MasukMarina tinha um plano: chegar cedo, fazer café, revisar a apresentação de métricas que Kyle deveria ter terminado na sexta mas não terminou porque Kyle nunca terminava nada na sexta, e sobreviver até às seis da tarde sem pensar no e-mail, no visto, ou no cara do terraço.
Duas dessas três coisas ela conseguiu.
O café ficou bom. A apresentação ficou pronta. E o cara do terraço ficou na cabeça dela a manhã inteira feito uma música irritante que gruda — daquelas que você nem gosta, mas fica cantarolando no banho.
"Você tem cara de quem resolve as coisas." Idiota! Quem fala isso para uma estranha? E por que ela ainda estava pensando nisso?
"Marina."
Ela levantou os olhos, Jessica estava de pé na frente da mesa dela, segurando um tablet como se fosse um escudo.
"Reunião geral, agora! Auditório do trigésimo oitavo."
"Que reunião?"
"A que o RH mandou e-mail às seis da tarde, que ninguém leu porque era sexta-feira." Jessica deu de ombros. "Parece que o CEO vai falar."
Marina franziu a testa. Em sete meses de estágio, ela nunca tinha visto o CEO. Sabia que existia um — Ethan Whitmore, neto do fundador, nomeado há menos de um ano. Sabia que o pessoal do marketing fazia piada dele nos happy hours. "O garoto prodígio", chamavam, com um tom que não tinha nada de elogio.
"Vamos," Jessica disse, já andando.
Marina pegou o caderno e a caneta — porque anotava tudo, sempre, como se cada reunião pudesse ser a última — e seguiu.
O auditório do trigésimo oitavo andar era grande demais para a quantidade de gente que cabia nele, o que dava a impressão de que a empresa estava sempre meio vazia. Marina sentou na terceira fileira, ao lado de Priya, que já estava lá com um café que cheirava a caramelo.
"Bom dia, desaparecida," Priya disse sem tirar os olhos do celular. "Você sumiu sexta e me mandou um 'tô bem' que claramente significava 'não tô bem'. Vamos falar sobre isso?"
"Depois."
"Depois quando?"
"Depois da reunião."
"Que é daqui a vinte minutos. Então basicamente agora."
"Pri."
"Tá, tá." Priya guardou o celular. "Mas você me deve uma explicação e um almoço."
Marina ia responder, mas alguém subiu no palco e o burburinho diminuiu.
Era uma mulher do RH que Marina não conhecia. Falou por três minutos sobre cultura organizacional, valores da empresa, e a importância de "alinhar expectativas para o próximo trimestre". Marina anotou por reflexo, sem processar uma palavra.
"E agora," a mulher disse, "gostaria de convidar nosso CEO, Ethan Whitmore, para compartilhar a visão da liderança para os próximos meses."
Palmas educadas, Marina levantou os olhos do caderno e o mundo parou pela segunda vez em dois dias.
Gravata frouxa, cabelo bagunçado, sorriso torto e tênis brancos, meio sujos.
Não!
Não, não, não!
O cara do terraço — o cara dos Doritos, o cara que ela chamou de "playboy de gravata", o cara para quem ela disse que a vida dela ia acabar — estava de pé no palco, atrás de um púlpito, com um microfone na mão e o logo da Whitmore Group projetado atrás dele.
Marina sentiu o sangue sumir do rosto.
"Ei," Priya sussurrou, "Você tá bem? Ficou branca."
"Tô bem."
"Mentira. Você tá fazendo aquela cara de quando…"
"Pri. Silêncio."
No palco, Ethan Whitmore — CEO, herdeiro, neto do fundador, e aparentemente o homem mais inconveniente do planeta — ajeitou o microfone com a naturalidade de quem não se importa se ele funciona ou não.
"Bom dia," ele disse. "Eu ia começar com um discurso motivacional, mas a Helen do RH já cobriu essa parte, então vou pular direto para o que interessa."
Algumas risadas, Marina não riu. Ela estava ocupada demais tentando calcular a probabilidade estatística e ter contado seus problemas de visto para o CEO da empresa em que trabalhava. A probabilidade era zero, e mesmo assim aconteceu.
Ethan falou por dez minutos. Marina não ouviu uma palavra. Estava olhando para ele, mas não estava vendo o CEO — estava vendo o cara sentado no chão sujo, limpando os dedos de Doritos na calça do terno, dizendo "você tem cara de quem resolve as coisas" como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Ele não a tinha visto, ainda. O auditório era grande, ela estava na terceira fileira, e ele parecia estar olhando para um ponto vago acima das cabeças de todo mundo, como se falar para duzentas pessoas fosse a mesma coisa que falar para o vento no terraço.
Quando terminou, as palmas voltaram. Ethan desceu do palco pelo lado esquerdo, e Marina já estava calculando a rota de fuga mais eficiente quando Priya agarrou o braço dela.
"Vem, quero pegar mais café antes que acabe."
"Vai na frente. Eu preciso… "
"Marina Santos."
A voz veio de trás, de cima, de algum lugar que Marina não queria que existisse. Ela se virou devagar, como num filme de terror, mas com iluminação corporativa. Ethan estava a três metros, com as mãos nos bolsos e aquele sorriso que ela agora sabia que era geneticamente projetado para irritar.
"Playboy de gravata," ele disse, baixinho, só para ela ouvir. "Criativo. Gostei!"
Marina abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
"Você é o CEO."
"Surpresa!”
"Você estava sentado no chão comendo Doritos."
"Eu estava, e estavam ótimos, obrigado por perguntar."
Marina olhou ao redor. Priya estava a dois passos, com os olhos arregalados e o café esquecido na mão, olhando de um para o outro como se estivesse assistindo a um acidente em câmera lenta.
"Eu não sabia," Marina disse, e odiou como a voz saiu — meio estrangulada, meio formal, completamente diferente da garota que tinha chamado ele de playboy dias antes.
"Eu sei que não sabia, foi o melhor da conversa." Ele inclinou a cabeça. "Ninguém me chama de playboy, pelo menos não na cara."
"Eu não teria chamado se soubesse… "
"Que eu era seu chefe?" O sorriso torto se alargou. "Relaxa. Tecnicamente eu sou chefe de todo mundo aqui e ninguém me leva a sério. Você não precisa ser exceção."
Marina sentiu o rosto esquentar. Não de vergonha — ou não só de vergonha. De raiva. Porque ele estava ali, tranquilo, achando graça, enquanto ela estava mentalmente repassando cada palavra que tinha dito no terraço e calculando quantas delas poderiam resultar em demissão.
"A minha vida como eu conheço vai acabar." Ela disse isso para o CEO da empresa que não ia patrocinar o visto dela.
"Ei," ele disse, e a voz mudou. Ficou um tom mais baixa, um grau menos debochada. "Aquilo que você me contou ontem, sobre a notícia ruim."
Marina gelou.
"Eu não vou perguntar o que é," ele continuou. "Mas se precisar do terraço de novo, a porta fica destrancada às três."
Ele deu um passo para trás, tirou uma mão do bolso e fez um gesto vago de despedida que não era exatamente um tchau — era mais um "a gente se vê por aí" que não pedia permissão e saiu.
Marina ficou parada, com o caderno apertado contra o peito e o coração batendo rápido demais para uma manhã de segunda-feira.
Priya apareceu do lado dela como um fantasma com café de caramelo.
"Marina."
"Não."
"Marina."
"Não fala nada."
"Você conhece o CEO?"
"Não conheço."
"Ele te chamou pelo nome."
"Ele leu meu crachá."
"Ele te chamou de quê? Playboy de gravata? Você chamou o CEO de playboy de gravata?"
Marina fechou os olhos. "Pri, eu preciso que você me mate agora. Rápido e sem dor."
Priya soltou uma risada que virou um guincho. "Ah, não. Você vai me contar tudo, cada detalhe e eu vou precisar de mais café."
Marina olhou para o palco vazio, depois para a porta por onde Ethan tinha saído, depois para o teto, como se o teto pudesse oferecer alguma solução.
"Vem," ela disse, puxando Priya pelo braço. "Mas se você contar para alguém, eu te mato primeiro."
"Justo," Priya disse, já sorrindo daquele jeito que significava que ela não ia deixar esse assunto morrer nunca.
Marina desceu as escadas pensando que, de todos os cenários que ela tinha imaginado para sua vida em Nova York — o sucesso, o fracasso, a deportação —, nenhum incluía ter chamado o CEO de playboy e contado seus problemas para ele enquanto ele comia salgadinho no chão.
A vida real não tinha a decência de ser previsível e isso, ela estava começando a perceber, era um problema ainda maior que o primeiro.
O silêncio que seguiu à investida de Ethan foi tão profundo que o zumbido longínquo do ar-condicionado pareceu se transformar em um estrondo. Todos os funcionários do departamento de marketing, de Kyle a Jessica, passando por Priya, que tinha os olhos arregalados e as mãos cobrindo a boca, assistiam à cena sem sequer ousar respirar.Richard Whitmore cambaleou com a entrada de Ethan, porém recuperou a postura com uma rigidez cortante, ajeitando a lapela do terno com dedos firmes, embora o maxilar estivesse travado de pura irritação.“Perdeu o juízo de vez, Ethan?” Richard sibilou a voz baixa, mas carregada de um desprezo gélido. “Fazer escândalo no meio de um departamento corporativo por causa de uma estagiária... É exatamente essa falta de compostura que prova que você não serve para liderar esta empresa.”“Comportamento? O senhor chama de bom comportamento vir aqui chantagear a Marina no seu ambiente de trabalho?” Ethan gritou, a voz ecoando pelas paredes de vidro do vigésimo segundo
O carpete cinza do vigésimo segundo andar parecia abafar o som de passos, mas ninguém precisava ouvir os passos de Richard Whitmore para saber que o peso da presença dele havia mudado a atmosfera de todo o departamento de marketing.O zumbido habitual das conversas paralelas, o tilintar de canecas de café e o teclar apressado das impressoras cessaram de uma só vez. Um a um, os funcionários ergueram os olhos das telas, paralisados pela figura imponente que caminhava com passos firmes, vestindo um terno impecável de alfaiataria britânica que parecia deslocado naquele ambiente de estagiários e luzes fluorescentes.Richard não perguntou por ninguém. Seus olhos claros varreram o espaço aberto até focarem na mesa no canto, perto da janela.Marina estava com a ponta de um lápis encostada nos lábios, concentrada em uma tabela de dados, quando sentiu a luz ao seu redor desaparecer sob uma sombra. Ela ergueu o rosto vagamente, esperando ver Priya com mais um de seus planos mirabolantes, mas o q
“Marina não é uma piada, não é uma farsa.” Ethan rebateu, a voz grave, cortando o ar com uma firmeza que surpreendeu até a si mesmo. “E o que acontece na minha vida pessoal não diz respeito ao conselho.”“Diz respeito a tudo o que construí!” Richard esmurrou levemente a madeira da mesa. “Uma empresa do nosso porte não pode ser entregue a um homem que brinca de casinha com uma funcionária subalterna! Você precisa de uma mulher à altura do seu cargo. Alguém que traga estabilidade, tradição e peso político para o nosso nome.”Ethan riu, um som seco, amargo e totalmente desprovido de humor.“Ah, entendi. Você já tem uma substituta escolhida, n&at
O cheiro de charuto caro do escritório de seu avô misturado com couro envelhecido era algo que trazia lembranças a Ethan, além daquele tipo de silêncio pesado que só o dinheiro acumulado ao longo de décadas consegue comprar.Richard Whitmore estava sentado à sua imensa mesa de mogno e sua postura era a mesma de sempre: irredutível, imponente, esculpida pelo tempo e pelo poder absoluto.Ethan bateu na porta e entrou com as mãos nos bolsos, a gravata ligeiramente frouxa, o que era um insulto silencioso aos padrões da empresa, mas manteve a distância regulamentar. Não fingiu desinteresse, nem exibiu o sorriso torto habitual. O momento exigia trégua.“Mandou me chamar, vovô? Ou foi o Derek quem redigiu o memorando desta vez?” Ethan perguntou, quebrando o gelo com a pontaria de quem não teme a própria queda.
As palavras de Derek martelavam em sua mente. É claro que ele estava pensando nisso, mas ouvir alguém falar sobre o assunto, fazia com que o drama fosse ainda mais real. “E você espera que eu faça o quê?” perguntou Richard, abrindo os olhos novamente. “Que eu chame o Ethan na minha sala e ordene que ele jogue no lixo o casamento com a Marina para assumir a Sabrina? O Ethan é teimoso, Derek. Quanto mais empurramos ele para uma direção, mais ele corre para o lado oposto.”“O senhor não precisa ordenar nada de forma bruta”, ponderou Derek, contornando a mesa e parando ao lado do avô, destilando seu veneno com cuidado. “Basta abrir os olhos dele para a realidade. Mostre-lhe que o dever com a criança que vai nascer e com a tradição da família exige hombridade. O Ethan pode até ser irresponsável, mas ele não é um covarde a ponto de abandonar o próprio sangue por capricho de um romance que surgiu do nada. Se o senhor direcioná-lo para o lugar certo, o conselho terá o herdeiro e a estabilida
O escritório particular de Richard Whitmore, no quadragésimo andar da torre principal, mantinha a mesma atmosfera de sempre: sóbria, imponente e carregada de uma gravidade que parecia esmagar qualquer um que entrasse ali sem um propósito absoluto. A madeira escura dos painéis refletia a luz fraca do fim de tarde em Nova York, enquanto a cidade começava a acender suas luzes lá embaixo, um mar de pequenas fogueiras de vidro e aço.Derek Whitmore estava de pé perto da janela, com as mãos enterradas nos bolsos do terno impecável de corte italiano. Ele olhava para o horizonte, mas sua mente estava fixada muito mais perto, exatamente na cadeira de couro diante da mesa maciça onde o avô folheava alguns relatórios financeiros.“Eu não estou dizendo isso por capricho, vovô” começou Derek, virando-se lentamente para encarar o patriarca. A voz estava calibrada com precisão cirúrgica: calma, polida e carregada de uma preocupação calculada. “Todos nós sabemos o que está em jogo para a Whitmore Gro







