تسجيل الدخول— Eu consigo ver você.Quando essas palavras saíram da boca de Mary, achei que ouvi errado.Ela estava parada à entrada da casa antiga, segurando a urna com minhas cinzas. Seus olhos estavam fixos diretamente em mim, que flutuava no ar.Não havia medo em seus olhos velhos e enevoados, nem choque. Havia apenas uma dor que eu não sabia descrever.Minhas lágrimas caíram.Então alguém conseguia me ver. Desde o momento em que morri, Mary conseguia me ver.Mary colocou a urna sobre a mesa e estendeu a mão.Ela a levou até o ar vazio, parando exatamente onde minha alma permanecia. Seus dedos tremiam levemente, como se testassem alguma coisa.— Você sofreu tanto… — sua voz embargou.Ela abriu os braços, fazendo o gesto de um abraço.Eu flutuei para mais perto e parei dentro daquele abraço.Claro, ela não conseguia me segurar.Seus braços envolveram o nada. Quando seus dedos se fecharam, não havia nada ali para agarrar.Mesmo assim, ela não me soltou. Apenas ficou daquele jeito, ab
Meu funeral foi simples.A alcateia construiu uma pequena pira de cremação com madeira de pinheiro no terreno aberto a oeste do vilarejo.Os troncos foram empilhados em uma estrutura quadrada e organizada, mais arrumada do que qualquer cama em que dormi enquanto estava viva.Mary tirou um manto de pele de raposa branca do fundo de um baú.Eu conhecia aquele manto. Ele ficava guardado no fundo do armário dela, envolto em tecido, e era retirado uma vez por ano para arejar.Ela disse uma vez que ele seria usado no dia de sua própria partida, quando fosse encontrar seus ancestrais.Agora, ela o colocou sobre o meu corpo.A pele branca cobriu meu rosto acinzentado, e a gola macia repousou contra meu queixo.Em vida, eu nunca usei nada tão fino.Linda tentou ajudar. Com os olhos vermelhos, estendeu a mão, querendo prender os laços do manto.Mary afastou sua mão com um tapa.— Você não merece tocar nela.Sua voz não foi alta, mas cada palavra parecia uma lâmina mergulhada em gelo.
O choro atraiu uma vizinha, a Senhora Hill.Ela provavelmente passava por ali e ouviu o barulho. Espiou para dentro do quintal e entrou.Parou à porta e lançou um olhar para dentro. Ao me ver nos braços de Mary, com Linda desabada no chão, seus lábios se curvaram, e ela estalou a língua.— Nossa, isso é… Bella não resistiu?Sua voz estava baixa, mas cada palavra saiu clara.— Pobrezinha. Finalmente chegou aos dezesseis anos, mas mesmo assim não sobreviveu…Mary ergueu a cabeça e olhou para ela.— Não é Bella — disse. — É Clara.A Senhora Hill congelou. A expressão em seu rosto passou de pena para choque, e depois para outra coisa.Sua voz se elevou, alta o bastante para todo o quintal ouvir.— Clara morreu? Não era Bella quem deveria ser levada?Ninguém respondeu.Ela ficou ali, segurando uma bolsa de pele. Sua boca se moveu mais rápido que seus pensamentos enquanto murmurava:— Isso… quem devia morrer não morreu, e quem não devia morreu…Linda saltou do chão.Eu nunca v
Quando minha irmã desmaiou, ninguém a segurou a tempo.Ela caiu direto no chão, e sua testa bateu no batente da porta, deixando um rastro de sangue.Linda gritou e correu até ela. David ainda segurava meu corpo, imóvel, como se não escutasse nada.Foi Mary quem ajudou Bella a se levantar.Ela a levou para o quarto, deitou-a na cama, limpou o sangue de sua testa com um pano molhado e a cobriu com uma manta.Linda a acompanhava ao lado, completamente perdida. Chorava tanto que mal conseguia falar direito.Eu fiquei parada no canto, observando.Eu já estava morta, mas, ao ver o rosto pálido da minha irmã, ainda senti uma pontada de dor.Quando minha irmã acordou, já era meio-dia.A luz do sol entrava pela janela e caía sobre seu rosto, deixando sua pele pálida quase transparente.Linda estava sentada ao lado da cama, segurando sua mão. No instante em que viu Bella abrir os olhos, as lágrimas caíram de novo.— Bella, você acordou — a voz de Linda estava rouca e quebrada. — Que b
Linda não entendeu por que David continuava parado à porta.— Por que você está aí parado? — Ela deu um passo à frente, tentando passar por ele para olhar lá dentro.David ergueu a mão e a impediu.Ele estava de costas para o luar. Seu rosto ficava escondido na sombra, mas seus ombros tremiam muito.A mão com que bloqueava Linda também tremia, como se ele precisasse de todas as forças só para mantê-la erguida.— O que foi? — A voz de Linda ficou tensa. — Onde está Clara? O que aconteceu com Clara?Bella se inclinou por trás da mãe e olhou para dentro do porão. Chamou baixinho:— Clara?Ninguém respondeu.O porão estava escuro. Apenas uma faixa fina de luar entrava pela porta. Ela caía sobre a pilha de feno, iluminando uma figura encolhida e imóvel.Meu corpo.Ele estava enrolado no feno, como um pequeno animal abandonado.O feno cobria a maior parte do meu rosto, deixando à mostra apenas um pedaço de pele acinzentada. Meus olhos estavam bem fechados. Meus lábios estavam azu
— Estou fazendo uma pergunta! — A voz de Mary explodiu. Eu nunca a tinha visto tão furiosa antes. — Você trancou Clara no porão? Naquele porão frio e úmido?A voz de Linda foi ficando cada vez mais baixa, até que eu mal consegui ouvi-la.— Ela… ela ficou fazendo birra nestes últimos dias. Eu tive medo de que afetasse Bella…— Afetasse? — O corpo de Mary balançou. Ela se apoiou na parede, com a voz tremendo. — Clara também é sua filha! Ela nasceu prematura e sempre foi fraca. O porão é frio e úmido. Você está tentando matá-la?Linda abaixou a cabeça e encolheu os ombros. Ela não conseguiu dizer uma única palavra.Mary a encarou. Sua voz não era alta, mas cada palavra soava afiada.— Eu sei que Bella recebeu a profecia de que não passaria dos dezesseis anos, e que vocês queriam dar a ela o melhor de tudo. Mas e Clara? Ela também não sofreu? Desde pequena, o que ela teve de verdade? Peles velhas que a irmã não queria, restos de comida, até o amor dos pais ela precisava dividir. Não







