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O e-mail tinha três parágrafos. Marina leu o primeiro e entendeu. Leu o segundo e confirmou. Leu o terceiro e fechou o notebook devagar, como se o gesto delicado pudesse mudar alguma coisa.
Não podia.
"Lamentamos informar que, no momento, a Whitmore Group não dispõe de recursos para patrocinar vistos de trabalho para posições de estágio."
No momento. Como se houvesse outro momento, como se ela pudesse sentar ali, na cadeira giratória do departamento de marketing, e esperar o momento certo chegar enquanto o prazo do OPT derretia feito sorvete no asfalto de julho.
Ela olhou ao redor, ninguém tinha percebido nada. Kyle continuava mastigando a tampa da caneta. Jessica ria de alguma coisa no celular. O ar-condicionado zumbia naquela frequência irritante que ela já tinha aprendido a ignorar. O mundo seguia funcionando, só o dela que tinha acabado de parar.
Marina pegou o celular, abriu a conversa com Priya e digitou: "Não vão patrocinar." Apagou. Digitou de novo: "Pri, ferrou." Apagou de novo e guardou o celular no bolso.
Precisava de ar.
Não do ar-condicionado reciclado do vigésimo segundo andar. Ar de verdade, do tipo que bagunça o cabelo e faz os olhos arderem.
Ela já tinha descoberto o terraço por acidente, no segundo mês de estágio, quando se perdeu procurando a sala de reunião do quadragésimo andar e acabou empurrando uma porta que não deveria estar destrancada. Desde então, subia sempre que precisava ligar para mãe sem que ninguém ouvisse ela falar português no meio do open space, ou quando precisava chorar — o que, nos últimos meses, tinha se tornado quase a mesma coisa.
A porta rangeu, o vento bateu no rosto dela e levou embora pelo menos uma camada de desespero.
Manhattan se estendia lá embaixo, barulhenta e indiferente. Marina foi até a mureta, apoiou os cotovelos e soltou o ar devagar. Contou até cinco em português, porque contar em inglês nunca funcionava para se acalmar.
Um. Dois. Três. Qua...
"Você também veio fugir?"
Marina se virou tão rápido que quase derrubou o crachá.
Tinha um cara sentado no chão, encostado na parede, com as pernas esticadas e um pacote de Doritos apoiado na barriga. Terno azul-marinho que parecia caro. Gravata frouxa pendurada como se tivesse perdido uma briga com ela. Tênis, tênis brancos e meio sujos, no lugar do sapato social.
Ele sorriu. Um sorriso torto, meio preguiçoso, que ocupava mais espaço no rosto do que deveria.
"Desculpa.” Marina disse, endireitando a postura. "Não sabia que tinha alguém aqui."
"Ninguém sabe. Esse é o charme." Ele levantou o pacote de Doritos na direção dela. "Quer?"
"Não, obrigada."
"Tem certeza? São os de pimenta. Os bons."
"Tenho certeza."
Ele deu de ombros e enfiou a mão no pacote. "Tudo bem, sobra mais pra mim."
Marina se virou de volta para a mureta, ia ignorar, respirar o ar fresco, reorganizar o pânico em algo produtivo, e descer. Simples assim!
"Dia ruim?" ele perguntou, com a boca meio cheia.
"Dia normal."
"Mentira. Ninguém sobe aqui num dia normal, aqui é território de gente que tá fugindo de alguma coisa."
Marina apertou os lábios. "E você tá fugindo de quê?"
"De uma reunião sobre métricas de engajamento do terceiro trimestre." Ele fez uma careta. "Que é basicamente a mesma coisa que fugir da morte, só que a morte pelo menos não tem PowerPoint."
Ela não queria rir, não era hora de rir, mas o canto da boca traiu.
Ele percebeu. Claro que percebeu.
"Ah, quase. Quase saiu um sorriso."
"Não saiu nada."
"Saiu sim. Eu vi. Bem ali no canto." Ele apontou para própria boca, indicando onde. "Pequenininho, mas contou."
"Você é sempre assim?"
"Assim como?"
"Inconveniente."
Ele pensou por um segundo, mastigando. "Sim. É tipo um talento natural."
Marina revirou os olhos, mas dessa vez não escondeu o sorriso. Não tinha energia para esconder.
O vento soprou mais forte e arrancou um fio de cabelo do coque dela, jogando na frente do rosto. Ela prendeu atrás da orelha com o gesto automático de quem faz isso trinta vezes por dia.
"Então," ele disse, "se não é a reunião de métricas, o que te trouxe para o clube dos fugitivos?"
Marina olhou para ele. Sentado no chão sujo de um terraço, de terno e tênis, comendo salgadinho como se o mundo não tivesse expectativa nenhuma dele. Devia ser de algum departamento que ela não conhecia. Vendas, talvez ou TI. Ele tinha cara de quem trabalhava em TI e se recusava a usar sapato social por princípio.
"Recebi uma notícia ruim," ela disse. Não sabia por que estava respondendo. Talvez porque ele era um estranho, talvez porque estranhos não cobram contexto.
"Que tipo de notícia ruim? Tipo 'o café acabou' ou tipo 'o mundo vai acabar'?"
"Tipo 'a minha vida como eu conheço vai acabar'."
Ele parou de mastigar. Por um segundo — só um segundo — alguma coisa mudou no rosto dele. O sorriso torto sumiu e apareceu outra coisa por baixo. Algo que parecia atenção de verdade, depois voltou.
"Bom," ele disse, limpando os dedos na calça do terno, "se serve de consolo, a minha também. Mas eu trouxe Doritos, então tecnicamente estou lidando melhor."
Marina soltou uma risada, uma de verdade, dessas que escapam antes de você decidir se quer rir ou não. Curta, meio rouca, e completamente involuntária.
"Você é impossível," ela disse.
"Obrigado! É a coisa mais gentil que me disseram hoje."
Ficaram em silêncio por um momento. Não era desconfortável, era o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas decidem, sem combinar, que não precisam preencher o espaço.
Marina olhou para o horizonte. Os prédios de Midtown recortavam o céu num tom de azul que não existia em São Paulo. Ela pensou na mãe e no pai, na cozinha pequena do apartamento em Pinheiros, no cheiro de café passado no coador de pano. Pensou em como ia contar para eles.
"Ei," ele disse, quebrando o silêncio. "Seja lá o que for, você vai resolver."
Ela olhou para ele. "Você nem sabe o que é."
"Não preciso. Você tem cara de quem resolve as coisas."
Era uma frase boba, genérica. O tipo de coisa que qualquer pessoa diria, mas ele disse olhando para ela de um jeito que não era genérico — como se estivesse lendo alguma coisa que ela não tinha mostrado.
Marina engoliu o nó na garganta.
"Tenho que descer," ela disse.
"Tá. Eu vou ficar mais um pouco, ainda tenho meio pacote."
Ela foi até a porta, empurrou e parou se virando para ele.
"Ei. Playboy de gravata."
Ele levantou as sobrancelhas.
"Obrigada! Pelos Doritos que eu não aceitei."
O sorriso torto voltou. "Quando quiser, mesmo horário, mesmo terraço. Trago os de queijo da próxima vez."
Marina saiu e deixou a porta fechar atrás de si. Desceu os lances de escada com o coração um pouquinho mais leve do que quando subiu — o que era irritante, porque ela não tinha pedido para nenhum estranho de tênis sujo melhorar o dia dela.
No bolso, o celular vibrou, era Priya.
"Tá tudo bem? Você sumiu."
Marina digitou rápido, descendo as escadas: "Tô bem! Te conto depois."
Não ia contar sobre o cara do terraço. Não tinha o que contar, mas quando chegou na sua mesa e sentou, percebeu que ainda estava sorrindo.
E isso era um problema.
Marina se ajeitou na cadeira sem conseguir disfarçar o quanto estava incomodada com a situação e as descobertas, então Derek continuou.“Para a alta sociedade, o destino de Ethan e Sabrina foi traçado antes mesmo de aprenderem a andar” continuou Derek, com um tom de falsa melancolia. “Eram o casal perfeito no papel: os herdeiros de dois impérios unidos por um sobrenome e uma aliança de negócios. Na época da adolescência, todo mundo na nossa roda já dava como certo que, cedo ou tarde, eles terminariam no altar. Era uma convenção social, entende? Algo natural para a nossa classe.”“E... o que aconteceu?” Marina perguntou antes de conseguir se controlar. Sua voz saiu um pouco mais baixa do que gostaria.Derek soltou uma risada seca, balançando a cabeça.“O que aconteceu foi
O sol de outono cortava as grandes janelas de vidro da Whitmore & Co. com uma precisão cirúrgica, iluminando a poeira fina que parecia flutuar no escritório de Derek. Ele estava sentado à mesa de carvalho escuro, mas a cabeça estava longe dali. A postura impecável, o terno sob medida e o relógio de pulso caríssimo gritavam a imagem de um executivo exemplar, exatamente o que Richard Whitmore exigia. No entanto, o olhar fixo na tela apagada do computador revelava um homem focado em algo muito além de relatórios trimestrais.Marina bateu levemente na porta aberta antes de entrar, segurando um tablet com a ponta dos dedos. Ela respirou fundo, tentando disfarçar a curiosidade misturada com a apreensão que sentia desde que Derek a chamou em seu escritório, sem explicar muito bem sobre o que seria.“Com licença, bom dia, Derek. Você pediu para eu separar os arquivos de expansão da Ásia, imagino que seja esse o motivo de ter me chamado aqui.” Marina começou, mantendo a voz profissional, embor
“Marina?”A voz soou baixa, hesitante, cortando o murmúrio distante da cidade.Marina sobressaltou-se, erguendo o rosto rapidamente, Ethan estava ali de pé diante dela. Ele havia tirado a gravata e desabotoado os primeiros botões da camisa social, parecendo tão exausto e fora de prumo quanto ela. O peito dele subia e descia de forma acelerada pela corrida até encontrá-la e conforme prometido Priya fingiu ir comprar doce para Marina e a deixou sozinha para eles conversarem.“O que você está fazendo aqui, Ethan?” a voz de Marina saiu trêmula, carregada de uma mistura dolorosa de mágoa e orgulho ferido. Ela desviou o olhar para a água, limpando rapidamente uma lágrima solitária que escapara de seus olhos. “Veio me dar o ultimato com a data prevista para encerrarmos o nosso acordo, já que agora não vai mais precisar de mim?Ethan deu um passo à frente, sentando-se no banco ao lado dela, embora mantivesse uma distância respeitosa, como se temesse que um toque pudesse estilhaça-la de vez.“
O eco dos passos de Marina e Priya ainda parecia reverberar nos corredores do marketing quando o silêncio pesado tomou conta da sala da presidência. Richard Whitmore havia deixado o escritório há poucos minutos, desfilando sua arrogância com o som rítmico de sua bengala no piso de madeira, deixando para trás um rastro de tensão. Sabrina tentou se aproximar de Ethan sob o pretexto de "alinhar o futuro da criança", mas esbarrou na muralha intransponível que ele decidiu erguer.Sozinho na sala, com a vista de Manhattan embaçada pelo entardecer que começava a tingir o céu de cinza e laranja, Ethan sentia o peito apertado. Ele não conseguia tirar da cabeça a imagem de Marina correndo, o olhar de pavor e incompreensão quando a bomba da gravidez de Sabrina explodiu diante deles.“Droga…” murmurou, passando as mãos pelos cabelos revoltos.Ele sabia que precisava falar com Marina, explicar cada detalhe, provar que aquela história com Sabrina pertencia a um passado distante e encerrado, mas Mar
O clima dentro da sala de Ethan era pesado com um silêncio que não tinha nada de pacífico. Sabrina estava sentada na poltrona diante da mesa dele, com as mãos unidas sobre o colo, unhas cravadas de leve, enquanto a respiração dela parecia compassada para não denunciar o tremor que sentia por dentro.Ethan estava de pé, caminhando de um lado para o outro perto da janela imensa de vidro que dava vista para Manhattan. A gravata estava jogada sobre a poltrona, e a camisa social branca exibia as mangas dobradas até os cotovelos, um retrato vivo da própria agitação mental.“Você tem noção do que está dizendo, Sabrina?” Ethan parou de repente, voltando o olhar fixo para ela, os olhos verdes semicerrados em uma mistura de incredulidade. “Tem realmente certeza de que esse bebê é mesmo meu filho?”“Eu sei exatamente o que estou dizendo, Ethan” Sabrina o interrompeu, a voz firme embora carregada de uma fadiga emocional profunda. Ela ergueu o rosto, sustentando o olhar dele sem recuar. “Se quiser
Marina e Priya pegaram as pastas que precisavam apresentar para Derek e subiram pelo elevador com aquela tensão que pairava no ar no prédio todo. Elas chegaram ao andar da diretoria e Carol logo as encaminhou para a sala de Derek, que as aguardava. “Ainda bem que vocês chegaram, meninas. O negócio aqui hoje está uma loucura. Espero que consigam ajudar a acalmar um pouco os ânimos.”“Vamos tentar, Carol, estamos aqui pra isso!” Priya respondeu calmamente.“Se quiser falar com o Ethan depois Marina, espere na sala dele que eu aviso que está aqui.” “Acho que vamos demorar um pouco na sala do Derek, mas agradeço a intenção.” Carol era sempre muito atenciosa com Marina e muito amiga de Priya, apesar da diferença de idade, elas tinham afinidades e conversavam muito.Após alguns minutos, enquanto apresentavam as planilhas para Derek em sua sala, ouviram um burburinho alto na recepção, que parecia tomar proporções dramáticas. Ouviram passos firmes de saltos altos que ressoavam contra o







