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A Escolha do Don: Entre Sangue e Poder
A Escolha do Don: Entre Sangue e Poder
Autor: Sia Paiomas

Capítulo 1 - Valentina (Parte 1)

Autor: Sia Paiomas
last update Fecha de publicación: 2026-10-04 13:42:03

Aprendi cedo que algumas famílias herdavam dinheiro.

Outras herdavam empresas.

Os Bellini herdavam responsabilidades.

Eu tinha sete anos quando meu avô me ensinou isso.

Lembro da biblioteca em uma tarde de chuva. Eu estava sentada na poltrona ao lado da janela, com as pernas ainda curtas demais para alcançarem o chão, enquanto meu avô folheava um livro de contabilidade que parecia mais antigo do que a própria casa.

Eu não entendia os números.

Na verdade, naquela idade, eu mal entendia por que alguém escolheria passar uma tarde olhando para números em vez de brincar no jardim.

Mas eu sabia que meu avô nunca virava uma página sem motivo.

— Você sabe por que seu sobrenome é importante? — ele perguntou.

Pensei por alguns segundos.

— Porque somos ricos?

Ele sorriu.

Não era um sorriso de quem achou graça. Era aquele pequeno sorriso que adultos davam quando uma criança tinha chegado perto da resposta, mas ainda estava longe o suficiente para precisar aprender.

Meu avô fechou o livro.

— Não.

Franzi a testa.

— Então por quê?

Ele se inclinou um pouco na minha direção.

— Porque quando um Bellini promete alguma coisa, alguém acredita.

Eu não respondi.

— E quando um Bellini quebra uma promessa?

A chuva continuava batendo contra os vidros.

Meu avô me encarou por alguns segundos antes de responder.

— Alguém paga.

Eu não sabia exatamente o que aquilo significava.

Mas nunca esqueci.

Anos depois, percebi que aquela tinha sido uma das primeiras lições que recebi sobre o meu sobrenome.

Ser uma Bellini nunca significou apenas morar em uma casa enorme, estudar nas melhores escolas, usar vestidos feitos sob medida ou aprender a conversar com homens importantes sem parecer intimidada.

Significava pertencer a alguma coisa.

E, quando se pertence a alguma coisa grande demais, algumas partes de você deixam de ser completamente suas.

Eu aprendi isso cedo.

Aos quinze anos, enquanto minhas amigas discutiam festas, viagens e garotos, eu acompanhava meu pai em reuniões.

Aos dezenove, sabia analisar um balanço financeiro.

Aos vinte e dois, conseguia identificar uma mentira antes que o homem terminasse de contá-la.

Aos vinte e cinco, já tinha participado de negociações em que homens duas vezes mais velhos do que eu mudaram de opinião depois de perceberem que eu tinha lido todos os contratos que eles esperavam que eu ignorasse.

Aos vinte e sete, eu já não precisava que ninguém me lembrasse qual era o meu papel.

Eu sabia.

Sempre soube.

Eu era Valentina Vittoria Bellini.

Herdeira.

Filha mais velha.

Futura presidente do império da minha família.

E, aparentemente, futura esposa de Matteo Moretti.

Descobri a última parte naquela manhã.

Meu dia tinha começado como qualquer outro.

Eu havia acordado às seis e quarenta, tomado café em silêncio e respondido a quinze e-mails antes das sete e meia. Às oito, deveria estar na sede da Bellini Group para uma reunião sobre a expansão de um dos nossos hotéis.

Mas meu pai pediu que eu fosse até a residência.

Quando meu pai dizia “preciso falar com você”, geralmente havia duas possibilidades.

Ou alguém tinha feito uma besteira.

Ou ele estava prestes a fazer uma.

Naquela manhã, eu descobriria que existia uma terceira possibilidade.

Eu era a besteira.

Entrei na sala de reuniões exatamente às oito e dois.

Meu pai estava diante da janela.

— Você está atrasada.

Olhei para o relógio no pulso.

— Dois minutos.

— Dois minutos ainda são atraso.

Coloquei minha pasta sobre a mesa.

— Então estamos começando muito bem.

Por um segundo, tive a impressão de que o canto da boca dele quase se levantou.

Quase.

Meu pai não era exatamente conhecido por senso de humor.

— Sente-se.

Sentei.

Olhei para a mesa.

Nenhum documento.

Nenhum notebook.

Nenhuma pasta.

Nada.

Meu pai nunca me chamava para uma reunião sem material.

— Qual é o problema?

— Por que você acha que existe um problema?

Cruzei os braços.

— Porque você me chamou para uma reunião em casa às oito da manhã e não colocou nenhum documento na mesa.

Ele ficou em silêncio.

Eu esperei.

— Além disso, minha mãe não está aqui.

O olhar dele mudou.

Foi mínimo.

Mas eu conhecia meu pai.

Ele podia enganar uma sala inteira.

A mim, nem sempre.

— O conselho aprovou a proposta — disse.

— Qual proposta?

Ele demorou um pouco para responder.

Foi aí que alguma coisa dentro de mim começou a apertar.

— A família Moretti aceitou os termos.

Fiquei olhando para ele.

Por um instante, não entendi.

Depois entendi.

E preferi não ter entendido.

— Que termos?

Meu pai desviou os olhos para a janela.

— O acordo entre nossas famílias.

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