maldito arame! — gritou, mas o vento engoliu as palavras. Seu irmão mais novo, encostado na caminhonete, mal se aguentava em pé. A garrafa de bourbon balançava na sua mão mole. Ethan cuspiu terra, a raiva estampada no rosto. Enquanto Ben afundava no vício, ele carregava sozinho o rancho à beira do colapso. Com o facão na mão, Ethan desceu o barranco. O vento chicoteava seu rosto, reduzindo a visão a poucos metros. Quando seu cavalo, Relâmpago, pisou numa pedra solta, o mundo virou. Ethan ouviu o estalo seco da perna antes de sentir a dor, um clarão branco que o jogou contra as rochas. Ele gritou, mas o som sumiu na fúria da tempestade. Ben se aproximou de onde Ethan estava, ele teve a impres







