INICIAR SESIÓNSenti meu corpo ficar rígido.
Eu conhecia aquele acordo. É claro que conhecia. Ele existia havia anos. Era uma daquelas coisas que os adultos discutiam em voz baixa quando acreditavam que eu não estava ouvindo. Um acordo antigo entre os Bellini e os Moretti. Uma aliança. Um casamento. A palavra nunca tinha sido dita diretamente para mim. Mas eu não era idiota. Eu sabia que um dia poderiam me pedir isso. Meu avô havia me preparado para praticamente tudo. Negociar. Perder. Ganhar. Ceder. Exigir. Engolir orgulho. Defender o nome da família. Casar por conveniência. Essa última parte sempre havia sido apresentada como uma possibilidade distante. Como uma carta guardada em algum lugar de um baralho que talvez nunca precisasse ser jogada. Aparentemente, alguém acabara de colocá-la sobre a mesa. — Com quem? — perguntei. Meu pai me encarou. — Matteo Moretti. O nome ficou suspenso entre nós. Matteo. Eu o conhecia. Não intimamente. Mas o suficiente. Vinte e nove anos. Segundo filho dos Moretti. Bonito. Educado quando havia pessoas importantes olhando. Arrogante quando esquecia que havia pessoas importantes olhando. Eu o encontrara algumas vezes em eventos. Jantares. Leilões beneficentes. Reuniões entre empresas. Ele sempre tinha aquele sorriso de homem que acreditava que o mundo lhe devia alguma coisa. Não era exatamente o tipo de homem que eu escolheria. Mas ninguém havia perguntado o que eu escolheria. — Quando? — Três meses. Soltei uma risada curta. — Três meses? — O acordo precisa ser formalizado. — Eu não disse sim. Meu pai me encarou. — Você foi criada sabendo que isso poderia acontecer. Aquilo me irritou. Não porque fosse mentira. Talvez porque fosse verdade. — Saber que poderia acontecer não significa ter concordado. — Não. A voz dele permaneceu calma. — Mas significa que você sabia qual era sua responsabilidade. Responsabilidade. A palavra. Sempre ela. Eu quase conseguia ouvir a voz do meu avô dizendo que uma Bellini não fugia das próprias responsabilidades. Respirei fundo. — E Beatrice? Meu pai franziu a testa. — O que tem sua irmã? — Por que eu? Ele me encarou como se a resposta fosse óbvia. — Porque você é a herdeira. Não sei por que aquilo doeu. Talvez porque eu soubesse que ele estava certo. Talvez porque, durante vinte e sete anos, eu tivesse feito tudo para ser exatamente isso. A herdeira. A filha responsável. A mulher preparada. A pessoa que assumiria tudo quando meu pai não pudesse mais fazê-lo. Eu só não esperava descobrir que a recompensa por ser tão boa no meu papel seria ter o resto da minha vida decidido por ele. — Isso vai proteger a Beatrice? Meu pai ficou em silêncio. Então respondeu: — Vai proteger nossa família. Não era a mesma coisa. Eu sabia. Ele sabia. Minha mãe sabia. Provavelmente todos naquela casa sabiam. Mas ninguém corrigiu. Levantei-me. — Eu vou pensar. Meu pai respirou fundo. — Você vai aceitar. Parei diante da porta. Virei lentamente. — Não confunda o fato de eu ter sido criada para obedecer ao meu sobrenome com a ideia de que eu não sei escolher. Saí antes que ele pudesse responder. No corredor, mantive os passos firmes. Não corri. Não chorei. Não bati nenhuma porta. Eu não fazia essas coisas. Fui treinada para ser melhor do que isso. Ou, pelo menos, para parecer. Só parei diante da enorme janela no final do corredor. Do lado de fora, o jardim estava impecável. As árvores perfeitamente aparadas. As fontes funcionando. As flores cuidadas. Os funcionários circulando. Tudo no lugar. Tudo como deveria estar. Apertei a mão contra o vidro. Eu sempre soube que um dia poderia precisar sacrificar alguma coisa pelo nome Bellini. Só nunca tinha parado para pensar que talvez a coisa sacrificada fosse a minha própria vida. — Valentina. Fechei os olhos. Minha mãe estava atrás de mim. Eu não precisei me virar para saber. — Você sabia? O silêncio dela respondeu antes das palavras. — Há algumas semanas. Virei. — E não me contou? — Seu pai queria conversar primeiro. — Meu pai queria me informar primeiro. Ela baixou os olhos. Minha mãe era uma das poucas pessoas no mundo capazes de me fazer sentir criança novamente. Talvez porque, perto dela, eu ainda pudesse lembrar que antes de ser herdeira eu tinha sido apenas uma menina. — Você está com medo? — perguntei. Ela me olhou. E, pela primeira vez naquela manhã, alguém não tentou esconder a verdade. — Estou.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







