Sofia esperou até ter certeza de que os passos de Rafael haviam desaparecido pelo corredor.
Só então respirou.
O ar entrou nos pulmões de uma vez, como se ela tivesse passado tempo demais submersa.
A porta continuava fechada.
Ela permaneceu diante dela por alguns segundos, imóvel, com a mão ainda pressionada contra a bolsa que escondia a fotografia.
Rafael havia acabado de beijá-la.
Um beijo breve.
Quase inocente.
Mas não tinha parecido inocente.
Nada naquele homem parecia simples.
Nem o modo como a observava.
Nem o silêncio que usava para fazê-la falar.
Nem a maneira como dizia o nome dela — Sofia — quando parecia esquecer, por alguns segundos, que diante dele estava a mulher que acreditava ser Beatriz.
Ela levou os dedos aos próprios lábios.
Ainda sentia o calor daquele toque.
— Concentre-se — sussurrou para si mesma.
A fotografia.
Era nisso que precisava pensar.
Não em Rafael.
Não no beijo.
Não na forma como o corpo reagia sempre que ele se aproximava.
A fotografia.
Sofia voltou para a cama.
Sentou-se lentamente e abriu a bolsa.
O envelope estava exatamente onde o havia colocado.
Ela o retirou.
A pequena fotografia parecia ainda mais inquietante agora.
Talvez porque Rafael tivesse acabado de sair dali.
Talvez porque, depois daquela conversa, Sofia tivesse a sensação de que havia mais naquela imagem do que conseguia enxergar.
Ela a colocou sobre a cama.
A primeira coisa que observou foi Beatriz.
A irmã estava sorrindo.
Era um sorriso que Sofia conhecia bem.
O sorriso que Beatriz usava quando queria convencer alguém de que estava perfeitamente feliz.
O sorriso das fotografias.
Dos eventos.
Dos jantares.
Da vida que os pais haviam escolhido para ela.
Mas havia alguma coisa diferente naquela imagem.
Sofia aproximou a fotografia do abajur.
A luz amarelada revelou detalhes que não haviam chamado sua atenção antes.
Beatriz estava ao lado de Rafael.
Porém, não parecia estar olhando para ele.
Seus olhos estavam voltados para outro ponto.
Para o terceiro homem.
Sofia franziu a testa.
Quem era ele?
Ampliou a fotografia com os dedos, embora soubesse que não poderia realmente enxergar detalhes que não estavam ali.
O homem estava parcialmente de perfil.
Alto.
Elegante.
Cabelos escuros.
Um relógio metálico aparecia sob a manga da camisa.
Mas o que mais chamou sua atenção foi a expressão.
Ele não sorria.
Enquanto Beatriz parecia representar felicidade para a câmera, aquele homem observava alguma coisa fora do enquadramento.
Ou alguém.
Sofia sentiu um arrepio.
Virou a fotografia.
O verso estava amarelado nas bordas.
Havia uma frase escrita à mão.
Ele não é quem você pensa.
Ela leu novamente.
Depois outra vez.
Quem era “ele”?
Rafael?
O terceiro homem?
Ou alguém que nem aparecia na fotografia?
Sofia apertou os lábios.
A frase poderia significar qualquer coisa.
E, justamente por isso, significava tudo.
Ela voltou a fotografia para a frente.
Rafael estava ao lado de Beatriz.
Aquilo também era estranho.
Sofia sabia que a fotografia fora tirada antes do casamento. Talvez semanas antes.
Mas por que Beatriz estaria com aquele homem?
E por que alguém havia escondido aquela fotografia em uma bolsa?
Ela passou o polegar pela borda.
Então percebeu uma pequena marca.
Uma dobra.
Quase imperceptível.
Como se a fotografia tivesse sido guardada e retirada muitas vezes.
Sofia aproximou o rosto.
Havia alguma coisa escrita atrás.
Não era a frase.
Era outra coisa.
Uma anotação pequena, quase escondida na parte inferior.
Ela inclinou a fotografia para receber mais luz.
As letras estavam desbotadas.
Mas ainda era possível ler.
Ricardo Pontes.
Sofia parou.
O nome não significava nada para ela.
Não imediatamente.
Mas o modo como fora escrito fez seu estômago se contrair.
Não era uma dedicatória.
Parecia uma identificação.
Como se alguém precisasse lembrar quem era aquele homem.
— Ricardo Pontes…
Ela pronunciou o nome baixinho.
A sensação foi estranha.
Como se tivesse acabado de abrir uma porta para um corredor que não sabia que existia.
Pegou o celular.
Abriu o campo de pesquisa.
Parou.
O dedo permaneceu suspenso sobre a tela.
Se procurasse aquele nome, poderia descobrir alguma coisa.
Mas também poderia descobrir demais.
E Sofia já tinha aprendido que, naquela casa, certas verdades pareciam ter dentes.
Ainda assim, digitou.
Ricardo Pontes.
Antes de tocar em pesquisar, apagou.
Não.
Não poderia fazer aquilo usando o próprio telefone.
Se alguém estivesse observando seus passos, deixaria uma trilha.
E, naquele momento, Sofia já não tinha certeza de quem poderia estar observando.
Guardou o celular.
Levantou-se.
Caminhou até a janela.
São Paulo se estendia diante dela em uma massa de luzes distantes.
A cidade parecia tranquila.
Mas, naquela noite, Sofia descobriu que tranquilidade e segurança eram coisas completamente diferentes.
Ela fechou os olhos.
Tentou organizar as informações.
Beatriz havia fugido.
Os pais haviam pressionado Sofia a ocupar seu lugar.
Rafael desconfiava.
Uma pessoa desconhecida enviara mensagens dizendo que sabia a verdade.
E agora havia uma fotografia escondida envolvendo Beatriz, Rafael e um homem chamado Ricardo Pontes.
Era coincidência demais.
Sofia abriu os olhos.
Não acreditava em coincidências.
Não mais.
Voltou para a cama e pegou a fotografia novamente.
Dessa vez, observou Beatriz.
A irmã parecia feliz.
Mas Sofia conhecia aquele sorriso.
Conhecia porque passara vinte e quatro anos observando Beatriz sorrir para os outros.
E havia algo que ninguém percebia.
Beatriz sorria mais quando estava mentindo.
Sofia aproximou a fotografia dos olhos.
Naquele instante, percebeu outra coisa.
A mão de Beatriz.
Estava fechada.
Os dedos pressionavam a lateral do vestido.
Era um gesto pequeno.
Quase invisível.
Mas Sofia conhecia aquele gesto.
Beatriz fazia aquilo quando estava nervosa.
Quando tinha medo.
Quando queria parecer tranquila.
O coração de Sofia acelerou.
— Você estava com medo…
A frase saiu como um sussurro.
Ela voltou os olhos para o terceiro homem.
Ricardo Pontes.
Por que Beatriz estava com medo perto dele?
E por que a fotografia fora escondida?
Sofia virou o envelope.
Nada.
Nenhuma identificação.
Nenhum remetente.
Apenas aquela data escrita à mão:
Depois do casamento.
Ela sentiu um frio atravessar a espinha.
Depois do casamento.
Não antes.
Depois.
Por que alguém teria planejado alguma coisa para depois do casamento?
E por que Beatriz teria deixado aquilo escondido?
Sofia começou a andar pelo quarto.
Um passo.
Depois outro.
O carpete abafava seus movimentos.
Ela tentou imaginar a irmã naquela mesma situação.
Beatriz recebendo aquela fotografia.
Beatriz escondendo o envelope.
Beatriz fugindo.
O casamento.
Rafael.
Ricardo.
As mensagens.
Tudo parecia fazer parte de uma história que Sofia havia entrado no meio sem conhecer o primeiro capítulo.
E talvez fosse justamente esse o problema.
Ela não estava substituindo apenas uma noiva.
Talvez estivesse ocupando o lugar de uma mulher que estava fugindo de alguma coisa.
Ou de alguém.
Sofia sentou-se novamente.
Por um instante, pensou em procurar Rafael.
Contar sobre a fotografia.
Mostrar tudo.
Dizer que encontrara o nome de Ricardo Pontes.
Mas imediatamente imaginou os olhos cinzentos dele.
Aquela calma perigosa.
A pergunta que ele havia feito.
Por que você está mentindo para mim?
Não.
Ainda não.
Ela não podia entregar aquela informação.
Não antes de entender o que significava.
Sofia dobrou cuidadosamente a fotografia.
Guardou-a dentro do envelope.
Depois o colocou novamente na bolsa.
Mas não fechou o zíper.
Alguma coisa a incomodava.
Ela voltou a retirar a fotografia.
Observou mais uma vez.
Dessa vez, focou no fundo da imagem.
Atrás dos três havia uma parede de pedra.
Uma coluna.
Um jardim.
Sofia conhecia aquele lugar.
Seu coração acelerou.
Era a propriedade onde o casamento havia acontecido.
A mesma propriedade.
Ela tinha certeza.
Mas por quê?
Se aquela fotografia fora tirada ali, antes do casamento, então Beatriz e Ricardo já estavam ligados àquele lugar.
Talvez muito antes de Rafael saber.
Sofia fechou os olhos.
A frase no verso voltou à sua mente.
Ele não é quem você pensa.
Talvez não fosse sobre Ricardo.
Talvez fosse sobre Rafael.
O pensamento provocou uma reação imediata.
Ela abriu os olhos.
Não.
Não queria acreditar nisso.
Rafael podia ser frio.
Controlador.
Difícil.
Mas, desde que chegara àquela casa, ele havia demonstrado algo que Sofia não esperava.
Atenção.
Ele percebia quando ela estava nervosa.
Lembrava como ela tomava café.
Perguntava se estava bem.
Pedia permissão antes de beijá-la.
E, mesmo quando a pressionava, havia alguma coisa nele que parecia menos cruel do que a reputação que carregava.
Ela não queria descobrir que tudo aquilo também era uma mentira.
Porque, apesar de tudo, começava a gostar daquele homem.
E esse era o pensamento que mais a assustava.
Sofia passou a mão pelos cabelos.
— Não.
Precisava separar as coisas.
Desejo não era confiança.
Atração não era amor.
E um beijo não apagava uma mentira.
Ainda assim, quando fechava os olhos, conseguia lembrar exatamente da maneira como Rafael a havia olhado.
Como se tentasse enxergar além do rosto.
Como se procurasse a mulher escondida atrás dele.
Sofia sentiu o peito apertar.
Talvez ele já estivesse chegando perto demais.
Não da verdade.
Dela.
E isso era ainda mais perigoso.
Ela guardou a fotografia.
Dessa vez, fechou a bolsa.
Depois se levantou e caminhou até o pequeno aparador próximo à janela.
Havia um porta-retratos ali.
Uma fotografia antiga de Rafael e Diego.
Os dois eram mais jovens.
Rafael já tinha aquele olhar sério.
Mas parecia diferente.
Mais leve.
Sofia tocou o vidro.
Talvez Diego soubesse quem era Ricardo Pontes.
Talvez Otília soubesse.
Talvez alguém naquela casa conhecesse a história.
Mas perguntar significaria levantar suspeitas.
Ela precisava ser cuidadosa.
Muito cuidadosa.
Foi então que ouviu um ruído.
Um passo.
Sofia congelou.
Não vinha do corredor.
Vinha do lado de fora da porta.
Ela olhou para a bolsa.
Depois para a porta.
Outro passo.
Mais próximo.
Seu coração começou a bater depressa.
Rafael.
Claro.
Quem mais poderia ser?
Ela rapidamente colocou a bolsa no lugar.
Tentou controlar a respiração.
Mas então percebeu algo.
Os passos eram lentos.
Pesados.
Seguros.
Exatamente como os de Rafael.
Sofia permaneceu imóvel.
A mão dele tocou a maçaneta.
Ela olhou para a bolsa uma última vez.
A fotografia estava escondida.
O nome também.
Ricardo Pontes.
O homem que ela não conhecia.
O homem que aparecia ao lado de Beatriz.
O homem que, de alguma maneira, parecia fazer parte do motivo pelo qual sua irmã havia desaparecido.
A maçaneta começou a girar.
Sofia respirou fundo.
A porta se abriu lentamente.
E Rafael apareceu.
Ele não disse nada de imediato.
Apenas olhou para ela.
Depois para o quarto.
Depois para a bolsa.
Os olhos cinzentos voltaram aos dela.
Sofia sentiu um arrepio.
— Você ainda está acordada?
Ela assentiu.
— Estou.
Rafael entrou e fechou a porta atrás de si.
O clique da fechadura pareceu alto demais no silêncio.
Ele caminhou na direção dela.
Devagar.
Sofia não recuou.
Não dessa vez.
Quando Rafael parou diante dela, havia apenas alguns centímetros entre os dois.
— Está diferente — disse ele.
Ela tentou manter a voz firme.
— Diferente como?
O olhar dele percorreu seu rosto.
— Está pensando demais.
Sofia sentiu o coração bater mais forte.
— Talvez.
— Em quê?
Ela sustentou o olhar dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Sofia poderia contar.
Poderia tirar a fotografia da bolsa.
Poderia perguntar quem era Ricardo Pontes.
Mas alguma coisa dentro dela dizia para esperar.
Rafael inclinou ligeiramente a cabeça.
— Você encontrou alguma coisa?
O mundo pareceu parar.
Sofia não respondeu.
Ele se aproximou mais um pouco.
— Sofia.
Seu nome saiu baixo.
Quase uma carícia.
Quase uma ameaça.
Ela sentiu a garganta secar.
— Por que você pergunta?
Rafael a observou durante longos segundos.
Então seu olhar caiu para a bolsa.
Depois voltou para ela.
— Porque, quando você mente…
Ele fez uma pausa.
— …seus olhos mudam.
Sofia sentiu o sangue gelar.
Ela apertou os dedos contra a lateral do vestido.
Rafael percebeu.
Claro que percebeu.
O canto de sua boca se moveu quase imperceptivelmente.
— Boa noite, Sofia.
Ele se virou.
Caminhou até a porta.
Sofia soltou o ar.
Mas antes que ele saísse, Rafael parou.
Sem olhar para trás, disse:
— E, seja lá o que você encontrou…
Ele virou o rosto.
Os olhos cinzentos encontraram os dela.
— Tenha cuidado.
A porta se fechou.
Sofia permaneceu imóvel.
Então olhou para a bolsa.
Pela primeira vez, percebeu que Rafael talvez soubesse muito mais sobre aquele segredo do que demonstrava.
E, naquele momento, uma certeza silenciosa tomou conta dela:
Beatriz não havia simplesmente desistido de um casamento.
Ela estava fugindo de alguma coisa.
Talvez de alguém.
E o nome escrito atrás daquela fotografia podia ser a primeira pista.
Ricardo Pontes.
Sofia repetiu o nome mentalmente.
E guardou a fotografia junto ao peito.
Do outro lado da porta, os passos de Rafael se afastavam pelo corredor.
Mas, pela primeira vez, ela não sabia qual dos dois homens deveria temer mais.
O que acabara de sair do quarto.
Ou aquele que sorria ao lado de sua irmã em uma fotografia escondida.